Massa e Energia em Relatividade
O orkut é uma fonte infindável de discussões repetidas sobre relatividade restrita. Um dos fenômenos que parece causar mais confusão é a relação entre massa e energia. Em particular a diferença entre massa relativística e massa invariante (de repouso). Existe muita discussão se o conceito de massa relativística deve ser abandonado. Não há nada de intrinsicamente ruim no conceito de massa relativística, é só um outro nome para energia. E aí que mora o perigo, a energia depende do observador e isso causa uma miríade de confusão. Ainda mais quando se envolve gravidade.
Então, para não dizerem que eu abandonei o blog, vou fazer um texto rápido onde, através de um exemplo, espero elucidar essas diferenças e definir conceitos. O caso que eu vou estudar é de uma partícula que está orbitando um “planeta” sendo observado por alguém que está sentado na superfície do planeta. Inicialmente eu vou considerar o “planeta” sem gravidade, e depois eu coloco a gravidade onde é o seu lugar.
A relatividade é uma teoria onde a gravidade é descrita pela métrica do espaço-tempo. Uma métrica com curvatura não-nula indica a presença de gravidade. Por exemplo, num ambiente sem gravidade, vamos considerar a seguinte métrica sem curvatura em coordenadas esféricas:
Uma partícula, na ausência de qualquer outra força seguirá uma geodésica do espaço-tempo. Vamos considerar que a partícula em questão está orbitando no equador, o que não é uma geodésica. Precisamos então de um agente externo, mas vamos apenas supor que ele existe. Como o balanço energético, que é o importante para essa discussão, não é alterado, acho que não vai me prejudicar muito:
Para definir massa é necessário definir o que é momento. A maneira mais intuitiva de fazer isso é procurar qual a ação que resulta no movimento geodésico. Praticamente pela definição de geodésica, a ação é o próprio intervalo de espaço-tempo. Massa é então definida como o módulo do momento, que é considerada uma propriedade intrísinca e constante da partícula:
onde é um multiplicador de lagrange que assegura nossa definição. Se você resolver as equações de movimento de
, você pode descobrir que as equação canônica de Hamilton nos ensina que:
É fácil mostrar que se é um vetor de Killing da métrica então
é uma quantidade conservada na direção da geodésica (novamente: aqui não temos uma geodésica, mas é fácil provar que para o movimento considerado, as conclusões continuam valendo).
é chamado de quadrivelocidade da partícula. Na métrica acima temos um vetor de Killing imediato
, então, eu vou definir a energia como a quantidade que é justamente invariante por essa simetria:
Para o nosso movimento orbital, ainda preciso de mais uma definição. Na métrica acima, também é um vetor de Killing que dá origem à momento angular (conservado):
A definição de massa invariante é então . Essa é a famosa relação de Einstein, que vale para qualquer partícula até mesmo quando a massa é zero! Mas o que essas quantidades tem a ver com as quantidades medidas por um observador? A energia que um observador mede depende da quadrivelocidade
do observador. Vamos supor que o observador esteja parado vendo a partícula orbitar sobre sua cabeça, isto é
. A energia que esse observador mede será:
perceba que nesse caso é exatamente a energia que tínhamos definido antes. A massa relativística nada mais é então que a energia e a razão entre a massa invariante e a massa relativística, chamado fator de Lorentz, pode ser calculado:
onde definimos a quantidade que coincide com a velocidade Newtoniana. Mas é muito ruim ter que introduzir quantidades não covariantes. A melhor idéia para trabalhar com relatividade é manter tudo covariante, independente do observador e independente do referencial.
Mantendo isso em mente, vamos agora introduzir a gravidade. A solução esfericamente simétrica das equações de Einstein, parecida com nossa gravidade na Terra, é:
Agora o movimento orbital é inclusive geodésico:
E temos os mesmos vetores de Killing:
e
No entanto todo o resto muda. Primeiro muda a relação de dispersão:
E muda também a energia medida pelo observador que tínhamos considerado :
Note que , num movimento em que a coordenada
varia, não é conservado. Isso dá origem ao redshift gravitacional. Agora que começa a confusão verdadeira: como vamos definir a massa relativística, ou o “fator de Lorentz”, nesse caso?
1)
2)
Note que as definições são equivalentes quando . Eu tendo a preferir a segunda, pois você pode interpretar o último termo como uma velocidade medida localmente. Acho que é a escolha da maioria das pessoas também, mas o problema é tem um tanto outro de pessoas que não nota essa diferença e isso causa várias confusões. Essas mesmas pessoas que preferem a segunda forma escrevem a relação de dispersão como
, que tem a mesma estrutura do caso sem gravidade.
Claro que não é de se espantar que haja modificação no caso da gravidade, afinal, a gravidade realiza trabalho e é fácil identificar o potencial na relação de dispersão (mas note que há um termo extra, que não existe na gravitação Newtoniana!). Se considerássemos o agente externo no caso sem gravidade ele também teria um potencial. Mas isso não quer dizer que seja totalmente equivalente. A energia da gravidade depende da estrutura geométrica do espaço-tempo, e somente em casos muito especiais conseguimos uma definição consistente.
Is energy conserved in General Relativity (por Michael Weiss e John Baez)
Agora que eu dei o exemplo, deixa eu dar a opinião. Eu não gosto de massa relativística. Acho, no mínimo, supérfluo. Mas essa é uma discussão longa. Veja aqui:
Relativistic Mass (por Philip Gibbs e Jim Carr)



Ótima discussão, Rafa. A meu ver, não tem mesmo melhor jeito de mostrar a dificuldade intrínseca ao conceito de “massa relativística” do que discutindo o caso de um espaço-tempo curvo, no qual a própria definição dessa quantidade fica complicada.
Como você comentou, isso gera muita confusão até em Minkowski, como nós temos observado continuamente na comunidade. O lado bom é que isso parece ficar restrito aos leigos interessados, ao pessoal do ensino médio e, quanto a profissionais, no máximo àqueles que não estudaram relatividade mais a fundo. Num ambiente como o do IFT, por exemplo, onde a maioria estuda física de altas energias, nada disso é um problema.