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Archive for setembro \30\UTC 2008

Quem somos nós?

terça-feira, 30 set 2008; \40\UTC\UTC\k 40 7 comentários

(Não, esse não é um post “new age” sobre mecânica quântica 😆 )

Antes de mais nada, alguns avisos:

1) Me desculpem qualquer imprecisão na história, estou contando do que me lembro e a memória sempre falha.
2) Os links desse post exigem que se tenha um conta no Orkut para que possam ser acessados.

Eu acho que é interessante contar como as pessoas que são os editores desse blog se conheceram. Em 2004, para ser mais exato em 12 de abril daquele ano, um estudante de física chamado Wellington Nogueira criou a comunidade Física no então recém criado Orkut. Wellington era então estudante de física na Unesp, mas há muito tempo não sei que fim levou.

O Orkut cresceu muito, principalmente no Brasil. O próprio Orkut tem uma estimativa (subavaliada) que aproximadamente 51% dos seus usuários são brasileiro. Em outros países, outras ferramentas de rede social cresceram mais (MySpace, Facebook), mas tenho certeza que, pelo menos nos grandes centros brasileiros, o Orkut é hoje uma das principais ferramentas de comunicação. Junto com o Orkut cresceu a comunidade de física. Chegou a um ponto onde apenas uma pessoa não conseguia dar conta da sua administração e a comunidade, tal como muitas outras do orkut, ficou tão caótica e bagunçada que era difícil extrair informação de qualidade.

Nesse ponto, algumas pessoas resolveram auxiliar o Wellington nessa tarefa. Me lembro que o Tom e o Daniel foram essenciais nesse ponto. Ambos pareciam já ter vasta experiência com usenets/fóruns de internet e esse know-how foi muito positivas à comunidade. Por sinal, a frase de Gene Spafford sobre usenets pode ser facilmente adaptada ao Orkut:

“Usenet is like a herd of performing elephants with diarrhea — massive, difficult to redirect, awe-inspiring, entertaining, and a source of mind-boggling amounts of excrement when you least expect it.”

Outras pessoas de inestimável valor foram se juntando à administração da comunidade, muitas delas que não estão aqui como editores, infelizmente: Caio, Danilo, Leonardo, Adriano, Rafael Calsaverini, entre outros; todos alunos de pós-graduação em física. Só me juntei a esse grupo mais tarde quando a comunidade já tinha então sofrido um significativo avanço em qualidade e tamanho (e mais recentemente se juntou à administração outro membro que já participava da comunidade há bastante tempo: Leandro Seixas). Nesse período, esse comunidade não era a única sobre física no Orkut com a ordem de grandeza de participantes que temos. Havia uma outra, gerenciada por um professor de física chamado Alberto Prass. Sua comunidade sofreu um ataque de hackers em 2006 e nunca conseguiu se recuperar. Também sofremos com algo parecido no mesmo ano, e apesar do episódio ter sido muito triste, nossa sorte foi melhor: conseguimos recuperar todos os dados apagados da comunidade.

O trabalho de administrar a comunidade é grande. Oficialmente a comunidade tem por volta de 38000 membros. Nem todos são ativos, claro. Uma pesquisa que fiz recentemente mostra que temos algo como 200 usuários realmente ativos, o que é um número considerável, levando em conta a qualidade das discussões. Presar pela continuidade dessa qualidade tendo que lidar com eventuais comportamentos inapropriados toma um tempo considerável. Mais ainda se você considerar como as agendas de alunos de pós-graduação são apertadas. Mas fazemos isso com prazer. Tenho certeza que, para muitas pessoas, essa comunidade é um dos meios mais procurados para divulgação científica de física, troca de informações sobre física, ou simplesmente para uma conversa sobre ciência. Mais detalhes aqui. Há participantes de todas as idades e nível de instrução formal – de alunos de ensino médio a pesquisadores em universidades, o que só torna o ambiente mais agradável.

Os resultados nos fazem acreditar nessa idéia improvável. Nesses quatro anos já vi tópicos em que adolescentes disseram ter adentrado na carreira de física inspirados pela comunidade, em que professores disseram utilizar exemplos discutidos na comunidade em sala de aula, já vi pessoas trocarem informações sobre artigos de pesquisa, pessoas procurando colaboradores para pesquisa, anunciando vagas para iniciação científica e até para pós-doutorado. Tivemos uma curta série de ótimas entrevistas com os professores Marcelo Gleiser, Jérémy Argyriades e Henrique Fleming. Este último, por sinal, um colaborador inestimável da nossa comunidade. Além de uma entrevista com o Daniel que também escreve aqui.

Educação científica é algo de extrema importância para qualquer povo. E essa comunidade é parte da nossa responsabilidade social. Com certeza não é tudo que podemos fazer e com certeza nem tudo que as pessoas sonham fazer: alguns tem grandes sonhos. Mas é um começo do qual nos orgulhamos muito.

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The Big Bang Theory…

terça-feira, 30 set 2008; \40\UTC\UTC\k 40 Deixe um comentário

Pra quem é fã dessa série, o episódio de ontem foi absolutamente hilário. Eis o vídeo da última parte: uma discussão sobre Loop Quantum Gravity vs String Theory:

Diversão garantida, 😆 !

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Enquanto isso no Brasil…

domingo, 28 set 2008; \39\UTC\UTC\k 39 1 comentário

Em vista da situação americana descrita no post do Daniel, talvez valha a pena comparar a situação no Brasil. Ano passado e no anterior, a quantidade de vagas abertas para docentes foi grande. Inclusive em grandes centros como São Paulo, onde a UFABC deu uma desafogada no mercado. Nesses últimos anos também houve uma quantidade considerável de oportunidades em universidades no interior e, embora eu não esteja mais acompanhando de perto a sitauação tupiniquim, uma rápida olhada nos anúncios da SBF mostra que a situação continua razoavelmente favorável em termos de vagas.

Mas então, por que não temos uma visibilidade maior em termos de pesquisa em física de altas energias?

Sobre as universidades no interior, há pouca estrutura de pesquisa e as pessoas que são contratadas nesses centros ou ficam sobrecarregadas com a quantidade de aulas ou trabalham arduamente para criar uma infraestrutura de pesquisa, o que, em geral, sacrifica sua própria carreira acadêmica. Sem, claro, menosprezar essas iniciativas, devo concordar que é uma escolha dura ficar isolado.

Por outro lado, nos grandes centros onde esse problema, em princípio, poderia parecer não existir, algo curioso acontece. Recentemente estive conversando com um físico que foi contratado pela UFABC na área de física de altas energias e o que ele me relatou é que a maioria dos candidatos não conseguiu passar sequer na prova escrita. Ou seja, a impressão que se tem é que mesmo que se abra vagas, não há pessoas de qualidade para preenchê-las (espero que ninguém fique ofendido).

Me lembro que quando tive chance de acompanhar de perto um desses processos de seleção, uma das grandes questões era sobre os detalhes de edital, justamente porque a impressão dos pesquisadores desse instituto era que se o campo de pesquisa fosse muito limitado poderia não aparecer ninguém de qualidade. E estavam justamente se referindo à área de física de altas energias. Como alguém que está ainda entrando nesse campo, me pergunto: onde estão todas as pessoas que terminam seus doutorados? Aqui nos EUA, quando uma universidade se propõe a abrir uma vaga, as pessoas vão atrás de potencial candidatos, convidam essas pessoas para dar seminários onde o pretendente é devidamente apresentado ao faculty da universidade e então há dados concretos para se fazer uma avaliação. Mas e no Brasil? Nesse caso específico, isso simplesmente não conseguiu ser feito! Parte em nome da “democracia” dos concursos. E isso é um outro problema, se você quiser atrair um grande nome de uma área para que essa pessoa seja um aglutinador, não há meios de fazê-lo oferecendo, por exemplo, melhores salários.

Tudo bem, mas ainda assim há algumas poucas pessoas muito boas em física de altas energias teórica no Brasil e é de se imaginar que eventualmente um ou outro aluno dessas pessoas se torne um bom pesquisador. Onde estão essas pessoas? Espalhadas, algumas indo para esses outros mercados emergentes, e algumas em institutos de matemática (onde, curiosamente, sobram vagas). E isso é outro problema no Brasil. Falta uma política central de desenvolvimento de ciência. Isso é um termo perigoso no ouvido de algumas pessoas. Rapidamente alguém vem e grita: “O governo não pode querer determinar o que os cientistas tem que pesquisar!”. Falácia das grandes. Você ter um norte, um plano central de desenvolvimento não é equivalente a determinar o que se vai pesquisar. É justamente tentar evitar todos esses problemas. Foi isso que funcionou nos exemplos do Chile e do México que o Daniel citou.

Até porque ciência é um investimento de altíssimo risco. Se você não organiza a casa, aí é que só vai se perder mesmo. E o governo tem o poder de fazer essa organização, pois é ele que distribui o dinheiro. Não que eu acredite em um governo totalitário, não me entendam mal. Mas isso que está aí também não vai dar em nada. Quantas vezes eu já vi grupos de física experimental de altas energias terem seu parco financiamento cortado no meio de um projeto (e terem que responder à colaboração completamente envergonhados)! Nesse sentido, ciência é um mercado como outro qualquer: com 10 reais você compra um chocolate, com 5 reais você não compra meio! E o que se está fazendo é jogar os 5 reais fora.

Será que a situação está melhorando? Será que podemos ser otimistas? Acho que não. Até porque tudo que falei sobre infraestrutura de ciência existe um paralelo imediato na infraestrutura educional (que fica para outro post). E estamos falhando nesse campo também. A qualidade das pessoas que estão chegando nas universidades é cada vez pior. E isso é uma realimentação positiva péssima.

O que me ainda me dá alguma esperança são iniciativas isoladas como o Instituto de Neurociências de Natal. A idéia é algo que realmente pode funcionar, embora não sei até que ponto está funcionando. Ciência de qualidade, investimento público e privado em massa, com um objetivo claro e bem determinado, e servindo ao mesmo tempo como mecanismo de desenvolvimento social. Será que é possível fazer algo análogo em física de altas energias (principalmente as áreas mais teóricas como Teoria de Supercordas, LQG, Teoria Quântica de Campos, …)? Eu acredito que sim. Mas isso é apenas uma esperança, um sonho talvez.

Abre, O ‘Simsim…!

sábado, 27 set 2008; \39\UTC\UTC\k 39 Deixe um comentário

Para abrir a temporada de trabalhos do Ars Physica, eu decidi escolher um tema um tanto árido pra alguns de nós aqui do AP : o mercado de trabalho.

No final de agosto, foi divulgado o resultado dum estudo sobre o mercado de trabalho em Física Teórica de Partículas, Cosmologia e Teoria de Cordas (e/ou Gravitação Quântica) nos últimos 15 anos (1994–presente) nos USA. Ele está disponível aqui, em PDF: Jobs 94–08.

Esses resultados mal saíram e já estão causando um certo furor: Survivor: theoretical physics e Survivor — os comentários e links em ambos esses posts são elucidativos também.

O resumo da ópera é claro: entre completar o Ph.D. e conseguir uma posição fixa, a média é de 5-6 anos (aprochutadamente, 2 postdocs (de 2-3 anos cada), ou 1 superpostdoc (3-5 anos) e um troco), o que significa que a idade média para um professor (numa posição fixa) é de 40 anos.

Há alguns comentários pertinentes:

  1. Esses números são bem diferentes daqueles de 2 ou 3 gerações atrás — não é tão longe assim o tempo em que os jovens professores, em início de carreira, tinham cerca de 25-30 anos! O número atual representa um aumento de 30%-60% com respeito a essas gerações.
  2. Algumas pessoas tendem a criticar a estabilidade de emprego necessário para todo jovem pesquisador, a tal “posição fixa” acima. Uma das razões mais importantes para essa estabilidade é a famigerada liberdade acadêmica: sem um certo grau de estabilidade, uma linha de pesquisa mais inovativa, menos ortodoxa, pode ser tolhida facilmente. E esse é o tipo de coisa que estaguina o progresso científico. Principalmente pra quem leva a sério a idéia de que pessoas mais jovens tendem a fazer trabalhos mais criativos… fica fácil de ver a necessidade de se proteger as pessoas que podem causar os maiores “danos”. 😉
  3. A situação não é das melhores…

O mercado americano e canadense é o mais receptivo para estrangeiros e, portanto, o mais acirradamente competitivo. Depois, eu diria que vêm Inglaterra, Alemanha e França. Esse é o paradigma clássico, eu diria. Porém, atualmente, alguns detalhes não-tão-pequenos têm alterado o cenário (em aspectos diferentes): China, Índia, países do Sudeste Asiático, Rússia, nessa ordem, têm investido mais intensamente em recuperar seus cérebros — incluindo infra-estrutura e equipamentos de alta qualidade. Existem também algumas “ilhas” no mercado internacional: México (Loop Quantum Gravity), Chile (String Theory), Argentina e Uruguai. Lugares como Itália, Portugal e Espanha possuem núcleos de excelente qualidade… porém, seus mercados são praticamente impenetráveis (e as filas de espera para as poucas posições disponíveis são de 5-10 anos!). Japão e Coréia do Sul tem aumentado sua participação, mas essencialmente na forma dos “Institutos de Estudos Avançados”; então, ao invés de oferecerem posições permanentes, eles oferecem excelentes oportunidades para uma temporada de verão (3 meses) ou de inverno (1 mês).

O grande pulo-do-gato nisso tudo é que, com esses dados, dá pra se estimar que entre 60%-90% dos Ph.D.’s em Física Teórica (altas energias; o grupo descrito acima) acaba não exercendo a profissão! Na imensa maioria dos casos, esse pessoal costuma acabar no mercado financeiro, na forma de Analista Quantitativo (em alguns círculos, o nome usado é engenharia financeira).

Então, o resumo da ópera é: Antes de tomar a decisão de seguir uma carreira como essa, saiba muito bem quais são os prós e os contra!


Do lado mais leve da coisa, vou fechar esse post com algumas “pesquisas” 😉 :

Pois é… é isso aí: Divirtam-se! 😈

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Bem vindos…!

sexta-feira, 26 set 2008; \39\UTC\UTC\k 39 2 comentários

“Navigare necesse est; vivere non est necesse!”  Pompeu.

Esse é o primeiro post no Ars Physica — consideramos abertos os nossos trabalhos! 😈

Para saberem mais sobre nós, dêm uma olhada em Sobre esse Blog e Manifesto Ciência Livre.

Um abraço para todos, []’s!

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