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Enquanto isso no Brasil…

domingo, 28 set 2008; \39\UTC\UTC\k 39 Deixe um comentário Go to comments

Em vista da situação americana descrita no post do Daniel, talvez valha a pena comparar a situação no Brasil. Ano passado e no anterior, a quantidade de vagas abertas para docentes foi grande. Inclusive em grandes centros como São Paulo, onde a UFABC deu uma desafogada no mercado. Nesses últimos anos também houve uma quantidade considerável de oportunidades em universidades no interior e, embora eu não esteja mais acompanhando de perto a sitauação tupiniquim, uma rápida olhada nos anúncios da SBF mostra que a situação continua razoavelmente favorável em termos de vagas.

Mas então, por que não temos uma visibilidade maior em termos de pesquisa em física de altas energias?

Sobre as universidades no interior, há pouca estrutura de pesquisa e as pessoas que são contratadas nesses centros ou ficam sobrecarregadas com a quantidade de aulas ou trabalham arduamente para criar uma infraestrutura de pesquisa, o que, em geral, sacrifica sua própria carreira acadêmica. Sem, claro, menosprezar essas iniciativas, devo concordar que é uma escolha dura ficar isolado.

Por outro lado, nos grandes centros onde esse problema, em princípio, poderia parecer não existir, algo curioso acontece. Recentemente estive conversando com um físico que foi contratado pela UFABC na área de física de altas energias e o que ele me relatou é que a maioria dos candidatos não conseguiu passar sequer na prova escrita. Ou seja, a impressão que se tem é que mesmo que se abra vagas, não há pessoas de qualidade para preenchê-las (espero que ninguém fique ofendido).

Me lembro que quando tive chance de acompanhar de perto um desses processos de seleção, uma das grandes questões era sobre os detalhes de edital, justamente porque a impressão dos pesquisadores desse instituto era que se o campo de pesquisa fosse muito limitado poderia não aparecer ninguém de qualidade. E estavam justamente se referindo à área de física de altas energias. Como alguém que está ainda entrando nesse campo, me pergunto: onde estão todas as pessoas que terminam seus doutorados? Aqui nos EUA, quando uma universidade se propõe a abrir uma vaga, as pessoas vão atrás de potencial candidatos, convidam essas pessoas para dar seminários onde o pretendente é devidamente apresentado ao faculty da universidade e então há dados concretos para se fazer uma avaliação. Mas e no Brasil? Nesse caso específico, isso simplesmente não conseguiu ser feito! Parte em nome da “democracia” dos concursos. E isso é um outro problema, se você quiser atrair um grande nome de uma área para que essa pessoa seja um aglutinador, não há meios de fazê-lo oferecendo, por exemplo, melhores salários.

Tudo bem, mas ainda assim há algumas poucas pessoas muito boas em física de altas energias teórica no Brasil e é de se imaginar que eventualmente um ou outro aluno dessas pessoas se torne um bom pesquisador. Onde estão essas pessoas? Espalhadas, algumas indo para esses outros mercados emergentes, e algumas em institutos de matemática (onde, curiosamente, sobram vagas). E isso é outro problema no Brasil. Falta uma política central de desenvolvimento de ciência. Isso é um termo perigoso no ouvido de algumas pessoas. Rapidamente alguém vem e grita: “O governo não pode querer determinar o que os cientistas tem que pesquisar!”. Falácia das grandes. Você ter um norte, um plano central de desenvolvimento não é equivalente a determinar o que se vai pesquisar. É justamente tentar evitar todos esses problemas. Foi isso que funcionou nos exemplos do Chile e do México que o Daniel citou.

Até porque ciência é um investimento de altíssimo risco. Se você não organiza a casa, aí é que só vai se perder mesmo. E o governo tem o poder de fazer essa organização, pois é ele que distribui o dinheiro. Não que eu acredite em um governo totalitário, não me entendam mal. Mas isso que está aí também não vai dar em nada. Quantas vezes eu já vi grupos de física experimental de altas energias terem seu parco financiamento cortado no meio de um projeto (e terem que responder à colaboração completamente envergonhados)! Nesse sentido, ciência é um mercado como outro qualquer: com 10 reais você compra um chocolate, com 5 reais você não compra meio! E o que se está fazendo é jogar os 5 reais fora.

Será que a situação está melhorando? Será que podemos ser otimistas? Acho que não. Até porque tudo que falei sobre infraestrutura de ciência existe um paralelo imediato na infraestrutura educional (que fica para outro post). E estamos falhando nesse campo também. A qualidade das pessoas que estão chegando nas universidades é cada vez pior. E isso é uma realimentação positiva péssima.

O que me ainda me dá alguma esperança são iniciativas isoladas como o Instituto de Neurociências de Natal. A idéia é algo que realmente pode funcionar, embora não sei até que ponto está funcionando. Ciência de qualidade, investimento público e privado em massa, com um objetivo claro e bem determinado, e servindo ao mesmo tempo como mecanismo de desenvolvimento social. Será que é possível fazer algo análogo em física de altas energias (principalmente as áreas mais teóricas como Teoria de Supercordas, LQG, Teoria Quântica de Campos, …)? Eu acredito que sim. Mas isso é apenas uma esperança, um sonho talvez.

  1. Leandro Seixas
    segunda-feira, 29 set 2008; \40\UTC\UTC\k 40 às 13:32:14 EST

    Um pequeno comentário quanto a prova escrita do concurso da UFABC. Eu mesmo vi uma prova escrita em que de 10 pessoas que fizeram, e apenas 3 passaram. Com isso até parece que esta prova era difícil, mas até a prova de seleção da pós-graduação do IFUSP era mais “difícil” do que aquela prova. A prova era muito simples, questões que eu mesmo tinha feita na graduação cairam na prova. E o mais estranho é que boa parte das pessoas que fizeram a prova eram da USP ou da Unicamp, era de se esperar que todos fizessem a prova sem dificuldades e a seleção mesmo fosse na parte de publicações.

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