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Cientista: quatro lições de ouro

quinta-feira, 9 out 2008; \41\UTC\UTC\k 41 Deixe um comentário Go to comments

Por Steven Weinberg

Conselhos de um cientista a estudantes no início da carreira científica

Quando consegui meu diploma de bacharel em física – uns cem anos atrás – a literatura sobre física me parecia tão vasta, como um oceano inexplorado, onde cada enseada eu deveria mapear antes de começar minha própria pesquisa. Como eu poderia fazer qualquer coisa antes de saber tudo que já não tivesse sido feito? Felizmente em meu primeiro ano na pós-graduação, tive a sorte de cair nas mãos de alguns físicos mais experientes que insistiram, apesar de minha ansiosa relutância, que eu deveria começar a pesquisar e que fosse aprendendo o que me era necessário ao longo do tempo. Era nadar ou afundar. Para minha surpresa descobri que isso funciona. Consegui obter um rápido doutorado – apesar de que, quando o consegui, não sabia quase nada de física, mas eu aprendi uma coisa importante: ninguém sabe tudo, e nem precisa saber.

Outra lição a ser aprendida, continuando com minha metáfora oceanográfica, é que enquanto você está nadando e não afundando, deve-se procurar por águas turbulentas. Quando eu estava ensinando no Instituto Tecnológico de Massachussetts perto do fim dos anos 60 (1960), um estudante me disse que gostaria de adentrar na relatividade geral ao invés da área em que eu trabalhava, a física de partículas elementares, pois os princípios do primeiro eram bem conhecidos, enquanto que os dos últimos lhe pareciam confusos. Em realidade, o motivo que ele acabara de dar era a razão perfeita para se fazer o contrário. A física de partículas era uma área onde o trabalho criativo ainda poderia ser feito. Realmente era uma bagunça na década de 60, mas desde aquela época, o trabalho de vários físicos teóricos e experimentais foram capazes de resolver e colocar tudo (bem, quase tudo) junto em uma bela teoria conhecida como o modelo padrão. Meu conselho é que se vá à bagunça – é lá onde está a ação.

Meu terceiro conselho é provavelmente o mais dificil de se aceitar. É perdoar-se por estar perdendo tempo. Estudantes são apenas cobrados para resolver problemas que seus professores (a não ser que sejam cruéis, o que não é comum) já sabem que são solucionáveis. Ainda mais, não importa se o problema é importante cientificamente – eles devem ser resolvidos para se obter aprovação no curso. Mas no mundo real, é muito difícil reconhecer quais problemas são importantes e você nunca sabe, em um dado momento da história, se o problema é solucionável. No início do século vinte, vários físicos de ponta, incluindo Lorentz à Abraham, tentaram trabalhar com a teoria do elétron. Isso requeria em parte entender por que todas as tentativas de detectar os efeitos dos movimentos da Terra pelo éter falharam. Sabemos hoje que eles estavam trabalhando no problema errado. Mas na época, ninguém poderia desenvolver uma teoria de sucesso para o elétron, porque a mecânica quântica ainda não havia sido descoberta. Foi preciso o gênio de Albert Einstein em 1905 para descobrir que o problema certo no qual trabalhar era o efeito do movimento na medição do espaço e tempo. Isso o levou a uma teoria especial da relatividade. Como você nunca terá certeza em quais os problemas certos para se trabalhar, a maior parte do tempo gasto no laboratório ou em sua mesa será um desperdício. Se você quer ser criativo, então você deve se acostumar a gastar a maior parte do seu tempo em não ser criativo para se submeter a ficar parado no oceano do conhecimento científico devido à falta de vento.

Finalmente, aprenda sobre a história da ciência ou no mínimo a história do seu ramo de ciência. A razão menos importante para isso é que a história pode ser útil para algum uso no seu próprio trabalho científico. Por exemplo, de vez em quando cientistas se enganam por acreditar em um dos super-simplificados modelos de ciência que foram propostos por filósofos desde Francis Bacon até Thomas Kuhn e Karl Popper. O melhor antídoto para a filosofia da ciência é o conhecimento da história da ciência.

De maior importância, a história da ciência pode fazer seu trabalho parecer valer a pena para você. Como um cientista, você provavelmente não será rico. Seus amigos e parentes provavelmente não entenderão em que você trabalha. E se você trabalha em uma área como física de partículas elementares, nem terá a satisfação de fazer algo que terá utilidade imediata. Mas poderá ter uma grande satisfação por reconhecer que seu trabalho em ciência é parte da história. [grifo do tradutor]

Olhe 100 anos atrás, para 1903. Qual a relevância tem hoje de quem foi o primeiro ministro da Grã-Bretanha em 1903, ou o presidente dos Estados Unidos? O que realmente se destaca como importante é que na universidade McGill, Ernest Rutherford e Frederick Soddy trabalharam na natureza da radioatividade. Esse trabalho (é claro!) teve aplicações práticas, porém muito mais importantes foram suas implicações culturais. O entendimento da radioatividade permitiu que físicos pudessem explicar como o centro da Terra e o centro do Sol, poderiam estar quentes mesmo depois de milhões de anos. Nesse sentido, isto removeu a última objeção científica na qual geólogos e paleontólogos pensavam sobre a idade avançada da Terra e do Sol. Depois disso, os cristãos e judeus tiveram que abdicar de seus credos da verdade literal da bíblia ou resignar-se na irrelevância intelectual. Esse foi apenas um passo na sequência de passos desde Galileo, passando por Newton e Darwin até o presente, os quais, tempo após tempo, enfraqueceram os dogmas religiosos. Lendo qualquer jornal hoje em dia é suficiente para lhe mostrar que este trabalho não está completo. Mas é um trabalho civilizatório do qual os cientistas são capazes de sentir orgulho.

Steven Weinberg, físico norte-americano do departamento de física na Universidade do Texas, recebeu em 1979 o Prêmio Nobel de Física pelo seu trabalho de unificação de duas forças fundamentais da natureza (o electromagnetismo e a força fraca, através da formulação da teoria da força electrofraca), em conjunto com os seus colegas Abdus Salam e Sheldon Glashow.

Nature 426, 389 (27 November 2003) | doi: 10.1038/426389a

Em minha opinião, o trecho em negrito acima, resume a mensagem que o Weinberg quis passar. Desde cedo, quando crianças, temos que estudar assuntos, que a priori nos parecem obscuros, e as vezes, inúteis. Por que estudar isso ou aquilo? Qual o objetivo em se estudar isso, vai me dar fama, ou dinheiro? Apesar dessas perguntas não serem totalmente inválidas, é necessário ponderar que o conhecimento nem sempre será uma via de mão dupla, ele é nosso maior tesouro, e muitas vezes será apenas nosso, como Weinberg maestralmente explicita.

Traduzido por Osvaldo Pereira, em discussão da comunidade Física do orkut, do texto original Nature 426, 389. Revisado por Norberto Akio Kawakami. Extraído do blog Blógui-Ci!

  1. quinta-feira, 9 out 2008; \41\UTC\UTC\k 41 às 12:32:58 EST

    Fora do tópico:

    Osvaldo,

    acho bom destacar que o grifo é seu.😉

    E como possivelmente vai fazer alterações na sua tradução, é sempre bom colocar no final do post em que data e horário ela foi feita (se o WordPress não fizer isso automaticamente).

  2. Leandro Seixas
    quinta-feira, 9 out 2008; \41\UTC\UTC\k 41 às 16:58:46 EST

    “O melhor antídoto para a filosofia da ciência é o conhecimento da história da ciência.”

    Sábias palavras do Steven Weinberg, é aprendendo como os Físicos construiram a Física qua vamos aprender como podemos construir também.

  3. fabioprasouza
    sexta-feira, 10 out 2008; \41\UTC\UTC\k 41 às 03:02:46 EST

    “O melhor antídoto para a filosofia da ciência”

    Até parece que ele mesmo não faz filosofia da ciencia, que tem uma posição epistemológica bem definida e que usa isso pra vender o seu peixe.

  4. osvald25
    sexta-feira, 10 out 2008; \41\UTC\UTC\k 41 às 09:25:14 EST

    “Até parece que ele mesmo não faz filosofia da ciencia, que tem uma posição epistemológica bem definida e que usa isso pra vender o seu peixe.”

    E qual seria a “posição epistemológica” dele?

  5. Leonardo
    sexta-feira, 10 out 2008; \41\UTC\UTC\k 41 às 14:15:43 EST

    Quando o Weinberg diz “filosofia da ciência” ele está se referindo estritamente aquela produzida pelos filósofos profissionais (Kuhn, Popper, Mach, etc.), não no sentido da visão de ciência que ele tem. Mas isso não tem como saber desse discurso, é verdade. No entanto, ele deixa isso claro nos livros de divulgação dele. Isso recaí naquela questão: quem são os filósofos da ciência? Weinberg, Feynman, Anderson, quando falam sobre o que eles pensam que a física é e como ela evolui, ou não-cientistas que apenas observam a evolução como não-especialistas mas que são profissionais no debate de epistemologia?🙂

  6. Fabio Pra
    sexta-feira, 10 out 2008; \41\UTC\UTC\k 41 às 16:19:13 EST

    Qualquer pessoa que pára pra falar sobre o que é a atividade científica já está filosofando, ou melhor, já está contribuindo de algum modo pra epistemologia da ciencia. E pra lembrar, vários desses “filósofos” profissionais são tão físicos quanto Weinberg. Por exemplo o Kuhn, Mach e o Chalmers.
    A epistemologia é puramente filosófica, e eu nao desqualifico o que o Weinberg fala só porque ele não é filósofo profissional. Todos ali tem algo a acrescentar e o debate deve ficar nos argumentos e não na graduação que fez.
    Até o Einstein deu lá seus pitacos sobre isso.

  7. Fabio Pra
    sexta-feira, 10 out 2008; \41\UTC\UTC\k 41 às 16:21:14 EST

    Osvaldo, como eu disse no orkut, ele é um reducionista. Por favor nao interprete esse nome como tom pejorativo, não tem nada disso.

  1. segunda-feira, 24 nov 2008; \48\UTC\UTC\k 48 às 22:17:43 EST

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