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Relatório sobre falha do LHC

quinta-feira, 16 out 2008; \42\America/New_York\America/New_York\k 42 3 comentários

Uma conexão elétrica falha entre dois imãs do LHC causou um vazamento de 6 toneladas de hélio liquido no túnel de concreto, paralisando as operações do acelerador.

Uma conexão elétrica falha entre dois imãs do LHC causou um vazamento de 6 toneladas de hélio líquido no túnel de concreto, paralisando as operações do acelerador.

Da Sala de Imprensa do CERN.

Hoje o CERN divulgou um outro documento detalhando a falha do sistema criogênico do LHC. A falha foi causada por uma conexão elétrica entre dois imãs. De acordo com John Conway do Cosmic Variance, até duas semanas atrás ninguém podia entrar no túnel de concreto no setor afetado, porque ainda estava muito frio. Um total de 6 toneladas de hélio líquido que era mantido a temperatura de -271.3 ° C, vazou diretamente dos imãs ao túnel. Ocorreu dano mecânico no setor e parte do sustento dos imãs que é fixado ao chão foi quebrado e parte dos imãs foram rompidos.

O LHC ia começar a operar primeiro a energias de poucos TeV antes de adentrar uma segunda fase com energia máxima de 14 TeV, mas com esse atraso, o calendário agora está ajustado para começar diretamente na fase de energia da ordem de 10 TeV. Quando o incidente ocorreu em setembro, foi feita uma estimativa que em início de 2009 o LHC voltaria a operar, mas o novo relatório do LHC não fornece nenhuma data, deixando apenas vagamente indicado que em 2009 o projeto volta a caminhar. 😦 😥

Ninguém disse que seria fácil manter 27 km de hélio líquido a temperatura de -271.3 ° C — é o maior sistema criogênico já feito.

Espero que depois que o LHC descobrir o bóson de Higgs, nós lembremos de todas as dificuldades e percalços técnicos que antecederam a grande descoberta 😉

Outros posts sobre o LHC em português:

  1. LHC anuncia primeira data 8 Ago 2008
  2. LHC atrasará por cerca de dois meses 20 Set 2008
  3. Bobagens sobre o custo do LHC 25 Set 2008

Epistemologia: por que estudar?

quinta-feira, 16 out 2008; \42\America/New_York\America/New_York\k 42 4 comentários

É consenso que a epistemologia atualmente é uma disciplina puramente filosófica¹, se ocupando de descrever a atividade científica sem interferir com as teorias científicas. Então, estudá-la parece ser uma questão de gosto pessoal, perfumaria e literatura para as horas vagas. Mas só parece.

A sociedade ocidental deposita muita confiança no conhecimento científico, considerando ser uma referência segura para decisões que envolvam vida e morte ou que decida a culpa ou inocência de um réu. Essa confiança tem uma justificativa história: o capitalismo anda de mãos dadas com a tecnologia que a ciência propiciou para o sistema de produção.

O modo de viver mudou drasticamente com os conhecimentos científicos. Tornamo-nos dependentes da tecnologia que desenvolvemos e precisamos alimentar esse sistema com a formação de engenheiros e cientistas continuamente. Este é um pequeno panorama para mostrar que a sociedade está imersa na cultura científica, o surgimento de teoria nos moldes científicos acaba merecendo atenção e a relevância que costuma ter apenas por ser científica. E se for algum tipo de pseudociência? Um indivíduo agindo de má fé para ludibriar e tirar vantagem do próximo? Não faltam exemplos na área da medicina (curandeiros, charlatões) e da espiritualidade (quem não lembra do filme “Quem somos nós?”).

Uma razão para estudarmos epistemologia é que somos freqüentemente circundados por teorias pseudocientíficas. Nesse caso, temos o dever pedagógico² de esclarecermos que essa teoria não obedece aos critérios científicos. Temos um problema claro de demarcação, e a partir daqui somos obrigados a recorrer a alguma tese epistemológica, mesmo que o façamos sem saber disso.

Não importa qual seja a sua escolha, tem pra todos os gostos: positivistas, falseacionistas, construtivistas, reducionistas, realistas, anti-realistas… O que importa é ter um ponto de referência. Então nos deparamos com outro problema: o que uma tese epistemológica considera como sendo ciência pode não ser considerado por outra. Entretanto, esse problema não é difícil de contornar haja vista que as maiores atrocidades contra a ciência podem facilmente ser classificadas como pseudociência por praticamente qualquer tese epistemológica. As pequenas desavenças entre as teses são discutidas mais profundamente no mundo acadêmico.

Aqui fica claro porque quem almeja tornar-se professor do ensino fundamental e médio também deve ser conhecedor da epistemologia. Cabe a ele ilustrar a ciência para jovens que provavelmente terão seu primeiro e último contato com a ciência formal em sua educação. Havemos de lembrar que os livros didáticos assumem em seu discurso uma posição bastante positivista. Se pretendermos fazer um ensino plural, precisamos introduzir também um pouco do discurso de outras correntes da epistemologia.

Neste ponto alguns professores e filósofos são acusados de destruir a imagem da ciência, como se ela tivesse somente um único semblante, como se fosse um ataque ao intocável edifício da racionalidade ocidental. Lembre-se que professores de ciência são pessoas que optaram por propagar o conhecimento científico, portanto isso simplesmente não faz sentido.

Da mesma forma precisamos ser críticos quanto ao discurso filosófico de alguns³ que pretendem simplesmente negar o valor da epistemologia, como se ela não estivesse entranhada no seu próprio discurso. O Círculo de Viena tentou algo parecido e não conseguiu. Não é assim que se refuta o argumento de seus opositores.

Para concluir, a epistemologia é responsável por passar alguma imagem do que seja a ciência para o resto da sociedade. Nela cabem filósofos profissionais e cientistas, todos têm algo a dizer, a filosofia é bastante acolhedora nesse sentido.

Bons estudos.

¹Quine defende que o futuro da epistemologia é se tornar uma ciência empírica

²Uma analogia com o dever pedagógico do filósofo no mito da caverna de Platão

³Against Philosophy, cap 7 do livro Dreams of Final Theory de Weinberg, transcrito em português por Everton Z. Alvarenga.

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