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Epistemologia: por que estudar?

quinta-feira, 16 out 2008; \42\UTC\UTC\k 42 Deixe um comentário Go to comments

É consenso que a epistemologia atualmente é uma disciplina puramente filosófica¹, se ocupando de descrever a atividade científica sem interferir com as teorias científicas. Então, estudá-la parece ser uma questão de gosto pessoal, perfumaria e literatura para as horas vagas. Mas só parece.

A sociedade ocidental deposita muita confiança no conhecimento científico, considerando ser uma referência segura para decisões que envolvam vida e morte ou que decida a culpa ou inocência de um réu. Essa confiança tem uma justificativa história: o capitalismo anda de mãos dadas com a tecnologia que a ciência propiciou para o sistema de produção.

O modo de viver mudou drasticamente com os conhecimentos científicos. Tornamo-nos dependentes da tecnologia que desenvolvemos e precisamos alimentar esse sistema com a formação de engenheiros e cientistas continuamente. Este é um pequeno panorama para mostrar que a sociedade está imersa na cultura científica, o surgimento de teoria nos moldes científicos acaba merecendo atenção e a relevância que costuma ter apenas por ser científica. E se for algum tipo de pseudociência? Um indivíduo agindo de má fé para ludibriar e tirar vantagem do próximo? Não faltam exemplos na área da medicina (curandeiros, charlatões) e da espiritualidade (quem não lembra do filme “Quem somos nós?”).

Uma razão para estudarmos epistemologia é que somos freqüentemente circundados por teorias pseudocientíficas. Nesse caso, temos o dever pedagógico² de esclarecermos que essa teoria não obedece aos critérios científicos. Temos um problema claro de demarcação, e a partir daqui somos obrigados a recorrer a alguma tese epistemológica, mesmo que o façamos sem saber disso.

Não importa qual seja a sua escolha, tem pra todos os gostos: positivistas, falseacionistas, construtivistas, reducionistas, realistas, anti-realistas… O que importa é ter um ponto de referência. Então nos deparamos com outro problema: o que uma tese epistemológica considera como sendo ciência pode não ser considerado por outra. Entretanto, esse problema não é difícil de contornar haja vista que as maiores atrocidades contra a ciência podem facilmente ser classificadas como pseudociência por praticamente qualquer tese epistemológica. As pequenas desavenças entre as teses são discutidas mais profundamente no mundo acadêmico.

Aqui fica claro porque quem almeja tornar-se professor do ensino fundamental e médio também deve ser conhecedor da epistemologia. Cabe a ele ilustrar a ciência para jovens que provavelmente terão seu primeiro e último contato com a ciência formal em sua educação. Havemos de lembrar que os livros didáticos assumem em seu discurso uma posição bastante positivista. Se pretendermos fazer um ensino plural, precisamos introduzir também um pouco do discurso de outras correntes da epistemologia.

Neste ponto alguns professores e filósofos são acusados de destruir a imagem da ciência, como se ela tivesse somente um único semblante, como se fosse um ataque ao intocável edifício da racionalidade ocidental. Lembre-se que professores de ciência são pessoas que optaram por propagar o conhecimento científico, portanto isso simplesmente não faz sentido.

Da mesma forma precisamos ser críticos quanto ao discurso filosófico de alguns³ que pretendem simplesmente negar o valor da epistemologia, como se ela não estivesse entranhada no seu próprio discurso. O Círculo de Viena tentou algo parecido e não conseguiu. Não é assim que se refuta o argumento de seus opositores.

Para concluir, a epistemologia é responsável por passar alguma imagem do que seja a ciência para o resto da sociedade. Nela cabem filósofos profissionais e cientistas, todos têm algo a dizer, a filosofia é bastante acolhedora nesse sentido.

Bons estudos.

¹Quine defende que o futuro da epistemologia é se tornar uma ciência empírica

²Uma analogia com o dever pedagógico do filósofo no mito da caverna de Platão

³Against Philosophy, cap 7 do livro Dreams of Final Theory de Weinberg, transcrito em português por Everton Z. Alvarenga.

  1. Caio
    quinta-feira, 16 out 2008; \42\UTC\UTC\k 42 às 09:33:23 EST

    Caramba, Fabio. Muito bom o post.

    Teve coisas ai que eu já tentei expressar e não conseguia por de maneira compreensivel.

  2. Leandro Seixas
    quinta-feira, 16 out 2008; \42\UTC\UTC\k 42 às 14:14:38 EST

    Fábio, pelo que eu entendi, você diz que um professor de ensino médio precisa saber epistemologia, mas e o caso de professores universitários? Você tem alguma opinião formada sobre isso?

    Outra pergunta: Qual é o problema de passarmos uma visão muito positivista na Física do ensino médio?

  3. Fabio Pra
    quinta-feira, 16 out 2008; \42\UTC\UTC\k 42 às 20:02:01 EST

    “mas e o caso de professores universitários?”

    Isso tá respondido no quarto parágrafo. Isso é pra todos: cientistas, professores universitários, pessoas comuns…

    “Qual é o problema de passarmos uma visão muito positivista na Física do ensino médio?”

    A boa educação tem que ter a pluralidade de idéias, ou voce acha correto a doutrinação ideológica?

  4. sábado, 18 out 2008; \42\UTC\UTC\k 42 às 05:26:13 EST

    Olá Fábio,

    Não quero parecer castrador, mas considero esse “todos tem algo a dizer” por vezes meio perigoso, no seguinte sentido: um filósofo corre o risco de falar besteira ao invocar teses epistemológicas sem ter noção do fazer científico _na prática_, e acaba prestando um desserviço à sociedade.

    Mais precisamente, mesmo se excluírmos casos patológicos (para quem quiser se divertir com estes, recomendo o livro “Imposturas Intelectuais”, de Alan D. Sokal e Jean Bricmont), o perigo é o que eu chamo de “uso cego de formalismo”, que também acomete cientistas profissionais em suas própria áreas, e que no caso de filosofia da ciência acredito ser precisamente o que o Weinberg critica. Aquela frase de efeito na “Carta a um jovem cientista” é uma maneira, digamos, “nietzschiana” de enfatizar este ponto. O problema é invocar a tese sem entender o que ela significa para a prática científica e, portanto, saber se ela realmente se aplica à situação sendo discutida, independentemente do gosto epistemológico.

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