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Dúvida, pseudo-ciência e liberdade de expressão

sábado, 18 out 2008; \42\UTC\UTC\k 42 Deixe um comentário Go to comments

Todos os aficcionados por ciência tem por hobby delatar e atacar os divulgadores de bad-science, ou pseudo-ciência – aqueles estudos com ares pretenciosos de ciência mas que no fundo não têm sustentação objetiva. Alguns até diriam que é o papel dos acadêmicos da ciência tomarem a frente nessa batalha e capitanear os esforços pela erradicação da pseudo-ciência, inspirados em Carl Sagan, Richard Dawkins e outros heróis. Entretanto esbarramos aí em questões complicadas, às quais eu pretendo discutir sem dar respostas – uma vez que eu não as tenho. Creio aliás que são questões onde é mais útil pensar sobre o assunto com cuidado do que ter respostas (1).

A primeira questão é a óbvia questão demarcatória: que é pseudo-ciência? Que venham os falsificacionistas, os kuhnianos, os lakatosianos, Hume, Feyerabend e todos os filósofos da ciência de mãos dadas admitir que nunca resolveram essa questão. Não parece, pelo menos por enquanto, ser possível definir ciência sem excluir ou incluir coisas que não gostaríamos que estivessem lá. Ciência e não-ciência não são classes de equivalência de sistemas lógicos. O que podemos fazer é outra pergunta: que atitudes são esperadas de um cientista, e quais atitudes são esperadas de um pseudo-cientista? E logo depois podemos nos perguntar porque as atitudes do cientista são preferíveis às do pseudo-cientista.

Para atacar essa pergunta vou citar, o que é um péssimo costume pessoal, um grande cientista:

É a nossa responsabilidade como cientistas, sabendo do grande progresso que vem de uma satisfatória filosofia da ignorância, (…) ensinar como a dúvida não deve ser temida mas bem-vinda e discutida; e demandar essa liberdade, como nosso dever perante todas as futuras gerações.

Richard P. Feynman, What Do You Care What Other People Think(3)

Meus grifos e minha tradução (perdoem-me por qualquer erro). Essa citação, usada numa bela palestra do Prof. Nestor Caticha sobre a vida de Feynman semana passada no Convite à Física (2), aponta na direção do que é considerado entre os cientistas um padrão de comportamento desejável (porém nem sempre seguido): honestidade intelectual, particularmente honestidade com a dúvida. Ter dúvida e não se sentir constrangido, admitir não saber e admitir que a nossa capacidade de conhecer é limitada e que seu produto é sujeito à revisão é a atitude esperada de cientista. Essa dúvida entretanto não é passiva. O estado de dúvida é o estado de busca da sanação dessa dúvida.

O pseudo-cientista arquetípico não age assim. Ele brande a certeza em uma verdade revelada, que lhe foi transmitida por meios misteriosos e que todos os outros não conseguem enxergar. Ele crê ter o mundo contra sí, contra a sua verdade auto-evidente.

Por que é bom agir como um cientista e não como um pseudo-cientista? Eu não sou um estudioso de ética para atacar essa pergunta. Eu estaria muito mais disposto a responder: o que a sociedade ganha se as pessoas agirem como cientistas e não como pseudo-cientistas? Há dezenas de possíveis lucros para a sociedade: governantes dispostos a revisarem suas crenças e projetos são mais capazes de prever, evitar e consertar erros administrativos, modelos de gestão adaptativos que se revisam periodicamente são mais eficientes, pessoas com dúvidas são curiosas e aprendem mais, … enfim, um mundo onde as dúvidas são expressas e sanadas é mais eficiente que um mundo onde as dúvidas são suprimidas em favor da verdade revelada.

Outro ponto, muito mais complicado que esse é: devem os pseudo-cientistas ter liberdade de expressão para sair pelo mundo propagando suas crenças? Essa pergunta é uma dentre uma classe de perguntas muito difíceis. Por sorte essa não é tão difícil quanto as piores dentre essa classe (e.g., “deve um militante anti-democrático ser beneficiado pelas liberdades que a democracia preconiza?”). Essa pergunta é difícil por uma única razão: sua resposta não pode ser justificada sem apelar para valores subjetivos. A minha resposta para essa pergunta é um grande, sonoro, veemente e incondicional SIM. Liberdade de expressão é um valor que eu considero inegociável e incondicional. Qualquer pergunta que comece como “deve fulano ter liberdade de expressão … ?” é por mim respondida com sim antes de ouvir as condições. Mas eu não consigo justificar essa resposta sem apelar para as minhas crenças sobre o mundo (4). Porém liberdade de expressão não é liberdade para exigir qualquer tipo de apoio por parte de quem quer que seja, quanto mais apoio público, para propagação das suas idéias.

Ahá, diria um atento: o cientista tem apoio e financiamento público não só para propagar suas idéias como para ensiná-la às criancinhas, pesquisá-las, aprofundá-las, publicá-las e divulgá-las como quiser!!! Isso é fato. Mas o cientista só o tem sob duas condições, pelo menos na minha opinião:

  • a ciência, calcada na busca da sanação objetiva das dúvidas, produz progresso técnico, intelectual e filosófico. Iniciativas baseadas na certeza pseudo-científica geralmente conduzem ao estacionamento e até ao regresso;
  • ao desenvolver a sua atividade o cientista deve aprofundar a cultura da dúvida e da pesquisa objetiva, propagando essa cultura entre os seus alunos e entre os contribuintes que o financiam, para o lucro da sociedade.
Diante de toda essa pintura idealizada, cabe-me agora atacar os cientistas pela sua não-realização. Os cientistas brasileiros, guardando-se célebres exceções,  não têm divulgado satisfatóriamente suas pesquisas, não têm procurado desenvolver uma satisfatória “filosofia da ignorância” (para citar Feynman novamente) , não têm estimulado em seus alunos essa cultura de ter dúvidas e procurar resolver as boas dúvidas. Não têm sido bem sucedidos em promover o ensino de ciência, que não é o ensino de uma zoologia de fórmulas matemáticas, mas a propagação da idéia de que a admissão da dúvida e da busca de sua sanação como elementos fundamentais do progresso.
Quando a academia toma para si suas obrigações não é preciso lutar contra a pseudo-ciência. Ela simplesmente não se sustenta diante de uma visão do mundo que admite a ignorância. Em contraste, quando a academia não faz a sua obrigação, a sociedade não se vê disposta a financiá-la, não sente os benefícios de desenvolver ciência madura em suas universidades e volta-se às verdades reveladas e às certezas destrutivas.

Notas:

(1) E isso não é verdade para qualquer questão filosófica?

(2) Convite a Física são palestras semanais no Instituto de Física da USP. São destinadas ao público leigo. Aberta ao público, entrada franca. Por favor: lotem essas palestras.

(3) Leia mais sobre o papel da dúvida na ciência segundo Feynman aqui: http://laserstars.org/bio/Feynman.html

(4) E alguém pode objetar: alguém consegue justificar alguma resposta sem apelar para suas crenças ? Mas acho que vocês entenderam o que eu quis dizer…

  1. domingo, 19 out 2008; \42\UTC\UTC\k 42 às 06:12:56 EST

    Fala a verdade: a gente tem mais é que se divertir… :p
    Que venham os teóricos de conspiração!

  2. Fabio Pra
    segunda-feira, 20 out 2008; \43\UTC\UTC\k 43 às 22:44:14 EST

    Excelente post, parabéns.

  3. Leandro Seixas
    terça-feira, 21 out 2008; \43\UTC\UTC\k 43 às 23:36:38 EST

    Liberdade de expressão ou Libertinagem de expressão? Em muitos casos os que os pseudo-cientistas fazem é o uso da libertinagem de expressão, inventam qualquer coisa e usam o nome da ciência para tentar “validar” a bobagem que falam.

  4. quinta-feira, 23 out 2008; \43\UTC\UTC\k 43 às 07:41:34 EST

    Leandro,

    a partir do momento em que nos negarmos a conceder liberdade absoluta de discurso ==independente de conteúdo==, qualquer tipo de censura passa a ser possível.

  5. Gu
    sexta-feira, 19 dez 2008; \51\UTC\UTC\k 51 às 18:49:49 EST

    Spa, no entanto sabemos que a experiência interna subjetiva é a única fonte de certeza (critério de aceitação de uma verdade por uma pessoa) que temos.
    Outro problema que, a meu ver, levanta questões delicadas é o do “conhecimento racional”, entendido como conhecimento comunicável intersubjetivamente: este pode ser que seja impossível e, se possível, fictício (numa visão idealista).

  6. Henrique Fleming
    domingo, 21 dez 2008; \51\UTC\UTC\k 51 às 05:49:31 EST

    Rafael,

    imagino que a sua “liberdade absoluta de discurso” não inclua uma condenação do “refereeing” das revistas científicas. Estou certo ou errado?

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