Arquivo

Archive for quinta-feira, 4 dez 2008; \49\America/New_York\America/New_York\k 49

Educação em física

quinta-feira, 4 dez 2008; \49\America/New_York\America/New_York\k 49 15 comentários

Antes de mais nada, um disclaimer: Como opiniões sobre futebol, sexo, rock and roll e política são controversas, deixo bem claro que o que vou escrever aqui é de pura responsabilidade minha e pode não representar as opiniões, igualmente válidas para debate, dos colegas editores desse blog.

Dito isso, vamos começar. Tendo conhecido alguns institutos de física no Brasil, posso dar uma opinião representativa que o nível médio dos alunos nos cursos de licenciatura em física é sensivelmente pior que dos alunos no bacharelado. Posso também dizer, e agora com as grades curriculares para respaldar minha opinião, que os cursos de licenciatura em física são bem mais limitados que os cursos de bacharelado no que tange ao conhecimento de física que é necessário para obter o diploma. Há um pensamento, errado, de que apenas um conhecimento básico de física é necessário para ensinar física básica. Se você já teve que falar em público, você sabe que quanto mais perto do limite do seu conhecimento você chega, mais desestruturada é sua exposição. É natural, contudo. É necessário saber mais do que aquilo que você se propõe a falar para ter esse conhecimento em perspectiva. Isso acontece em todos os níveis. Eu conheço uma pessoa que diz que se você não consegue ver a incompleteza de uma exposição, você não a entendeu (ele também costuma dizer que se você não consegue generalizar um artigo, você também não o entendeu, o que tem como corolário que ninguém entendeu seu artigo mais recente). Algumas pessoas dizem que há uma supervalorização do método sobre o conteúdo nos cursos de licenciatura de física. Eu não chegaria a esse ponto. Nos cursos de licenciatura que eu fiz não achei que supervalorizavam o método, simplesmente ignoravam o conteúdo!

Mudando um pouco de assunto, vou contar uma história sobre um amigo meu (se o Tom tem um primo, eu posso ter um amigo), que é assistente de professor numa universidade americana e que, com o fim do semestre, estava conversando com um de seus alunos que mostrava uma certa preocupação com a nota que ele iria receber no curso. Esse amigo perguntou se ele estaria preocupado por causa das aplicações para a pós-graduação, mas ele, para surpresa desse meu amigo, disse que estava preocupado porque queria ser professor de física no ensino médio! Muito interessado, esse amigo perguntou como era o processo de licenciatura aqui em Nova York. Bem, do que ele aprendeu nessa conversa, reporto. Primeiro, para você ser professor de física, você tem que ser físico. Então tem que fazer as mesmas matérias obrigatórias que todo mundo. Depois, você tem que ser aceito no departamento de educação da universidade, que só aceita alunos com boa média (algo que poderia ser traduzido para o Brasil como uma média maior que 7,0!), para fazer as matérias relacionadas à pedagogia. Tendo concluído esse processo, o pretendente tem que fazer uma prova de competência, aplicada independentemente da faculdade, para ter uma licença de professor. Mas essa licença não é definitiva. Após cinco anos de experiência no magistério, esse aluno tem que voltar a uma insitutição de ensino superior para fazer um mestrado em educação em física. Só aí então ele é um professor de física pleno. (NB: Isso pode mudar muito de universidade para universidade e, principalmente, de estado para estado nos EUA.)

Eu fiquei pasmo com a história, principalmente com o cenário que contei antes. Foi de me deixar quase envergonhado. Porque, pode ser verdade que o Brasil precisa de mais pesquisadores em física, mas é mais verdade ainda que o Brasil precisa desesperadamente de muitos mais bons professores de física para o ensino médio e fundamental. Mas como se faz isso? Na nossa sociedade, não tem muito segredo: dinheiro. Em vez de ter gente brigando por uma regulamentação inútil da profissão de físico, devia é ter gente brigando por um salário inicial mínimo decente para professores de física previsto em lei, e pela implementação de uma prova de proficiência para que seja emitida uma licença para lecionar física. Algo no estilo do que a OAB faz com os advogados, ou o que parece que é feito por aqui. Ao mesmo tempo, em vez dos diretores de institutos de física estarem fazendo vista grossa para falta de qualidade na licenciatura, talvez por medo de falta de alunos, eles deviam é estar se preocupando em aumentar, em muito, o nível dos formandos.

Isso é um bom ponto de partida para a melhora da educação. Bons salários atraem bons alunos, bons alunos se tornam bom profissionais bem remunerados, bons profissionais bem remunerados não se sujeitam a trabalhar sem infraestrutura, bons professores com boa infraestrutura fazem um povo cientificamente educado. E se tem algo que podemos fazer para melhorar o Brasil é educar cientificamente nossas crianças.

Mas, como não sou eu (ainda) que movo os pauzinhos da política, isso é apenas um sonho.


Notas (5-dez-2008):

  • Visto que esse post, que foi baseado apenas em conversas com alunos e não exatamente numa verificação aprofundada da situação legal, gerou uma certa controvérsia, adiciono links para quem quiser ler mais e talvez ter informações mais sólidas:

    Becoming a physics teacher (Stony Brook University)
    Teaching in New York

  • Além disso, quero deixar claro que meu objetivo não foi, de forma alguma, ofender qualquer aluno de licenciatura em física ou professor de física. Eu só quis dividir minha surpresa com a diferença de seriedade com que a formação de professores é tomada. Se você considerar que a Stony Brook University é uma universidade pública e nem de longe é uma Ivy League ou coisa parecida, acho que a descrição é bem representativa.

A semana nos arXivs…

quinta-feira, 4 dez 2008; \49\America/New_York\America/New_York\k 49 9 comentários


%d blogueiros gostam disto: