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Archive for janeiro \29\America/New_York 2009

Forca Tarefa para Tool Kit sobre Recursos Educacionais Abertos

quinta-feira, 29 jan 2009; \05\America/New_York\America/New_York\k 05 Deixe um comentário

Já divulguei aqui o workshop sobre Recursos Educacionais Abertos, ocorrido na USP no final do ano passado. Estou repassando aqui para o Ars Physica esse email da Carolina Rossini sobre Recursos Educacionais Abertos (REA) no Brasil.

A Carolina organizou o primeiro workshop sobre REA na USP
<http://wiki.stoa.usp.br/OER-Workshop>, junto com o professor Ewout ter Haar, do IFUSP. Ela também estuda questões sobre propriedade intelectual e tem bastante contato com o pessoal da Creative Commons.

Quem quiser entrar na lista de emails de lá, visite

http://groups.google.com/group/rea-lista

ou mande um email direto para rea-lista-subscribe@googlegroups.com.

Também os convido a assinar a  Declaração de Cidade do Cabo para a Educação Aberta:

http://www.capetowndeclaration.org/translations/portuguese-translation

e visitar a página (em inglês) sobre Open Educational Resources:

http://oerwiki.iiep-unesco.org/

Abraços!

Tom

———- Forwarded message ———-
From: Carolina Rossini
Date: 2009/1/26
Subject: Forca Tarefa para Tool Kit sobre Recursos Educacionais Abertos
Estimados colegas,

Vocês encontram-se copiados neste e-mail por terem, de uma forma ou de outra, expressado interesse sobre a discussão relativa a recursos educacionais abertos no Brasil.

Estas discussões iniciaram-se em dezembro de 2008 por meio de uma série de reuniões e workshop com o Open Society Institute – um dos lideres do movimento internacionalmente e co-autor da Declaração sobre Educação Aberta de Cape Town. (ver aqui:
http://www.capetowndeclaration.org/translations/portuguese-translation)
Um dos workshops realizados foi na USP e seus resultados podem ser vistos aqui, inclusive apresentações:

http://wiki.stoa.usp.br/OER-Workshop

Uma força tarefa internacional esta sendo organizada ao redor das discussões para o desenvolvimento de um Tool-Kit sobre recursos educacionais abertos a ser elaborado colaborativamente para posterior distribuição em escolas e universidades Brasileiras e pelo mundo.

O trabalho aproveitará trabalhos já realizados, mas tem como intenção melhorá-los e adaptá-los as necessidades Brasileiras. Além de tornar a linguagem mais acessível e apelativa a professores, educadores, e alunos.

Alguns trabalhos internacionais de referência de base são OER Handbook (produzido pelo COSL) – http://www.wikieducator.org/OER_Handbook –  e o rascunho produzido pela comunidade OER coordenada pela UNESCO – http://oerwiki.iiep-unesco.org/index.php?title=UNESCO_OER_Toolkit.

O objetivo deste Tool-Kit é aproximar a população brasileira,
principalmente políticos, professores, educadores, acadêmicos e
estudantes das discussões relativas a recursos educacionais abertos e seus benefícios, como acesso ao conhecimento e a uma ampla gama de materiais e metodologias de ensino que podem ser compartilhadas e desenvolvidas de forma colaborativa. O Tool-Kit trabalhará com conceitos básicos, estratégias de desenvolvimento de Recursos Educacionais Abertos, questões sobre propriedade intelectual a serem enfrentadas, além de trazer exemplos de REA que podem ser utilizados, no intento de divulgar o que já existe no Brazil e exterior.

Desta forma, venho, por meio deste email, perguntar-lhes se querem fazer parte desta força tarefa contribuindo com sugestões, duvidas e conteúdo. Por favor, responder em e-mail individual para Carolina Rossini.  Peço também, que enviem este email a colegas, alunos e instituições possivelmente interessadas em participar desta discussão.

Uma lista de debate será organizada e acesso a plataforma wiki para trabalho no Tool-Kit será autorizado.

Abraço e obrigada,

Carolina Rossini
Coordenadora
Projeto Recursos Educacionais Abertos Brasil: Perspectivas e Desafios
Apoio: Open Society Institute e Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas e
Fellow – Cooperation Project
Berkman Center for Internet and Society
Harvard University

e

Mônica Steffen Guise Rosina
Coordenadora Regional
Pesquisadora – Escola de Direito de São Paulo
Fundação Getulio Vargas
e
Pesquisadora – A2K Project
Yale University

Se você fez uma descoberta, coloque no título.

quarta-feira, 28 jan 2009; \05\America/New_York\America/New_York\k 05 1 comentário

Okay, já estou ficando entristecido com a colaboração CDF. O que aconteceu com a tradição de escrever artigos como o do E. Segré “Observation of antiprotons”? Com mais de 100 artigos no arxiv todos os dias, o CDF realmente espera que quem não faz física de precisão vai ler o conteúdo de um artigo com título Search for High-Mass e+e Resonances in pp̅ Collisions at sqrt[s] =1.96  TeV? 😡

O artigo saiu dia 23, e a principal conclusão, além da óbvia de que nenhum Higgs foi encontrado na busca, é que há um pequeno excesso ao Modelo Padrão na seção de choque para q^2 = - (240\; \text{GeV})^2. É só uma flutuação estatística, no entanto. (Se fosse estatisticamente significativo, será que o título melhoraria? :p)

Atualização: o artigo saiu no arxiv em 2 de outubro, 23 de janeiro na Phys Rev.

Relatividade: ainda válida.

sábado, 24 jan 2009; \04\America/New_York\America/New_York\k 04 4 comentários

O princípio de relatividade é um dos mais fundamentais da física, portanto é obrigação dos físicos testá-lo até o extremo 🙂 Uma forma simples de fazer isso é escrever todas as interações imagináveis das partículas conhecidas que possam violar a Relatividade. Análise dimensional ajuda nessas horas, porque em unidades da constante de Planck e da velocidade da luz, as energias de interação tem unidade de massa a quarta potência: [m]4. Então, por exemplo, análise dimensional diz que a interação de dois fótons com um escalar constante é [m]5, logo essa interação (que viola a Relatividade) tem que ser acompanhada de um coeficiente 1/M onde M é alguma escala de massa. Como a relatividade é observada a primeira vista como uma boa simetria da Natureza, nós podemos adicionar uma série de termos em potências de 1/M, suprimindo as violações da relatividade pela escala de massa M. Se M for grande, as violações da relatividade são pequenas.

Alan Kostelecky da Universidade Indiana e outros fizeram uma lista sistemática de todos os acoplamentos imagináveis do Modelo Padrão que poderiam violar a Relatividade. Na última quinta-feira, ele apresentou uma tabela atualizada com o resumo dos dados experimentais que tentaram medir essas interações. A maioria são medidas de alta precisão em física atômica e matéria condensada.

A situação presente dos testes é que se há interações que violam a Relatividade dentro desse formalismo, elas estão suprimidas por fatores que vão de 1020 GeV até 1040 GeV. Para uma idéia, a massa de Planck, a escala de massa a partir da qual a gravidade se torna importante, é 1019 GeV… Parece que podemos confiar na validade da Relatividade até a teoria de cordas entrar em ação. 😉

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Quando o universo está expandindo, ele pode fazer você chegar atrasado no trabalho

sexta-feira, 23 jan 2009; \04\America/New_York\America/New_York\k 04 7 comentários

Já é uma piada velha, mas para quem ainda não conhece, é de um ensaio do Woody Allen:

Eu acordei na sexta-feira e porque o universo está em expansão levou-me mais tempo que o de costume para alcançar meu roupão. Isso me fez sair atrasado para o trabalho … Por favor, tenha em mente que um homem em uma nave espacial próximo da velocidade da luz aparentaria estar na hora certa ao trabalho — ou talvez até um pouco adiantado, certamente melhor vestido. Quando eu finalmente cheguei ao escritório e aproximei-me do meu chefe, Sr. Muchnick, para explicar o atraso, minha massa aumentava a medida que me aproximava dele, o que ele interpretou como um sinal de insubordinação.

E já que hoje é sexta-feira e estamos mais atrasados que de costume para o trabalho por causa da expansão do universo, outro pedaço de humor na física: The Crackpot Index (tradução do Prof. João Carlos O índice de birutice) 🙂 Veja, por exemplo, alguns dos itens:

  • 1 ponto para cada declaração sobre a qual a maioria concorde que é falsa.
  • 5 pontos para cada uma dessas declarações que, após uma correção cuidadosa, o autor insista em teimar.
  • 5 pontos para o emprego de uma experiência teórica que contradiga os resultados de uma experiência real largamente acreditada.
  • 10 pontos para cada afirmação de que a mecânica quântica é fundamentalmente errônea (sem provas concretas)
  • 10 pontos por argumentar que, embora uma teoria corrente, bem estabelecida, preveja os fenômenos corretamente, ela não explica “por que” eles ocorrem, ou não consiga explicar um “mecanismo”.
  • 10 pontos para cada comparação favorável de você com Einstein, ou qualquer argumento de que a as Teorias da Relatividade, Especial e/ou Geral, são fundamentalmente erradas (sem provas concretas).

Já identificou algum biruta? 🙂 tsc tsc 😛

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Enquanto isso, no brasil… Corte de verbas para Ciência

quinta-feira, 22 jan 2009; \04\America/New_York\America/New_York\k 04 14 comentários

Enquanto o presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, está a caminho de um maior estímulo a pesquisas científicas em seu país, tendência mundial, como na Índia, Coréia do Sul, China (alguém acha um link?) e possivelmente muitos outros países, o Brasil está cortando 18% das verbas destinadas para ciência e tecnologia.

Aqui você é o palhaçoO ministro da ciência e tecnologia, Sérgio Resende, considera o corte de R$ 1,1 bilhão como irresponsável. Segundo a matéria da Folha, o responsável pelo corte é o deputado senador Delcídio Amaral (PT-MS).

Me pergunto, o que o minstro fez para evitar esse corte absurdo?  O que podemos fazer na prática como forma de protesto? Não sei se é reversível, mas os responsáveis devem pagar. Que tal algum leitor daqui adotar o deputado senador Delcídio? (Melhor estender mais ainda a campanha Adote um Vereador, como já sugerido pelo Névio.)

Atualizando (22/01/08 às 14h):

Notícias relacionadas (entendendo a crise):

Veja também

[Tradução] O plano de estímulo de Obama deve incluir ciência

quarta-feira, 21 jan 2009; \04\America/New_York\America/New_York\k 04 7 comentários

Recentemente, no Financial Times, foi publicada uma carta escrita por David Gross e Eric Kandel, dois grandes cientistas e laureados com o prêmio Nobel em física teórica e neurociências, sobre investimento em ciência.

Obama’s stimulus plan must include science

Ela por si só é interessante, mas há uma resposta que torna a discussão mais interessante ainda.

No stimulus if highly trained scientists are sent home

Com o intuito de começar uma discussão aqui no Ars Physica, vou traduzir as duas carta para o português. Desculpem qualquer erro, mas meu inglês e meu português são péssimos.

Em 1933, nas profundezas da Grande Depressão, o economista John Maynard Keynes escreveu uma carta aberta ao Presidente Franklin Roosevelt. Nela, ele descreveu em termos que ressonam até hoje, os requesitos para um pacote de recuperação econômica: “Velocidade e resultados rápidos são essenciais… eu ponho em primeiro plano… um grande volume de … gastos sob o auspício governametal… preferência deve ser dada àqueles que podem amadurecer rapidamente numa grande escala.”

Enquanto a equipe do presidente-eleito Barack Obama planeja um programa de estímulo econômico envolvendo grandes gastos, deve parecer aos outros que prioridades de administração, tal como um forte aumento no investimento federal em ciências, deve esperar por melhores tempos. Nós acreditamos, juntamente com o Sr. Obama, no contrário. O estímulo provê uma grande oportunidade de começar a reconstruir a ciência dos EUA, já que um aumento do financiamento para a ciência é um estímulo ideal: cria bons trabalhos em toda a economia; há uma grande demanda de tal forma que o dinheiro pode ser gastado imediatamente; e ele representa um investimento em infraestruturas de pesquisa científica e educação superior que são vitais para o futuro.

Pesquisa em ciência básica nos EUA é amplamente financiada por apoios a pesquisadores ou laboratórios nacionais concedidos pelo National Institutes of Health, National Science Foundation, o Departamento de Energia e outras agências. O dinheiro federal que as agências de fomento investem em apoios, infraestrutura científica ou laboratórios nacionais pode ser gasto imediatamente em programas de pesquisa já aprovados, salários para os cientistas em laboratórios, compra de suprimentos e equipamentos (a maioria de pequenos comércios americanos) e despesas institucionais de faculdades, universidades e escolas de medicina onde os pesquisadores trabalham.

Financiamento em ciência também cria bons empregos. Por exemplo, Families USA estimou que para cada um bilhão de dólares (€742m, £660m) de apoios à pesquisa financiados pelo NIH, mais de 15000 empregos com uma renda média de U$52000 por anos são criados, e 2,21 bilhões de dólares são gerados em novas atividades comerciais, um “multiplicador” consideravelmente melhor que os muitos propostos nas partes do pacote de estímulo.

O financiamento federal para pesquisas não-militares em ciências da saúde foi cortada em grandes cifras a cada ano desde 2004 e por muito mais nas ciências físicas. Como um resultado, a saúde da empreitada científica dos EUA está seriamente ameaçada. As taxas de sucesso para apoios a pesquisadores é perigosamente baixa, uma situação que não somente ameaça pesquisadores produtivos já establecidos como torna as carreiras emergentes de jovens investigadores, das quais nossa pesquisa no futuro depende, mais perigosas.

O dinheiro poderia ser gasto dentro de semanas após a aprovação de um estímulo para financiar várias aplicações altamentamente cotadas que estiveram esperando apoio em 2008 e repôr dólares cortados dos apoios financiados em anos recentes. A NIH sozinha poderia gastar 5 bilhões de dólares imediatamente em apoios a esses projetos e uma quantidade similar no próximo ano. A NSF, o Departamento de Ciências da DOE e o NIST podem ser igualmente eficientes na aplicação de fundos a propostas de pesquisas já aprovadas e arquivadas e a infraestruturas de pesquisa. Muitos laboratórios nacionais estiveram operando com orçamento inadequado, com projetos atrasados, equipe cortada ou forçada a trabalhar horas reduzidas; projetos estão em perigo de serem terminados e infraestruturas desmontadas sem financiamento adicional.

Investir em pesquisa científica serve a um propósito duplo: é um estímulo imediato à economia e um investimento na liderança americana em pesquisa, engenharia, tecnologia e educação. Essa liderança é vital para a economia e prestígio dos EUA, tal como para o bom sucesso das diretrizes para alcançar independência energética, mitigar o aquecimento global e tratar e curar doenças. Além do efeito multiplicativo imediato do gasto em pesquisa, a propriedade intelectual criada por pesquisas com financiamento público leva a criação de inumeráveis pequenas empresas e, consequentemente, muitas grandes empresas de biotecnologia, energia, tecnologia de computadores e outros campos de ciência e engenharia. O dinheiro seminal federal é multiplicado pela entrada de capital privado. Fundos federais também apoiam virtualmente todos os treinamentos de pesquisa e quase todos os treinamentos acadêmicos daqueles obtendo seus PhDs em ciência e engenharia nas intituições americanas e então treina a equipe de pessoal, tal como a equipe de criação, de companhias americanas de ciência e engenharia.

Gastos em ciência, engenharia e tecnologia deveriam ser apenas uma parte relativamente pequena de uma pacote de estímulo maior, mas ainda assim eles poderiam fazer uma contribuição vital ao futuro dos EUA. O aumento em gastos com ciência provê um excelente estímulo nos tempos em que a economia precisa de um. Mas para reconstruir a ciência dos EUA, os gastos devem ser mantidos mesmo quando a economia voltar a ser saudável. O Sr Obama fez um compromisso de restaurar o financiamento científico a níveis suficientes para manter a vitalidade e liderança da pesquisa científica americana. Nós acreditamos que o pacote de estímulo econômico iminente provê uma oportunidade considerável para iniciar esse esforço imediatamente, com força e produtividade.

Vocês acham que o artigo do Gross e Kendel tem razão? Ciência é mesmo um bom lugar para se jogar um monte de dinheiro e revitalizar uma economia ou isso é brio ferido de cientista que teve seus projetos cortados?

A resposta em questão:

Caros, em resposta ao “Obama’s stimulus plan must include science” por David Gross e Eric Kandel (13 de Janeiro): De acordo com estatísticas do NSF, os estrangeiros compreendem aproximadamente 30% da população de alunos de pós-graduação nas universidades americanas (NT: Na que eu estudo, esse número é 2 a 3 vezes maior, mas tudo bem).

Embora eu concorde com a recomendação dos autores que o financiamento de apoios a pesquisa é crítico para a saúde econômica dos EUA a longo prazo, eu tenho sérias dúvidas sobre sua eficiência sem uma reforma nas leis de imigração.

Por muito tempo, o debate sobre a imigração para os EUA foi concentrado na imigração ilegal. Enquanto isso, estudantes de pós-graduação em situação legal, que (normalmente) são treinados por cinco anos para impulsionar a tecnologia a novas fronteiras ao custo de impostos dos contribuintes, são forçados a se virar com artifícios ridículos se desejarem ficar no país depois desse período. De fato, muitos não são capazes.

Eu não consigo pensar num estímulo pior que mandar engenheiros e cientistas altamente treinados para casa.

O argumento da resposta é bom ou novamente é brio ferido de algumas pessoas em particular?

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Para quem quer ir a pós-graduação no exterior

terça-feira, 20 jan 2009; \04\America/New_York\America/New_York\k 04 2 comentários

Atente para esses links interessantes do interior dos comitês de admissão para pós-graduação nos Estados Unidos:

  1. Letters of Recommendation – Assorted Observations
  2. Things the Grad Admissions Committee Does Not Wish to See

Ah, e já que o post é sobre esse assunto, quem não tem a menor idéia de como fazer, eu sempre recomendo ir buscar o informativo dos sites das instituições, que explicam passo-a-passo. Um guia útil é da UC Berkeley. E na hora de fazer a decisão dos locais, vejam algumas dicas do Sean Carroll.

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Teorias supersimétricas e funções beta exatas

domingo, 18 jan 2009; \03\America/New_York\America/New_York\k 03 1 comentário

Bem, voltando de férias e retomando as atividades do blog. Nas férias deu para conhecer um pouco dos Estados Unidos e, quem sabe, até o final do doutorado, dê para conhecer mais. Vamos começar esse semestre com um assunto leve, já que oficialmente eu ainda tenho uma semana de férias. 😀

No semestre passado falei em vários posts sobre a maravilha que são teorias supersimétricas. Tinha me planejado até a falar mais, o que teria sido uma parte 4 da minha série de posts, mas não deu tempo. Eu ia falar sobre a interessante estrutura topológica que os vácuos supersimétricos têm e como isso tem tudo a ver com uma simplificação brutal que acontece na integral de trajetórias de teorias com supersimetrias. Talvez volte a falar sobre isso e teorias de campo topológicas em outros posts, mas agora vou pegar esse caminho por outra estrada.

Sem entrar em maiores detalhes algébricos, uma forma simples de entender supersimetria é considerar para cada campo quântico da sua teoria a existência de um outro campo com a estatística oposta. Uma das coisas mais interessantes em teoria quântica de campos é que a interação entre os campos nos leva a considerar processos em que partículas virtuais são criadas e destruídas. Isso faz com que os parâmetros de uma teoria quântica de campos dependam da escala com que se está olhando para ela. Quando temos teorias supersimétricas, as contribuições dos campos originais e daqueles introduzidos com estatística oposta praticamente se cancelam. A exploração desse quase cancelamento requer uma forma diferente de ver a depedência das TQC com a escala. Pelo menos diferente daquilo que está nos livros textos usuais e por isso que acho que esse post é interessante.

Em geral, um parâmetro da teoria sem considerar esses processos virtuais é chamado de parâmetro nu g_B. Já um parâmetro com todas as contribuições quânticas consideradas é chamado renormalizado g_R. Para podermos calcular essas correções, introduzimos parâmetros extras na teoria chamados de parâmetros de regularização M_{R} e vou chamar a escala da teoria de \mu. Tudo que falamos até agora pode ser resumido então na seguinte tabelinha:

M_R\frac{\partial}{\partial M_R}g_R=0
\mu\frac{\partial}{\partial\mu}g_R=\beta(\mu)

A função beta definida acima mostra então como o parâmetro renormalizado evolui com a escala. A primeira equação é um dos pontos de partida para o estudo do grupo de renormalização. Essa é a visão canônica do assunto. Mas, em vez de focar sobre as quantidades renormalizadas, podemos fazer a mesma tabelinha para os parâmetros nus:

M_R\frac{\partial}{\partial M_R}g_B=\beta(M_R)
\mu\frac{\partial}{\partial\mu}g_B=0

É um exercício interessante em teoria de renormalização provar que essa função beta definida na primeira linha da segunda tabela é a mesma da discutida anteriormente (para teorias renormalizáveis).

Voltando às teorias supersimétricas, devido ao quase cancelamento que tinha dito antes não é difícil calcular a dependência de g(M_R). O único lugar onde esse cancelamento não ocorre é nos modos zero desses campos num background de ínstanton. E integrais de trajetórias de modos zeros não passam de integrais usuais que podemos calcular formalmente a medida de integração. Assim, como que um por um passe de mágica usando a tecnologia de ínstantons podemos calcular a função beta de teorias supersimétricas exatamente, isso é, com todas as contribuições perturbativas.

Esse é um resultado difícil de verificar perturbativamente, já que a partir de 3 loops o valor da função beta depende do esquema de regularização (outro exercício interessante :P) e, além disso, esquemas de regularização que preservam supersimetrias são muito desastrosos. Apesar disso, usando esse resultado, pode-se facilmente verificar os fatos conhecidos de que a teoria com \mathcal{N}=2 só tem contribuições à função beta em 1-loop e que a teoria com \mathcal{N}=4 é quanticamente conforme (as quantidades não variam com a escala).

Para quem quiser saber mais detalhes:

V.A. Novikov, M.A. Shifman, A.I. Vainshtein e V.I. Zakharov,

  • Exact Gell-Mann-Low function of supersymmetric Yang-Mills theories from instanton calculus, Nucl. Phys. B 229 (1983) 381
  • Beta function in supersymmetric gauge theories, instantons versus traditional approach, Phys. Lett. B 166 (1986) 329.

Usando técnicas um pouco diferentes, também pode ser interessante ler:

N. Arkadi-Hamed e H. Murayama,

  • hep-th/9707133
  • hep-th/9705189

Divirtam-se.

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Cursos online que valem a pena.

domingo, 18 jan 2009; \03\America/New_York\America/New_York\k 03 2 comentários

Uma tendência já estabelecidade entre as universidades americanas é a disponibilização online de vídeos das aulas dos seus cursos, ou de alguns de seus cursos. A qualidade das interfaces varia, a qualidade dos vídeos varia, mas em geral vale muito a pena gastar um tempinho com isso. Nesse post eu vou  fazer um reviewzinho do que tem disponível por aí, comentando alguns cursos que eu assisti.

Open Yale Courses  – http://oyc.yale.edu/

A Yale University disponibiliza cursos no seu site Open Yale Courses. São 15 cursos divididos em departamentos, a maioria nas áreas de humanidades.Além dos vídeos alguns cursos trazem leituras e todas as aulas estão transcritas em inglês, inclusive as perguntas feitas pelos alunos. Isso facilita muito para quem não tem compreensão oral de inglês mas consegue ler. As aulas estão disponíveis online, em um player de vídeo em flash (similar ao do youtube) ou para download em formato quicktime em baixa ou alta resolução. Eu prefiro assistir online, apesar da inconveniência de ter que esperar o vídeo carregar sem poder avançar, o que torna mais difícil assistir apenas parte de uma aula e continuar mais tarde.

Frontiers and Controversies in Astrophysics
http://oyc.yale.edu/astronomy/frontiers-and-controversies-in-astrophysics/

É um curso sobre achados e questões modernas da astrofísica dedicado a estudantes fora das áreas de ciências (non-science majors). O conceito é um pouco estranho para os universitários brasileiros, acostumados com seus departamentos estanque que não oferecem esse tipo de interação com outras áreas. Mas é muito interessante de fato e um curso que certamente ajudaria alunos de colegial e aficcionados por astronomia a entender os temas modernos de pesquisa em astronomia e astrofísica. O professor é Charles Bailyn, um cientista muito produtivo nessa área.

Introduction to Ancient Greek History
http://oyc.yale.edu/classics/introduction-to-ancient-greek-history

Esse curso eu assisti inteiro. É a história dos povos gregos desde a civilização de Micenas até a ascensão de Filipe da Macedônia e o fim da autonomia das cidades gregas. O professor é ilustre, Donald Kagan, famoso autor de livros importantes sobre a grécia antiga e conhecido pensador e scholar americano. As aulas são fascinantes. O professor demonstra o quanto conhecer esses caras ajuda a entender o homem e a história. Recomendadíssimo o curso.

Financial Markets
http://oyc.yale.edu/economics/financial-markets

Um curso introdutório sobre o funcionamento do mercado financeiro. Inclui algumas palestras de oradores ilustres na área, incluindo David Swensen, o cara dito responsável por multiplicar em muitas vezes o endowment da universidade de Yale usando técnicas modernas de portfolio management.

Esse é um curso que eu recomendo fortemente, especialmente as primeiras aulas, para que as pessoas percam o preconceito com relação aos mercados financeiros, entendam qual é o seu importante papel na organização da sociedade, e percebam como essa tecnologia funciona. A crise atual é bem discutida em algumas aulas. O professor é o  Bob Schiller, um famoso economista e pesquisador, autor de diversos livros, tanto técnicos quanto para leigos.

Death
http://oyc.yale.edu/philosophy/death

Um curso introdutório de metafísica. O professor é Shelly Kagan. Um curso muito interessante para quem é completamente leigo no assunto como eu. A pretexto de discutir sobre a morte e sobre os efeitos dela, o professor introduz diversos assuntos como metafisica platonica, teoria da identidade pessoal, filosofia da mente e até uma discussão filosófica sobre o suicídio.

Modern Poetry
http://oyc.yale.edu/english/modern-poetry

O tímido professor Langdon Hammer fala sobre os difíceis poetas americanos do período moderno. Frost, Ezra Pound, T. S. Elliot, Yeats… todos esses caras que eu nunca consegui entender direito mas sempre fico fascinado com seus textos são explicados. Claro que eu não entendo muita coisa mesmo assim [:p]. Mas ajuda a entender o gênio desses caras. Recomendado a todos os leitores amadores de poesia como eu.

Fundamentals of Physics
http://oyc.yale.edu/physics/fundamentals-of-physics

Um curso introdutório de física superior. Os temas abordados são muito amplos na minha opinião, vão desde o básico de mecanica e chegam até relatividade, passando por gravitação, ondulatória e termodinâmica. Mas é interessante para alunos adiantados de colegial e até pessoas que simplesmente gostam de física. O professor é Ramamurti Shankar.

Introduction to the Old Testament
http://oyc.yale.edu/religious-studies/introduction-to-the-old-testament-hebrew-bible

Esse é o melhor curso disponível no site. A professora Christine Hayes discorre em 24 aulas sobre os textos que compõe a bíblia judaica, o antigo testamento das bíblias modernas. As origens dos textos, suas motivações, o uso dos textos por parte dos povos semitas, a semelhanças, e principalmente as diferenças, com relação a outros textos do antigo oriente próximo, tudo isso é discutido. Mas sabe quando você percebe que o professor não apenas conhece o assunto completamente, mas é também apaixonado pelo tópico? A profa. Hayes é assim. Excepcionalmente clara, com uma oratória absorvente. Eu assisti cada aula desse curso com muita empolgação e planejo assistir novamente. Vale a pena.

Stanford Engineering Everywhere – http://see.stanford.edu/see/courses.aspx

Aulas dos cursos de engenharia de Stanford. O site tem os vídeos disponíveis em várias plataformas: direto no youtube (o que é excelente), no iTunes, em um player próprio feito usando o silverlight, em um site da própria Stanford chamado Vyew, e para download em wmv ou mp4. A melhor plataforma na minha opinião é o youtube. O Vyew é interessante mas não funciona direito no meu computadora. O player em silverlight é bom, tem até opções de compartilhamento no Facebook, lugar para anotações e marcações de trechos do vídeo feitas pelo próprio professo, mas o esquema de buffering é ruim e o vídeo fica parando de tempos em tempos (ou meu clone do silverlight para linux não é muito bom). De qualquer forma, a qualidade dos vídeos é excelente, inclusive havendo versões de alta resolução no youtube.Também tem as aulas transcritas para facilitar o acesso para quem não ouve bem inglês.

Machine Learning
http://see.stanford.edu/see/courseinfo.aspx?coll=348ca38a-3a6d-4052-937d-cb017338d7b1

Um curso do professor Andrew Ng (um doce para quem souber pronunciar o sobrenome dele), um pesquisador  jovem e já muito importante nessa área de Machine Learning. Aliás, para quem não sabe, machine learning é uma abordagem de inteligencia artificial que envolve tentar fazer que o computador aprenda por si mesmo ao invés de ficar tentando dizer a ele o que fazer. São algoritmos de aprendizagem computacional que estão por trás de sistemas de navegação de robôs, algoritmos de análise inteligente de imagens, sistemas de busca sofisticados (como o Google), e outras maravilhas da ciência da computação moderna. Como diz o professor na primeira aula do curso, Machine Learning é o campo mais empolgante da ciência da computação hoje, e talvez um dos maiores feitos da humanidade. Não é preciso muita matemática,  nem  é preciso saber programar muito bem para acompanhar o curso. Tudo pode ser feito no Matlab ou no Octave e basta saber o básico de algebra de matrizes e cálculo.

Programming Abstractions
http://see.stanford.edu/see/courseinfo.aspx?coll=11f4f422-5670-4b4c-889c-008262e09e4e

Parece ser um apanhadão de programação avançada, estruturas de dados, orientação ao objeto e outras coisinhas. Parece interessante para maus programadores como eu finalmente aprenderem essas coisas interessantes, pelo menos verbalmente. Ainda não vi nenhuma aula, entretanto.

Programming Paradigms
http://see.stanford.edu/see/courseinfo.aspx?coll=2d712634-2bf1-4b55-9a3a-ca9d470755ee

As diferenças entre programação imperativa, orientada ao objeto, funcional e programação concorrente. Outro que eu pretendo ver no futuro, mas dá uma preguicinha.

UC@Berkeley no Youtube – http://www.youtube.com/user/ucberkeley

Há vários cursos da Universidada da Califórnia em Berkeley no youtube. Um deles eu comecei a assistir  e achei interessante: The Structure and Interpretation of Computer Science, que apesar do nome pomposo, é um curso de programação funcional (é interessante que lá eles estudem programação funcional antes de estudar qualquer outro paradigma de computação).

MIT – Open Course Ware – http://ocw.mit.edu/OcwWeb/web/home/home/index.htm

Um dos primeiros projetos do tipo, iniciou-se no MIT e agora tem dezenas de universidades aderindo ao redor do globo. Há conteúdo em vídeo para download ou visualização no youtube para uma pequena fração de todo o material disponível, o que já é uma grande quantidade de videos, e alguns são muito bons. O único que eu me meti a assistir um maior número de aulas foi o curso de introdução à biologia (http://www.youtube.com/watch?v=lm8ywGl9AIQ) bem legalzinho. Para encontrar os cursos com material audio/video disponível ver aqui: http://ocw.mit.edu/OcwWeb/web/courses/av/index.htm .

Outros sites e recursos:

http://videolectures.net/

Videos galore. Centenas de aulas em vídeo, palestras e etc. sobre os mais variados assuntos. Tem alguma concentração em computação, mas tem muita coisa em outros assuntos também. O site é bem confuso e mal organizado, mas dá pra se divertir.

TED Talks – http://www.ted.com/index.php/talks

Um site fantástico com palestras muito boas sobre os mais variados assuntos, desde ciência e tecnologia a política e meio ambiente, passando por arte, computação e quadrinhos. Vale a pena ver quase todas as palestras.

Kavli Institute for Theoretical Physics – http://www.kitp.ucsb.edu/talks/

Palestras do KITP gravadas e disponibilizadas online. Palestras técnicas sobre todo tipo de assunto em física teórica.

Videoteca do IF/USP – http://video.if.usp.br/

O Instituto de Física da USP grava todas as palestras que acontecem lá e disponibilizam o vídeo no site acima. Tem de tudo, inclusive as aulas do último curso de verão.

Princeton Webmedia – http://www.princeton.edu/WebMedia/lectures/

Palestras e etc. Ainda não tem as aulas, mas parece que terá em breve.

Podcast da UC@San Diego – http://podcast.ucsd.edu/

Podcast da Universidade da California em San Diego.

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Um pouco de diversão…

sábado, 17 jan 2009; \03\America/New_York\America/New_York\k 03 Deixe um comentário

Dois vídeos pra entreter um pouco:

Diversão garantida! 😈

Neutrinos: a razão de nós existirmos?

quarta-feira, 14 jan 2009; \03\America/New_York\America/New_York\k 03 8 comentários

Resultado recente do experimento MiniBoone aponta para uma nova fonte de violação da simetria carga-paridade (CP) na Natureza: os neutrinos. Esse novo fenômeno pode ser a explicação de porque o universo é dominado por matéria.

Assimetria matéria-antimatéria

Um dos problemas em aberto da física é explicar porque o universo é dominado por matéria ao invés de ser composto por iguais quantidades de matéria e antimatéria. Sabe-se que este é o caso por observações astronômicas. O argumento mais elementar é que o fluxo de raios cósmicos na Terra é dominado por matéria.  Outro mais elaborado é que se o universo fosse feito 50% de bolhas de matéria e 50% de bolhas de antimatéria, então a interface das bolhas deveria ter produzido uma radiação na época da transição de contato térmico para isolamento das bolhas. Isso contribuiria para a radiação gama difusa das galáxias, como calculado por Yi-Tian Gao, Floyd Stecker, Marcelo Gleiser e David Cline em 1990. Como essa contribuição de radiação gama não é observada, o universo não pode ter quantidades iguais de matéria e antimatéria. Em 1997, Andrew Cohen, Alvaro de Rújula e Sheldon Glashow mostraram que mesmo sem esse sinal da produção de raios gama, bolhas de antimatéria causam uma distorção da radiação cósmica de fundo que está excluída experimentalmente.

É possível extrair um valor exato para a quantidade de excesso de matéria sobre anti-matéria se aceitarmos o (bem-sucedido) modelo da nucleossíntese primordial. Nesse caso, a radiação cósmica de fundo dá o seguinte valor para o excesso do número de bárions sobre antibárions por unidade de densidade de entropia por partícula s:

Y_\text{obs} = (n_\text{B} - n_{\bar{\text{B}}})/s = 8.7(3) \times 10^{-11} \; . (1)

No Modelo Padrão há uma assimetria matéria-antimatéria devida tanto a violação dos números leptônicos e bariônicos causada por um efeito quântico chamado de anomalia, como pela violação CP da força nuclear fraca. Começando com um universo com quantidades iguais de matéria e antimatéria, a assimetria do Modelo Padrão gera automaticamente um excesso de matéria, porém usando os parâmetros obtidos em experimentos feitos na Terra, o excesso é de

Y_\text{MP} \sim 10^{-18}

portanto muito menor que o observado. Explicar o número (1) é o desafio da assimetria matéria-antimatéria.

Oscilação dos neutrinos

Em teorias quânticas de campo como o Modelo Padrão, violações CP podem ser parametrizadas por parâmetros de massa que fazem partículas diferentes interagirem entre si. Nos anos 60, Raymond Davis Jr e John Bahcall mostraram que os neutrinos tinham esse tipo de interação, porque parte dos neutrinos tipo elétron produzidos no Sol desaparecia no caminho até a Terra, provavelmente devido a interação direta de neutrinos tipo elétron com neutrinos tipo múon. Com a confirmação desse efeito de oscilação dos neutrinos, abriu-se uma nova porta para a origem da assimetria matéria-antimatéria.

No Modelo Padrão, os neutrinos podem naturalmente ter massa caso o neutrino seja diferente do antineutrino. No entanto, se o neutrino for igual ao antineutrino — como acontece com o fóton –, a massa só pode vir de uma interação nova. Curiosamente, por pura análise dimensional, se o neutrino for igual ao antineutrino a massa tem que ser bem pequena em comparação com a massa das partículas do Modelo Padrão (efeito conhecido como “massa de gangorra”).

Leptogênesis

No caso muito interessante do neutrino ser sua própria anti-partícula, é possível adicionar interações que violam CP entre os neutrinos. Esse tipo de interação é até previsto genericamente se quisermos unificar a força forte com a eletrofraca, o que também automaticamente requer supersimetria. Dado então esse cenário de grande unificação supersimétrica, as auto-interações dos neutrinos que violam CP propagam a diferença entre as taxas de reações de produção de matéria sobre anti-matéria no universo primordial dos neutrinos até o próton e o nêutron. O valor exato depende dos parâmetros da teoria (quantos novos neutrinos existem, qual a escala de energia exata da grande unificação e da supersimetria, a massa dessas novas partículas, etc.), entretanto com os vínculos experimentais atuais é possível que o número (1) seja obtido! Esse mecanismo de propagação da violação CP dos neutrinos para os bárions com intuito de gerar a assimetria matéria-antimatéria no universo é conhecido como leptogênesis.

MiniBoone

Tudo dito acima é razão da relevância do experimento MiniBoone (e seu sucessor projetado, o Boone), no Fermilab, que mede a oscilação de neutrinos e de anti-neutrinos do elétron. O objetivo do experimento é resolver uma contradição: os dados da oscilação de neutrinos atmosféricos e do SuperKamiokande indicam que a diferença de massa ao quadrado entre neutrinos de sabores diferentes é da ordem de 10-5-10-3 eV2, mas o experimento LSND realizado em Los Alamos obteve \Delta m^2 \sim \;\text{eV}^2. O MiniBoone repete os parâmetros experimentais do LSND, mas é um experimento diferente, com outras fontes de erros sistemáticos.

Em 2007, o MiniBoone refutou o resultado do LSND, não observando nenhuma oscilação de neutrinos com \Delta m^2 \sim \;\text{eV}^2 para um feixe de neutrinos de energias maiores que 475 MeV. Entretanto, a quantidade de neutrinos que o MiniBoone deveria medir para energias abaixo de 475 MeV, que pode ser calculada no Modelo Padrão, não foi observada! Há um excesso para baixas energias (Fig. 1) ainda inexplicado. Em 12 de dezembro de 2008, o MiniBoone publicou (que você leu primeiro aqui no Ars Physica! 🙂 🙂 ) na internet um gráfico preliminar (Fig. 2) para a mesma medida para os antineutrinos, onde há consistência com o Modelo Padrão.

Dados do MiniBoone para neutrinos do elétron.

Fig. 1. Dados do MiniBoone para neutrinos do elétron. Para energias < 0.5 GeV, há um excesso de neutrinos (dados em azul) em relação a previsão do Modelo Padrão (barras pretas sem ponto central). O gráfico mostra a contribuição relativa de cada processo do Modelo Padrão para o número de neutrinos assim como fontes de erros.


Dados MiniBoone para anti-neutrinos.

Fig. 2. Dados preliminares do MiniBoone para antineutrinos. Nesse caso os dados são consistentes com a previsão do Modelo Padrão.

Durante este ano, o MiniBoone espera aumentar em 50% o número de eventos para antineutrinos, o que deve diminuir as barras de incerteza da Fig. 2. Por enquanto, o que se pode dizer é que esse resultado pode ser uma flutuação estatística. Mas se os antineutrinos realmente estiverem de acordo com o Modelo Padrão enquanto os neutrinos não, teremos um possível sinal de violação CP no setor dos neutrinos — i.e. se o excesso do MiniBoone para neutrinos não for um erro sistemático. E isso permitiria extrair os parâmetros da leptogênesis e consequentemente avaliar se os neutrinos são realmente a razão pela qual o universo é dominado por matéria.

Ficaremos na expectativa…

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