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[Tradução] O plano de estímulo de Obama deve incluir ciência

quarta-feira, 21 jan 2009; \04\UTC\UTC\k 04 Deixe um comentário Go to comments

Recentemente, no Financial Times, foi publicada uma carta escrita por David Gross e Eric Kandel, dois grandes cientistas e laureados com o prêmio Nobel em física teórica e neurociências, sobre investimento em ciência.

Obama’s stimulus plan must include science

Ela por si só é interessante, mas há uma resposta que torna a discussão mais interessante ainda.

No stimulus if highly trained scientists are sent home

Com o intuito de começar uma discussão aqui no Ars Physica, vou traduzir as duas carta para o português. Desculpem qualquer erro, mas meu inglês e meu português são péssimos.

Em 1933, nas profundezas da Grande Depressão, o economista John Maynard Keynes escreveu uma carta aberta ao Presidente Franklin Roosevelt. Nela, ele descreveu em termos que ressonam até hoje, os requesitos para um pacote de recuperação econômica: “Velocidade e resultados rápidos são essenciais… eu ponho em primeiro plano… um grande volume de … gastos sob o auspício governametal… preferência deve ser dada àqueles que podem amadurecer rapidamente numa grande escala.”

Enquanto a equipe do presidente-eleito Barack Obama planeja um programa de estímulo econômico envolvendo grandes gastos, deve parecer aos outros que prioridades de administração, tal como um forte aumento no investimento federal em ciências, deve esperar por melhores tempos. Nós acreditamos, juntamente com o Sr. Obama, no contrário. O estímulo provê uma grande oportunidade de começar a reconstruir a ciência dos EUA, já que um aumento do financiamento para a ciência é um estímulo ideal: cria bons trabalhos em toda a economia; há uma grande demanda de tal forma que o dinheiro pode ser gastado imediatamente; e ele representa um investimento em infraestruturas de pesquisa científica e educação superior que são vitais para o futuro.

Pesquisa em ciência básica nos EUA é amplamente financiada por apoios a pesquisadores ou laboratórios nacionais concedidos pelo National Institutes of Health, National Science Foundation, o Departamento de Energia e outras agências. O dinheiro federal que as agências de fomento investem em apoios, infraestrutura científica ou laboratórios nacionais pode ser gasto imediatamente em programas de pesquisa já aprovados, salários para os cientistas em laboratórios, compra de suprimentos e equipamentos (a maioria de pequenos comércios americanos) e despesas institucionais de faculdades, universidades e escolas de medicina onde os pesquisadores trabalham.

Financiamento em ciência também cria bons empregos. Por exemplo, Families USA estimou que para cada um bilhão de dólares (€742m, £660m) de apoios à pesquisa financiados pelo NIH, mais de 15000 empregos com uma renda média de U$52000 por anos são criados, e 2,21 bilhões de dólares são gerados em novas atividades comerciais, um “multiplicador” consideravelmente melhor que os muitos propostos nas partes do pacote de estímulo.

O financiamento federal para pesquisas não-militares em ciências da saúde foi cortada em grandes cifras a cada ano desde 2004 e por muito mais nas ciências físicas. Como um resultado, a saúde da empreitada científica dos EUA está seriamente ameaçada. As taxas de sucesso para apoios a pesquisadores é perigosamente baixa, uma situação que não somente ameaça pesquisadores produtivos já establecidos como torna as carreiras emergentes de jovens investigadores, das quais nossa pesquisa no futuro depende, mais perigosas.

O dinheiro poderia ser gasto dentro de semanas após a aprovação de um estímulo para financiar várias aplicações altamentamente cotadas que estiveram esperando apoio em 2008 e repôr dólares cortados dos apoios financiados em anos recentes. A NIH sozinha poderia gastar 5 bilhões de dólares imediatamente em apoios a esses projetos e uma quantidade similar no próximo ano. A NSF, o Departamento de Ciências da DOE e o NIST podem ser igualmente eficientes na aplicação de fundos a propostas de pesquisas já aprovadas e arquivadas e a infraestruturas de pesquisa. Muitos laboratórios nacionais estiveram operando com orçamento inadequado, com projetos atrasados, equipe cortada ou forçada a trabalhar horas reduzidas; projetos estão em perigo de serem terminados e infraestruturas desmontadas sem financiamento adicional.

Investir em pesquisa científica serve a um propósito duplo: é um estímulo imediato à economia e um investimento na liderança americana em pesquisa, engenharia, tecnologia e educação. Essa liderança é vital para a economia e prestígio dos EUA, tal como para o bom sucesso das diretrizes para alcançar independência energética, mitigar o aquecimento global e tratar e curar doenças. Além do efeito multiplicativo imediato do gasto em pesquisa, a propriedade intelectual criada por pesquisas com financiamento público leva a criação de inumeráveis pequenas empresas e, consequentemente, muitas grandes empresas de biotecnologia, energia, tecnologia de computadores e outros campos de ciência e engenharia. O dinheiro seminal federal é multiplicado pela entrada de capital privado. Fundos federais também apoiam virtualmente todos os treinamentos de pesquisa e quase todos os treinamentos acadêmicos daqueles obtendo seus PhDs em ciência e engenharia nas intituições americanas e então treina a equipe de pessoal, tal como a equipe de criação, de companhias americanas de ciência e engenharia.

Gastos em ciência, engenharia e tecnologia deveriam ser apenas uma parte relativamente pequena de uma pacote de estímulo maior, mas ainda assim eles poderiam fazer uma contribuição vital ao futuro dos EUA. O aumento em gastos com ciência provê um excelente estímulo nos tempos em que a economia precisa de um. Mas para reconstruir a ciência dos EUA, os gastos devem ser mantidos mesmo quando a economia voltar a ser saudável. O Sr Obama fez um compromisso de restaurar o financiamento científico a níveis suficientes para manter a vitalidade e liderança da pesquisa científica americana. Nós acreditamos que o pacote de estímulo econômico iminente provê uma oportunidade considerável para iniciar esse esforço imediatamente, com força e produtividade.

Vocês acham que o artigo do Gross e Kendel tem razão? Ciência é mesmo um bom lugar para se jogar um monte de dinheiro e revitalizar uma economia ou isso é brio ferido de cientista que teve seus projetos cortados?

A resposta em questão:

Caros, em resposta ao “Obama’s stimulus plan must include science” por David Gross e Eric Kandel (13 de Janeiro): De acordo com estatísticas do NSF, os estrangeiros compreendem aproximadamente 30% da população de alunos de pós-graduação nas universidades americanas (NT: Na que eu estudo, esse número é 2 a 3 vezes maior, mas tudo bem).

Embora eu concorde com a recomendação dos autores que o financiamento de apoios a pesquisa é crítico para a saúde econômica dos EUA a longo prazo, eu tenho sérias dúvidas sobre sua eficiência sem uma reforma nas leis de imigração.

Por muito tempo, o debate sobre a imigração para os EUA foi concentrado na imigração ilegal. Enquanto isso, estudantes de pós-graduação em situação legal, que (normalmente) são treinados por cinco anos para impulsionar a tecnologia a novas fronteiras ao custo de impostos dos contribuintes, são forçados a se virar com artifícios ridículos se desejarem ficar no país depois desse período. De fato, muitos não são capazes.

Eu não consigo pensar num estímulo pior que mandar engenheiros e cientistas altamente treinados para casa.

O argumento da resposta é bom ou novamente é brio ferido de algumas pessoas em particular?

Categorias:Ars Physica
  1. sexta-feira, 23 jan 2009; \04\UTC\UTC\k 04 às 10:51:51 EST

    Alguns links interessantes relativos a esse assunto:

    http://www.seedmagazine.com/place/ ;

    http://rightfulplace.org/ , http://scienceblogs.com/rightfulplace.php .

    []’s.

  2. sexta-feira, 23 jan 2009; \04\UTC\UTC\k 04 às 11:09:13 EST

    Agora, um pouco do que eu (e muitos com quem eu convivi pessoalmente por anos) penso a respeito desse assunto…

    • Nos USA, é verdade que, quanto mais “básica” e “fundamental” for a área do saber, maior é a razão do número de estrangeiros sobre o número de americanos. (A razão disso, não vem ao caso nesse primeiro momento…)

    • O fato acima nos leva a uma única solução: é melhor agregar essas pessoas altamente treinadas do que relegá-las ao segundo-plano e ao segundo-escalão. Afinal de contas, o que é melhor para esse investimento educacional: Gastar uma grana preta pra aprimorar essas pessoas e arrumar um jeito de deixá-las no país; ou simplesmente jogar o dinheiro no lixo e mandá-las de volta?

    • Os problemas legais que esses “estrangeiros bem treinados” têm enfrentado pra permanecer nos USA, depois de 11 de setembro de 2001, têm sido cada vez maiores.

    • Brios feridos, ou não, a Ciência (mais especificamente, a Ciência Básica e Fundamental) é um dos maiores (senão o *único*) multiplicadores econômicos (pra usar o termo do artigo) — e, paradoxalmente, um dos mais consistentemente menosprezados. O mais interessante é que, historicamente, há vários exemplos excelentes de como essa afirmação é verdadeira: de Arquimedes e Ptolomeu, à da Vinci e Galileu… não faltam evidências. Aliás, a razão histórica para um “Science Adviser [to the President]” é exatamente essa: a figura dum “Cientista da Corte”, daquele fulano cujo único trabalho era ficar ao lado do Rei e mostrar sempre um caminho à racionalidade.

    O grande comentário e diálogo social que eu acho que já passou da hora de ser travado é o seguinte: Por excelência, é o papel da Ciência o de introduzir *racionalidade* e *lógica* na Sociedade como um todo… aliás, no caso das Ciências mais Básicas e Fundamentais (em Inglês muitas vezes chamadas de “Hard Sciences”: Física e Matemática), costuma ser muito mais cristalino esse papel, uma vez que essas se dedicam mais diretamente à modelagem do Mundo.

    O truque é que, sem racionalidade nem lógica, nosso mundo vai pra onde? Qual é o caminho mais provável?

    A humanidade só chegou até aqui por uma única razão, e essa é o constante desenvolvimento e aprimoramento intelectual (cultural e artístico aqui incluídos)… cujo único modo de sobrevivência é via a Ciência e sua luz.

    A alternativa é vivermos num mundo bestial, onde os ‘sentidos’ e os ‘reflexos naturais’ (ímpetos, instintos) colaboram apenas para desigualdades (atualmente expressas de forma sócio-economica-cultural) cada vez maiores…😳 quase me esqueci da onde vivo…😥

    []’s.

  3. sexta-feira, 23 jan 2009; \04\UTC\UTC\k 04 às 11:11:36 EST

    P.S.: Me esqueci de dizer acima…

    Esse é o caminho do “The Edge”, a “Terceira Cultura” (assim como também do movimento de “Cultura Livre”, iniciado pelo de “Software Livre”, que adota os mesmos padrões já adotados pela Ciência há milênios!)… onde “Ciência *é* Cultura”, onde muitas pessoas já descobriram que o melhor caminho é se aplicar o conhecimento acadêmico de forma cada vez mais direta para o benefício da sociedade como um todo…!

    []’s!

  4. sábado, 24 jan 2009; \04\UTC\UTC\k 04 às 08:13:12 EST

    Deixa eu fazer dois comentários sobre a natureza estritamente economica dessas duas cartas.

    O primeiro comentário é: os dois cientistas estão certos quanto ao papel do investimento em ciência em um plano “keynesiano” de recuperação da economia como o empregado por Roosevelt na década de 30. O que interessa, nesse tipo de plano, não é bem o que se faz com o dinheiro, mas que ele seja empregado em projetos de imediata realização, projetos de infra-estrutura, que façam com que o dinheiro gasto vá imediatamente parar nos bolsos dos setores mais básicos da economia.

    Para um plano de recuperação desses, não interessa se os chineses e indianos vão embora depois. Na verdade nem interessa, para o curto prazo, o que eles foram treinados para fazer. O que interessa é que você jogou dinheiro para circular para comprar infraestrutura, para instalar laboratórios, para comprar aço, para instalar trilhos, etc, etc.

    O segundo comentário é: apesar desse tipo de plano ser aclamado como o que salvou os EUA da crise da década de 30, e o Roosevelt e o Keynes serem louvados por serem os salvadores da pátria, não há subsidio científico algum para um plano desse tipo. Não há framework teórico algum para mostrar que de fato se você gastar muita grana governamental em projetos de execução imediata, vai de fato acelerar a economia. Tem alguns leaps de lógica nesse raciocínio.

    Mas o fato é que isso parece ter funcionado 80 anos atrás, e parece a única coisa a se fazer hoje, na falta de uma teoria melhor.

  5. sábado, 24 jan 2009; \04\UTC\UTC\k 04 às 08:16:23 EST

    “vá imediatamente parar nos bolsos dos setores mais básicos da economia.”

    Corrigindo: que o dinheiro NÃO fique nos bolsos, mas seja gasto de forma que acabe entrando no caixa dos setores mais básicos que vão investir em produção.

    A idéia é gerar demanda “artificialmente”, quando ela não existe. E para gerar demanda o mais rápido possível, você compra aço para fazer ponte, instala ferrovias, coloca dinheiro nos projetos que estão prontos, pedindo dinheiro para ser imediatamente executados.

    Pouco importa o que sejam esses projetos, o importante é que eles demandem da indústria e sejam executados imediatamente.

  6. sábado, 24 jan 2009; \04\UTC\UTC\k 04 às 08:19:41 EST

    Nesse sentido, ciência é um ótimo investimento para uma nova versão do “New Deal”.

    Imagina só construir um novo acelerador de partículas: demanda metais, demanda eletrônica, demanda indústria pesada, concreto, demanda mão de obra pesada de construção civil, etc, etc.

    Os ganhos com ciência e tecnologia podem até ser ignorados pela equipe economica quando vê o efeito imediato que isso tem na economia e como isso encaixa direitinho na idéia keynesiana de recuperação de economias em recessão.

    Dane-se que os chineses vão embora depois. Para cada doutor que voltar para a China, injetar-se-ia centenas de milhares de dólares na economia americana. É isso que deve saltar aos olhos.

  1. quinta-feira, 22 jan 2009; \04\UTC\UTC\k 04 às 07:16:18 EST

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