Início > Science, Scientific Politics > Revisão por pares…

Revisão por pares…

terça-feira, 31 mar 2009; \14\UTC\UTC\k 14 Deixe um comentário Go to comments

Já faz tempo que a qualidade do processo de revisão por pares, peer review, me deixa com a pulga atrás da orelha… mas, eu sempre acabo deixando essa questão de lado, achando que, de uma forma ou de outra, a “média” é melhor do que aquilo que eu venho vendo.

Pois bem, hoje saiu um artigo na “Inside of Higher Education” que mostra como esse problema, pelo visto, é muito maior do que eu imaginava,

O ponto é o seguinte: eu não me importo em ter artigos ou projetos rejeitados — de fato, dentro do ambiente acadêmico, ou vc aprende a lidar com rejeição e frustração, ou vc não vive muito. E isso não é necessariamente algo ruim, é apenas parte do “processo científico”, no sentido de que é assim que as “arestas” das proto-idéias são aparadas e trabalhadas, e o “mármore da criatividade é esculpido”, dando origem à Ciência, propriamente dita.

Não, certamente esse não é o problema… a questão é mais sutil, e é sobre o método pelo qual essa avaliação é feita, i.e., é uma crítica ao “como” o processo acontece. Eu explico: Se o avaliador nota erros científicos numa determinada proposta, eu acho absolutamente normal que ele faça o ‘fisking‘ necessário, i.e., que ele prossiga a dissecar o texto, ponto por ponto, comentando os méritos de cada um. Por outro lado, o que eu — pessoalmente — tenho visto (e, pelo visto, tem acontecido em outras áreas do saber também — como argumentado no texto acima) é que as revisões são feitas com um certo descaso… de fato, eu chamaria de “desrespeito” mesmo.

Veja, quando eu escrevo um artigo ou uma proposta, eu, particularmente, o faço com todo o carinho e respeito que tenho pela minha profissão. Dessa forma, eu espero que a revisão venha imbuida do mesmo respeito, do mesmo profissionalismo. Porém, ao contrário dessa expectativa, o que se recebe em troca é uma avaliação que, mais freqüentemente do que deveria, vem sem referência e sem argumentos científicos, mas recheada de generalismos como “esse trabalho será feito de modo isolado da comunidade, uma vez que não é ‘mainstream'”, “essa proposta é extremamente inovadora e rompe com paradigmas de décadas, portanto deve esperar por mais apoio da comunidade”, “não entendi boa parte desse artigo pois a matemática dele está além da minha compreensão, portanto não o recomendo para publicação porque não deve interessar a comunidade de um modo mais geral”, e assim por diante.

Esse tipo de revisão, pessoalmente, eu considero um desrespeito, de uma falta de profissionalismo sem tamanho! Eu mesmo, quando já revisei propostas completa e absolutamente ‘crackpot‘, tive o respeito de fazê-lo exatamente da forma como descrevi acima, ‘fisking’ todos os argumentos, citando fontes e mais fontes, e mostrando claramente os erros envolvidos: se uma pessoa, por mais ‘crackpot’ que seja, se dá ao trabalho da mandar um artigo ou uma proposta de dezenas de páginas (às vezes, até centenas!), o mínimo que se pode fazer é ter o profissionalismo de se refutar os pseudo-argumentos com razões científicas sólidas e robustas, devidamente estabelecidas. Claro que não é agradável ter que revisar propostas completamente crackpots… mas, vc pode muito bem escolher não fazê-lo! Porém, uma vez que se assume a responsabilidade, eu espero sim que o trabalho seja profissional e de qualidade. E não é isso que tenho visto ultimamente…😦

Aliás, tenho visto uma situação bastante deplorável: gente que não conhece a representação integral das funções de Airy (o que não é problema nenhum, posto que uma simples busca na Wikipedia resolve esse problema de modo bastante completo — imagine, então, quando é necessário se extender essa representação para representações “matrix-valued” ou “Lie algebra-valued”), gente que admite não conseguir acompanhar o nível matemático dum artigo (e usa a incompetência pessoal como argumento para justificar a não publicação do mesmo, ao invés de recomendar que outra pessoa avalie o artigo), gente que percebe a criatividade e inovatividade do trabalho mas usa essas qualidades como argumentos derrogatórios contra o fomento do mesmo (dizendo que o trabalho é isolado da comunidade), e assim por diante…😥

O que fazer nessas situações?! Não há absolutamente nada a ser feito… a qualidade dos “revisores” está cada vez pior, e a única coisa que pode ser feita é agradecer a existência dos arXivs, senão, apenas o “arroz-e-feijão” estaria sendo publicado atualmente.

Assim caminha a humanidade…

  1. Leonardo
    terça-feira, 31 mar 2009; \14\UTC\UTC\k 14 às 10:59:01 EST

    como é mesmo aquela história do Fleming? O paper submetido o primeiro referee disse : “it’s wrong”, ai o autor pediu revisão por outro, e o outro disse: “it’s right, but it is trivial”. Nas palavras do próprio Prof Fleming: como não podia ser as duas coisas, foi publicado.

  2. Manuela Cardoso
    sexta-feira, 15 jan 2010; \02\UTC\UTC\k 02 às 11:51:34 EST

    Ainda bem que hoje em dia já existe uma regra universal: quando os dois revisores têm um parecer diferente, há a necessidade e obrigatoriedade em consultar um terceiro avaliador – o que me parece óbvio.
    Muitas críticas têm sido feitas ao processo tradicional de avaliação dos manuscritos por pares (peer review), mas nenhuma sugeriu a sua extinção, pois é por dessa mão invisível como designa Harnad (2000), que a ciência mantém a sua qualidade. Na minha opinião, permitam dizer-vos que, a mim parece-me é que as críticas já estão velhas e gastas…É necesário apresentar alaternativas consistentes. Até lá temos que viver com esta avaliação. Bem hajam!

  1. No trackbacks yet.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: