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Ginástica lógica

domingo, 19 abr 2009; \16\UTC\UTC\k 16 Deixe um comentário Go to comments

Neste momento várias pessoas já estão a par do novo escândalo político do Brasil, a farra das passagens aéreas. Permitam-me usar esse episódio só como um pretexto para uma pergunta meio alerta sobre a forma como pensamos politicamente, e quero ouvir suas idéias.

Eu tenho a impressão que a maioria das pessoas trata a política como se fosse futebol. É assim: a pessoa nasce e descobre que é a favor do político Fulano — no Brasil tem sido assim por muito tempo, embora mais recentemente o debate está se tornando torcida por um partido. Daí elege-se Fulano, e mantém-se uma paixão inesgotável, mesmo em face de novas informações que demonstram cabalmente que Fulano não passava de um interesseiro sem real ideologia política. A pessoa insiste em como as políticas do Fulano estão corretas, ou porque se deve votar no Fulano, até chegar o ponto do ridículo em que é necessária toda uma ginástica lógica para defender a política que se sustentava inicialmente.

A ginástica lógica tem algumas características básicas. Duas delas são i) omitir deliberadamente fatos que contradigam a sua conclusão, isso inclui não apresentar nenhuma racionalidade de como a conclusão pode ser válida em face a pontos contraditórios que são amplamente conhecidos; e ii) ter que buscar uma racionalização obscura para conectar fatos que podem ser mais naturalmente explicados por uma idéia que contradiga a sua conclusão, muitas vezes apelando para elementos não observáveis, p.ex. como o que Fulano pensava ou idéias não declaradas por nenhum dos indivíduos envolvidos todavia que, supostamente, era o que eles tinham em mente.

Vê-se como nem mesmo escândalos de proporção nacional como os que envolveram Collor, Barbalho e ACM, impediram que estes se reinserissem na política. A revelação de que verba do Congresso foi legalmente desviada para comprar passagens de avião para parentes não irá abalar a imagem dos políticos envolvidos. Alguns dos envolvidos eram pessoas que eu tinha uma boa imagem, mas eu não tenho mais, porque eu adapto minha opinião política em face a novas informações, e não tenho absolutamente nenhum amor ou paixão secreta por nenhum político, ideologia política e economica, ou o que for. Se a idéia não dá certo, não corresponde a realidade, eu jogo-a fora.

Então, pensemos nisso: a política é um debate entre torcidas de nossos times do coração, que defendemos mesmo sabendo que estão sendo derrotados e rebaixados, ou é assunto em que é salutar admitir equívocos e mudar de idéia?

Isso transcende a política do Congresso ou do gabinete do governador: se aplica a política dentro da universidade, algo mais próximo talvez da maioria dos leitores deste blog.

  1. Caio
    segunda-feira, 20 abr 2009; \17\UTC\UTC\k 17 às 04:47:58 EST

    Oi Leonardo,
    Aqui é o Caio da USP, fiz o curso de particulas do Gustavo com voce. Eu costumo ler todos os post do Ars Physica, e gosto bastante, mas nao sou de comentar. Já que voce pediu nossa opiniao nesse, aqui vao dois sites que me ajudam a entender como a politica do Brasil funciona:
    http://www2.paulohenriqueamorim.com.br/
    http://www.viomundo.com.br/
    Talvez voce ja os conheca. Eu adicionei ao meu google reader e leio todo dia.
    Caio

    • Leonardo
      segunda-feira, 20 abr 2009; \17\UTC\UTC\k 17 às 21:02:15 EST

      Oi Caio! Obrigado pelos links. Na verdade não conhecia não… Eu já tinha ouvido falar do blog do Luis Nassif. Mas o único site de notícias que eu frequento mesmo é o da Folha.🙂

  2. quinta-feira, 23 abr 2009; \17\UTC\UTC\k 17 às 13:42:29 EST

    Dentro dessa sua ginástica eu diria que o problema em toda essa flexibilidade também se deve ao fato de que no Brasil não existe partidos políticos, mas grupos de interesse.

    Talvez seja por isso também que todos os governos que passaram por aqui não tiveram um plano de nação.

    Fico imaginando como deve ser realizar um plano sério como esses em um local que a preocupação principal é: favorecer o ‘tal amigo’ aliado.

    Infelizmente, se temos governantes tão egoistas, mesquinhos e desinformados quanto eles tem se mostrado, só me leva a crer que também possuímos uma população assim.

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