Internet e ciência

sábado, 2 maio 2009; \18\UTC\UTC\k 18 Deixe um comentário Go to comments

Um tópico recorrente no nosso blog é o livre acesso a informação e como a Internet tem o potencial de mudar a forma como se faz ciência — em geral fica a cargo do Tom, Daniel e Rafael Calsaverini, nossos três mosqueteiros do livre acesso😉

Na edição do mês de maio da Physics World, Michael Nielsen (o mesmo do livro Quantum computation) faz um apanhado histórico da evolução do sistema de publicação na ciência e a dificuldade de se aceitar novos paradigmas (Doing science in the open, Phys World maio 2009). No momento eu só tenho a acrescentar um ponto que o Nielsen não incluiu na sua lista de razões para a dificuldade da ciência atingir o mesmo patamar de colaboração que existe na comunidade de software livre: fama. A ciência é uma carreira profissional como outras e uma parte relevante do comportamento dos indivíduos não é diferente do que você encontra no setor de entretenimento. Orgulho e fama é um componente importante que motiva vários cientistas, eles sempre querem ver seus nomes cravados ao lado de uma equação ou experimento. Plena colaboração e abertura de idéias é entendido como algo comprometedor em um cenário onde as pessoas acham que estão competindo entre si por prioridade de descoberta e não colaborando para entender o universo. Não é incomum quando um grupo de cientistas fez um avanço e tornou-o público, o trabalho publicado contém deliberadamente omissões de detalhes importantes. Isso faz com que os autores do resultado estejam naturalmente a frente dos demais pesquisadores interessados, que terão que resolver pequenos problemas que podem durar semanas. É verdade que a desculpa antes da Internet era espaço nas publicações em vista do volume de material que era produzido. Mas essa desculpa não se aplica mais em um mundo onde você tem 1 gigabyte de email de graça. Eu acredito que a disputa por prioridade é uma das razões pela qual sistemas com open notebooks estão longe de serem adotados pelas principais colaborações científicas do mundo. Se você tem uma idéia de realizar um experimento e surge uma dificuldade no caminho, por incrível que pareça, é comum que as colaborações podem simplesmente desistir ao invés de procurar ajuda externa. Ou quando um grupo de cientistas anuncia um programa de pesquisa e outros indivíduos consideram-no interessante, o segundo grupo ao invés de juntar forças decide realizar o mesmo trabalho de forma independente para competir por prioridade. Eu considero como exemplos os casos da descoberta da energia escura (Dark Energy, Robert P. Crease, Physics World Dec 2007) e o Projeto Genoma Humano (NIH e Celera Corp.), e em bem menor grau as disputas CDF-D0 e CMS-ATLAS. Não é uma questão de apenas reproduzir o resultado para dar maior base científica, muito pelo contrário, dificilmente projetos experimentais são considerados interessantes quando o exclusivo objetivo é reproduzir algo já conhecido. Há uma declarada competição e interesse de prioridade. E podemos ver como os ânimos ficam agitados observando o comentário no artigo do Robert Crease sobre a descoberta da energia escura ou como as pessoas se sentem ofendidas se você chamar o teorema fundamental do cálculo de teorema de Stokes ao invés de teorema de Leibnitz-Newton-Gauss-Green-Ostrogradskii-Stokes-Poincaré! É mais fácil demonstrar o teorema que lembrar todos os nomes associados a ele…

Será que um dia a ciência vai se livrar dessa disputa de ego e prioridade, e se concentrar nos resultados? Isso vai requerer uma verdadeira mudança de paradigma cultural. Na comunidade de software livre, muito diferente do que acontece na ciência, nós realmente não associamos nomes de programadores aos programas: eu uso o gnuplot e pdflatex no Terminal sem saber os nomes por de trás de cada programa. Será que um dia a ciência vai adotar esse formato?

  1. sábado, 2 maio 2009; \18\UTC\UTC\k 18 às 17:36:39 EST

    Respondendo a sua pergunta: Será que um dia a ciência vai se livrar dessa disputa de ego e prioridade, e se concentrar nos resultados?

    Não.

    • Leonardo
      sábado, 2 maio 2009; \18\UTC\UTC\k 18 às 18:57:28 EST

      José, quanto pessimismo!😆

  2. domingo, 3 maio 2009; \18\UTC\UTC\k 18 às 08:06:07 EST

    @ Leo,

    Como vc já devia estar imaginando… é claro que eu tenho vários comentários sobre esse assunto.

    Em primeiro lugar, eu gostaria de apontar o que considero ser uma reversão dos argumentos históricos: ciências da computação (a área do saber que deu origem ao Free Software, GNU/Linux, e, depois, ao Open Software) é mais uma das instâncias do conhecimento humano que se vale de experiências prévias que já aconteceram em áreas como a Física e a Matemática (dentre outras). Veja, e.g., o texto abaixo,

    Novas estruturas sociais e o cientista hacker. (Esse texto é de 2006, da primeira versão eletrônica da RevistaCCM — esse link é pra segunda versão da RevistaCCM. Mais ainda, esse texto é um ‘mashup-rehash-abridged-version’ de um artigo que eu publiquei na “NeXT!Brasil”, uma publicação editada e gerida pelo Domenico de Masi; mas, como eles parecem não existirem mais, eu vou re-publicá-la aqui no blog.)

    O ponto é: toda vez que eu vejo o Nielsen falando sobre esse assunto (e eu já tive a chance de conversar com ele no PI) ele argumenta como se o movimento FLOSS tivesse surgido com uma ética própria — e isso simplesmente não é verdade: ele deveria conversar com o RMS e se informar melhor.

    O que me leva ao meu segundo ponto (que, assumidamente, é um ‘detalhe’ no ‘grand scheme of things’… mas, é um desses detalhes que afeta o produto final significativamente): é por causa de micro-distorções como essa que eu apresentei acima (e basta ler os escritos do RMS pra seguir indubitavelmente os passos históricos) que muitas pessoas ficam ‘doídas’ e se sentem injustiçadas — muitas vezes, devidamente.

    O problema do ego só vai ser resolvido no dia em que resolverem o problema das ‘recompensas’ associadas às vitórias individuais. O que me leva ao meu terceiro ponto.

    Em terceiro lugar, eu gostaria de dizer que essa visão mais ‘econômica’ do processo científico é algo que me incomoda. E eu explico o que quero dizer mais detalhadamente: O Nielsen sempre argumenta em favor de “positive economic reinforcement”, como ele deixa claro quando cita o exemplo de InnoCentive no texto dele. Verdade seja dita, ele também cita o FriendFeed como um exemplo mais colaborativo e menos “econômico” — porém, nesse caso, (e falo como usuário do mesmo, danieldf on Ff), eu acho que as expectativas com respeito ao Ff são bem mais módicas: há uma variada literatura a respeito do Ff e das possíveis razões pelas quais ele ainda não ‘took off’. Então, fica a dica de leitura…😉

    IMHO, a idéia de se criar um mercado ao redor da noção de “propriedade intelectual” é algo que só vai tornar toda essa “fogueira das vaidades” ainda pior!😥

    And, make no mistake about it: qualquer tipo de “mercado” ou “bazar de recompensas” criado ao redor do Empreendimento Científico vai ser sobre ‘propriedade intelectual’, duma forma ou de outra. O que me traz à conclusão dos meus argumentos.

    Quando é que vão começar a falar sobre Propriedade Intelectual?!💡😡

    Essa é A discussão que ninguém quer ter… e por razões óbvias: it’s gonna get worse before it gets better… no momento em que puserem o dedo na ferida da propriedade intelectual… aí é que vc vai ver todas as cores do arco-íris da fogueira das vaidades.

    []’s.

    • segunda-feira, 4 maio 2009; \19\UTC\UTC\k 19 às 06:59:51 EST

      Só pra colocar um pouco mais de contexto em toda essa discussão, a resenha abaixo é extremamente ilustrativa,

      The Calculus Wars.

      Recomendo fortemente.

      []’s.

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