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Matéria escura continua elusiva

terça-feira, 5 maio 2009; \19\UTC\UTC\k 19 Deixe um comentário Go to comments

A colaboração Large Area Telescope (LAT) do satélite Fermi da NASA publicou ontem os primeiros dados do espectro de elétrons nos raios cósmicos. O resultado do Fermi-LAT comparado com alguns outros experimentos eu reproduzo aqui na figura abaixo. (Você talvez queira ler um post relacionado antes de continuar)

Veja o resumo. Baixe aqui o documento completo (grátis).
Intensidade <i>J</i> versus energia <i>E</i> dos elétrons cósmicos.

Intensidade J versus energia E dos elétrons cósmicos.

A conclusão da colaboração Fermi-LAT na publicação recente é a seguinte:

A observação que o espectro é muito mais intenso que o convencional [i.e. o modelo teórico da linha tracejada] pode ser explicada assumindo um espectro mais intenso na fonte, que não está excluído por outras medidas. No entanto, o achatamento significativo dos dados do LAT acima da previsão do modelo para E > 70 GeV pode também sugerir a presença de uma ou mais fontes de elétrons cósmicos de altas energias. Nós observamos que o espectro de LAT pode ser ajustado adicionando um novo componente primário de elétrons e pósitrons (…). A principal razão de adicionar esta componente é reconciliar as previsões teóricas com tanto Fermi e PAMELA (…). Esta última não pode ser reproduzida apenas com as interações de raios cósmicos galáticos com o meio interestelar.

Permitam-me trocar em miúdos e explicar alguns detalhes. Como vocês podem ver do gráfico, estamos comparando experimentos muito diferentes com um mesmo modelo. O modelo é bem simplificado, uma vaca esférica no vácuo com distribuição uniforme de leite, que acredita-se contém os principais efeitos relevantes para a propagação de elétrons e pósitrons pela galáxia (como efeito Compton inverso, espalhamento pela luz das estrelas, etc.). O modelo de fato se encaixa bem para baixas energias (E < 100 GeV) para os elétrons, prótons, e várias outras componentes dos raios cósmicos. O ATIC é um experimento de balão atmosférico, então o fato de seus dados estarem acima do Fermi-LAT não é surpreendente — ATIC mede inevitavelmente uma contaminação de elétrons e pósitrons secundários, aqueles produzidos pela colisão de prótons na alta atmosfera. Mesmo combinando apenas os experimentos mais recentes, os dados estão em todo o lugar da região de intensidade então que conclusão pode ser tirada disso tudo?

É sistemático do HEAT, ATIC, PAMELA e Fermi-LAT, que a intensidade J cresce acima de ~ 10 GeV. É possível argumentar que esse comportamento dos dados é impossível de ser reproduzido pelo modelo de difusão de raios cósmicos na galáxia com produção secundária de pósitrons e elétrons com interação no meio interestelar (Serpico, P. D, arxiv.org:0810.4846). Portanto, se acreditarmos que pelo menos o comportamento dos dados está correto — o que parece o caso, já que está sendo observado por fontes independentes — , o sinal mais provavelmente vem de uma fonte primária de elétrons e pósitrons. Esta fonte pode ser pulsares, aniquilação de matéria escura, ou mesmo processos hadrônicos em supernovas que não foram incluídos no modelo teórico. Eu poderia aqui continuar citando referências de ajustes aos dados do PAMELA e do ATIC, contudo, os dados do Fermi-LAT mostram claramente que isso no momento não vai levar a nada! A primeira coisa que precisamos é entender qual é o espectro de elétrons, pósitrons e prótons nessa região. As barras de erro do ATIC em comparação com seus antecessores me fizeram crer que podíamos confiar naquele resultado e ir adiante, mas o Fermi (que é ainda mais preciso) prova que a coisa é mais complicada — em especial, observe que a lombada pronunciada do ATIC desapareceu no Fermi-LAT! Uma vez que se viu que essa região de energia pode conter física interessante, o natural agora é que os físicos experimentais envolvidos nestas colaborações vão gastar um bom tempo para nos dizer isso de forma precisa. Só então será possível começar uma análise dos candidatos.

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