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Bolsas para pós-graduação em física no Brasil e nos EUA

terça-feira, 29 dez 2009; \53\America/New_York\America/New_York\k 53 Deixe um comentário

Muitos já devem ter percebido que 3/4 dos editores desse blog fazem ou fizeram seu doutoramento nos EUA. Como tal, acho que temos algo a falar sobre isso. Eu queria discutir algo que é de extrema importância para qualquer pessoa: dinheiro. Meu objetivo não é chorar mágoas, até porque não tenho nenhuma nesse aspecto, mas sim deixar clara uma realidade.

Existe diversos desafios em viver nos EUA enquanto se faz uma pós-graduação e certamente dinheiro é uma delas. A situação do aluno estrangeiro nos EUA é muito diferente, por exemplo, do aluno estrangeiro no Brasil. A primeira grande diferença é que não há bolsas (fellowships) para alunos estrangeiros nos EUA. Por exemplo, agora em novembro o DOE abriu oportunidade para sua prestigiosa bolsa. Contudo, se você ler o edital verá que apenas cidadãos americanos podem se candidatar. Para ter uma base de comparação, você pode ir no site equivalente da FAPESP que tem a bolsa de maior prestígio no Brasil e verá que no Brasil a única exigência para se ter uma bolsa de doutorado é ser um potencial bom aluno de doutorado. Ou seja, se você já não tiver uma bolsa quando chega nos EUA, por exemplo, da CAPES-Fulbright ou, mesmo bolsa da Fulbright sem ligação à CAPES, você não vai conseguir outra.

Para quem não tem bolsa, a forma de suporte é através de TA (assistência de professores), quando você é pago diretamente pela universidade para dar aula, ou RA (assistência de pesquisa), quando você é pago por um grupo de pesquisa para fazer pesquisa junto com eles. Acho que já falei sobre essas atividades aqui no blog e não quero me repetir, o objetivo desse texto é só comparar a situação financeira do aluno no Brasil e nos EUA. Vamos então falar sobre valores, onde também há grande disparidade. Um fellowship desses disponíveis apenas para americanos é de aproximadamente 30-35k dólares por ano. Uma atividade de RA paga em torno de 22-25k dólares por ano. A bolsa da CAPES é de 1.3k por mês, o que dá 15.6k dólares por ano. Para se ter uma comparação de como isso é pouco, no ano de 2008, o governo americano traçou a linha de pobreza como uma renda anual de 11.2k dólares.

Se esse dinheiro já parece pouco, aí que vem a próxima supresa que todo se lembram no mês de abril: dinheiro recebido para fazer pós-graduação nos EUA também é sujeito a imposto de renda, diferentemente do Brasil. E aí o aluno estrangeiro tem outra disparidade: ele, além de ganhar menos ainda paga mais imposto (eu colocaria links aqui, mas a documentação do IRS é tão confusa que nem vale a pena).

Last but not least, há também o programa de Summer Federal Work-Study, que garante aos americanos o dinheiro durante as férias de verão enquanto os alunos internacionais, se voltarem para casa, ficam sem receber nada durante todo esse período. Alunos internacionais terminam com reduzindo suas férias a um mínimo possível e ainda tem que convencer algum grupo de pesquisa a pagar um salário durante o verão, o que é particularmente complicado nos primeiros anos da pós-graduação (mas praticamente garantido após você ter um orientador). Lembre-se que aluguel, contas e afins continuam vencendo durante o verão, e esse dinheiro tem que vir de algum lugar.

É difícil afirmar que há xenofobia (preconceito) envolvido. Poderíamos dizer que é reserva de mercado, mas eu não consigo deixar de achar socialmente injusto, principalmente se levarmos em conta que 36% dos alunos de pós-graduação em ciências e engenharia nos EUA não são americanos (chegando a 40% em física e 42% em matemática. Essa página da NSF é a única estatística em nível nacional dos alunos de pós-graduação nos EUA, mas é muito bem feita, vale a pena a visita). Mas talvez eu só esteja sendo parcial…

A realidade é que esse cenário vem piorando muito. Desde 9/11, passando por crises econômicas mundiais e novas tentativas de sequestro de aviões a cada ano o financiamento de estudantes é pior e os primeiros a sofrerem são os estudantes internacionais. Pelo que contam colegas nas UC (Berkeley, Santa Barbara, Los Angeles…), a situação financeira daquele estado[1] é tão séria que há alguns anos que o número de alunos internacionais financiados foi reduzido a um mínimo nunca visto antes.

Mas vale a pena? Claro que vale, só podia ser mais simples…

[1] Todos os links desse post são para páginas departamentais ou grandes jornais da mídia. Esse link é para o blog Cosmic Variance e, mais que isso, a entrada em questão é tão passional quanto as minhas nesse blog. Porém, veja as sugestões propostas: além da óbvia maior taxação sobre gasolina e petróleo há essa discussão crescente sobre a legalização da maconha. Eu não quero discutir isso nesse blog, não é o lugar, mas não posso deixar de comentar a ironia do Schwarznegger poder ser o governador responsável pela legalização da maconha num estado americano. E eu que achava que ver o Flamengo campeão brasileiro já era surpresa suficiente por uma década…

Supercordas em AdS

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Introdução

Faz muito tempo que queria falar sobre um dos tópicos mais quentes da física teórica contemporânea: a dualidade AdS/CFT ou dualidade de Maldacena, que foi quem a descobriu em 1997. Essa dualidade diz que uma certa teoria de supercordas é completamente equivalente a uma teoria de gauge. A teoria de gauge em questão é Super Yang-Mills com 32 geradores fermiônicos de simetria. 16 dessas transformações formam 4 espinores de Weyl e seus conjugados complexos, o que é quatro vezes a quantidade mínima de geradores de geradores de supersimetria e por isso essa teoria é conhecida como {\mathcal N}=4 SYM.

Teoria de cordas é uma teoria quântica de campos para mapas entre superfície de Riemann (bidimensionais) e o espaço-tempo. No caso de teoria de supercordas esse mapa tem como contra-domínio um super-espaço-tempo, onde ações invariantes por translações são teorias com invariância supersimétrica. Existe ainda o que alguns chamam de corda girante, que é uma teoria para mapas entre super-superfícies de Riemann e o espaço-tempo. É um tópico em qualquer introdução à teoria de supercordas mostrar que, após um procedimento conhecido como projeção GSO, essa teoria também tem supersimetria no espaço-tempo (veja, por exemplo, os excelentes livros do Polchinski).

O coração da teoria de supercordas é um procedimento para obter as equações de movimento da teoria no espaço-tempo em função das propriedades quânticas da teoria bidimensional muito mais simples. A teoria de supercordas prevê a existência de uma série infinitas de campos, mas em particular prevê a existência de um campo de spin 2 sem massa. Falar em um spin é um pouco complicado em teoria de supercordas, já que uma dessas equações de movimento só tem solução num espaço de 10 dimensões. E em 10 dimensões você tem que especificar 4 spins para caracterizar um campo completamente (além da massa, claro!). Vamos dizer então que é previsto um campo tensorial de rank 2 simétrico e sem traço, que é naturalmente associado à gravitação já que ele se acopla ao tensor momento-energia.

A dualidade AdS/CFT diz que aquela teoria de campos 4 dimensional que falei acima, é equivalente a essa teoria de campos 10 dimensional que a teoria de supercordas descreve com uma teoria de campos 2 dimensional. Ou seja, nessa dualidade há 3 teorias quânticas de campos envolvidas e isso é uma confusão sem tamanho. Nessa dualidade, a teoria de supercordas é especificamente para mapas entre superfícies de Riemann e super-espaços cuja parte bosônica AdS_5 \times S^5. Nesse post eu vou tentar explicar então o que é essa teoria de quântica de campos 2 dimensional, que acredite ou não, é o que menos se vê nos 13412327365 reviews que existem sobre esse assunto na internet.

Relacionado a esse tema, você também pode ler essas notas que eu redigi sobre teoria de supercordas em background Ramond-Ramond.

Leia mais…

Categorias:Ars Physica
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