Questão da Fuvest sobre o LHC

quarta-feira, 6 jan 2010; \01\UTC\UTC\k 01 Deixe um comentário Go to comments

Nesse final de semana, dos dias 3 a 5, aconteceu a segunda fase do vestibular da Fuvest, o maior do país. Através desse tópico do Orkut fiquei sabendo de uma questão multidisciplinar de Física. A Fuvest ainda não divulgou a prova oficialmente, mas o site da Uol, através do curso pré-vestibular Objetivo, tem a questão e um modelo de resposta em seu site.

O ítem ao qual me refiro é o c, cujo enunciado diz:

Além do desenvolvimento científico, cite outros dois interesses que as nações envolvidas nesse consórcio teriam nas experiências realizadas no LHC.

Antes de qualquer comentário, vou repetir aqui o modelo errado de resposta que aparece no site hoje (06-jan-2010):

Além dos interesses científicos, os países envolvidos no projeto LHC possuem interesses geoestratégicos. Tais pesquisas poderão servir à indústria bélica, por exemplo, no desenvolvimentos de novas armas. Não se pode descartar ainda os interesses econômicos, como na dinamização de processos produtivos, ligados a setores civis, destacando-se o setor energético e o desenvolvimentos de novos produtos, materiais e processos que podem permitir uma provável redução de custos na produção.

(os grifos são meus)

Antes de mais nada, queria frisar que acho a questão fenomenal, embora não seja exatamente uma questão de física, mas sim de geopolítica e história. Contudo, essa é uma grande questão no desenvolvimento científico de um país: como justificar o investimento de dinheiro em ciência básica, que muitas vezes parece, para as pessoas ingênuas, ser um fundo morto?

Investir em ciência não é jogar dinheiro fora e já tivemos outros posts aqui no blog falando sobre isso, inclusive mostrando números. O importante nesse caso é esse questionamento ter aparecido numa prova de vestibular, o que certamente força e forçará que essa questão tão importante para um plano de desenvolvimento nacional seja discutida ainda quando os cidadãos estão se formando.

Por outro lado, a resposta dada pelo profissional que montou o gabarito e divulgada pelo curso pré-vestibular Objetivo, é um grande atraso. Mostra justamente o tipo de pré-concepção que resulta numa percepção pública errada e possivelmente danosa para ciência básica.

O LHC é um experimento de ciência básica. Ele não tem qualquer tipo de serviço, mesmo que secundário, à indústria bélica ou de geração de energia, como diz o modelo de resposta divulgado. É verdade que há interesse econômico no LHC, mas isso não é a resposta e sim a pergunta. A resposta correta para essa pergunta, que não é raza, envolve a maneira não trivial como o dinheiro envolvido em ciência retorna ao país: principalmente através da formação de profissionais de altíssima capacidade para resolver problemas, sejam eles de física básica ou de outras questões tecnólogicas.

Eu não estou dizendo que qualquer profissional que trabalhe no LHC seja um exímio especialista em qualquer área de tecnologia. Muito pelo contrário, eu diria: o perfil das pessoas que trabalham nesses experimentos é por muitas vezes de uma pessoa hiper-especialista e muito limitada. São poucos os que realmente se destacam pela sua colaboração (a questão é que em física experimental é mais difícil de ver isso que em física teórica). Mas o importante, nesses grandes experimentos, é o esforço coletivo. É a expertise do grupo e não de um indivíduo apenas.

Claro que a questão não quer uma resposta longa na forma de uma dissertação discutindo esses aspectos não-triviais. Experimentos de Física de Altas Energias, como o do CERN, forçam o desenvolvimento de várias tecnologias associadas como de eletrônica muito rápida em ambientes com muita radiação, computação, criogenia, entre outras coisas… No caso dos experimentos do LHC há um esforço particular para o desenvolvimento da chamada GRID de computação e a estrutura de redes com velocidade e qualidade de serviço para que ela funcione. A resposta correta à pergunta certamente vai nessa direção.

Claro que tudo isso – GRID e afins – é bem secundário, cientificamente falando. Mas é necessário para as questões discutidas aqui: a correta percepção pública da ciência. Afinal, foram 10 bilhões de dólares investidos e não foi a toa. Não é tanto dinheiro assim1, mas em qualquer jornal da mídia, quando essa quantia é citada, o que mais se vê é gente dizendo que esse dinheiro não deveria ser investido em ciência. Esse esperneio despropositado começa em sala de aula, quando os professores, que são os primeiros formadores de opinião, dão esse tipo de resposta absurda à questão.

1. Claro que 10 bilhões de dólares é, em termos abolutos, muito dinheiro. Mas um experimento desse envolve em torno de 10 mil pessoas e dura em torno de 20 anos. Então, é algo como um investimento de 50 mil dólares para um experimento por ano, por pesquisador. O que não é tanto assim para o padrão de qualquer ciência.

  1. quinta-feira, 7 jan 2010; \01\UTC\UTC\k 01 às 09:43:26 EST

    Excelente post, Rafael. Elaborando um pouco mais sobre o seu comentário das tecnologias, pode-se dar o exemplo de que nos detetores do ALICE, LHCb e CMS se usa circuitos de coincidências para remover sinais espúrios, e esses detetores precisam de circuitos cada vez mais rápidos para identificar dois eventos separados por intervalos de tempo cada vez menores. Esse tipo de inovação (de velocidade de transmissão de dados e processamento) pode entrar em computadores e eletrônicos. Segundo aquele livro dos Cientistas Brasileiros da SBPC, foi um circuito desse tipo, desenvolvido pelo Marcelo Damy — que permitiu a descoberta dos chuveiros penetrantes dos raios cósmicos por ele, Wataghin e Pompéia — que foi utilizado nos radares norte-americanos da época do pós segunda guerra por alguns anos.

    Outro comentário que eu queria deixar é sobre o valor do LHC. De fato, o custo do LHC não é alto. Ele representa não mais que 0.1% do investimento da UE em ciência, e o orçamento total dos países mais envolvidos no LHC para ciência é menor que 4% do PIB, ou seja, ciência já é uma parcela ínfima dos gastos nacionais, e dentro dessa parcela ínfima, o LHC é ainda uma parcela menor. Quando os EUA decidiu injetar dinheiro na AIG — que por sinal ninguém sabe onde foi parar –, ele injetou o equivalente ao orçamento de 15 LHCs. Eu enfatizo isso porque em um único dia, uma junta privada de alguns poucos executivos ganhou muito mais do que os EUA jamais se comprometeram em investir em física. Logo, de fato, ciência é uma das últimas prioridades da economia mundial, então as pessoas deveriam ficar asseguradas que, qualquer investimento que vai para a ciência, veio de uma quantidade muito pequena do PIB, e que há coisas bem mais importantes para se discutir se são realmente vitais para ganharem dinheiro do que projetos científicos.

    Eu escrevi um post tempos atrás sobre o custo do LHC com as fontes dos números:

    http://leo-motta.blogspot.com/2008/09/bobagens-sobre-o-custo-do-lhc.html

    Abraços []’s
    Leo

  2. quinta-feira, 7 jan 2010; \01\UTC\UTC\k 01 às 15:24:25 EST

    Acaba de sair do forno do L.A. Times um artigo do Steve Giddings apropriadamente intitulado “What will the Large Hadron Collider reveal?”

    http://www.latimes.com/news/opinion/la-oe-giddings5-2010jan05,0,5685598.story

    Em tempo: até a FUVEST tá ficando esquisita ou é só impressão?

    abraços,

    (outro) Leo

  3. Rafael
    quinta-feira, 7 jan 2010; \01\UTC\UTC\k 01 às 15:34:20 EST

    Na realidade, a prova já está disponível no site da FUVEST:

    http://www.fuvest.br/vest2010/provas/provas.stm

    A questão sobre o LHC está na prova do segundo dia.

  4. Paulo
    quarta-feira, 13 jan 2010; \02\UTC\UTC\k 02 às 14:40:40 EST

    Muito pertinente esse post.

    A impressão que tenho é que a resposta dada pelo professor reflete a falta de informação das pessoas sobre o funcionamento dos experimentos científicos, em especial de ciência básica. Na verdade acho que isso é mais uma constatação do que uma impressão.

    Parabéns Ars Physica.

    Abraços.

    Paulo

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