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Criação, uma decepção na primeira impressão

domingo, 31 jan 2010; \04\UTC\UTC\k 04 Deixe um comentário Go to comments

Resenha do filme Criação.

Ontem a noite eu assisti o filme Criação, em parte financiado pela BBC de Londres, que é uma obra semi-biográfica, semi-ficcional, sobre Charles Darwin, focada no período de vida de Darwin da concepção do A origem das espécies. O filme tem uma fotografia bonita e atuação boa, mas o roteiro, na minha opinião, é pior que decepcionante. O que eu não eu gostei do filme, em resumo, é o seguinte:

1) é um sobremaneira exagerado melodrama tipo novela-mexicana. E olha que eu gosto muito de drama, mas do tipo realista, digamos como Um estranho no ninho, ou To Kill a Mockingbird, ou Cidadão Kane (sem comparações aqui, claro.)

2) como parte do melodrama, Darwin é apresentado literalmente como uma pessoa com problemas mentais de alucinações com quem ele conversa. Eu não sei se ele era esquizofrênico, mas eu acho que essa parte foi uma invenção do roteiro desconecta da realidade.

3) Thomas Huxley é apresentado não como um cientista que busca aprofundar a compreensão da biologia, mas um homem arrogante, insensível e que não dispensa insultos a Darwin e outros, cujo único propósito é “matar Deus” (suas próprias palavras do filme) e destruir a Igreja, ávido a aceitar a teoria de Darwin para esse propósito específico, e não porque a seleção natural é uma explicação unificadora para uma pletora de observações de outra forma desconectas. Eu não tenho profundo conhecimento da vida de Huxley, mas isso não me parece certo. Inclusive, Huxley não aceitava nem se quer a existência de evolução antes da publicação de Darwin, pois ele defendia que não havia ainda evidências suficientes. Huxley se declarava um agnóstico, que ele entendia por não acreditar na religião por falta de evidência. Para mim, dentro do contexto desse filme, Huxley é usado como exemplo de ateu militante contra religião numa clara tentativa de ridicularizar essas pessoas (Dawkins, Sam Harris, etc.).

4) Pelo meu parco conhecimento do contexto histórico de Darwin, parece-me que o filme é muito anacrônico. Ele põe um debate que não existia naquela época como parte central: criacionistas vs. cientistas. Até frases de efeito aparecem, tais como “mas é apenas uma teoria”. A Igreja Anglicana é retratada como retrógrada e ávida para considerar ridícula a teoria da evolução e a existência dos fósseis, mas na realidade, após a publicação de Darwin, a Igreja Anglicana se manifestou positivamente sobre o livro. Darwin se mantém reticente em publicar o livro com medo de conflitos religiosos e por causa do seu estado de doença mental (como retratado no filme), quando a informação que eu tenho é que Darwin demorou para publicar A Origem porque queria sintetizar o resultado das observações do Beagle, incluir mais dados e elaborar em várias direções plenamente as conseqüências da seleção natural. Até com este infeliz título para o filme, fica clara a direção que o diretor quis levar.

5) O processo criativo científico é descrito de uma forma que deseduca e reafirma estereótipos sem fundamento: Darwin é um louco que vive isolado da família e de amigos para elaborar uma teoria cuja inspiração é esta vida isolada. A viagem do HMS Beagle é mencionada uma única vez em todo filme, logo no início, embora este fora o acontecimento da vida de Darwin que levou a teoria da evolução. Nenhum esforço foi feito em retratar o trabalho de Darwin como conseqüência de uma reflexão acerca de um grande conjunto de observações geológicas e catalogação de espécies que ele realizou. Darwin aparece estudando um único experimento (cruzamento de pombos), e ainda desiste deste antes de completá-lo. Não sei se tal experimento foi de fato realizado por ele.

Esse filme tinha potencial para poder ser educativo sobre evolução, a vida de Darwin e o processo de concepção criativa de um cientista. Mas não dá certo para nada disso. E como é um melodrama muito exagerado, não é muito divertido como ficção.

Categorias:Ars Physica
  1. Rodrigo
    segunda-feira, 1 fev 2010; \05\UTC\UTC\k 05 às 19:43:26 EST

    Eu assisti o filme também, e algumas perguntas ficaram no ar… Realmente o filme passou uma aura de John Nash pro Darwin(que alias o Paul Bettany participou, excelente ator), mas o filme foi feito baseado em um livro do neto do neto do neto do neto do Darwin… Então… foi o diretor do filme que tomou liberdades poéticas ao não retratar a “verdade” (que transformaria a biografia de Darwin em um documentário romantizado), ou o próprio neto do neto…do neto do Darwin que inventou e/ou retratou esses fatos? No mais, é o que está relatado.. muito melodrama, muito lenga lenga… eu esperava mais, esperava um pouco mais de ciência, pois sou fão do Darwin a ponto de, não tendo achado pra comprar, ter mandado fazer um adesivo do Darwin Fish pro carro… Se por um lado o filme traz para o público uma discussão de coisas que aprendemos no segundo grau e depois esquecemos, por outro lado essa discussão no meu entender, deveria ser um pouco mais…hm.. respeitosa, vamos dizer assim… eu acho que Darwin merecia mais….

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