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Desonestidade acadêmica; liberdades e responsabilidades civis

domingo, 6 jun 2010; \22\UTC\UTC\k 22 Deixe um comentário Go to comments

Disclaimer: Assunto controverso. O texto exposto aqui reflete apenas a opinião do autor e pode não ser endossado pelos outros editores desse blog.

Através do blog BIO ICB UFRJ soube do desenvolvimento recente dessa notícia:

Médico que relacionou a vacina tríplice ao autismo perde seu registro: o capítulo final de mais uma “histeria da vacina”

Mais informações, com inclusive uma lista bem completa de referências, pode ser encontrada na entrada correspondente da Wikipedia:

MMR Vaccine Controversy

A história

Em linhas muito resumidas o que aconteceu foi o seguinte: em 1998, 13 pessoas publicaram o artigo

Ileal-lymphoid-nodular hyperplasia, non-specific colitis, and pervasive developmental disorder in children

onde o autor principal é o (agora ex-)médico Andrew Wakefield. O artigo indica uma relação entre a vacina tríplice com o desenvolvimento de vários quadros clínicos indo de autismo a inflamações gastrointestinais. Devo dizer que a revista em que o artigo foi publicado é um jornal científico com árbitro.

Para manter o resumo curto ainda mais curto, nos anos que se seguiram descobriram várias coisas sobre esse trabalho, além de diversas repercussões:

  • A forma como ele selecionou as crianças para pesquisa foi inadequada.
  • Os exames feitos nas crianças foram inadequados.
  • A conclusão do artigo estava errada.
  • A fonte de renda para a pesquisa continha conflitos de interesse que não foram comunicados ao comitê de ética que avaliou o trabalho.
  • A imprensa não científica divulgou a conclusão do artigo como um resultado definitivo contra a vacina tríplice.
  • A taxa de vacinação no Reino Unido caiu abaixo do recomendável por especialistas em saúde pública.
  • O número de sarampo infantil triplicou e houve inclusive mortes, coisa que não havia a muitos anos.
  • Andrew Wakefield foi despedido de todos seus cargos, a revista retirou o artigo, os outros 12 autores escreveram retratações.
  • Foi descoberto que os resultados não só estavam errados, como foram propositadamente fixados.
  • E, o último capítulo da história, Wakefield perdeu seu título de médico.

É muito fácil avaliar esse caso baseado em emoções, mas há uma série tão grande de coisas erradas que talvez seja bom para nós fazer uma análise em que separamos cada uma delas.

O cientista

Não há nenhum problema em errar por falta de conhecimento. Todo mundo está sujeito a cometer erros durante sua pesquisa. Ele foi culpado por ter propositadamente fixado os resultados antes mesmo de ter os dados, de não ter seguido protocolos corretos para coleta de dados deliberadamente e outras ações de má fé que não tem nada de científicas. Então é importante aqui separar os dois tipos de erros, o erro por inexperiência, que todos cometemos, dos erros por desonestidade acadêmica, que sempre deve ser punida duramente. Nesse caso foi. Um pouco tardiamente talvez.

Os colaboradores

Realmente existem trabalhos que são suficientemente complexos para envolver uma série de colaboradores e a maioria deles não terá um controle de todos os aspectos do trabalho. Mas ainda assim, imaginar que essa quantidade absurda de erros no artigo passou despercebida, indica negligência. Que o sistema de autoria de artigos tem problemas, me parece óbvio (veja, por exemplo, as listas ridículas de autores nos experimento do LHC), mas como não é o assunto principal desse texto, vou me abster de comentar aqui.

A revista científica

Nesse ponto, o problema acima é mais crítico. Uma revista científica com árbitro não pode publicar um artigo em que os critérios mínimos de qualidade não foram atendidos. Em áreas com impacto social a tão curto prazo quanto medicina, o problema se torna maior ainda. Isso é uma questão de responsabilidade social e eu acho curioso que a revista apareça nessa história apenas como uma vítima.

A mídia não-científica

A mídia não-científica tem por costume exagerar nas manchetes para chamar a atenção do povo para um resultado científico, induzindo-o a acreditar que num resultado muito mais geral do que aquele que o trabalho realmente obteve ou sequer tentou obter. Posso citar inúmeros exemplo, como a medida da assimetria no decaimentos de mésons B que comentei anteriormente sendo divulgada como uma explicação para a nossa existência ou mesmo o LHC sendo propagandeado com algo relacionado a Deus. Isso é irresponsabilidade social que esse caso mostra, de forma clara como cristal, o mal que pode trazer. Não se cura o desinteresse por ciência travestindo-a de algo que não é, mas sim educando a população para que o interesse pela ciência seja genuíno. As revistas científicas, e não sei se esse é o caso da Lancer, costumam ter setores que trabalham para fazer uma transposição didática dos resultados científicos para o público leigo e não sei como esse setor agiu nesse caso. Mas a realidade é que em algum momento essa mensagem foi deturpada e, novamente, é curioso que o jornal apareça como vítima nessa história. Isso porque, mesmo que o resultado fosse verdadeiro, propagandear a pesquisa como um resultado definitivo contra a vacina tríplice é irresponsabilidade.

O governo

E aqui, mais um elo da cadeia falhou. Eu entendo que é papel do governo verificar a atuação dos diversos setores sociais. Longe de mim defender qualquer tipo de censura, mas se alguém escreve num jornal de grande publicação que todo mundo deve parar de vacinar seus filhos sem ter qualquer tipo de base científica para isso, é sim papel do governo coibi-los. Na verdade, o que ocorreu nesse caso foi justamente o oposto: em vez do governo polarizar esforços para resolver esse caso, o que mais se discutiu nos anos que se seguiram foi se Tony Blair tinha ou não vacinado seus filhos.

Liberdades civis

O que nos leva ao último ponto: o que a decisão de uma pessoa não vacinar seus filhos implica? Quando as pessoas dizem que há uma porcentagem mínima de pessoas numa população que deve ser vacinada, o que eles estão comunicando é uma estimativa baseada na incidência da doença, na velocidade da sua propagação e na eficiência da vacina, para que o vírus não esteja presente naquele grupo. Ou seja, quando você deixa de vacinar seu filho, não só você está colocando o risco sua saúde, mas a saúde das pessoas próximas a você. Eu também tremo quando ouço falar em cerceamento de liberdades pessoais, mas quando sua atitude passa a prejudicar o coletivo, então ela deixou de ser pessoal. Nesse caso, é realmente passível de se perguntar se vacinação deveria ser algo obrigatório.

Categorias:Ars Physica
  1. segunda-feira, 7 jun 2010; \23\UTC\UTC\k 23 às 17:58:00 EST

    Legal saber disso! Há um tempo atrás participei de um fórum no yahoogroups com mães e cuidadores de autistas. E elas sempre discutiam essa questão da vacina… Se tinha a ver, vacinar ou não o próximo filho e coisas assim.

    Ainda bem que esse médico foi punido. É cada coisa que a gente vê por aí.
    Tô te adicionando no meu blogroll. Qualquer coisa, passa lá!🙂

  2. Ellen julian\a
    terça-feira, 23 nov 2010; \47\UTC\UTC\k 47 às 17:55:14 EST

    d++++++++++++++++++++++++

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