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Verdades, mentiras e estatisticas na campanha eleitoral

quarta-feira, 13 out 2010; \41\UTC\UTC\k 41 3 comentários

Peço licença aos meus co-blogueiros para falar sobre as eleições presidenciais. Uma vez que eu não vou emitir nenhum juízo sobre nenhum dos candidatos, nem explicitar preferência alguma, creio que não há problema. Na verdade o tema eleitoral é só uma desculpa para falar sobre estatística :P. Caso haja problema, por favor me avisem.

Nessa campanha presidencial – como, aliás, deve ser em qualquer campanha eleitoral – tem acontecido uma fenômeno interessante nas propagandas e discursos de aliados de cada um dos candidatos do segundo turno. Ambas as campanhas tentam comparar os governos de Lula e FHC apresentando todo tipo de números e estatísticas. O interessante é que o cenário parece estranhamente ambíguo: para cada estatística que mostra Lula melhor que FHC existe outra que mostra o exato contrário. Para dois exemplos interessantes desse tipo de campanha, veja esses dois links:

Esse fenômeno pode parecer estranho para os espectadores da campanha menos acostumados aos números. Afinal, quem foi melhor para o ensino superior, FHC que aumentou o número de matrículas ou Lula que criou mais universidades? Quem diminuiu mais a pobreza, FHC que aumentou 4 vezes mais o IDH ou Lula que criou 3 vezes mais empregos?

Não há nada de estranho aí. O que está por trás dessa estranheza é uma falácia estatística que pode ser chamada “falácia do atirador”. Imagine um homem que quer demonstrar que é um excelente atirador e te mostra um alvo pintado em um campo de tiro, com 10 tiros certeiros na mosca. Você pode achar que ele é um grande atirador mesmo, mas sabe como ele produziu esse resultado?

O atirador ergueu uma enorme parede de madeira, de 10 metros de largura e 5 de altura, colocou-se na posição de tiro e descarregou 500 tiros contra a parede, sem tentar mirar particularmente em nenhuma posição. Claro que depois disso a parede estará cravejada de buracos e em alguns lugares haverá buracos de tiro mais próximos um dos outros. O atirador escolhe convenientemente 10 buracos que, ao acaso, ficaram bastante próximos entre si e desenha e pinta o alvo em torno deles. Então ele corta o resto da madeira e recoloca o alvo em sua posição original, com 10 tiros “certeiros” na mosca.

O homem não é um excelente atirador. Ele apenas escolheu o alvo depois de ter os resultados. Ele selecionou os “bons” resultados e descartou os ruins. Ele transformou uma distribuição bastante larga em uma distribuição mais estreita apenas descartando certos resultados e mostrando outros.

Como isso se aplica à campanha eleitoral?

Para cada aspecto de um governo que você queira avaliar, existe um sem número de estatísticas que podem ser usadas. Se, por exemplo, eu quero avaliar a evolução da renda, posso mostrar o crescimento do PIB per capita, ou de algum índice de salários, ou da fração do PIB correspondente aos salários, ou quanto subiram os salários em comparação com a taxa básica de juros, ou comparar com taxas “reais” praticadas no mercado. Posso comparar esses números em dólares ou reais, posso comparar o poder aquisitivo real, ou quanto essa renda compra de uma certa cesta de produtos essenciais. Posso focar apenas no crescimento da renda da classe C, ou em quanto cresceu (ou caiu) a razão da renda da classe C pela renda da classe A. Posso comparar quantos bens de consumo essenciais as pessoas conseguem comprar, ou posso comparar quanto o crescimento de suas rendas se compara com o rendimento de um certo investimento padronizado. Todas essas são formas de comparar quanto a renda cresceu.

Deu para perceber que existe um grande número de estatísticas para comparar dois governos, mesmo que fiquemos apenas no restrito conjunto de estatísticas referentes ao aumento da renda. Se eu comparar todos esses números entre o governo A e o governo B, alguns resultados serão pró-A e outros serão pró-B. É natural que seja assim por uma razão simples: há uma flutuação incrível nesses números. Flutuações temporais, flutuações causadas por diferentes metodologias ou mesmo flutuação que resulta do processo de amostragem. A incerteza nesses números as vezes é muito grande, e medidas em semanas diferentes podem causar flutuações de vários pontos percentuais. Não temos um valor determinado para esses números, temos uma distribuição de probabilidades que representa o quanto sabemos sobre eles. E essa distribuição é relativamente larga.

Então existe uma probabilidade de que cada estatística seja pró-A ou pró-B, ainda que os governos A e B tenham sido mais ou menos parecidos. E mesmo que o governo A tenha sido muito melhor que o governo B em certo sentido, ainda assim teremos uma certa probabilidade de ter um certo número de estatísticas pró-B. Mas eu sempre posso escolher que fração das estatísticas que eu pretendo mostrar será pró-A ou pró-B. Eu posso apenas mostrar 100% de estatísticas pró-A e argumentar assim que o governo A foi incrível. Isso é bem ilustrado pela famosa propaganda da Folha de São Paulo de alguns anos atrás, em que se apresenta diversas estatísticas positivas do governo de Adolf Hitler na Alemanha, que certamente foi um governo desastroso!!!

Então é impossível comparar dois governos com estatísticas? Claro que não. É perfeitamente possível. Apenas é necessário fazê-lo de forma sistemática, com métodos claros, com padrões e referências bem definidos. Existem procedimentos para se evitar a falácia do atirador em estudos estatísticos. Por exemplo, pode-se escolher que estatísticas serão calculadas de antemão, antes da colheita de dados, de acordo com um método bem definido. Isso evita que se “desenhe o alvo” em torno do resultado desejado. Pode-se fazer uma análise de sensitividade, mostrando que ainda que a metodologia fosse diferente, o resultado não seria tão diferente assim. Enfim, existem técnicas para isso.

Mas isso é algo que campanhas eleitorais nunca serão capazes de fazer. Elas são enviesadas por princípio, a cesta de índices que escolhem para mostrar é viciada e sua interpretação errônea e vazia. E isso vale para qualquer campanha, independente da orientação ideológica do candidato. É inevitável. Não chega nem a ser desonestidade, é da natureza da propaganda. O ideal seria que, ao invés de usar os números de forma leviana, fossem contratados estatísticos profissionais e neutros para criar essas análises. Mas isso nunca vai acontecer. 😉

O melhor é que o eleitor esteja atento às formas com que os números podem ser usados contra ele. Números adequadamente escolhidos podem defender qualquer estória que se deseje contar. Mas não fique achando que toda estatística é resultado de manipulação. Há métodos adequados para se evitar a manipulação, mesmo a manipulação involuntária.

Há uma citação de natureza ética difundida entre os estatísticos adequada para fechar essa discussão. Infelizmente não me lembro o autor ou a exata fraseologia, mas a essência é: é sempre possível mentir usando a estatística, mas é impossível dizer a verdade sem ela.

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