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Aplicando para doutorado em física nos EUA

sábado, 1 jan 2011; \52\UTC\UTC\k 52 Deixe um comentário Go to comments

Olá,

Para os meus colegas aqui não é novidade que não estou mais no Orkut. Um dos projetos que sinto mais falta era uma comunidade que eu tinha dedicada à troca de informação sobre como vir fazer doutorado em física nos EUA. Não só porque eu ajudava muita gente, mas também porque ficava conhecendo as pessoas que se mudavam para cá.

Queria transferir esse projeto aqui para o blog e fazer desse post algo semi-permanente, no estilo de um live review, em que eu fosse adicionando informação e onde eu pudesse encontrar pessoas nos comentários e compartilhar minha experiência. Na verdade, três dos atuais cinco editores do blog fazem ou fizeram doutorado nos EUA e certamente podem contribuir também.

Introdução

Primeiro, deixa eu falar aquilo que muita gente não sabe: conseguir uma vaga para um doutorado em física nos EUA é fácil! Não quero dizer que você não precisa de preparação para tentar, mas não tem porque qualquer aluno brasileiro não conseguir vir fazer. A preparação é talvez uma das maiores dificuldades, pois o processo de aplicação é demorado e deve ser planejado com certa antecedência. Se você deixar para pensar no seu doutorado no último mês da sua graduação ou do seu mestrado, você não vai conseguir aplicar para o ano corrente e vai terminar perdendo mais de um ano da sua vida. Mais de um ano, porque você já tem que contar a diferença entre o início do ano letivo nos hemisférios sul (março) e norte (setembro).

O número de brasileiros fazendo doutorado em física nos EUA é relativamente pequeno (em comparação com o número de vagas e o número de estrangeiros no total). Isso não se deve à formação, pois os cursos de graduação em física no Brasil (pelo menos aqueles nas boas universidades) são tão bons ou até melhores que qualquer outro ao redor do mundo. Para ser completamente sincero, todos os brasileiros que conheço nos EUA tendem a se destacar bastante no doutorado devido a sua boa formação básica. Os brasileiros não aplicam devido a um bairrismo institucional que é impregnado na cultura acadêmica brasileira. Tenho certeza que todo mundo aqui conhece muitos casos de pessoas que fizeram IC, mestrado, doutorado, pós-doc e foram contratados na mesma universidade, muitas vezes no mesmo laboratório! Essa é uma péssima idéia para a difusão de conhecimento e gera muita estagnação. Essa estagnação é a causa do porquê, apesar de todo mundo concordar que é uma excelente idéia fazer doutorado no exterior, poucas pessoas efetivamente o fazem. Note bem que não estou dizendo que sempre é melhor fazer doutorado no exterior, mas estou me referindo àquelas pessoas que estão nos muitos casos em que sem dúvida é.

A outra coisa que tem que ser levado em consideração é que o custo de aplicação é de médio a alto. Todos esses custos podem ser evitados se você estiver aplicando pela CAPES que, além de fornecer a bolsa de manutenção, gerencia e financia o custo de aplicação para o candidato (Isso não é mais verdade! Veja comentário na seção Custos da aplicação). Essa é outra distinção que poucos alunos tem em mente. Diferentemente do Brasil, uma bolsa não é a única forma de se sustentar durante um doutorado. Na verdade, poucos alunos de doutorado nos EUA tem bolsas (fellowships). A maioria dos alunos trabalham como TA (teaching assistant) ou RA (research assistant), vou falar mais sobre isso abaixo, mas deixa eu terminar de falar sobre as bolsas. Há um número grandes de bolsas aqui nos EUA, mas elas são exclusivas para americanos ou para permanent residents (estrangeiros com green card). Ou seja, se você quiser ir com bolsa, tem que pedir ela ainda no Brasil onde tem bolsas para brasileiros virem estudar nos EUA. A CAPES é a principal agência de fomento de bolsas e possuía uma interessante colaboração com a Fulbright até 2009. A Comissão Fulbright ainda fornece bolsas independentemente da CAPES. Qualquer pessoa interessada nessas bolsas deve ler o site dessas instituições com cuidado: o processo começa no início do ano anterior àquele que você pretende iniciar seu doutorado, i.e., se você acabou de entrar num mestrado é melhor já ir pensando na aplicação para o doutorado. O que a pessoa tem que entender é que essas bolsas têm um objetivo muito específico: levar alunos para aprender coisas que não podem ser aprendidas no Brasil e voltar depois do doutorado. Por isso, todos os contratos dessas bolsas exigem que o aluno fique no Brasil um período extenso de tempo depois de terminar o doutorado. Várias pessoas tentam burlar esse requerimento, mas recentemente dívidas de algumas centenas de milhares de dólares tem sido cobradas na justiça das pessoas que descumprem o contrato.

Se você quer simplesmente estudar nos EUA e depois arrumar um emprego em qualquer lugar no mundo, a melhor idéia é ir sem nenhum vínculo com o Brasil e, como foi o que eu fiz, é sobre o que vou falar. É assim que a maioria das pessoas fazem doutorado nos EUA: a universidade paga a mensalidade para você e seu salário vem trabalhar dentro da universidade mesmo. No dois primeiros anos, o natural é trabalhar como TA, isto é, os alunos monitoram laboratórios, dão aula de revisão, corrigem listas de exercícios, aplicam provas e outras atividades de auxílio aos professores da faculdade. Em geral, após o segundo ano, quando o aluno já passou pela qualificação, ele passa a ser pago pelo seu grupo de pesquisa na forma de RA, ou seja, você é pago para auxiliar seu orientador e outras pessoas do seu grupo a fazer pesquisa. Como a pesquisa do seu orientador e sua vão ser parecidas, isso significa que você é pago para fazer seu doutorado.

Os valores dos salários e das bolsas variam muito de estado para estado, de universidade para universidade, de instituto para instituto e até de grupo para grupo de pesquisa, mas são sempre mais ou menos a mesma miséria: em torno de 25k por ano. Contudo, é verdade que quando você tem uma bolsa o processo de aplicação é muito mais simples, já que como a universidade não vai ter que gastar nada com você, eles te aceitam muito mais facilmente. Nas universidades muito concorridas, onde todos os bons alunos aplicando já trazem uma bolsa consigo, fica bem difícil ser aceito sem bolsa: então considere isso e todo o prestígio que implica estudar com uma bolsa com o nome da Fulbright.

Na aplicação sem bolsa, você é responsável pelo processo de aplicação e por respeitar as datas de limite. As aplicações em quase todas as universidades terminam dia 15 de dezembro, mas você tem que começar bem antes disso. Há três provas que devem ser feitas para aplicar: o GRE general, o GRE subject e uma prova de proficiência em inglês. O GRE general é uma prova que é aplicada durante o ano inteiro e custa em torno de 190 dólares. O resultado é mandado diretamente para as universidades que você está aplicando, por isso é importante já ter em mente para onde você vai aplicar mesmo no início do ano, quando você vai estar fazendo as provas. Caso contrário, cada envio extra no final do ano é cobrado. O mesmo vale para as outras provas. O GRE general é uma prova de matemática bem básica, no nível de ensino médio, e uma prova de inglês muito difícil. Um treinamento específico para essa prova é necessário já que ela foca em vocabulário bem avançado.

O GRE subject é uma prova de física básica. É a principal nota levada em consideração no processo de aplicação. Ela custa 160 dólares e só é aplicada poucas vezes ao ano: outubro, novembro, dezembro e abril. Tem que ter cuidado de dar tempo suficiente para a prova ser corrigida e o resultado chegar na universidade antes da data limite da aplicação, ou a consideração do seu dossiê pode ficar prejudicado. Isso quer dizer que o mais seguro é fazer essa prova em outubro ou no máximo em novembro. A melhor maneira de estudar para essa prova é usar as provas antigas oficiais divulgada pela ETS e disponíveis em vários sites na internet. O poll de questões da ETS é pequeno e a chance de ter uma pergunta repetida nem é tão pequena assim, mas mais do que isso, o estilo vai ser o mesmo. O nível da prova é de física básica, aquilo que estudamos nos dois primeiros anos da faculdade. Por isso, livros como o Halliday/Resnick também podem ajudar muito na preparação. No fim, o GRE subject é uma prova e como qualquer prova, você precisa aprender a fazê-la. É por isso que os chineses se dão tão bem nessa prova, eles tem cursinhos para o GRE tal como nós temos pré-vestibulares.

A prova de inglês costumava ser o TOEFL, mas agora, por um motivo que me é desconhecido, muitas universidades não estão mais aceitando o TOEFL e pedindo o IETLS. Pelo que eu vi, as provas são muito parecidas e bem simples. O IETLS custa por volta de 435 reais. Para os alunos aceitos, a universidade costuma ainda aplicar uma outra prova de proficiência em inglês, mas em proficiência verbal, quando o aluno chega nos Estados Unidos. O IETLS é aplicado uma vez por mês e também pode ser feita bem antes da data limite.

Tendo o resultado das três provas, você só precisa juntar os documentos e mandar a aplicação. O custo de cada aplicação é em torno de 75 dólares por universidade. Um americano aplica em 5-10 universidades e o custo pode ser bem alto no final. Aplicar para apenas uma universidade é loucura, pois há tantas variáveis fora do teu controle no processo de aplicação que você nunca pode ter certeza do resultado. Por outro lado, gastar 750 dólares aplicando para 10 universidade pode ser fora da realidade da maioria das pessoas.

As universidades preferem que todos os documentos sejam mandados online, até as cartas de recomendação. Carta de recomendação também é algo de deve ser planejado com certa antecedência, já que você quer escolher professores que te conheçam, mas que também tenham algum renome no exterior. Um carta muito boa de alguém completamente desconhecido pode não significar nada. Toda universidade pede no mínimo três cartas e é simpático dar bastante tempo para os professores escreverem essas cartas, já que eles terão que escrever de 5 a 10 versões do mesmo texto em inglês. Você também tem que escrever uma carta sobre si mesmo chamada Statement of Purpose, contando sobre seus planos acadêmicos, e principalmente porque você é bom para a universidade e a universidade é boa para você. Tente mostrar porque você se interessou pela universidade, evite clichês e seja sincero. Mostre que você pode contribuir para os grupos de pesquisa e que aquilo que a universidade oferece é o que você está procurando. Evite falar sobre coisas que não tem relação com a física e com o doutorado – o foco deve ser seu interesse acadêmico e sua experiência em física.

Por fim, nunca deixe de entrar em contato com o corpo docente das universidades na área que você está pleiteando. Provas, cartas de recomendação, CV… tudo isso é importante, mas muitas vezes o contato pessoal faz toda a diferença. Escreva para os professores, demonstre interesse, peça para ser apresentado por professores brasileiros. Como o processo de seleção é muito concorrido e subjetivo, um empurrão de um professor dentro da universidade pode ser o que garante sua vaga. As relações candidato/oferta variam de em torno de 5 nas universidades menos concorridas a algo como 10 nas mais concorridas (a relação candidato/aceite chega a 40!) . É muito fácil ter sua aplicação ignorada, já que mais de 500 dossiês vão ser lidos por uma pequena comissão de professores.

Custo da aplicação

O custo total de uma aplicação é aprochutadamente de 2000 a 3000 reais (sem a viagem). Se você não tem esse dinheiro, considere aplicar usando a CAPES que paga por todo esse custo. Mas note que isso implica que depois do doutorado você terá que necessariamente voltar para o Brasil. Note ainda que a CAPES espera que você faça o doutorado em 4 anos, o que é bem abaixo do esperado nas universidade americanas. O processo de aplicação também é razoavelmente diferente do que descrevi aqui, já que o principal de sua aplicação é provar que você tem algo a estudar no exterior que não pode ser estudado no Brasil e, principalmente, que é importante para o país. Como não tenho experiência nesse processo, vou esperar que outra pessoa comente.

Abaixo, para facilitar a visualização, vou colocar uma tabela de resumo dos custos. Estou considerando uma aplicação para 5 universidades e que apenas um envio extra dos resultados da ETS seja necessário. Também estou considerando um preço médio de aplicação de U$70,00 e uma taxa de câmbio de 1.70 R$/U$ (os preços reais podem variar!):

Descrição Custo
GRE general U$190,00 = R$323,00
GRE subject U$160,00 = R$272,00
Envio GRE U$23,00 = R$39,10
TOEFL U$185 = R$ 314,50
Envio TOEFL U$17,00 = R$28,90
Correio (11 dias, leve prioritário) 5xR$12,50 = R$62,50
Aplicação 5xU$70,00 = R$595,00
SEVIS U$200,00 = R$340,00
Visto R$38,00 + U$140,00 + U$40,00 = R$344,00
Total parcial R$2319,00
Viagem aérea (aproximado) R$2200,00
Total R$4519,00
Custo para cada aplicação adicional R$199,50

Ao longo de 24 meses (de um mestrado, por exemplo), isso significa juntar R$188,00 por mês. É um pouco duro, mas não impossível.

Eu estava comparando o edital da CAPES de 2010 com o CAPES/Fulbright de 2009. Como eu já disse, a CAPES/Fulbright costumava arcar com todos esses custos descritos na tabela acima. Eu não achei o equivalente do edital do ano passado. Me parece que a CAPES não está mais ajudando os alunos com os custos das provas, aplicações, vistos e mudança. Ou seja, quem quiser tentar uma bolsa da CAPES a partir de 2010, terá que desembolsar todos os valores da tabela acima. Além da viagem para Brasília, onde o processo ocorre. Mas posso estar errado, por favor, verifiquem!

Links

Vamos começar os links com um exemplo de página que você visitaria caso esteja interessado em Harvard. A página é essa aqui e aqui. Veja que os documentos são mais ou menos os que eu falei: eles pedem o TOEFL (ou IETLS) e os dois GRE. Nessa pagina eles dão o número da instituição na ETS (3451, no caso de Harvard). É esse número que você tem que levar quando faz essas provas para o resultado ser enviado direto. Eles ainda pedem que uma versão oficial em inglês do certificado de conclusão do curso e do histórico escolar sejam enviados por correio (veja abaixo sobre traduções). Pedem que você também envie uma lista com os 4 cursos mais avançados de física e os 2 mais avançados de matemática. Finalmente, o CV junto com uma cópia das suas publicações. O processo de Harvard ainda é bem manual e atrasado, muita coisa tem que ser enviada pelo correio. Mas eu quis mostrar que não é nada diferente do que eu comentei aqui. O custo deles é 105 dólares, o que é um pouco acima da média.

Na internet há várias dicas de como escrever statements of purpose, como essa página de Berkeley, de Princeton, de Penn State e de Caltech.

Algumas dicas do Leonardo, aqui no blog mesmo: Para quem quer ir a pós-graduação no exterior. Ainda aqui no blog, um post meu sobre ações afirmativas na bolsa de ciência e tecnologia da Fulbright: Bolsa Fulbright de Ciência e Tecnologia e Ações Afirmativas.

Há vários posts no blog Cosmic Variance sobre esse mesmo assunto com o título “Unsolicited Advice”. Procure no Google! O primeiro está aqui.

Página do GRE

Página do IETLS e do TOEFL

Provas antigas do GRE de física na universidade de Ohio

Um post do Cosmic Variance sobre o GRE de física

Site da CAPES com bolsas para doutorado no exterior e o equivalente no site da Fulbright

Bolsa em C&T da Fulbright – o edital abre em fevereiro!

Site de discussões sobre o processo de aplicação Physics GRE. Mas eu não recomendo esse site. Tem muita besteira. Note que tudo que escrevi aqui é fruto da minha experiência aplicando e hoje vendo, de dentro, o processo de seleção. Nesse site, todo mundo tem GPA de 4.0, tira 990 no GRE e vai para Princeton. A realidade é muito longe disso.

Education USA – diversas informações sobre doutorado nos Estados Unidos, mas principalmente para quem vai aplicar pela CAPES ou Fulbright. Nesse site tem uma estatística interessante. O Brasil tem em torno de 120 mil alunos de pós-graduação e 3 mil nos EUA. A grande maioria desses na área de Business and Administration. Eu estimo que haja em torno de 40 alunos de pós-graduação em física nos Estados Unidos.

Ranking da US News para escolas de física.

Um ranking bem mais detalhado da NRC. Tem uma quantidade infinita de dados aqui para quem gosta dessas coisas.

Informações sobre as pós-graduações nos EUA: Grad School Shopper, PhDs.org

Página da embaixada americana sobre vistos de estudante

Informação sobre a taxa de registro de estudante SEVIS

Uma agenda tentativa

Vamos então tentar organizar o processo numa agenda. Vamos supor que você esteja no último ano da sua graduação: esse é o momento ideal para pensar na pós-graduação. Ninguém nos Estados Unidos faz mestrado, o doutorado aqui tem a extensão de um mestrado e de um doutorado no Brasil. Realmente não há necessidade de fazer o mestrado antes. O mestrado no Brasil só é necessário se você quiser aplicar para uma bolsa da CAPES ou similar, pois aí você estará concorrendo com outras pessoas que têm mestrado e perderá muitos pontos por não tê-lo.

  • Ano 1: Início do ano – Março a Maio: Decida as universidades que você vai aplicar e quais bolsas você vai tentar. Visite os sites (procure por “prospective graduate student”), leia e anote todos os documentos e prazos pedidos e pesquise com cuidado sobre os grupos de física procurando saber sobre sua produção em termos de artigos, experimentos, patentes… Aplique para as bolsas, caso isso te interesse. Inscreva-se e faça o TOEFL ou IETLS. Prepare-se para o GRE general, especialmente o de inglês.
  • Ano 1: Meio do ano – Junho a Agosto: Faça o GRE general. Estude e se inscreva para o GRE subject.
  • Ano 1: Final do ano – Setembro a Novembro: Abra os processos de inscrição. Peça as cartas de recomendação. Faça o GRE subject. Junte os documentos e mande. Tenha certeza que todos os documentos chegaram! Muitos documentos são perdidos e perguntar nunca ofende.
  • Férias: Dezembro e Janeiro: Relaxa, não tem nada para fazer nessa época!
  • Ano 2: Início do Ano – Fevereiro a Abril: Receba os resultados, vá para os open houses e envie sua decisão.
  • Ano 2: Meio do Ano – Maio a Julho: Tenha certeza que a universidade que você escolheu te mandou o documento I20, pague a taxa SEVIS e aplique para o visto. Arrume uma moradia perto da universidade, o mais fácil é no próprio campus.
  • Ano 2: Agosto a Setembro: Viaje e bom doutorado.

(Eu não estava mentindo quando eu disse que o processo era longo!)

Resultados, resultados!

Os resultados das aplicações chegam no ano seguinte, de fevereiro a março. As ofertas são dadas por ordem de preferência, então, quanto mais tempo passa, menos provável é que você receba uma resposta positiva. Contudo, quando você recebe uma, a figura muda completamente de situação. Antes era você pedindo uma oferta, agora são eles que vão tentar te convencer a escolher a universidade deles. E essa é uma época muito boa. As universidades fazem todas open house, que é uma semana em que você pode vir aqui conversar com os professores e conhecer os campi. Há uma ajuda de custo que, obviamente, não paga uma viagem internacional, mas se você for aceito por mais de uma universidade, pode tentar juntar várias ajudas e não sai tão caro. Nós, alunos mais velhos, costumamos receber os alunos nos open houses em nossas casas, mostrar a região, conversar sobre a universidade (eu até levo vocês para comer de graça!😉 )

Mesmo que você não possa vir, vários professores vão tentar entrar em contato com você por telefone. Procure conversar com alguém da área que você está interessado. Há perguntas muito importantes que devem ser feitas, mas que não são naturais no Brasil. Por exemplo, pergunte quantos alunos cada professor do grupo tem. Nos EUA ninguém entra com orientador desde o início, ou quase ninguém. Então, isso quer dizer que em 1 ano, você terá que arrumar um orientador. Se todas as pessoas do grupo já terão 3-4 alunos, você não terá vaga! Fuja disso.

No Brasil, onde você precisa já ter um orientador para ser aceito num programa de pós-graduação, essa possibilidade não existe: se ninguém te aceita, você nem começa. Aqui nos EUA, você pode muito bem perder 2 anos da sua vida e no fim descobrir que ninguém vai te orientar. Esse é um caso em que ter uma bolsa também faz diferença. Isso porque o grupo de pesquisa gasta o dinheiro da verba de pesquisa diretamente com você e eles terminam sendo bem mais seletivos na hora de escolher alunos caso tenham que pagar um salário de RA.

Claro que isso varia muito de grupo para grupo. Grupos experimentais, na média, têm mais necessidade e dinheiro para pagar alunos. Grupos famosos têm mais facilidade de ter seus pedidos de verba aprovados e o dinheiro é mais garantido, além de mais generoso. Tudo isso torna a sábia frase “Não escolha a universidade, e sim o grupo de pesquisa” um pouco mais difícil de ser aplicada nos Estados Unidos. Claro que ela ainda é verdade e eu recomendo que todo aluno prospecte não somente as universidades Ivy League-ish, mas outras menos conhecidas para nós, brasileiros, que têm excelentes grupos de pesquisa.

Pergunte sobre o valor do seu salário! Sim, você precisa sobreviver. Note que TA só paga durante as aulas. E durante as férias? Tem aulas no verão para ser TA ou um grupo de pesquisa vai te pagar? Mesmo no primeiro ano? O salário é suficiente para o custo de vida da região? Você tem que notar que viver na California é muito diferente de viver no Kansas, então o salário tem que se adequar correspondentemente. Plano de saúde: a universidade subsidia? Moradia: a moradia no campus é decente? Como é morar fora do campus? Isso pode parecer bobagem agora que você vive com seus pais, mas sua qualidade de vida influencia diretamente na qualidade da sua pesquisa.

Algumas dessas perguntas são mais facilmente respondidas por alunos que viveram essas dificuldades na pele do que por professores que estão completamente desligados dos aspectos políticos do departamento. Logo, pedir para conversar com um aluno do grupo também é enriquecedor. Não se sinta envergonhado, isso é muito comum. Alunos de terceiro ano, que já estão trabalhando com um grupo de pesquisa mas que ainda se lembram das dificuldades dos primeiros anos podem ser fontes de informações valiosas e podem responder às perguntas propostas aqui mais acuradamente que um professor.

Pesquise sobre a pesquisa das pessoas no grupo. Eu sei que idealmente todo mundo é livre para pesquisar o que quiser, mas se a pesquisa do grupo não chama atenção no mercado, vai ser muito difícil para você conseguir um emprego quando se formar. Os doutorandos estão conseguindo pós-docs em bons lugares? Os pós-docs estão conseguindo permanent positions em universidades de pesquisa? Se não estiverem, por melhor que sejam as pessoas, você estará assumindo uma posição de risco. Pense nisso.

A sua decisão tem que ser enviada até dia 15 de abril. Deixe para enviar quase no fim. Ouça as propostas, visite, converse, pesquise. Essa é uma decisão muito importante na sua vida já que, na carreira de físico, a parte profissionalizante da formação é o doutorado.

Depois de enviada sua decisão, a universidade vai te mandar um documento muito importante chamado I20. Esse é o documento que te permite tirar um visto de estudante e viver legalmente nos Estados Unidos. O visto que você precisa é o F1, caso você esteja indo como estudante e não como bolsista da CAPES. Nesse último caso, o visto é de intercâmbio, J1, e o documento se chama DS2019. Para tirar o visto F1, o início do processo é como qualquer outro visto: comece pagando a taxa para a entrevista (38 reais). Daí, preencha todos os formulários, pague a taxa SEVIS online (200 dólares), pague a taxa do visto no Citibank (140 dólares) e vá para a entrevista no dia marcado com todos esses formulários, documentos e documentos pessoais pedidos. Como é um visto de estudante, espere ser entrevistado em inglês. Pague mais uma taxa para retirar o visto e pronto. Caro e simples.

O processo pode ser um pouco demorado e por isso o ideal é fazer assim que você recebe o I20. Não deixe para última hora e, principalmente, não compre a passagem aérea antes de ter o visto (a não ser que você não siga meu conselho e seja obrigado a fazer tudo junto). É muitíssimo raro, mas não impossível que dê algum problema. E, nesse caso, a universidade nada pode fazer para te ajudar. Você vai ter que resolver sozinho. Eu nunca conheci alguém que, aprovado para o doutorado e com toda a documentação correta, não tenha conseguido um visto; mas eu conheço casos em que o processo foi mais demorado do que necessário.

Seu marido ou esposa e filhos podem também requerer um visto, o F2 (ou J2, no caso de intercâmbio). Note que esses são vistos bem restritos. Por exemplo, com o visto F2, seu cônjuge não terá permissão de trabalho nos Estados Unidos. As regras para o J2 também são rígidas, mas tem um pouco mais liberdade. Caso isso te interesse, leia as regras no site da embaixada americana.

Mestrado em física nos EUA

Muitas pessoas me perguntam sobre a possibilidade de fazer um mestrado em física nos EUA. O mestrado nos Estados Unidos tem um carácter muito diferente daquele no Brasil. No Brasil, o mestrado é um pré-doutorado. Os alunos usam os dois anos do mestrado para fazer as disciplinas de pós-graduação e a dissertação é mais uma perda de tempo do que qualquer outra coisa. Nos programas de pós-graduação americanos, algo equivalente é feito nos dois primeiros anos, mas em vez de terminar com uma dissertação sem conteúdo relevante, termina com o processo de qualificação.

O mestrado em física nos Estados Unidos existe, mas é dado em situações especiais:

  • Alunos em programas de curta duração, como intercâmbios. Como não pode passar muitos anos na universidade, eles se esforçam para fazer as disciplinas básicas e a qualificação no tempo que têm. Isso, em quase todas as universidades, é suficiente par pedir um diploma de mestre.
  • Alunos que começam o programa de doutorado mas não conseguem concluir. Seja porque não conseguiu passar em alguma parte do processo de qualificação ou simplesmente porque no meio do caminho viu que o doutorado não é para ele. Nesse caso, se o aluno tiver requerimentos mínimos, pode pedir um diploma de mestre. Há um diferença entre o processo de qualificação de mestrado e doutorado, por isso que o aluno pode falhar no doutorado, mas ainda ter os requerimentos para o mestrado.
  • Áreas específicas de pós-graduação. Tradicionalmente, algumas áreas não necessitam o tempo de um doutorado completo para a pós-graduação. Exemplos são ensino de física e instrumentação científica. Nesses casos, o aluno é aceito num programa de mestrado de 1 a 2 anos.

Para todas as outras pessoas, mestrado não existe e ninguém precisa fazer o mestrado no Brasil antes de tentar o doutorado na América.

É verdade que, se você quiser muito, várias universidades têm programas de mestrado. Em várias delas, contudo, os alunos não recebem suporte e têm que pagar integralmente pelo programa. Isso torna proibitivo para a maioria das pessoas de outros países. Alguns americanos procuram esses programas para terem um nível de conhecimento parecido com os alunos estrangeiros e não ficarem desfavorecidos na inscrição para o doutorado. Há dois títulos de mestre em física aqui nos EUA: o MA (master in arts) e o MS (master in sciences). O primeiro é dado se você faz apenas alguns cursos de pós-graduação e passa com boas notas. Esse é o caso típico de pessoas que vem em intercâmbios de curta duração já que é perfeitamente possível fazer todos esses cursos em um ano. O MS é análogo ao mestrado no Brasil e só é conferido após a apresentação de uma dissertação.

Repito que não há motivo nenhum para se fazer um mestrado nos EUA. Se, apesar do que eu disse aqui, você ainda acha que é uma boa idéia fazer um mestrado para ter uma vantagem na sua aplicação, faça no Brasil.

Traduções (quase-)oficiais

Um outro problema nas aplicações é que, apesar da lingua franca mundial ser o inglês, nenhuma universidade brasileira emite documentos oficiais em inglês. O documento que realmente importa é o histórico e algumas vezes o diploma (ou um comprovante equivalente). Nesses casos, a solução oficial é fazer uma tradução juramentada. Mas traduções juramentadas são caras, demoradas e ruins. Eu até usei uma ou outra vez, mas desisti rapidamente.

Como quase todas as aplicações são online, os documentos oficiais mesmo só são necessários caso você seja aceito. Mesmo que você gaste uma fortuna em tradução juramentada, as universidades ainda vão reclamar, porque eles vão dizer que os documentos não estão selados pela universidade e por isso não podem ser considerados oficiais. Eu nunca entendi muito bem isso: como eles esperam que o tradutor leia o documento se ele estiver selado? Então, se tiver algum diretor de instituto lendo esse blog, ou alguém que trabalha no setor administrativo de universidades, considere implementar a opção de emitir documentos oficiais em inglês e possivelmente em formato digital. Afinal, estamos em 2011, certo?

Me disseram que a Education USA, que é a representante da Comissão Fulbright no Brasil, tem um serviço de tradução para esses casos, mas eu nunca usei nem procurei saber com mais detalhes porque não sabia na época que estava aplicando, mas pode ser interessante se informar. O que eu fiz, e não estou dizendo que é o recomendável, foi traduzir eu mesmo, passar na direção dos Institutos de Física onde estudei e pedir para o diretor carimbar, assinar e selar o envelope. Depois de explicar a situação ao responsável na universidade onde estudo, terminaram aceitando o documento, mas não sem bastante reclamação antes.

Isso está longe do ideal, mas é assim que “funciona”.

Com bolsa ou sem bolsa?

Para ajudar as pessoas indecisas, resolvi juntar argumentos contra e a favor na hora de decidir se vale a pena ou não pedir uma bolsa.

Argumentos a favor da bolsa:

  • Mais fácil ser aceito nas universidades
  • Mais fácil encontrar um orientador
  • Não precisa trabalhar como TA nos primeiros anos
  • Não paga imposto de renda
  • O visto J2 para os cônjuges permite que eles trabalhem (com restrições)
  • O nome Fulbright tem muito prestígio e há muitos programas legais exclusivos para bolsistas (veja comentário abaixo)

Argumentos contra a bolsa:

  • Após o doutorado, você tem que passar o mesmo tempo que usou a bolsa no Brasil (4 anos, no caso da CAPES)
  • A bolsa da CAPES é menor que os salários de RA (mesmo depois de descontado o imposto de renda)
  • A CAPES espera que você termine o doutorado em 4 anos. O tempo médio de graduação nos EUA é de 6 anos. Mas pode-se pedir extensão se você encontrar quem te pague na universidade e argumente suas razões à CAPES
  • As ofertas de seleção são dadas prioritariamente às áreas estratégicas para o país. Eles esperam que você só peça bolsa se o que você quer estudar não tenha no Brasil

Hoje, no site da CAPES, as áreas prioritárias para concessão de bolsas de doutorado em física no exterior são listadas como:

Áreas novas e de grande relevância, em centros/grupos de excelência internacional. De um modo geral, devem ter prioridade as áreas experimentais relacionadas com os seguintes temas: nanociências e nonotecnologias (particularmente microscopia eletrônica de varredura e por sonda, NEMS, cristais fotônicos), novos materiais, energia e comunicações.

Isso não quer dizer que você não vai conseguir em outras áreas, conheço vários exemplos de alunos que conseguiram em áreas completamente diferentes às descritas acima. Mas essas são, declaradamente, as áreas de prioridade.

O Gustavo me chamou a atenção que a Fulbright não renovou o contrato com a CAPES para bolsas de doutorado pleno nos EUA. Na página da CAPES, eles informam que outras modalidades de bolsa continuam sendo oferecidas pela colaboração CAPES/Fulbright. Isso não quer dizer que a CAPES não dará mais bolsas, mas certamente quer dizer que o número de bolsas deve diminuir, já que a Fulbright pagava parte da bolsa. Também quer dizer que todo o prestígio do nome Fulbright que a bolsa carregava não existe mais, e essa talvez seja a maior perda. A Fulbright, além de renome, tem vários programas extra-curriculares para os bolsistas que os novos alunos não vão poder usufruir mais. Além disso, eles também deixaram de financiar os custos da inscrição, ficando a cargo do aluno pagar pelas provas e aplicações.

Eu espero que a CAPES refaça o acordo com a Comissão Fulbright. Algumas pessoas argumentam que não é necessário um doutorado pleno para que haja colaboração acadêmica entre o Brasil e outros países, e que estágios temporários como bolsas sanduíches seriam suficientes. Isso não é verdade. De qualquer forma, o processo de aplicar para a bolsa não muda com a saída da Fulbright e as informações desse post podem ajudar.

Várias pessoas me perguntaram como que o tuition (a mensalidade) é paga no caso de pessoas sem bolsa. A resposta varia. Na maioria das vezes, a própria universidade paga para si mesma. Há casos em que o aluno trabalha num laboratório externo à faculdade, e este paga para a universidade. Independentemente, nenhum aluno paga mensalidade para fazer doutorado em física nos EUA.

O procedimento para bolsa CAPES

Como disse no início, nunca apliquei para bolsa CAPES/Fulbright. Contudo, por questão de completeza, vou usar um texto de um amigo que estuda na mesma universidade que eu e que foi aprovado nesse processo. O nome dele é Marcelo Disconzi e está nos estágios finais do doutorado em Matemática aqui em Stony Brook. Com as palavras:

Neste pequeno texto quero descrever um pouco de minha experiencia pessoal no processo de seleção para doutorado pleno no exterior da CAPES. Embora minha descrição seja em primeira pessoa, acredito que ainda assim ela possa ser valiosa para aqueles que estão pensando em fazer a aplicação. Participei do processo nos ano de 2005-2006 (para início do doutorado em 2006), obtendo primeira colocação na área de Matemática. Talvez os detalhes finos do processo possam ser diferentes hoje (2011), mas até onde sei não houve alterações significativas em relação ao ano que participei. Após a aceitação acabei desistindo da bolsa CAPES-Fulbright (pois fui aceito com suporte financeiro na State Universidade of New York at Stony Brook, onde atualmente faço meu doutorado). Portanto não tenho como emitir opinião sobre o funcionamento do processo de doutoramento via CAPES-Fulbright em suas fases mais avançadas (e.g., como funciona o sistema de pagamento da CAPES, prestação de contas etc), mas posso dar ideias e sugestões desde a fase inicial da aplicação até o veredito de aceitação ou não da bolsa.

No início o que parece ser mais difícil é escrever o projeto. Obviamente as razões pelas quais cada um decide tentar um doutoramento nos EUA variam, mas acho que é razoável supor que muitas pessoas optam por estudar fora justamente para aprender uma área de pesquisa que não é desenvolvida no Brasil. Portanto, temos pouco contato não apenas com a área em si mas também com pessoas que poderiam nos ajudar a escrever tal projeto. No entanto, essas dificuldades são superadas tão logo nos damos conta de que o projeto não precisa ser muito específico. O mais importante é justificar por que a área de pesquisa em que estamos interessados é relevante e por que é inviável tentar desenvolvê-la a partir de um projeto de doutorado no Brasil. Passando-se na primeira fase do processo, temos de enviar à CAPES um memorando.

Lembre-se de que justamente porque não temos condições técnicas de julgar a linha de pesquisa em que desejamos trabalhar, é importante que o projeto contemple a possibilidade de eventuais ajustes futuros, sem no entanto dar margem a ambiguidades em relação ao tema. Lembre-se também que seu futuro orientador terá um papel decisivo no estabelecimento do tema de sua tese, portanto é importante que seu projeto seja algo exequível do ponto de vista das habilidades e áreas de interesse dos grupos de pesquisa das universidades para a qual você estará aplicando. Entrar em contato com professores dessas universidades durante a redação do projeto é fundamental (quando eu fiz a aplicação, a CAPES exigia prova de que tal contato tinha sido estabelecido, isso seria uma forma de garantir que havia interesse por parte de possíveis futuros orientadores na linha de pesquisa que você está interessado). Sobre esse ponto, acho que o principal conselho é: não tenha medo de fazer tais contatos. Muitas pessoas hesitam entrar em contato com professores desconhecidos e, principalmente, de grandes unviersidades norte-americanas. A minha experiência nesse sentido foi muito positiva. Todos eles sempre responderam meus emails, muitos entenderam a situação difícil em que eu me encontrava (ter de escrever um projeto sobre um assunto que eu não dominava) e se disseram dispostos a ajudar-me como fosse possível. Abaixo coloco alguns dos emails que troquei com alguns um dos professores (omito nomes e outras informações por razões óbvias).

Dear Professor X.,
I am a Brazilian student intending to apply to the graduate program of your University. I majored in Physics and I have Master Degree in both Physics and Math. I would like to study String Theory from a mathematical point of view. After a research about the places in the world (and in the United States in particular) which develop research in String Theory, I came to the conclusion that X University is one of the best places to study the subject. Therefore, I would like to know if you (or someone else in your group) have interest in tutoring students for a doctorship. I am asking financial support to a Brazilian agency. If you want I may send you a copy of my doctoral project as soon as I finish it.
Sincerely,
Marcelo Mendes Disconzi.

Dear Marcelo,
We are certainly very interested in having people such as yourself apply to X and we are all willing to take on graduate students. You need to decide whether you wish to apply to the physics department or the mathematics department.

Dear Professor X,
I will apply to the mathematics department since I want to study the mathematical aspects of string theory. The Brazilian agency I am asking the fellowship strongly recommend us to indicate some possible supervisor. I would like to know if I could list you as a potential supervisor at X University. As I told you, I can send you a copy of my project if you think it is necessary.
Sincerely,
Marcelo Mendes Disconzi.

Dear Marcelo,
I assume I’m not committing myself to anything if you name me as a potential supervisor – so feel free to go ahead!
Regards,

Acho que os emails são suficientes para ilustrar como lidei com a questão de estabelecer contatos. Claro, outras maneiras são possíveis. Acho que o mais importante é o que eu coloquei antes: não ter medo de entrar em contato e fazer perguntas.

Aliás, o mesmo vale em relação à CAPES: toda vez que eu tinha uma dúvida, por mais elementar que fosse, eu entrava em contato com a CAPES (por email ou telefone) e pedia esclarecimentos. Sei que isso parece meio óbvio. Estou salientando isso pois lembro-me de que quando fui à Brasília para a entrevista final e tivemos uma reunião para esclarecimento de dúvidas gerais, muitos candidatos tinham dúvidas básicas sobre o processo de seleção – dúvidas que aqulea altura já deveriam ter sido resolvidas. Claro, muitas das perguntas que eles tinham eram completamente naturais e eu mesmo tive as mesmas dúvidas quando estava no início do processo, mas como falei, eu não hesitei em escrever para a CAPES perguntando o que fazer.

Outra dúvida natural é sobre a entrevista em Brasília no estágio final do processo. No meu caso, as perguntas focaram-se basicamente em três tópicos: razões para estudar nos EUA, planos para carreira quando da volta ao Brasil, e motivação. Sobre as razões para estudar nos EUA, basicamente repeti os argumentos que eu já havia dado no meu projeto. Sobre o segundo tópico, os entrevistadores fizeram perguntas do tipo “Como você pretende desenvolver pesquina nessa área quando voltar para o Brasil?”; “Dado que não há especiliastas nesta área aqui no Brasil, você teria capacidade de trabalhar sozinho?”; “O que você faria caso ao retornar ao Brasil existam vagas disponíveis apenas em universidades pequenas longe dos grandes centros”. As respostas para tais perguntas são de um nível bastante pessoal, mas basicamente eu tentei salientar a importância de ter alguém (no caso, eu) iniciando uma linha de pesquisa importante no Brasil, a despeito de dificuldades como isolamento ou distância de grandes centros.

Espero que essas dicas ajudem (sempre mantendo-se em mente que a experiência de outras pessoas pode variar significativamente).

Salário num doutorado em física nos EUA (adicionado em 03/02/2011)

Recebi vários comentários com agradecimentos e novas dúvidas sobre esse post. Sem nenhuma dúvida, a maior parte das questões era sobre dinheiro. Muita gente ficou surpresa em saber que a maior parte dos alunos de doutorado em física nos EUA não possui bolsa, mas recebem salário das universidades. Como eu expliquei acima, a forma mais comum de suporte para os alunos iniciantes é como TA, ou seja, eles trabalham como assistentes dos professores nos cursos de graduação. Para dar uma noção mais exata de quanto as pessoas ganham, resolvi montar uma tabela com as principais universidades de física e os salários de TA, ou seja, quanto você espera ganhar no seu primeiro ano de doutorado. Eu obtive os dados nas próprias universidades, no “2011 Guide to Graduate School” da AIP e no “2010 NRC Ranking Data”, ambos presentes na seção de links (ou seja, na prática, não há informação nova nessa seção… só estou organizando a informação para responder dúvidas que recebi em comunicações pessoais). Como os dados não são encontrados de forma uniforme, normalizei-os para 11 meses para que a comparação fosse mais fácil. Os valores estão em milhares de US$.

Também estou adicionado o ranking da NRC em 95% C.L., o número de TAs, o número de alunos de pós, o número de inscritos, de ofertas e aceitações. Isso deve dar uma noção bem completa do barco que vocês vão estar entrando quando começarem a aplicar. A relação candidato/oferta foi a segunda pergunta mais comum, por isso acho que com esses dados, a maior parte das curiosidades vão ser satisfeitas. Todos os dados são do ano passado, isto é, 2010. Tenho dados de várias outras universidades, mas como estão incompletos, coloquei aqui apenas aqueles que eu tinha quase completamente. Esse ano algumas coisas tem mudado e vou fazer comentários no final do post.

Universidade R-Ranking Salário TAs Alunos Inscritos Ofertas Aceitações
Cornell 6-16 28.500 46 149 409 85 31
UIUC 3-14 20.000 117 276 580 N/A 42
UC Boulder 8-23 18.700 45 209 506 114 37
U Washington 15-35 19.000 48 134 392 99 30
U Maryland 5-21 21.000 48 221 660 140 45
Rutgers 30-70 29.700 37 95 260 45 20
John Hopkins 37-81 24.500 48 110 257 64 19
UT Austin 4-17 21.510 92 223 402 90 42
Ohio State 14-33 21.000 66 176 401 83 42
MIT 1-4 29.500 30 240 628 88 44
Princeton 4-13 29.400 31 110 489 53 13
Yale 15-32 25.500 65 156 273 40 9
Duke 30-73 23.800 22 69 194 54 13
Northwestern 36-83 23.400 19 81 215 49 13
UC San Diego 16-31 19.000 63 175 487 116 39
Brown 37-85 23.800 26 98 307 63 19
UC Los Angeles 9-27 20.300 69 151 324 71 23
UC Sta Barbara 4-13 22.600 35 122 500 89 18
Michigan State 17-41 19.200 39 143 360 58 21
U Minnesota 32-71 20.500 69 143 529 83 26
Stony Brook 10-33 21.500 41 171 441 108 45
U Chicago 4-14 26.800 30 127 476 97 21

Os dados nessa tabela devem ser tomados com muita parcimônia. Primeiro, o custo de vida varia muito de região para região. Além disso, sobre esse valor é incidido imposto de renda, e a parcela de imposto varia de estado para estado. Os salários são reajustados a cada ano e os alunos mais velhos também recebem salários melhores, principalmente depois da qualificação. Contudo, os percentuais exatos variam de universidade para universidade. Muitas vezes de grupo de pesquisa para grupo de pesquisa. Last, but not least, eu não tenho nenhuma garantia que esses números estão corretos, embora, se não precisos, eles não estão muito longe da verdade.

Relação cadidato/oferta para pós-graduações em física nos EUA (2010)

Esse ano o número de inscritos deve ter aumentado e o número de vagas diminuído. Aqui em Stony Brook houve um aumento de 20% no número de inscritos e uma diminuição de 33% no número de vagas. Os dois fatos tem uma explicação comum: a crise financeira pela qual os EUA passaram recentemente. Por um lado, menos dinheiro para pagar novos alunos, por outro lado, mais pessoas achando que estar numa pós-graduação é uma boa maneira de enfrentar a crise (ou melhor, de não enfrentar :P)

Com o aumento da relação candidato/vaga, aumenta a qualidade das pessoas que estão sendo aceitas. Eu não tenho dados dos resultados do GRE desse ano (tive eles na minha mão, mas infelizmente não deu tempo de fazer uma análise). Mas te digo que, mesmo Stony Brook que não é uma universidade de primeiro tier, esse ano provavelmente só vai aceitar alunos com GPA (o que no RJ chamam de CR e em SP chamam de MP) maior que 3.75 em 4, ou seja 9.3 em 10, e 50% desses prováveis alunos já tem mestrado. Claro que os alunos com notas altas são os americanos – as notas aqui são bem inflacionadas – e os alunos com mestrado são os europeus e latinos (então, por favor, não se assuste! Mesmo se você tiver um CR menor que 9.3, você continua competitivo… eles sabem, e sabem muito bem, que o significado das notas depende da universidade). Isso está forçando os americanos a começarem a pensar em mestrados também, para continuarem competitivos. Só que, como a universidade não tem nenhum interesse em dar suporte a aluno de mestrado, a pessoas tem que pagar por essa educação extra. E em tempos de crise esse dinheiro extra é muito bem vindo.

Queria fazer uma comparação com o Brasil. Como visto no histograma acima, a relação candidato por oferta média nesses universidades é de 5.2. Na USP, no último ano, 270 pessoas se inscreveram e 123 foram aprovados, com uma relação de candidato/oferta de 0.46. O que muda muito entre Brasil e Estados Unidos são as flutuações em torno da média de pessoas que aceitam a oferta. No Brasil, dessas 123 ofertas, você pode ter certeza que só vão aceitar aqueles que conseguirem uma bolsa, enquanto nos EUA, se a pessoa não aceita uma oferta, é porque recebeu outra melhor. Isso quer dizer que a flutuação em torno da expectativa que as escolas tem para a quantidade de alunos que vão entrar em certo ano, principalmente nas escolas de segundo tier, é muito grande. Essa é outra razão para o número de ofertas variar tanto de ano para ano porque, na verdade, se muita gente aceitar, não há dinheiro e isso significa que no próximo ano menos ofertas poderão ser feitas já que não é saudável correr o risco de ter dois anos acima da média.

Comparar o dinheiro é mais complicado, por causa do câmbio. É irreal usar câmbio oficial para estimar diferenças em custo de vida. Eu costumo usar a relação 1:1 para fazer esse tipo de comparação e termina sendo bem realista. Nesse sentido, a bolsa da FAPESP é de R$22580 (normalizado em 11 meses, como acima) e do CNPq de R$19800, similar ao bruto dos salários nos EUA. A grande diferença é que bolsista não paga imposto e aluno aqui paga. Ou seja, a situação financeira dos alunos no Brasil é bem mais confortavel, mas nunca vi ninguém passar necessidade como aluno aqui nos EUA (vide, contudo, o comentário do Leonardo que fala sobre alguns bens de consumo específicos, que são mais baratos por aqui).

(Adicionado em 21/04/2011) O Marcelo, que escreveu parte desse post, me lembrou de dizer que nos EUA, como em qualquer país, se você recebe salário, você paga imposto de renda. Os salários na tabela acima são brutos, e sobre ele você vai pagar algo como 10-15%, dependendo do estado em que mora. Para aluno com bolsa CAPES não há imposto de renda, mas eu recomendo que mesmo assim se faça um esforço para obter um SSN, pois isso facilita muita coisa nos EUA.

A “síndrome Ed Witten” (adicionado em 17/02/2011)

Estamos na época de envio dos resultados das aplicações para doutorado em física 2011-2012. As ofertas daqui de Stony Brook devem ser enviadas por esses dias, possivelmente até hoje. Eu não sei se tem alguém que lê esse blog e aplicou, mas se tiver aplicado, boa sorte. O que eu queria falar nesse terceiro post é sobre a “síndrome Ed Witten”.

Eu estava conversando sobre a lista final de aceitos hoje com algumas pessoas aqui na universidade e é impressionante como algumas pessoas excelentes ficaram fora da lista. Qual foi o erro deles? Serem específicos demais no statement of purpose. A maioria deles fazia declarações definitivas de que só fariam física teórica e ponto, nada mais. Física teórica é aqui sinônimo de teoria de cordas, espero que você entenda. Como a comissão de aceitação sabe que não nasce um Ed Witten por esquina, os candidatos de theoretical theory são avaliados sistematicamente piores que candidatos de mesma qualidade aparente mas que não são tão restritos nas suas escolhas de área.

Como eu já disse nos meus posts anteriores, aqui nos EUA você só escolhe o orientador depois de algum tempo dentro do doutorado e ter escolhas tão restritas de áreas em que vai trabalhar é visto como algo negativo (principalmente se essa área é teoria de cordas :P), como algo que limita suas chances de sucesso na pós-graduação. Claro que você não quer parecer indeciso, é importante mostrar inclinação para uma certa área da física. Contudo, mesmo que você no fundo só queira mesmo estudar uma área em específico, deixe para travar essa batalha quando já estiver aceito no programa. Não diga que você só quer estudar teoria de cordas, diga que você quer estudar algo relacionado a teoria quântica de campos, ou até somente o enigmático “física de altas energias”. Em geral basta.

Recentemente foi anunciado no site da APS uma nova colaboração SBF-APS para intercâmbio de estágios nos EUA e no Brasil. Isso quer dizer que até 30 de abril de 2011, alunos e professores brasileiros podem aplicar para uma bolsa para passar um tempo nos EUA trabalhando ou dando mini cursos. Vale a pena conferir:
Brazil-U.S. Exchange Program

Cursos básicos e qualificação (adicionado em 28/09/2011)

Já falei de várias vantagens em se fazer o doutorado em física nos EUA. Mas claro que nem tudo é fácil e existem alguns problemas que todos os alunos enfrentam. Talvez o principal problema acadêmico de se fazer um doutorado nos EUA é que isso significa recomeçar a pós-graduação. Se você está saindo da graduação agora, tudo bem. Mas, como a maioria das pessoas deixa para aplicar depois do mestrado, há um angustiante período de pesquisa perdido na transição, sem contar os 6 meses de diferença entre os períodos acadêmicos.

Nos dois primeiros anos, o aluno é suposto de fazer uma série de cursos básicos, cursos experimentais, cursos avançados na sua área de pesquisa e cursos avançados fora de sua área de pesquisa. Além disso, o aluno tem que passar pelo processo de qualificação, que é composto de várias provas orais e escritas. Essas são provas longas, em geral de vários dias, que avaliam o aluno no seu conhecimento de assuntos básicos, avançados e sobre sua área de pesquisa.

Por assuntos básicos eu não quero dizer assuntos tratados superficialmente. Básico aqui quer dizer que todos eles são necessários para entender qualquer campo de pesquisa. Especificamente, estou me referindo à Mecânica Quântica, Mecânica Estatística, Mecânica Clássica e Eletromagnetismo

Claro que quando se faz cursos sobre assuntos que já se conhece é mais simples tirar uma boa nota. Essa é essencialmente a razão pela qual grande parte dos alunos brasileiros tem um excelente desempenho nos cursos de doutorado nos EUA – nossa formação de graduação e mestrado naturalmente inclui o conteúdo que aqui é deixado para o doutorado. Contudo, não é porque é mais simples que deixa de tomar menos tempo. E é por isso que os dois primeiros anos tendem a ser mortos para pesquisa.

Quando o aluno passa por todas essas obrigações, ele deixa de ser chamado de aluno e passa a ser considerado um Ph.D. candidate. Os requerimentos exatos dependem de universidade para universidade e, se você não quiser ter vários anos de desistímulo por não conseguir fazer pesquisa, é importante pesquisar bem o quanto a universidade vai te prender em obrigações antes de aplicar ou decidir ir. Essa informação sempre está na página da pós-graduação dos institutos de física das universidades. Contudo, para se ter uma idéia da diferença, eu decidi fazer uma pequena compilação de cursos obrigatórios na tabela abaixo.

Eu vou usar as abreviações:

  • CC: Cursos básicos (core courses)
  • GL: Cursos experimentais (graduate laboratory)
  • AC: Cursos avançados na área de pesquisa (advanced courses)
  • BC: Cursos avançados fora da área de pesquisa (breadth courses)

Note que o fato deles não serem obrigatórios não quer dizer que eles não existam. Toda boa universidade tem todos os cursos básicos e avançados para te ensinar aquilo que vai ser a tua profissão. Tampouco isso quer dizer que você não vai ter que provar que sabe o conteúdo. Por exemplo, na maioria das universidades que não exigem os cursos básicos, os alunos têm que fazer uma prova de qualificação sobre o conteúdo desses cursos que pode ser tão trabalhosa quanto fazer o curso (mas certamente exige menos tempo). Por isso que, além de ver qual a exigência dos cursos, é importante também ver quais os requerimentos para qualificação.

A tabela abaixo repete, mais ou menos, as universidades da minha tabela anterior sobre salários de alunos de primeiro ano e os números são os números de cursos exigidos para advance to candidacy. Isso deve dar uma idéia de quanto tempo você terá que investir antes de começar a fazer pesquisa. Em geral, o aluno tem o máximo 2 anos para completar todos os requerimentos de cursos, qualificação e para achar um orientador. Se não conseguir, é chutado do programa mesmo. Algumas universidades são famosas por cortar quase metade dos alunos nesse processo (me lembro de ter visto um fração grande em Stanford e de ter ouvido falar de UC Berkeley, mas não tenho os números aqui comigo).

Universidade CC GL AC BC
Cornell 0 1 0 0
UIUC 0 0 0 2
UC Boulder 6 0 0 0
U Maryland * 0 0 2
Princeton 0 ** 3 0
Rutgers 4 0 2 2
John Hopkins 5 1 0 0
UT Austin 4 1 *** 0
MIT 0 0 2 2
Duke 4 1 0 2
Northwestern 0 0 6 0
UC San Diego 0 0 5 0
UC Sta Barbara 4 0 2 1
Stony Brook 0 1 0 2
U Chicago 0 1 4 0

* Mecânica Quântica 1 e 2 só é obrigatório para alunos de teoria. Acho isso quase ofensivo.
** Exige que cada aluno seja assistente num laboratório de pesquisa durante 100 horas e apresente um relatório.
*** O número de cursos exigidos varia com a área de pesquisa.

Você podem perceber que os requesitos variam muito! Além disso, você pode terminar fazendo cursos que não são obrigatórios, seja para não precisar fazer parte da qualificação, seja para aprender algo necessário para passar pela qualificação, ou mesmo para aprender a tua área de pesquisa. Como exemplo, vou falar de Stony Brook.

Aqui há 6 cursos básicos, que não precisam ser feitos se você passar em provas de qualificação sobre cada um dos assuntos. São dois dias de provas e elas são bem difíceis. Por outro lado, não há nenhum curso avançado necessário, mas você vai precisar passar numa outra prova de qualificação que cobra o conteúdo desses cursos e por isso vários alunos terminam fazendo os cursos de qualquer forma.


Você pode baixar esse texto em PDF aqui (266kB)

Categorias:Ars Physica
  1. Claudio Verdun
    domingo, 2 jan 2011; \52\UTC\UTC\k 52 às 22:02:08 EST

    Obrigado pelo post, Rafael!
    De grande valor para os estudantes de C&T do brasil!
    só uma correção: não seria “justiça das pessoas que DEScumprem com o contrato”🙂

  2. Rodrigo
    segunda-feira, 3 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 12:10:05 EST

    Rafael, uma coisa não ficou clara para mim…. Toda faculdade tem o tuition fee, e esse dinheiro tem que sair do bolso de alguém…. A parte do salário ficou clara, o grupo de pesquisas vai te “contratar” para fazer determinadas tarefas.. mas e a “mensalidade” do doutorado? E os gastos com moradia, etc,etc,etc… do recém chegado? Quem paga, visto que não existe lanche grátis, ainda mais se tratando de uma faculdade americana?

    • segunda-feira, 3 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 15:45:59 EST

      Depende.

      Sobre o tuition: Na maior parte dos casos, a própria universidade paga para si mesmo. Ninguém paga pós-graduação em física de verdade. O que às vezes acontecesse é quando você trabalha e é orientado por alguém num laboratório externo à faculdade (um laboratório nacional, por exemplo), o laboratório costuma ter que pagar o tuition.

      Sobre a moradia: Quase todas as universidades americanas tem housing no campus e eles dão prioridades aos alunos, então você dificilmente não terá vaga. O custo é você que paga. Eu não gosto de morar no campus, prefiro morar nas proximidades da universidade, acho mais agradável. Mas moradia é igual a em qualquer lugar do mundo, você que tem que pagar. O primeiro mês pode ser um pouco difícil, já que você só vai receber salário no segundo mês (por ter trabalhado o primeiro), mas nada que um cartão de crédito não resolva se você não tiver uma economia.

  3. Rodrigo
    segunda-feira, 3 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 16:43:26 EST

    Agora sim ficou claro….😉
    Então imagino que o esquema seja o mesmo para um pos-doc por exemplo não?

    • segunda-feira, 3 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 17:36:26 EST

      Na verdade, o esquema é igual a de qualquer doutorado, inclusive no Brasil. Por exemplo, se a você é oferecido um doutorado em outro estado do Brasil, o esquema de moradia seria mais ou menos o mesmo, certo? Ninguém vai te dar um adiantamento para achar apartamento. A CAPES até faz isso quando você vai com bolsa deles para os EUA… mas, como você está vendo, a CAPES é uma mãe. Mãe demais, às vezes. Por exemplo, se você passa 4 anos de doutorado, eles começam a reclamar. E reclamar bastante. O problema é que o tempo médio de doutoramento por aqui é de 6 anos (um pouco menos para teoria, um pouco mais para experimental), já que os dois primeiro anos são usados exclusivamente com os cursos básicos e o processo de qualificação. Seu doutorado mesmo começa no terceiro ano, independentemente de você ter bolsa ou não. Isso quer dizer que, dependendo da universidade, uma bolsa de quatro anos significa que você terá apenas dois anos para fazer pesquisa. Tudo isso deve ser considerado na hora de escolher para onde ir e esses detalhes também devem ser perguntados. Tem universidades que tem muitos cursos básicos obrigatórios e um processo de qualificação muito duro (e mais as obrigações de TA), o que realmente te impossibilita qualquer idéia de fazer pesquisa nos dois primeiros anos, por mais que talvez você esteja preparado.

      A diferença para pós-docs é que, nos Estados Unidos, não é permitido que os pós-docs morem nas moradias dos campi, o que torna as coisas um pouquinho mais complicada. A melhor escolha é, no início pelo menos, morar no campus. Pelo menos até conhecer a região e aprender a viver aqui nos EUA. Depois, a melhor coisa é comprar um carro, sair do campus e encontrar um lugar para você. Mas isso demora um tempo. Tudo por aqui é diferente, você realmente tem que reaprender um monte de coisas óbvias (como pagar contas? onde se compram as coisas? como se acha um serviço? como se assina um contrato de aluguel? e outras coisas corriqueiras…)

  4. Pedro Lisbão
    segunda-feira, 3 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 17:43:49 EST

    Não conhecia o Ars Physica de perto ainda, e vim parar aqui pois fui parte da hoje moribunda comunidade do Orkut. Contudo, pretendo incluir o blog na minha lista de leituras. =)

    Fico feliz que tenha continuado com toda a orientação, afinal, o processo é cheio de detalhes e todo cuidado é pouco. Estou me inscrevendo agora, e dando tudo certo, espero poder ajudar as próximas gerações. A verdade é que a comunidade do Orkut que você criou estabeleceu muito do algoritmo que seguimos na hora de ir fazer doutorado.

    Obrigado!

  5. Rodrigo
    terça-feira, 4 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 08:27:25 EST

    Perfeito. Estou começando o doutorado esse ano, aqui no IAG mesmo (direto, mas é uma história meio complicada, já que tenho mestrado em outra área), mas essa história de pós fora sempre foi um assunto meio nebuloso pra mim… valeu!!

    • terça-feira, 4 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 09:38:09 EST

      Sem problema! Minha idéia é mesmo dividir minha experiência. Eu tive muita dificuldade de encontrar informações quando estava aplicando e é isso que me motiva a criar esse tipo de post. Eu o tenho atualizado e vou continuar por um tempo a adicionar informações.

      Boa sorte no seu doutorado!

  6. Paulo
    terça-feira, 4 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 15:29:47 EST

    Pra quem faz engenharia, é difícil conseguir uma pós (em física) fora?
    É que eu vou começar o curso de engenharia química, no entanto, gostaria de fazer uma pós-graduação em física. Me pergunto se eu poderia fazer algo relacionado as duas áreas, ou se ficaria difícil encontar alguém para me orientar, se eu optasse por algo totalmente novo na pós.

    • terça-feira, 4 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 17:45:20 EST

      Não é difícil. Na verdade, se você está realmente buscando algo na interseção entre física e engenharia química é possível até que os grupos de pesquisa gostem da sua formação. Na comunidade do Orkut tinha um membro que justamente trabalhava com algo entre física e química (mas não engenharia, ele trabalhava com cálculos ab-inito) e ele passou muito bem em várias pós-graduações nos EUA

      Quanto às provas, se você se dedicar bastante as tuas aulas de física básica (física 1, 2, 3 e 4), o GRE não será um problema.

  7. terça-feira, 4 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 18:48:50 EST

    Muito bom o post, com muitas informações interessantes. Gostaria que você esclarecesse mais sobre ‘tuition fee’ (como comentaram) e também sobre os custos de moradia para alguém que decide aplicar à uma universidade de maneira autônoma.

    • terça-feira, 4 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 19:02:16 EST

      Olá Natália,

      Vou te dar a mesma resposta que já dei ao Rodrigo (veja acima): ninguém paga tuition para fazer doutorado em física. Todo mundo que é aceito para um doutorado tem seu tuition pago por alguma instituição. Muitas vezes, no caso de quem aplica sem bolsa, a própria universidade paga para si mesma. Na prática, é como se você fosse isentado de pagar a mensalidade.

      Para moradia, os custos dependem muito da região onde é a universidade. Mas quase sempre os salários são adequados de forma que é possível pagá-la sem passar fome. O salário de TA/RA é como a bolsa típica de doutorado no Brasil: é pouco, mas é suficiente para uma vida modesta de estudante.

  8. Raphael
    quarta-feira, 5 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 00:30:42 EST

    Assim como os topicos na comunidade do Orkut o post esta impecavel, Rafael. Gostaria de adicionar somente o seguinte:

    Em algumas universidades e possivel pedir para substituir o visto de F-1 para J-1 . Dessa maneira, conjuge e filhos teriam visto J-2 e direito a trabalhar. O problema do visto J-1 e que ao termino do curso/trabalho voce e usualmente obrigado a voltar para o pais de origem e passar ao menos 2 anos neste (independente de vinculos com a CAPES ou qualquer outra agencia). Existe uma lista de paises de origem e profissoes para quais essa regra vale (quimicos, fisicos e matematicos brasileiros pelo que eu me lembro estao todos enquadrados). O que se pode fazer, para nao ter de voltar e se manter legal é pedir uma autorizacao para a embaixada brasileira. Caso o pedido seja aceito, eles irao emitir um documento no qual dirao que nao fazem objecao e assim voce pode fazer o pos-doutorado ou outras coisas nos EUA (nao tenho informacoes sobre a dificuldade desse processo, mas nao aparenta ser complexo).

    Off-topic: um colega que tambem entrou para o doutorado em quimica em Minnesota no ultimo semestre fez graduacao em Stony Brook. Disse a ele que havia um brasileiro em Stony Brook que trabalhava com fisica de altas energias e que seu nome era Rafael. Ele logo disse que conhecia e perguntou se o orientador desse Rafael era o John Hobbs. Falou que fez o curso de instrumentacao (ou algo assim) do John Hobbs e que quando ele viajou, voce (ou algum outro Rafael de Stony Brook) deu as aulas. Ele ainda comentou que as aulas foram boas. O nome do colega que me disse isso e Pavel (mas voce provavelmente nao se lembrara, apesar da personalidade dele ser bastante peculiar). Grande coincidencia, nao?

    • quarta-feira, 5 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 05:30:29 EST

      Oi Raphael,

      Obrigado pelas informações extras que enriquecem o post. Espero que seu doutorado esteja indo bem.

      E que coincidência, não? Ainda bem que ele gostou do curso! Mas acho que a maioria dos alunos gostaram, apesar da dureza que foi. Eu tenho maior orgulho daquele curso, sabe… Chegamos a ganhar um prêmio do presidente da universidade pela qualidade dele.🙂

      Abraços.

  9. Gustavo
    quinta-feira, 6 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 10:03:09 EST

    Muito legal o post Rafael!
    Só um adendo (que precisa ser confirmado): eu acho que a parceria CAPES/Fulbright para doutorado pleno no exterior não foi renovada. Além de não ter tido edital para o ano 2010/2011, uma amiga minha que ganhou bolsa na última seleção (2009/2010) ouviu do pessoal do consulado que esse tinha sido o último ano do programa. No entanto, a seleção para doutorado pleno no exterior da CAPES voltou a incluir os EUA, mas fica faltando o prestígio do nome Fulbright na application.

    Abraços.

    • quinta-feira, 6 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 10:10:36 EST

      Oi Gustavo,

      Obrigado pela informação. De fato, embora a página da Fulbright ainda diga que a bolsa com a CAPES existe, a página da CAPES não menciona nada. Parece que o contrato não foi renovado mesmo. O que é uma pena, porque o nome Fulbright era um grande motivador.

      Vou editar o post.

      Espero que seu doutorado esteja indo bem e que você esteja gostando da neve!🙂

  10. Vanessa
    sábado, 8 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 18:33:15 EST

    Oi, gostaria de tirar uma dúvida. Eu tinha pensado inicialmente de tentar o doutorado direto, só que com a correria do semestre passado, ficou tudo para última hora e eu acabei desistindo. Começando o mestrado agora em março eu já teria que planejar tudo para entrar então no doutorado em setembro de 2012, certo? E isso implicaria em ter que fazer o mestrado em um ano e meio. Concluir nesse tempo é humanamente possível?

    • sábado, 8 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 18:47:38 EST

      Oi Vanessa,

      Dependendo do seu orientador e do objetivo do mestrado, pode ser feito em um ano e meio sim. Na maioria dos casos não é. O que a maioria das pessoas faz é pensar na aplicação durante o segundo ano do mestrado. Porque aí se defende em março-abril do “terceiro ano” e se começa o doutorado em setembro desse ano. A agenda é mais ou menos assim.

      Ano 1 do mestrado – Começa-se o mestrado em março/abril.
      Ano 2 do mestrado – Faz o processo de aplicação.
      Ano 3: Em fevereiro/março se recebe os resultados e em março/abril se defende o mestrado. Em setembro começa o doutorado.

      Isso é o que a maioria das pessoas faz. Mas eu conheço pelo menos um caso em que a pessoa fez o mestrado em um ano e meio. Note que, nos EUA, o seu mestrado não vai servir oficialmente para nada (nem para não precisar fazer cursos básicos, muitas vezes)… a única coisa que conta é seu conhecimento de física que fica mais aprofundado pelo tempo extra que você teve. Por outro lado, as universidade americanas tem uma preferência por alunos mais novos na admissão. Então, balance bem as escolhas.

      Abraços,

      Rafael.

  11. Vanessa
    sábado, 8 jan 2011; \01\UTC\UTC\k 01 às 20:01:21 EST

    Obrigada pela ajuda. Acho que vou esperar o mestrado iniciar para ver que rumo vai tomar, assim fica mais fácil definir o que fazer depois. Mas acho que já vou me preparando para as provas do GRE só por precaução.

  12. Rodrigo de Abreu
    segunda-feira, 10 jan 2011; \02\UTC\UTC\k 02 às 12:49:56 EST

    Oi, excelente postagem. Para estudantes ainda graduandos isso é uma coisa muito legal, a gente sempre tem planos de fazer pós-graduação fora, mas é difícil saber por onde começar, e certamente esse tópico aqui ajudará bastante quando chegar a minha hora. Tenho mais uma dúvida e um comentário a fazer.

    Primeiro a dúvida: O Paulo perguntou sobre doutorado em física, tendo por graduação engenharia, o meu caso é mais ou menos o mesmo, eu faço graduação em engenharia elétrica e já estou decidido a prosseguir na pesquisa em física, ou algo entre física e engenharia, isso é algo legal que eu ainda tenho um tempo para pensar (restam-me dois anos e meio de graduação ainda). O que eu me preocupo é com a minha formação básica, seria interessante eu fazer um mestrado em física aqui no Brasil, para que não chegue no doutorado devendo algo?

    Agora um comentário: Alguns dos meus professores terminaram o mestrado em um ano e meio, e me disseram que não é tão difícil de se conseguir isso. Inclusive dois dos professores que conheço terminaram o doutorado em bem menos tempo, algo em torno de dois anos e meio. O meu orientador de IC disse que essa é uma coisa possível de se fazer, mas que é interessante o aluno gastar o tempo do doutorado para aprender mais e conviver junto com o grupo de pesquisa, porque é interessante para o desenvolvimento do pesquisador. Por isso, é interessante ficar os quatro anos no doutorado.

    • segunda-feira, 10 jan 2011; \02\UTC\UTC\k 02 às 13:13:42 EST

      Olá Rodrigo,

      Sempre é interessante aprender o máximo de física que você puder. Não importa se durante a graduação ou durante um mestrado. Mas note que toda pós-graduação nos EUA disponibiliza todos os cursos básicos para os alunos. Assim, mesmo que você só tenha os cursos de física básica, a pós-graduação que você entrar vai te possibilitar aprender o resto. Só vai ser mais puxado (e não é todo mundo que aguenta).

  13. Rodrigo de Abreu
    segunda-feira, 10 jan 2011; \02\UTC\UTC\k 02 às 17:54:06 EST

    Ok, obrigado pela resposta.

    De qualquer jeito, se for pleitear uma bolsa da capes é praticamente necessário que se tenha um mestrado, então irei ponderar com calma isso tudo.

    Valeu mesmo!

  14. edvan
    quarta-feira, 12 jan 2011; \02\UTC\UTC\k 02 às 18:08:23 EST

    Prezados amigos,
    Sei que o post, muito bom por sinal, fala da candidatura a uma universidade americana, mas tive certa curiosidade em saber se as universidades canadenses agem da mesma forma para a seleção de seus futuros alunos. Será que alguém poderia me indicar algum sítio com informações sobre a candidatura em uma universidade canadense?
    Att,
    Edvan

    • quarta-feira, 12 jan 2011; \02\UTC\UTC\k 02 às 19:54:02 EST

      Olá Edvan,

      Até onde eu sei, o que não é por experiência pessoal e, logo, questionável, o processo no Canadá é idêntico ao dos EUA. Eu sugiro que você compare as informações nas páginas das grandes universidades ou procure alguém que esteja estudando lá.

      Abraços,

      Rafael.

  15. Pedro Lisbão
    quinta-feira, 13 jan 2011; \02\UTC\UTC\k 02 às 18:39:55 EST

    As universidades canadenses tendem a ter o mesmo sistema dos EUA.

    As que não têm o mesmo sistema, geralmente têm menos exigências (i.e o GRE específico não ser obrigatório).

    É claro que é sempre bom olhar o site da universidade que você pleiteia. Algumas sugerem que você já tenha um orientador em mente (como no Brasil, diferente dos EUA), e os prazos são ligeiramente diferentes.

  16. sábado, 15 jan 2011; \02\UTC\UTC\k 02 às 13:41:39 EST

    Thank you very much for this page. I took the freedom to make a link from my webpage to your page ( advice part ). I also wrote some sort of advice for international students applying to the USA and I think this article gives another way to advice students on the process.

    I like very much your blog thank you!.

  17. Daniel Araújo
    sexta-feira, 11 mar 2011; \10\UTC\UTC\k 10 às 15:50:32 EST

    Olá.

    Achei esta postagem simplesmente esclarecedora. Me fez querer sonhar com um possível doutorado direto no exterior, como muitos.

    Meu problema é só que eu não quero fazer doutorado na área de física, e sim em Engenharia Elétrica, numa área de design de Circuitos Integrados. Isso tudo deve se aplicar, mas…

    A gente pode pedir o ‘financial aid’ simplesmente na hora de se aplicar a universidade? Muitas universidades, como a Stanford, fazem uma “calculadora de ajuda”, e não acho que eles aceitem pessoas que botem “ajuda parental” como sendo zero ou qualquer coisa do tipo. Sem falar que, aparentemente, para ser TA ou RA, primeiro você tem que estar lá, não? E esses primeiros meses seriam bancados por mim? Algumas universidades sequer pagam suas tuiton fees inteiras, enfim, esse ponto não ficou muito claro no seu texto, que já devo ter lido umas cinco vezes.

    Importaria em detalhar melhor todo esse processo de pedir ajuda financeira ou conseguir trabalho de RA / TA? Conseguir ser aceito me parece ser bilhares de vezes mais fácil do que conseguir pagar os estudos lá.

    Obrigado,
    Daniel.

    • segunda-feira, 14 mar 2011; \11\UTC\UTC\k 11 às 19:01:48 EST

      Oi Daniel,

      O programa de Ph.D. nas escolas de engenharia segue o mesmo esquema. Você não precisa pedir ajuda financeira porque ao aplicar para o Ph.D. a ajuda é automática; quer dizer, se você for aceito é porque eles vão te dar um salário. Isso que você mencionou sobre a ajuda financeira calculada é para os undergrads, não para o Ph.D. Ah, observa que nos EUA não existe graduação em engenharia específica, então a escola de engenharia tem tanto programas para formar engenheiros como um programa de Ph.D. Em geral os programas que não são Ph.D. não tem ajuda financeira própria da instituição.

      Para ser TA você precisa ser aceito na instituição, claro. Desde o início no programa de Ph.D. você recebe um salário. Você vai ficar por conta própria em todos os custos de viagem e provavelmente o primeiro mês inteiro, até chegar o primeiro contra-cheque no final do mês ou início do mês seguinte.

      Veja, p.ex., essa página sobre o programa Ph.D. em engenharia em Dartmouth:

      http://engineering.dartmouth.edu/admissions/graduate/ms-phd-tuition.html

      Como você pode ver, quem é aceito no Ph.D. ou M.S. em engenharia recebe 100% da tuition e mais um salário.

  18. Daniel
    quinta-feira, 21 abr 2011; \16\UTC\UTC\k 16 às 16:46:14 EST

    Oi, não sei se é só impressão, mas me pareceu muito penoso o processo de seleção em relação a duração, custo e o rendimento dos doutorandos caso não tenham bolsa, pois se lançam a um outro país sem nenhuma garantia de meios para se manter. Você tem alguma informação sobre seleção para universidades européias, se seguem o mesmo padrão?

    • Rafael Lopes de Sá
      quinta-feira, 21 abr 2011; \16\UTC\UTC\k 16 às 19:48:32 EST

      Olá Daniel,

      Eu acho que um doutorado em boas universidades nos Estados Unidos dificilmente pode ser considerado como uma aposta sem nenhuma garantia, as oportunidades de projetos de pesquisa aqui nos Estados Unidos são infinitamente superiores a do Brasil. Nas universidades e laboratórios existe uma mentalidade de trabalho e de pesquisa que não existe no Brasil. Além do mais, você tem a chance de trabalhar com os melhores profissionais da tua área. Note, não estou dizendo que não conheço pessoas que fizeram bons doutorados no Brasil, conheço vários. Só não conheço lugar onde você mergulha tão de cabeça em pesquisa em física quanto aqui. O rítmo é diferente, o financiamento é diferente, a forma de pensar é diferente — as pessoas respiram pesquisa em física 24 horas por dias (e isso não é uma hipérbole!)

      Não conheço o processo das universidades europeias, mas me parece que fica a cargo do aceite do orientador apenas, sem a necessidade de provas e todo esse processo que descrevi no post.

  19. terça-feira, 26 abr 2011; \17\UTC\UTC\k 17 às 19:50:46 EST
  20. Johnathas D'arf
    quarta-feira, 11 maio 2011; \19\UTC\UTC\k 19 às 19:48:42 EST

    Olá, Rafael. Primeiramente, gostaria de agradecer pela sua disposição e dos outros editores de utilizarem o tempo de vocês para postarem essas informações tão valiosas.
    As minhas dúvidas são as seguintes:
    – Sou aluno de um centro relativamente pequeno, o Departamento de Física da Universidade Federal do Ceará. Pelo fato de ser de origem ‘humilde’ (em termos de produção científica) em relação a outros grandes centros brasileiros, as chances de eu ser aceito num programa de doutorado são menores? Além disso, essas chances cairiam ainda mais se eu aplicasse logo que concluísse a graduação, i.e., sem fazer mestrado?
    – Faço, atualmente, uma iniciação científica na área de matéria condensada teórica. Contudo, penso em fazer um doutorado em outra área (Física-Matemática (Cosmologia) ou Caos). Tendo feito IC em outra área, as chances de uma rejeição, em geral, são maiores? Essas áreas que eu disse que tenho interesse sofrem de algum mal análogo à “Síndrome de Ed Winten”?
    – Quando você recomenda que um aluno de graduação que tem interesse em se doutorar nos EUA comece a se preparar para o processo de seleção (GRE’s, IELTS, TOEFL etc.) ? Qual a porcentagem de tempo, aproximadamente, do tempo de estudo total um aluno de graduação deve usar para se preparar para o processo seletivo quando começar a se preparar?

    Não sei se tem alguma influência na resposta, mas creio que terminarei a graduação dentro dos 4 anos (isto é, em 2013) com 21 anos de idade.

    Um abraço.

    • quinta-feira, 12 maio 2011; \19\UTC\UTC\k 19 às 19:32:24 EST

      Olá Johnathas,

      As chances de você ser aceito no programa de doutorado dependerão mais de quão reconhecidos são os professores que escreverem suas cartas de recomendação. Se você tiver uma carta de recomendação de uma pessoa que é conhecida nos lugares onde você está tentando entrar, fica mais fácil. Se você conseguir uma bolsa Fullbright, não vai importar a sua instituição de origem, suas chances de serem aceito crescem muito (é praticamente certa).

      Se querer mudar de área influenciará no processo de seleção vai depender do comitê. Minha inclinação é que no geral, nos EUA, a opinião vai ser neutra. Quase ninguém acha isso limitante. Nos EUA os cursos de graduação não são como no Brasil, eles são muito mais abertos, de modo que a maioria dos alunos vem com pouco conhecimento específico, então os comitês tendem a não ligar para isso.

      Quanto tempo deve gastar para se preparar para o TOEFL e o GRE depende integralmente da sua base. Tente fazer uns simulados iniciais para ter uma ideia. O TOEFL p. ex. pode ser algo que nem vai exigir muita preparação, a não ser fazer uns três ou quatro simulados antes para se acostumar, se você tem inglês mais ou menos fluente. Se você ainda tem boa parte do Física Básica do Moysés na memória, o GRE não vai requerer mais que 1 mês de treinamento prévio; vai ser só para você treinar a eficiência de resolver os problemas bem rapidamente.

  21. Johnathas D'arf
    sábado, 14 maio 2011; \19\UTC\UTC\k 19 às 22:02:14 EST

    Leonardo, muito obrigado pelas respostas. Fico preocupado com o fato de que talvez, nas universidades em que provavelmente irei aplicar, os professores do departamento do qual sou aluno não tenham muito reconhecimento. Pelo que sei, eles têm colaborações com professores europeus, mas não tenho conhecimento de colaborações com professores de universidades americanas. Enfim, é mais difícil conseguir uma bolsa da Fullbright ou tentar por conta própria? Pelo que me pareceu, com a bolsa da Fullbright, a minha aprovação é quase certa, no entanto, se for CAPES/Fullbright, não sei se vou arriscar terminar o doutorado em somente 4 anos.
    Outra coisa, quais são as diferenças mais notáveis entre o doutorado nos EUA e na Europa?

    Um abraço.

    • domingo, 15 maio 2011; \19\UTC\UTC\k 19 às 12:21:08 EST

      Oi Johnathas,

      Eu recomendaria que quando você for aplicar para os EUA, faça o pedido para pelo menos 8 universidades diferentes, e seja realista nos seus pedidos.

      Não precisa ter uma colaboração direta dos seus professores. Se o quem escrever a carta de recomendação tem publicações em matéria condensada de nanotubos, suas chances aumentam se você pedir doutorado para lugares onde também tem gente que estuda nanotubos e que talvez conheça o trabalho desse professor.

      Não tenho muita informação sobre o doutorado na Europa, então não sei comparar. Eu só sei que na Inglaterra doutorado direto é muito mais rápido: 4 anos só.

      • Johnathas D'arf
        domingo, 29 maio 2011; \21\UTC\UTC\k 21 às 22:10:40 EST

        Olá, Leonardo.

        O que você quer dizer com ‘seja realista nos seus pedidos’?

        Na sua opinião, qual deve ser o fator preponderante na decisão entre fazer o doutorado nos EUA ou no Brasil?

        Mais uma vez, muito obrigado pela disposição ao responder.

        Abraço,
        Johnathas D’arf.

        • segunda-feira, 30 maio 2011; \22\UTC\UTC\k 22 às 11:40:21 EST

          Ser realista é escolher instituições onde você tem boas chances de ser aceito. Se você tiver uma pontuação algo como acima de 97% do GRE, pode tentar para instituições como o MIT, Harvard, Princeton, Berkeley, etc., mas só com um GRE alto as chances ainda são pequenas. Mas se você tiver além de um bom GRE uma bolsa Fullbright e publicações, as suas chances aumentam muito, mesmo que seu orientador não seja conhecido por lá. Sem publicações, sem um alto GRE, e sem ter um orientador que seja bem conhecido, eu diria que não faz muito sentido aplicar para esses lugares. Você pode até tentar em metade dos seus pedidos, mas deixe a outra metade para lugares onde suas chances são maiores, como NYU, BU, Wisconsin, UMass, Michigan, etc. (e que podem ser igualmente muito boas…)

          Sobre Brasil vs EUA eu vou te dizer o seguinte. Se você der certo no doutorado nos EUA, suas chances de carreira vão ser melhores. Se você fizer doutorado em quase qualquer lugar aqui. Você pula de doutorado na UC Irvine para o Caltech e vai por ai. Além do mais, se você escolher o orientador certo — que tem produção com alunos, sua produção vai ser bem melhor que no Brasil. O aviso que eu daria é que aqui nos EUA hoje em dia o índice de quem pula fora durante e depois do doutorado é grande. Estimo que seja mais da metade. Há menos ofertas de pos-docs que de doutorado, e o teu trabalho mesmo que tenha levado a boas publicações pode não ser muito interessante porque os orientadores trabalham para si e não para os alunos. Um trabalho que vai adicionar ao tópico que o orientador já trabalha a 20 anos é o que ele quer, e não algo que seja da pesquisa do momento que possa fazer o aluno dele ser interessante para pos-docs (*). A Grad School nos EUA funciona como um mercado sem regulamentação, mesmo que você seja aceito no programa não existe garantia que você vai conseguir orientação na área que você queria inicialmente, mesmo que você tenha boas notas, demonstre interesse, etc. O Rafael postou sobre isso no blog antes. Você entra querendo fazer física matemática mas vai ter que fazer fenomenologia nuclear se quiser continuar no doutorado. É muito diferente, nesse aspecto, ao Brasil, onde a relação aluno-orientador é mais segura. Ninguém entra no Brasil com uma bolsa CNPq, CAPES ou FAPESP no doutorado de Física com um projeto em física de partículas para no segundo ano depois de fazer os cursos ter que fazer fabricação de filme fino. Já nos EUA isso acontece com a maior parte dos estudantes.

          (*): com respeito a isso: você pode procurar um orientador mais jovem, que tive poucos (ou nenhum) alunos, porque esses tendem a estar correndo atrás de publicar bastante para poder ganhar “tenure” e bolsas. Mas o risco é que ele pode estar correndo tanto atrás disto para ele, que ele esquece que tem um aluno, se ele for uma pessoa desse tipo. Você só vai conseguir avaliar se o orientador é produtivo com os alunos ao olhar para um que já teve vários orientandos, que quase sempre recai no problema de professor já mais experiente que trabalha no mesmo assunto já faz algum tempo.

  22. Johnathas D'arf
    domingo, 29 maio 2011; \21\UTC\UTC\k 21 às 22:11:47 EST

    Ali em cima, “… entre fazer o doutorado nos EUA e no Brasil?”

    Obrigado.

    Johnathas D’arf

  23. Daniel
    quinta-feira, 23 jun 2011; \25\UTC\UTC\k 25 às 00:07:42 EST

    Agora me veio uma dúvida…
    Você fala que nos EUA que o GPA é bem inflacionado por lá. 9.3/10 é bem irreal para as universidades brasileiras, principalmente a área de exatas, onde até mesmo uma média de 8 já é considerado uma nota ótima.

    Quando mandamos nosso histórico escolar para aplicar à estas universidades, devemos também “traduzir” o GPA (via regra de proporcionalidade e afins) ou deixar como nota crua mesmo?

    • quinta-feira, 23 jun 2011; \25\UTC\UTC\k 25 às 11:43:45 EST

      Tanto faz. Contanto que esteja claro como é o critério. Algumas universidades pedem explicitamente para scale down até o máximo de 4, que é o comum aqui nos EUA. Você pode sempre colocar as duas formas… deixe o original (até para a pessoa entender seu transcript) e escreva o que equivale numa escala até 4. É o mais adequado, acredito.

  24. Graciele
    sexta-feira, 7 out 2011; \40\UTC\UTC\k 40 às 19:00:53 EST

    Olá Rafael, gostei muito do teu blog, apesar de um pouco voltado para a Física me ajudou em algumas coisas sobre o visto principalmente. Eu faço doutorado em enfermagem, e estou organizando os documentos para o visto, vou para University of Illinois at Chicago em Fevereiro. Tenho uma dúvida e gostaria de saber se tu sabe de algo que possa me ajudar. Recebi um formulário que requer informações para o J1 (já preenchi outro com informações para o DS2019), e com esse do J1 veio outro chamado “DS 7020” tem cinco questões no “Placement Plan” das quais eu tenho algumas dúvidas, sabes de algo que possa me ajudar?

  25. Ernesto Heine
    terça-feira, 1 maio 2012; \18\UTC\UTC\k 18 às 16:06:00 EST

    Excellent post! Eu devo dizer que a embaixada brasileira aí não fez o que vc fez em todos estes anos. Deveriam te dar um salário para manter este post. rsrs. Exageros à parte, acho muito bom fazer algo fora do Brasil como experiência pessoal. Contudo devemos sempre lembrar que o Brasil precisa desses alunos brilhantes empregados em seu retorno, ou então a saída é mesmo pós-docs atrás de pos-dócs aí mesmo nos EUA. Seria legal abrir um outro post sobre alunos que retornaram e o que estão fazendo atualmente.

  26. Natascha
    terça-feira, 3 jul 2012; \27\UTC\UTC\k 27 às 13:47:48 EST

    Oi Rafael! Nossa, muito bom esse seu post! Eu to me preparando pra fazer o GRE e tentar um doutorado lá nos EUA. Na verdade tenho um Bachelor’s degree em Biologia da Rutgers, em NJ nos EUA, mas estou morando no Brasil faz 1 1/2 ano. Sei que sua area é fisica, mas o processo de aplicaçao parece ser o mesmo. só uma coisa neste seu post que me deixou em duvida se terei boas chances de ser aceita em algum graduate program: você disse que é melhor fazer um mestrado no Brasil antes de tentar doutorado nos EUA? Pra ter mais chances de competir com quem já tem mestrado? Eu estou pensando em aplicar diretamente pro PhD sem fazer mestrado nenhum, só com meu Bachelor’s degree da Rutgers, e com a experiência que tenho no laboratorio da facul onde me graduei, e no laboratorio aqui da PUC onde estou fazendo um estágio pra melhorar meu curriculo. Se voce puder me dar sua opiniao sobre isso ficaria muito grata.

  27. Daianne
    quinta-feira, 30 ago 2012; \35\UTC\UTC\k 35 às 14:53:39 EST

    Sou da área de Ciências da Terra, ainda estou em vias de me formar. E lógico, como toda pessoa que gosta da área acadêmica já pensei em estudar no exterior. Nunca consegui informações tão completas quanto as que vc postou aqui! Sinceramente, parabéns e muito obrigada por compartilhar sua experiência!

  28. alex cecconi
    segunda-feira, 12 nov 2012; \46\UTC\UTC\k 46 às 08:52:15 EST

    Parabens, este post é de suma excelencia!
    Obrigado por ter feito este post, estou me graduando em Física na USP e este post vai me ajudar muito.
    Por favor, continue com estas iniciativas.

  29. Epson Heringer
    segunda-feira, 28 jan 2013; \05\UTC\UTC\k 05 às 14:01:45 EST

    Olá, agradeço pelo post, muito útil.

    Talvez me tenha passado em branco, mas você poderia explicar um pouco mais sobre como proceder após ser aceito pela universidade e ter “aceito o aceite”, ou seja, como proceder sobre o I20 e o visto. E além do visto, quais outras medidas devem ser tomadas e em que época, mais ou menos.

    Obrigado.

  30. Hernán
    sexta-feira, 11 jul 2014; \28\UTC\UTC\k 28 às 12:53:11 EST

    Olá, post muito esclarecedor e bem escrito.
    Espero que a realidade não tenha mudado muito, a menos que seja para melhor é claro kkkkkkk. Estou no 4º semestre do Bacharelado em Física e tenho real interesse em fazer minha pós fora do Brasil. Mais uma vez, parabéns pela iniciativa!

  31. Isabela
    terça-feira, 26 ago 2014; \35\UTC\UTC\k 35 às 21:06:23 EST

    Olá, eu sou graduanda em física licenciatura, e estava cogitando a possibilidade de fazer o mestrado no exterior, mais especificamente na área de física médica. Preciso de conselhos help

  32. Caio
    sexta-feira, 30 jan 2015; \05\UTC\UTC\k 05 às 00:00:18 EST

    Olá Rafael e outros editores da página,

    Bom, faz bastante tempo que o texto (excelente, por sinal) foi escrito e as discussões dos comentários já acabaram, então não acho que alguém vá me responder. Entretanto, não custa nada deixar uma dúvida aqui. Caso alguém veja e saiba me responder, ficarei muito grato. A questão é a seguinte: muita gente aqui disse que talvez seja mais vantagem fazer um mestrado primeiro, e queria perguntar se, caso uma pessoa faça o mestrado, as notas que ela tirou durante essa pós contam também no critério de GPA na admissão? Além disso, para um aluno internacional, vocês acham que a nota é realmente decisiva? Estou na graduação ainda e minhas notas são muito boas (para os padrões brasileiros!), mas nada que se compare aos 3,95 e 4,0 de GPA que ando vendo pela internet. Desse jeito, não tenho a menor chance!

    Mais uma vez, não sei se alguém vai ver mas não custa perguntar!😉
    Muito obrigado.

  1. quinta-feira, 3 fev 2011; \05\UTC\UTC\k 05 às 22:37:17 EST
  2. quinta-feira, 17 fev 2011; \07\UTC\UTC\k 07 às 18:18:00 EST

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