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A Cadeira

domingo, 27 fev 2011; \08\UTC\UTC\k 08 Deixe um comentário Go to comments

Ontem eu acabei de ler Ensaio sobre a cegueira de José Saramago. Acho que de todos os escritores que já li, porém não foram muitos, Saramago é o que mais me identifico. Por muito bons que tenham sido escritores como Machado e os Modernistas e os Pós-Modernistas, Saramago tem um sabor de contemporâneo e um olhar crítico que é muito poético que não se encontra ainda em nenhum outro autor. Não foi por menos que ele foi o único escritor da língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel, certo que pouco justo com os outros grandes ganhadores do Prêmio Camões, mas justo para com a obra do Saramago.

E como acabou Ensaio sobre a cegueira, comecei a ler um dos antigos, anterior a marca registrada de estilística, longos parágrafos sem pontuação, chama-se Objecto Quase. E começa logo com um bom conto, escrito em 1978. A Cadeira é a história de uma cadeira de madeira infestada de cupins (ou melhor, anóbios) e sua queda junto ao homem que nela se senta. Nesse último mês de agitações na Tunísia, Egito e Líbia, vemos mais esse mesmo episódio de velhos caindo com suas cadeiras, e Saramago sabe dar uma descrição a essa queda como poucos:

O velho já não segura os braços da cadeira, os joelhos subitamente não trémulos obecedem agora a outra lei, os pés que sempre calçaram botas para que se não soubesse que são bifurcados …, os pés já estão no ar. Assistiremos ao grande exercício ginástico, o mortal para trás, muito mais espetacular este, … O meu reino por um polaroid, gritou Ricardo III, e ninguém lhe acudiu porque pedia cedo de mais. (…)
O velho vê o tecto. Vê apenas, não tem tempo de olhar. Agita os braços e as pernas como um cágado virado de barriga para o ar (…). Cai velho, cai. Repara que neste momento tens os pés mais altos do que a cabeça. Antes de dares teu salto mortal, medalha olímpica, farás o pino como o não foi capaz de fazer aquele rapaz na praia, que tentava e caía, só com um braço porque o outro lhe tinha ficado em África. Cai. Porém, não tenhas pressa: ainda há muito sol no céu.

Que caiam assim logo todos esses velhos e suas cadeiras, Gadafi, aiatolá Ali Cãmenei, Abudallah Aul-Saud, todos os Castros, Omar al-Bashir, José Eduardo dos Santos, Príncipe Califa, Paul Biya, Teodoro Mbasogo, Ali Abdullah Saleh, Robert Mugabe, Blaise Compaoré, Hassanal Bolkiah, Idriss Déby Itno, Kim Jong-il, enfim, a lista é grande.

Há outros tipos de velhos com suas cadeiras de poder que fatalmente ainda vão cair também: perderam aqueles que achavam que tinham boas razões, muitas vezes até sagradas, de impedir a mulher de estudar, votar, o negro de viver livre, o judeu de praticar sua crença, o comunista de criticar o capitalismo, quem acreditava no estado democrático de votar, o homossexual de o ser, o jornal de publicar uma opinião. A todos os velhos que ainda tem essa cadeira para se sentar, sinto muito avisá-los, a história demonstra, já perderam.

Além do Ensaio sobre a cegueira, de Saramago já li A Jangada de Pedra (1986), O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), A Caverna (2000) e As Intermitências da Morte (2005). Esse último é um bom lugar para começar.

Categorias:Ars Physica
  1. Krishnamurti
    segunda-feira, 28 fev 2011; \09\UTC\UTC\k 09 às 04:14:29 EST

    Mahmoud Ahmadinejad, Hugo Chávez e adeptos e mais uma penca na África…

  2. cesar pinheiro
    segunda-feira, 28 fev 2011; \09\UTC\UTC\k 09 às 16:31:10 EST

    e no Brasil: Sarney, Maluf, Bispo Macedo, Ricardo Teixeira, …

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