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Ética profissional em Física

terça-feira, 26 abr 2011; \17\UTC\UTC\k 17 Deixe um comentário Go to comments

Warning, warning! Post sobre política! Prestem atenção no nome da pessoa que escreveu o post, pois ele é o único responsável pelas besteiras escritas abaixo. Os demais editores desse blog podem ter opiniões completamente diferentes do que está escrito aqui.

Todo mundo adora boatos. É uma dessas questões de darwinismo social que eu nem preciso argumentar muito. Boatos são divertidos quando você não está envolvido na história. Quando a questão invade seu círculo pessoal ou profissional, tudo fica ruim.

A maioria dos leitores desse blog deve estar cientes dos boatos sobre uma ressonância no estado final de 2 fótons com seção de choque 30 vezes maior que o do modelo padrão vazada de uma nota interna da colaboração Atlas, no LHC. Se você não sabe o que foi, veja os dois links que eu coloquei aqui no AP no último post que escrevi antes desse. A história começou quando alguém, anonimamente, colocou o abstract dessa nota no blog Not Even Wrong, do Peter Woit. Daí foram poucos minutos até isso se espalhar em todos os blogs de física de altas energias e mais alguma horas até a imprensa não-científica começar a anunciar o vazamento de informação.

Eu acho que não é segredo que eu discordo de diversos aspectos da política dessas grandes colaborações. Eu fico muito chateado, por exemplo, de não saber quem foram os autores de cada artigo. Acredite, eu sei na pele que cada artigo publicado de um grande experimento depende de todas aquelas pessoas listadas. Se o detector não for construído, operado e mantido funcionando corretamente, se a calibração estiver errada, se a simulação for imprecisa, etc etc etc, não tem análise. E daí? Ainda assim eu quero saber quem fez a análise, da mesma forma que eu quero saber quem construiu o detector. Todo mundo que entende como é um experimento sabe do que é necessário para um resultado existir, não é desmerecer ninguém.

Eu também acho irritante o quão resumidos são os artigos. Ler PRL de física experimental de altas energias é frustrante. Ler PRD e afins é um pouco melhor. Mas se um dia vocês pudessem ver o cuidado com que uma nota interna para avaliação de análise é preparada, vocês entenderiam como um artigo deveria ser escrito. E essas notas internas que vão dar origem a artigos passam por um peer review interno muito mais duro que o das revistas para o qual o artigo é enviado. Contudo, nem toda nota interna é a desse tipo. Algumas notas internas são resumos para conferências, que também sofrem peer review, e outras são apenas idéias que alguém resolveu colocar no papel para trocar informação com os colaboradores. Esse último tipo de nota não sofre qualquer revisão, qualquer tipo de avaliação, e foi uma nota desse tipo que vazou.

Uma das coisas mais importantes de se fazer ciência é poder errar. Mesmo artigos prontos tem erros. Mas eu estou falando de coisas mais bobas ainda, aquele tipo de erro que acontece quando estamos fazendo algo complicado, mas que é corrigido no processo de refinar o resultado. E ninguém quer ou deve ser avaliado por esse tipo de erro. Imagina se você fosse avaliar um programador como ruim só porque da primeira vez que ele tentou compilar o código de um programa extenso, havia erros no código. Seria absurdo, certo?

O que as pessoas que vazaram essa nota interna fizeram foi criar a possibilidade dos seus colegas poderem ser avaliados dessa forma. Foi uma atitude inconsequente e anti-ética. O dono do blog para quem a informação foi vazada diz que não dirá quem deu a informação, mesmo que a colaboração peça essa informação. O indivíduo deve estar se sentindo o Julian Assange da ciência, mas honestamente, não há nada de bom no que aconteceu e nem na atitude dele. Infelizmente, não há mecanismo oficial nenhum através do qual a colaboração pode descobrir quem vazou a nota e nem mesmo me é claro se eles querem fazer isso. Mas eu não gostaria de trabalhar com uma pessoa que tem essa atitude. (Algumas pessoas estão dizendo que foram os próprios autores da nota que vazaram a informação. Eu ficaria muito surpreso se isso fosse verdade, eles precisariam ser muito ingênuos para fazer isso.)

Eu vejo algumas pessoas defendendo o vazamento baseadas na tese de liberdade de expressão. Que qualquer pessoa deve ter o direito de falar o que quiser. Se você quer realmente defender essa tese, também tem que defender a tese de que essas pessoas tem que ser expulsas da colaboração. De outra forma, vai ficar muito difícil de trabalhar.

Um outro blog sobre o mesmo assunto:

The ethics and public relations implications of asking for help

Categorias:Ars Physica
  1. terça-feira, 26 abr 2011; \17\UTC\UTC\k 17 às 13:57:12 EST

    Eu acho que o vazamento foi anti-ético porque a colaboração, segundo esse post do Gordon Watts, tem um termo de admissão em que fica combinado que isso não pode ser feito. Também foi anti-ético porque nesse caso o objetivo parece ter sido promoção do resultado, marketing, mas o indivíduo parece que não falou nem mesmo com os autores do relatório parcial interno. Ora, ele deveria ter falado com o pessoal da colaboração para acertar se poderia fazer isso ou não, porque o trabalho não é só dele — talvez não seja dele em absoluto. Só seria justificável o vazamento anônimo se o objetivo fosse denunciar uma prática de falha na integridade científica, p. ex. porque estava ocorrendo deliberada manipulação de dados, fraude, algo do tipo. Eu acho que a comparação com o Julian Assange que alguém possa estar fazendo por ai é muito infeliz, porque o objetivo do WikiLeaks é claramente tornar pública informação do tipo fraude, corrupção, etc., e não informação legitimamente confidencial. Como o próprio Assange falou na TED, existe informação confidencial, sua conta e extrato bancários no banco, suas ligações telefônicas pessoais, enfim, e tornar públicas esse tipo de informação que não tem caráter de evidência de um crime é anti-ético, não tem relação com liberdade de expressão. É difícil ver o que liberdade de expressão tem a ver com isso, já que o indivíduo em questão não estava expondo nenhuma opinião ou documento seu, e sim o trabalho de outras pessoas.

    • terça-feira, 26 abr 2011; \17\UTC\UTC\k 17 às 14:11:42 EST

      Termo de admissão, que termo de admissão?

      “Só seria justificável o vazamento anônimo se o objetivo fosse denunciar uma prática de falha na integridade científica, p. ex. porque estava ocorrendo deliberada manipulação de dados, fraude, algo do tipo.”

      Nesse tipo de nota, nem isso. Eu volto a dizer que esse tipo de nota não passa por peer review. Liberdade de expressão tem, e sempre vai ter, o limite da ética.

    • terça-feira, 26 abr 2011; \17\UTC\UTC\k 17 às 14:17:24 EST

      Eu também espero que você tenha entendido que a forma jocosa com que usei a comparação com o Assange que, por sinal, não age conforme suas palavras.

      Eu não sei o que a pessoa que divulgou o abstract considera como o trabalho dela ou não. Vamos dizer (apenas hipoteticamente, eu realmente não sei quem divulgou nem faço parte da colaboração Atlas) que a pessoa que divulgou a análise tenha sido um dos autores, aí, na sua concepção, poderia?

  2. terça-feira, 26 abr 2011; \17\UTC\UTC\k 17 às 15:20:51 EST

    @Rafael, Leonardo: Pra mim, tudo isso não passa de panis et circenses. Isso aí é fulano que quer seus 15min de fama, mais nada.😛

    Como o Rafa bem apontou, seria muita ingenuidade (pra dizer o mínimo) acreditar no teor científico da tal nota vazada: quem é que não sabe que o LHC vai demorar alguns anos (3—5) antes de ter dados cientificamente relevantes demonstrando o GHK-EBH? Será que tem gente que acha que quando encontrarem os primeiros traços do GHK-EBH vão sair por aí, berrando aos quatro ventos?

    Pra mim, isso é de uma patetice sem fim.😛

    []’s.

  1. quinta-feira, 14 jul 2011; \28\UTC\UTC\k 28 às 21:11:03 EST
  2. domingo, 25 dez 2011; \51\UTC\UTC\k 51 às 11:07:25 EST

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