Início > Ars Physica > Ciência aberta

Ciência aberta

segunda-feira, 20 jun 2011; \25\UTC\UTC\k 25 Deixe um comentário Go to comments

Recentemente eu vi esse TED talk, por Michael Nielsen:

cujo tema é ciência colaborativa e ciência aberta. Ele começa relatando o sucesso que foi a iniciativa do projeto Polymath, liderada por Tim Gowers, que propôs um esforço colaborativo em seu blog resolver problemas matemáticos. O sucesso da iniciativa pode ser medido pelos vários artigos científicos que foram gerados.

Nielsen então relata outros tantos projetos de ciência colaborativa que, no entanto, falharam. Ele aponta como diferencial do projeto Polymath o produto final, que não era o conhecimento científico gerado, mas o artigo publicado.

Esse talk gera muitas perguntas interessantes, principalmente…

Ainda precisamos do modelo de artigos em revistas arbitradas?

Como funciona o modelo atual de produção científica? Funciona assim: você faz um trabalho e submete um resumo do seu trabalho para uma revista arbitrada. Essa revista é paga, seja pelas pessoas que vão ler ou pelas pessoas que vão publicar, para fazer o processo de edição e arbitragem. Os árbitros, mas principalmente os editores, são pessoas de reputação na área da revista. Então, a moeda de troca é reputação do editor por dinheiro da revista. Já que a reputação dos editores e árbitros da revista estão em jogo, o processo de revisão é acreditado pela comunidade científica que passa a dar um valor ao artigo aceito. Esse valor agregado pela revisão é a moeda de troca do cientista quando ele vai procurar emprego ou financiamento para sua pesquisa.

Mas é o dinheiro da revista que realmente dá valor ao trabalho ou seu conteúdo? Vou dar alguns exemplos históricos, que embora pontuais, vão mostrar um pouco do que está na minha cabeça.

O primeiro exemplo que eu quero dar é do Alexander Grothendieck. Embora a maioria dos leitores talvez nunca tenham ouvido falar nele, ele é um matemático muito famoso tendo criado o que entendemos hoje por geometria algébrica. Os trabalhos dele são impressionantes e praticamente nenhum foi publicado em revistas arbitradas. Eles apareciam em proceedings de reuniões em que eram apresentados e, dado a importância que ganharam, foram posteriormente publicados como lecture notes pela Springer.

Se os trabalhos dele nunca foram arbitrados, como podemos saber que eles são bons? A resposta, para mim, é simples. As pessoas que lêem esses trabalhos não são idiotas. Se você não consegue avaliar um trabalho na tua área, você nem deveria estar trabalhando nessa área, quanto mais se chamar de cientista.

Eu já estou até ouvindo as pessoas contra-argumentando que o Grothendieck é uma pessoa peculiar, com visões políticas bem extremas e, além disso, um gênio. É, tudo isso é verdade, mas nada invalida o ponto. Outras pessoas talvez estejam pensando: “Vamos simplesmente publicar tudo? Isso é impossível!”. Talvez fosse impossível quando o Grothendieck estava publicando seus trabalhos, hoje não mais.

O que me faz chegar no segundo exemplo que quero dar, o arXiv. Esse a maioria dos leitores deve conhecer. É um servidor de pre-prints (isto é, artigos antes do processo de arbitragem) que muitos físicos, matemáticos e algumas pessoas de outras áreas usam com frequência. É, hoje, a maneira mais rápida de divulgar resultados e, dada a velocidade com que a ciência avança hoje em dia, é necessário. Se você acompanha os artigos no arXiv com a mesma assiduidade que eu, você já deve ter visto alguns exemplos de “conversas” entre artigos numa velocidade que seria impossível de acontecer se fôssem esperar a publicação numa revista.

Quando o Paul Ginsparg acordou um dia e resolveu criar o arXiv, eu tenho certeza que ele não tinha noção do tamanho que esse servidor teria hoje e nem a revolução que causou na forma como divulgamos ciência. O arXiv fez com a dinâmica de publicações científicas o que o Linux fez com sistemas operacionais. Claro que algumas pessoas vão insistir em usar o Windows – e aqui a Nature me vem a cabeça imediatamente – mas essas coisas são múmias que estão se desintegrando aos poucos.

O problema do arXiv é que o artigo não é arbitrado, não há ninguém que coloca sua reputação em risco para dar sua opinião sobre um artigo porque é pago para isso. Quero fazer duas perguntas que acho que podem ser um início de discussão nos comentários desse tópico: Você teria algum problema em avaliar um artigo da sua área? e, caso você estivesse avaliando um pesquisador, mas não um trabalho, Você consideraria uma avaliação feita por um profissional que não está sendo pago por uma revista como um critério pior?

Eu, pessoalmente, não tenho nenhum problema em avaliar artigos da minha área. Simplesmente porque eu faço isso todo dia. Quando alguém publica (no arXiv :P) um artigo sobre a área em que eu estou trabalhando nesse momento, eu sou, na prática, obrigado a ler para me manter informado do que está acontecendo e nesse processo de leitura, sim, eu avalio o artigo. Mais do que isso, quando eu tenho uma dúvida ou uma crítica, eu imediatamente escrevo para os autores para iniciar um diálogo. Nesse momento em que estou escrevendo esse post, tenho duas conversas em aberto sobre artigos recentes. E, se o arXiv tivesse uma área para avaliações, eu não teria qualquer problema em divulgar minha avaliação.

A internet é perfeita para esse tipo de troca dinâmica de informação. O que o projeto Polymath fez com um tópico de pesquisa, seria feito com todos os trabalhos científicos produzidos. Claro que isso só funcionaria se essas avaliações começassem a ser levadas em conta como moeda de valor para o trabalho do cientista e aqui é necessário responder a segunda pergunta. Eu vou apelar para o mesmo argumento que usei acima: se você não é capaz de avaliar uma avaliação de um trabalho da tua área é melhor que você mude de área. Eu sei que pareço agressivo ao dizer isso, mas é verdade. Eu não acho uma avaliação sigilosa, oculta e anônima de uma revista arbitrada é melhor que uma avaliação aberta e pública onde eu posso ver e qualificar, eu mesmo, os argumentos usados.

O dinamismo criado por um modelo de publicação científica nessas linhas traria um benefício imenso à prática científica. O terceiro exemplo que quero citar é o que aconteceu com o caso do estudo da variante da E. Coli que causou mortes recentemente na Alemanha. O blog Rainha Vermelha descreveu muito bem o que aconteceu. Como na biologia “não-quantitativa” não existe algo similar ao arXiv, os cientistas começaram a divulgar seus resultados em blogs. Não porque eles queriam, mas porque eles precisavam.

Um outro exemplo é o tópico do meu último post aqui no AP, sobre a massa invariante do par de jatos em eventos Wjj medidos pelo CDF e D0 (aparentemente o CMS e Atlas estão perto de uma confirmação de um dos dois resultados). O primeiro artigo do CDF gerou muito interesse e questionamentos. Rapidamente, em poucos dias, vários artigos apareceram no arXiv comentando o resultado, a maioria descrevendo possíveis explicações para o fenômenos. Poucos foram os que levantaram discussões sobre a medida, no espírito do que seria uma revisão arbitrada. Esse papel foi preenchido, novamente, por diversos blogs que comentaram sobre o assunto. Eu não acho que a maioria dos leitores acompanharam essa história tão de perto quanto eu, mas se vocês acompanharam, devem ter percebido que a webpage que o CDF usou para divulgar a atualização da medida com mais dados respondeu especificamente os questionamentos que surgiram. Foi, efetivamente, um processo de revisão aberto e, em praticamente todos insitutos de física do mundo, tanto o artigo original, quanto os argumentos dos blogs, quanto a página com a atualização, foram usadas para discussões. Ou seja, o benefício foi não somente para o projeto de pesquisa mas também para o processo de educação científica.

Nada disso seria possível com a dinâmica tradicional de artigos. Eu vejo isso tudo como um indício de que, em breve, o modelo de publicação vai ter que ser mudado devido as mudanças na forma com que ciência vai ser feita e junto vai ser mudado a forma como avaliamos o trabalho do cientista. Mas, claro, isso pode ser apenas um ideal.

Categorias:Ars Physica
  1. quarta-feira, 22 jun 2011; \25\UTC\UTC\k 25 às 10:19:33 EST

    @Rafa,

    Quero deixar um comentário rapidinho (estou correndo pra pegar um seminário daqui a 20min! :-P) : Excelente post: levantar esta discussão com os pontos que vc o fez (self-peer-review) é o melhor caminho — e um que eu já venho repetindo feito ladainha há tempos.

    Só pra trazer à tona, dois posts meus, antigos, sobre este mesmo assunto:

    (1) Novas estruturas sociais e o cientista hacker; &

    (2) Revisão por pares.

    Outro ponto que eu acho bastante relevante é o diferente caráter de avaliação que diferentes pessoas (árbitros) usam pra julgar a qualidade dum determinado trabalho: o processo de arbitragem (peer-review) é *extremamente subjetivo* e, infelizmente, este é um fato muito pouco reconhecido abertamente. Isso não tira o valor do processo, até porque esta subjetividade não é da mesma natureza daquela indicada pelo uso coloquial do termo “subjetivo”; entretanto, mesmo dentro das “hard sciences” há muito espaço pra diferentes (e muitas vezes divergentes❗ ) opiniões

  2. quarta-feira, 22 jun 2011; \25\UTC\UTC\k 25 às 13:00:22 EST

    Oi Dan,

    Obrigado pelo comentário. Eu não sei se você percebeu, mas eu atualizei o texto com mais um exemplo interessante. E, sim, eu pensei nos seus posts enquanto escrevia esse!🙂

    Então, sobre o seu comentário. Eu acho uma coisa muito interessante da psicologia humana esse aspecto sobre o processo de arbitragem de artigos.

    Quando um cientista conversa sobre ciência com outro cientista, sempre mantemos o espírito inquisitor, sempre assumimos que a outra pessoa pode falhar na sua avaliação. Na verdade, físicos são conhecidos por serem inclusive bem agressivos quando estão discutindo ciência.

    Contudo, a postura com o processo de revisão é completamente diferente. Nesse momento, parece que precisamos acreditar que existe a figura de um “revisor perfeito”, alguém que não falha ao determinar o escopo e correção do resumo do teu trabalho. É uma coisa Lacaniana que, sinceramente, não faz muito sentido, principalmente se você considerar que estamos delegando o papel do nosso “big other” a Elsevier e a Springer.

    Eu tenho certeza que isso vai mudar, eu só não sei quando e como.

    • quinta-feira, 23 jun 2011; \25\UTC\UTC\k 25 às 17:13:25 EST

      @Rafa,

      De fato, eu não tinha visto a parte em que vc comenta sobre os eventos do Wjj.😉

      Agora, vc está coberto de razão: Físicos são conhecidos mundialmente pelo ‘combative style’ de discussão. Aliás, uma semana atrás eu estava falando exatamente sobre isso: eu acho que como a gente sempre está falando por algo que, em princípio, “transcende” ideologias (no sentido de ser algo que vc pode sempre ir lá e *medir* e, assim, definir como “realidade” — ou seja, é muito difícil de alguém se posicionar de um modo pós-modernista), a discussão acaba sempre tendo esse caráter de “busca pela verdade” (in a certain sense) — e, assim sendo, todo mundo se permite ‘esquentar’ os ânimos.😛

      E, quanto a mudança, eu tenho certeza de que as coisas vão mudar… mas, primeiro, as pessoas precisam entender e compreender mais profundamente o que a Internet significa pra humanidade — no sentido de “revolução do conhecimento” (e democratização do acesso ao mesmo).

  1. No trackbacks yet.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: