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Archive for julho \25\UTC 2011

arXiv faz 20 anos!

segunda-feira, 25 jul 2011; \30\UTC\UTC\k 30 1 comentário

Acabei de ver no blog Reference Frame que o site arXiv está fazendo 20 anos. Para quem não conhece, o arXiv (pronuncia-se como a palavra inglesa archive) é um servidor de pre-prints. Isso quer dizer que as pessoas colocam seus artigos nesse site, mesmo antes deles serem publicados em revistas indexadas. O acesso é completamente gratuito e é, já há muito anos, a principal fonte de referências para várias áreas da física.

O arXiv foi criado por Paul Ginsparg e originalmente era direcionado à física de altas energias, mas hoje é muito mais amplo. O arXiv revolucionou a forma de divulgar ciência e eu sou um grande fã dessa iniciativa ao ponto de não entender como algo similar pode não existir em outras áreas do conhecimento1. Eu não sou o único que reconhece o valor do arXiv: em 2002, o Paul Ginsparg ganhou uma MacArthur Fellowship (conhecida por aqui como “a bolsa dos gênios”) por ter tido a idéia de um servidor de pre-prints e implementado-a com sucesso.

1NB: Quando eu digo isso, algumas pessoas rebatem dizendo que existem. Contudo, muitas vezes citam servidores que apenas tem referências, como o PubMed. O arXiv não é apenas um catálogo de referências! Ele armazena os artigos completos.

O arXiv hoje já conta com quase 700 mil artigos em suas fitas e não dá nenhum sinal de desaceleração, como o gráfico abaixo mostra. O crescimento é linear por mais de 20 anos!

Ao longo dos anos, para atender a pedidos dos usuários, o arXiv aumentou a quantidade de áreas classificadas em seu sistema, bem como dividiu algumas classificações em sub-áreas. O gráfico abaixo mostra a taxa de envio de artigos por área:

Interpretar esse gráfico tem que ser feito com cuidado. Por exemplo, vê-se que desde o início da década de 2000, o número de artigos enviados em física de altas energias (hep, barras azuis) estabilizou. Como não ouve nenhuma divisão nessa área, é correto interpretar isso como uma adoção do arXiv por 100% da comunidade!

O número de artigos enviados e classificados como matéria condensada (cond-mat, barras verdes), por outro lado, sofreu uma desaceleração, mas não porque o campo de pesquisa está em baixa, muito pelo contrário! O que aconteceu é que várias áreas correlatas que não tinham classificação independente agora têm, como, por exemplo, biologia quantitativa e redes complexas. Veja também que tanto matéria condensada quanto astrofísica (barras vermelhas) passaram física de altas energias em número de artigos enviados, refletindo o tamanho relativo dessas comunidades. Também é possível perceber como cada vez mais a comunidade de matemática (barras magentas) tem adotado o arXiv e por isso também vem aparencendo novas sub-áreas no arXiv para facilitar a navegação.

O arXiv conta hoje com 14 servidores espelhos ao redor do mundo, inclusive um no Brasil, mantido e operado pela Sociedade Brasileira de Física e pelo Instituto de Física da USP. O crescimento sem freio do arXiv e a importância cada vez maior no trabalho de cientistas faz com que eu tenha certeza que esse é só o início da história.

Referências: Quase todas as informações que divulguei aqui podem ser encontradas ou no próprio site do arXiv (esse link aponta especificamente para onde obtive as informações) ou na Wikipedia.

Material extra que vale a pena: O Paul Ginsparg publicou suas próprias impressões sobre os primeiros 20 anos do arXiv na revista Nature. Vale a pena dar uma olhada.

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E o Higgs, hein?

sexta-feira, 22 jul 2011; \29\UTC\UTC\k 29 2 comentários

Hoje os quatro grandes experimentos apresentaram seus resultados de procuras pelo Higgs na EPS-HEP. A maioria dos resultados são gráficos de exclusão. Então, para os apressados, um resumo com o que cada experimento procurou e não achou (95% CLs):

Agora, com um pouquinho mais de detalhes.

Atlas

Esse é o gráfico mais interessante apresentado, apesar de não ter sido o experimento que mais excluiu. Na região entre [100,200]\, GeV o Atlas exclui a região entre [155, 190]\, GeV a 95%CL usando o método de CLs. Eu acho que eles pararam de bater o pé pelo método de PCL. Apesar da palestra ter sido dada pelo Cranmer, que é um dos pais dessa idéia, só tem um slide no backup usando PCL. Na minha opinião é uma pena, já que o argumento estatístico de PCL é mais sólido e claro. Mas também concordo que o melhor, mesmo que o método de CLs seja confuso, é que todos os experimentos usem o mesmo tipo de análise estatística.

O gráfico é interessante porque o Atlas excluiu muito menos do que os cálculos mostravam que eles seriam capazes de excluir, na hipótese de que o Higgs não existe. Você pode entender facilmente a causa observando no gráfico que eles observaram mais sinal do que 2\sigma do background numa ampla faixa entre [130, 155]\, GeV. O canal com maior peso na exclusão, em qualquer um dos 4 experimentos, é o H\rightarrow W^+W^-. Por isso que a exclusão mais forte é em torno de 2M_W, justamente onde a seção de choque desse processo estaria no centro da ressonância. E é justamente nesse processo que esse excesso é observado.

Outros dois canais importantes, H\rightarrow ZZ e H\rightarrow \gamma\gamma, terminam modulando um pouco o excesso. O gráfico abaixo mostra o valor-p para cada hipótese de massa (NB: Tem um comentário estranho no slide sobre uma modificação da estatística teste para valores negativos. Mas como é apenas uma pequena nota, eu não entendi muito bem o que fizeram, de forma que apenas confio no que eles calcularam para flutuações positivas. E, vai, é o que importa certo?)

Tem dois pontos estranhos. Tem um evento em 140\, GeV no canal pp\rightarrow H\rightarrow ZZ\rightarrow 4\ell que concorda exatamente com a evidência que um Higgs do Modelo Padrão deveria ter nessa massa. Mas acho que ninguém vai abrir a champagne com 1 evento. Há também um excesso estranho em torno de 125\, GeV no canal pp\rightarrow H\rightarrow \gamma\gamma. Mas nesse caso, a evidência seria maior do que inclusive o esperado pelo Modelo Padrão, então isso tem que ser tomado com toda desconfiança. Veja que próximo a ele tem uma região com falta de eventos… isso para mim tem cara de que eles não entendem bem a resolução do calorímetro deles. Mas, claro, isso é apenas um chute desconfiado.

O canal ZZ também é o principal para procuras em massas além de 200\, GeV e o Atlas observa uma excesso em 250\, GeV com valor-p de 0.08 (mas, por favor, vamos todos aqui ser bons leitores do livro do Jaynes e nos lembramos de como não interpretar erradamente o que o valor-p significa, ok?), tal como é esperado para um Higgs do Modelo Padrão com essa massa. Foram aproximadamente 3 eventos acima do background que geraram essa distribuição:

Agora vamos ver os menos interessantes.

CMS

(Edit (07/22/11 – 19:00 EDT): Os slides estão disponíveis, finalmente! Comentários em breve.)

Não sei se o leak de duas semanas atrás traumatizou essa colaboração, mas até agora, mesmo já tendo passadas horas e horas da apresentação, nem os slides nem o artigo estão disponíveis ao público. Eu não entendo o que está acontecendo e é um pouco decepcionante. A única coisa que eles divulgaram foi uma pequena nota na página deles com esse gráfico de exclusão:

Esse é o gráfico com maior exclusão e notem que o mesmo excesso é observado, embora eles não dêem maiores informações. O artigo dos canais ZZ e \gamma\gamma pode ser encontrados aqui:

Search for a Standard Model Higgs boson produced in the decay channel 4l

e aqui:

Search for a Higgs boson decaying into two photons in the CMS detector

Mas nenhuma estrutura salta aos olhos.

Tevatron (CDF e D0)

É provável que a combinação entre os dois experimentos D0 e CDF já esteja feita, mas eles apresentaram seus resultados separadamente.

Apesar do acréscimo de dados fazer a curva se aproximar da seção de choque do modelo padrão, é óbvio que os experimentos estão no limite da sua capacidade. As procuras no CDF e no D0 ainda tem uma pequena vantagem em hipóteses de massa muito pequenas, próximas à exclusão do LEP. Mas isso será por pouco tempo. Eu deixo para o leitor interpretar, mas não é difícil concluir que o Tevatron a partir de agora terá muito pouco ou quase nada a dizer sobre o Higgs.

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Ética e blogs, parte 2

quinta-feira, 14 jul 2011; \28\UTC\UTC\k 28 Deixe um comentário

As discussões a respeito da divulgação de informações sobre resultados experimentais e blogs na internet tem ficado cada vez mais quentes. Na ocasião em que ocorreu aquele vazamento da nota interna do Atlas, eu fiz um post falando sobre como é ruim trabalhar com pessoas com essa postura:

Ética profissional em física

Eu continuo achando que não ter a liberdade de pensar e trocar idéias com seus colaboradores em particular, sem ter os olhos críticos do resto do mundo sobre você é essencial. E, em projetos de escala mundial como as colaborações do CERN, a internet é o meio natural através do qual se comunicar. Logo, é essencial que haja mecanismos de se trocar informações internamente. Esses mecanismos existem e são triviais. Eles se baseiam em redes de confiança. Você coloca uma senha na página de acesso aos documentos e só confidencia a senha às pessoas com quem você quer trocar informação. O servidor de documentos do CERN tem essa função trivial, inclusive já separando os usuários por categorias que determinam o nível de acesso que você vai ter.

Dada que essa é a regra do jogo, você, autor do documento, é o responsável por delimitar sua rede de confiança. Se você não a delimita, significa que você está divulgando informação publicamente. Essa é a regra e é assim que vem sendo jogada há muito tempo. E eis que houve esse caso do limite de exclusão do Higgs pelo CMS com 0.9\, fb^{-1} de luminosidade integrada. O fato de você não querer mostrar seus dados ao público antes de fazer a análise como o cuidado que eles merecem, não significa que os olhos públicos não estarão em cima de você. Principalmente em experimentos de grande visibilidade pública, como é o caso desses grandes laboratórios.

Eu acho que vale a pena explicar um pouco melhor o que aconteceu então. No Fermilab, existe esse centro avançado do CMS e várias outras atividades relacionadas ao LHC. Em particular, existe esse LHC Physics Center, ou LPC. Na página do LPC você pode ver que há seminários regulares sobre assuntos relacionados ao LHC e, no último dia 8, teve o seguinte seminário (clique para aumentar):

Os slides da apresentação do Andrey Korytov (clique aqui para uma versão em HTML do cache do Google) que, como vocês podem ver na imagem acima não é nenhum iniciantes inexperiente no campo, foram deixados, por engano, públicos. Sim, foi um engano, eles deveriam ter sido mantidos privados até a EPS-HEP. Mas aconteceu e imediatamente o blog viXra obteve o PDF com os slides e redivulgou a informação. Eu vi o gráfico e coloquei aqui no Ars Physica.

Como o nosso blog é em português e a meu post era de segunda mão, ninguém deu muita bola. Mas o post no viXra log teve muita repercussão e ainda está tendo, como vocês podem ver nos comentários do post que linkei na meu post anterior. Aparentemente, um email foi distribuido internamente na colaboração avisando a todos os membros o que ocorreu e esse email foi posteriormente copiado na área de comentários do blog, de onde reproduzo:

Dear friends,

we have been informed sunday night that our internal, undigested Higgs limit plot appeared in blogs.

After some investigations we concluded that the source was very likely a seminar held on Friday July 8 at Fermilab. The Seminar was supposed to be internal to CMS and not approved material was shown there as it is normal in these cases. Instructions had been given to protect the material of the seminar but, for reasons yet to be established, the slides were not protected. The organizers take full responsibility and apologize profoundly. We would therefore close the incident here.

We will take every step possible to ensure this does not happen again. The really important lesson here is that we must continue to be vigilant on these matters. We’ll try to use this unfortunate incident to put in place additional preventive actions to protect internal material all over CMS. We remind everybody that Indico pages for talks where internal material is even only occasionally shown should be protected by default.

Now back to the preparatory work for EPS/LP
Best regards

Guido and Teresa

Primeiro, como assim very likely? Que bobagem, foi de lá e ponto. Nunca foi escondido pelo autor do blog. Mas tudo bem, eu achei a mensagem de alerta positiva. Agora, o que foi muito negativo, foram algumas respostas no blog:

E esse comentário veio de um IP do CERN! Para mim, isso denigre tanto a imagem do laboratório quanto as pessoas que vazam informação. Nesse caso foi um erro honesto. Viva com isso! Agora, sair xingando num blog? (Como vocês podem imaginar, os ****** eram palavrões que foram moderados posteriormente)

Eu não quero trabalhar com alguém que não respeita a privacidade do trabalho, mas tampouco quero trabalhar com alguém que dá esse tipo de xilique. O autor do blog disse que reportou o IP ao laboratório, pois há várias mensagens com esse mesmo tom nos comentários. É realmente triste que esse tipo de resposta de uma pessoa do CERN (e, convenhamos, provavelmente alguém do CMS) seja aceita pelo laboratório e pela colaboração.

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CDF observa decaimento de Bs para dois múons.

quinta-feira, 14 jul 2011; \28\UTC\UTC\k 28 1 comentário

Outro artigo muito interessante que apareceu no arXiv essa semana foi esse aqui:

Search for B^0_s\rightarrow \mu^+\mu^- and B^0\rightarrow \mu^+\mu^- Decays with CDF II (arXiv:1107.2304)

onde o CDF afirma ter observado o decaimento B^0_s\rightarrow \mu^+\mu^-. Deixa eu contar um pouco da história. Esses decaimentos são super raros porque no modelo padrão não tem corrente neutra (o estado final tem carga elétrica total 0) com violação de sabor (os quarks que compõem o B_s^0 e o B_d^0 tem sabores diferentes). Isso quer dizer que esse decaimento só ocorre por efeitos quânticos e através da matriz CKM. O resultado é que branching ratio termina sendo minúsculo, na ordem de 10^{-9} para o B_s^0 e 10^{-10} para o B_d^0:


Processos que geram o decaimento observado. Copiado do blog Résonaances, que também falou sobre o artigo.

Bem, se lembra que eu disse que pessoal do Tevatron tinha que ser rápido? Então, isso é o CDF sendo rápido. Pois essa é uma daquelas reações para a qual o LHCb, um dos detectores do LHC, foi construído para estudar. E eles vão fazer muitos e muitos artigos sobre ela, sem dúvida. Mas o CDF analisou 7\, fb^{-1} de dados, muito mais do que o LHCb tem agora, e eles têm um bom sistema de tracking que é capaz de fazer identificação de partículas através de ionização por unidade de comprimento dE/dx. Além disso, eles usaram uma rede neural para avaliar os pesos de todas as variáveis que discriminam sinal de background para melhorar a observação.

O resultado pode ser visto na figura abaixo (copiada do artigo):

As duas primeiras linhas são relativas ao B_s^0 e você vê que para valores altos do discriminante da rede neural, o terceiro e quarto gráficos da esquerda para direita na primeira linha, onde é esperado sinal, eles conseguem observar! Também vale notar que no segundo gráfico, onde não é esperado sinal nenhum, eles também observam. 😛 (na terceira linha, para o B_d^0 não se observa nenhum sinal, mas isso é o esperado nesse caso).

O valor-p da observação é relativamente alto (0.66%) e eles mesmo admitem no artigo que é uma observação delicada e fraca. Contudo, eles puseram, pela primeira vez, um limite inferior na fração de decaimento do B_s\rightarrow \mu^+\mu^-: {\mathcal B}_{CDF}(B_s^0\rightarrow \mu^+\mu^-)=1.8^{+1.1}_{-0.9}\times 10^{-8} o que é muito maior que o previsto no modelo padrão: {\mathcal B}_{SM}(B_s^0\rightarrow \mu^+\mu^-)=(3.2\pm 0.2)\times 10^{-9}. Vários modelos além do Modelo Padrão preveêm um aumento nessa fração e essa pode ser mais uma indicação vinda do CDF de que algo estranho está acontecendo.

O D0 provavelmente não consegue fazer essa medida, mas em breve o LHCb deve divulgar fortes opiniões sobre o assunto.

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Regras de Feynman para AdS/CFT?

quinta-feira, 14 jul 2011; \28\UTC\UTC\k 28 Deixe um comentário

Essa semana apareceram dois artigos muito interessantes no arXiv sobre o cálculo de amplitudes de espalhamento usando AdS/CFT. A idéia de usar a dualidade para calcular amplitudes vem desde os artigos originais, mas não é simples. Uma discussão didática pode ser encontrada na revisão (artigo antigo, mas ainda bom. Eu fico impressionado como o tempo passa rápido, essa revisão já tem mais de 12 anos!):

Large N Field Theories, String Theory and Gravity (hep-th/9905111)

O interessante da idéia é que se torna possível calcular amplitudes de espalhamento no limite de interação forte, algo que não é possível com diagramas de Feynman usuais. Contudo, a aplicação é bem limitada, pelo menos em física de partículas, já que nenhum de nossos modelos de interações fundamentais é conforme e o grau do grupo de gauge N é sempre pequeno. O valor de N tem ser grande para a dualidade valer no limite em que a teoria de cordas em AdS_5\times S^5 pode ser aproximada pelo limite clássico de supergravidade.

Quando isso vale, a função geradora da teoria de CFT é aproximada pela parte clássica da função geradora da supergravidade, isto é, aquela gerada por diagramas em nível árvore. Os campos na fronteira de AdS_5 são então as fontes de campos na CFT (se acoplando aos operadores aos quais eles são “duais”) e as interações no interior, o chamado bulk, podem ser lidas expandindo a ação de supergravidade em torno desse espaço. Esses diagramas ficaram conhecidos como diagramas de Witten, por terem sido originalmente propostos aqui:

ANTI DE SITTER SPACE AND HOLOGRAPHY (hep-th/9802150)

O fato das funções de Green terem que ser calculadas em AdS_5 torna as coisas mais complicadas que no caso de espaço plano. Isso sem contar que, como é sempre o caso em problemas de Dirichlet, para calcular o valor do campo você precisa saber tanto o propagador entre pontos no interior quanto propagadores entre um ponto na fronteira e outro no interior.

Em espaço plano, quando se calcula diagramas de Feynman, faz-se a conta no espaço de momentos e isso torna o calculo de amplitudes de espalhamento simples multiplicações sucessivas, pelo menos em nível árvore. Em AdS_5\times S^5 o espaço de momento não ajuda muito pois ele só torna explícitas as simetrias da fronteira, mas não do interior. Os cálculos simples de espalhamento são feitos em espaço de configuração, mas existe um limite para o que se pode fazer com isso antes que a conta se torne proibitivamente complicada. Alguns exemplos de amplitudes que foram calculadas logo após a proposta acima:

Conformal Field Theory Correlators from Classical Scalar Field Theory on AdS_{d+1} (hep-th/9804035)

Correlation functions in the CFT_d/AdS_{d+1} correspondence (hep-th/9804058)

On Four-point Functions in the CFT/AdS Correspondence (hep-th/9807097)

O que apareceu nessa última semana foi uma sugestão de usar transformadas de Mellin em vez de Fourier para calcular diagramas de Witten, criando o equivalente das regras de Feynman para esses diagramas:

Towards Feynman rules for Mellin amplitudes. (arXiv:1107.1504)

A Natural Language for AdS/CFT Correlators (arXiv:1107.1499)

Nos exemplos calculados explicitamente (principalmente no primeiro dos artigos acima) fica claro que a transformação para a o espaço de Mellin pode ser entendida como uma aplicação esperta da fórmula de estrela de Symanzik. A fórmula para o vértice de interação ainda é um tanto mais complicada e envolve funções hipergeométricas de Lauricella, mas pelo menos montar a expressão do diagrama se tornou, novamente, simples multiplicações.

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O Brasil no Chronicle of Higher Education…

sábado, 9 jul 2011; \27\UTC\UTC\k 27 7 comentários

O jornal The Chronicle of Higher Education é uma das referência no mundo da Educação Superior — assim como o Times Higher Education.

No começo da semana, o Chronicle publicou a seguinte matéria sobre o Brasil: Brazil Reaches Out. Essa reportagem também apareceu no Physics Today: Brazil reaches out (Physics Today).

Pra quem está com preguiça de clicar no link da Physics Today, aqui vai o comentário deles (em sua integridade):

Chronicle of Higher Education: The Brazilian government has announced that it will fund 75,000 studentships to study abroad, worth $30,000 each. Brazil’s university system is successful, but that success is not unqualified; scientific research is highly variable in quality, and there is a shortage of researchers. Student bodies of elite universities tend to be economically homogenous. The Brazilian government recognizes that the country’s higher education system will need to expand rapidly while improving in quality if it is to support the country’s economic growth: 7.5% last year, with another 4% predicted for 2011 despite the global slowdown.

O ponto principal da reportagem é o seguinte: o governo brasileiro anunciou 75.000 bolsas-de-estudos (para estudo no exterior) no valor de US$30.000 cada. (Posso estar enganado, eu até gostaria de ter mais informações a esse respeito, mas meu entendimento é que essas bolsas são para áreas onde não há possibilidade de se fazer a pesquisa no Brasil.)

Eu, confesso, tenho algumas dúvidas. Por exemplo, como esse valor de US$30.000 é calculado e aplicado para uma bolsa de doutoramento? A tuition (custo anual) das escolas pode variar muito: nos USA, para a pós-graduação, uma escola pública (e.g., UCLA ou UCSD, SUNY-SB, Rutgers, etc) pode cobrar cerca de ~US$20.000 para alunos estrangeiros (que claramente têm origem fora do estado onde essas escolas se localizam — a anuidade para residentes do estado é consideravelmente mais baixa: cerca de 25% do valor cobrado para quem vem de fora do estado), assim como uma escola privada (Harvard, MIT, Princeton, Brown, Chicago) pode cobrar até US$40.000 por ano! E isso não inclui o salário para o doutorando, que gira em torno de US$2.000/mês (i.e., cerca de ~US$21.000–US$24.000 por ano), dando um total de até ~US$65.000 por ano. Portanto, mesmo uma média simples entre os dois tipos possíveis de anuidades já dá o valor anunciado para as bolsas, cerca de ~US$30.000.

Claro, a situação na Europa é bem diferente e varia bastante de país pra país (e.g., Reino Unido, França, Alemanha). Então, eu imagino que os valores europeus vão ser um pouco mais baixos quando comparados aos valores americanos. Por outro lado, a conta européia vem em Euros, o que torna tudo cerca de 43% mais caro que a conta americana. Então, um custo de ~€21.000 se torna algo como ~US$30.000.

Mais ainda, quem conhece gente que foi pro exterior pago pelo CNPq, sabe o quão comum é o atraso do pagamento dessas pessoas…: muito mais comum do que deveria — às vezes vc recebe por 3 meses atrasados. De qualquer modo, essa já é outra questão, apesar de relevante pra pessoa que está do outro lado do oceano.

Fora isso, também é importante se colocar esses números em comparação com os dados do post Como a Ciência escapou da Foice do Orçamento — até agora. Em particular, os seguintes artigos são de extrema relevância: Brazil cuts its science budget e Brazil’s budget cut dismays scientists . Esses cortes não precisam, necessariamente, afetar as bolsas mencionadas acima. Entretanto, as pessoas formadas por este programa de bolsas vão necessariamente (por causa do contrato da bolsa) voltar para o Brasil — o que imediatamente traz a seguinte pergunta à tona: “Com esses cortes, será que haverá empregos para esses bolsistas? Ou será que eles simplesmente vão ficar desempregados depois de voltarem? Há planos para a absorção desses bolsistas?” E por aí afora…

Portanto, a notícia soa boa, mas sem os devidos detalhes fica difícil de se saber o quão realista isso tudo é.

Reproduzo aqui o artigo do Chronicle em sua integridade.

Brazil Reaches Out

July 5, 2011, 12:14 pm, By Nigel Thrift.

In Brazil on a delegation with the Deputy Prime Minister and the Minister of State for Universities and Science. As usual with these delegations, they tend to be a mixture of frenzied last-minute reorganizations and moments of formal ceremony. They certainly require serious stamina occasioned by crammed programmes and non-stop travel.

But this delegation was buoyed by the Brazilian government’s announcement of 75,000 studentships to study abroad over the next four years, each worth $30,000, of which the UK looks set to obtain a good number.

What is striking about Brazilian higher education its range and variety. There are numerous private institutions, some of which are of good quality. There are state universities. There are federal universities. There are a number of federal science and technology institutions like CAPES, along with many national institutes of science and technology. There are a number of companies (most notably Petrobras and Embraer) which have close associations with universities. I was able to visit the University of Sao Paulo, an august institution boosted by the fact that a proportion of the State of Sao Paulo’s sales tax goes to universities (other countries take note).

What became clear to me was that Brazilian higher education is now in a state of take-off. Brazilian research is often world class. It is the 13th biggest knowledge producer as measured by numbers of papers. In particular, Brazilian research in is paramount in fields like engineering and aspects of the biological sciences.

In a meeting with luminaries from the world of Brazilian higher education, what was clear was that they are bullish about the future and that the scholarship scheme is a tangible expression of that optimism, as well as a desire to diversify the locations in which students study (which are currently led by the United Sates and France).

What is very different from many other countries which are now in economic take-off is that Brazil already has a thriving university system which has achieved many successes. It needs to expand its higher education system rapidly but the goal that has been set for participation rates seems entirely possible. In fact, it is about the same rate of expansion as the UK has achieved over the last 30 years.

There are clearly still problems. For example, the elite universities tend to be populated by students from well-off backgrounds. But Brazil is hardly the only country that can be accused of that. Again, there is very considerable variation in quality. Again, Brazil is hardly the only country that can be accused of that. It has a shortage of researchers to match its ambitions. Once more, Brazil is hardly the only country that can be accused of that.

In other words, this cannot be seen as a situation in which a country needs “help.” Rather, it requires a partnership of equals in which the non-Brazilian partner realizes that the Brazilian partner has much more to offer than the prospect of studentships abroad. Those studentships are a sign off greater engagement but an engagement that will be a two-way process right from the very start.

Primeira exclusão de Higgs no LHC com dados de 2011!

sábado, 9 jul 2011; \27\UTC\UTC\k 27 3 comentários

Acabei de ver na blogsfera:

Higgs exclusion at 900 pb-1 (viXra log)

o primeiro resultado da procura pelo bóson de Higgs com dados de 2011 anunciado pela colaboração CMS.

Esse gráfico é uma combinação de 0.9\, fb^{-1} do canal H\rightarrow ZZ na região de massa alta com 0.2\, fb^{-1} de diversos canais em massa baixa. O CMS exclui praticamente toda a região entre 300-400\, GeV de massa.

O Philip Gibbs, que escreve no blog viXra referenciado acima, continua acreditando que o LHC vai entregar 10\, fb^{-1} de luminosidade integrada para o Atlas e o CMS até o final do ano e afirma, para minha surpresa pelo menos, que os dados para análise de Higgs dos dois experimentos serão combinados ainda esse ano. Não acho essa uma boa idéia. São experimentos novos que individualmente tem capacidade de observar o Higgs. É bom que os dados sejam apresentados separadamente para podermos ter uma idéia da consistência entre eles.

Atenção (12-Jul-2011): Nos comentários do blog viXra, fica claro que esse gráfico não estava pronto para ir a público e foi inadvertidamente uploaded para um servidor aberto de apresentações. O que aconteceu foi que apresentaram esse gráfico em alguma conferência (e eu não sei, não quero saber, e nem tenho tempo de ir atrás para descobrir qual foi — mas deve ter sido na semana anterior a esse post e deve ter sido uma conferência do CMS, mas honestamente não sei) em que os organizadores e palestrantes falharam em manter resultados internos, digamos assim, internos. Aparentemente eles pediram desculpas à colaboração mas, sinceramente, muito tarde para retirar o gráfico dos olhos públicos da internet. O que deve ter acontecido é que esse era um gráfico que estava preparado para o encontro da EPS, em duas semanas, e foi mostrado em alguma conferência de menor importância. Agora é ficar e olho nas apresentações em Grenoble e, até por uma questão de confirmação, eu vou fazer um post aqui no Ars Physica quando o resultado do LHC para exclusão do Higgs aparecer na página deles.

Ontem também apareceu, no youtube, um vídeo do Don Lincoln, que faz parte da colaboração CMS, tentando explicar sem usar termos técnicos o que é o campo de Higgs e qual sua importância. Fazer analogias é sempre uma tarefa difícil e ingrata, mas ficou legal (legendado para o português pelo Rafael Calsaverini – se não aparecer quando começar o vídeo, aperte o botão CC na barra sob o vídeo):

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