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Ética e blogs, parte 2

quinta-feira, 14 jul 2011; \28\America/New_York\America/New_York\k 28 Deixe um comentário

As discussões a respeito da divulgação de informações sobre resultados experimentais e blogs na internet tem ficado cada vez mais quentes. Na ocasião em que ocorreu aquele vazamento da nota interna do Atlas, eu fiz um post falando sobre como é ruim trabalhar com pessoas com essa postura:

Ética profissional em física

Eu continuo achando que não ter a liberdade de pensar e trocar idéias com seus colaboradores em particular, sem ter os olhos críticos do resto do mundo sobre você é essencial. E, em projetos de escala mundial como as colaborações do CERN, a internet é o meio natural através do qual se comunicar. Logo, é essencial que haja mecanismos de se trocar informações internamente. Esses mecanismos existem e são triviais. Eles se baseiam em redes de confiança. Você coloca uma senha na página de acesso aos documentos e só confidencia a senha às pessoas com quem você quer trocar informação. O servidor de documentos do CERN tem essa função trivial, inclusive já separando os usuários por categorias que determinam o nível de acesso que você vai ter.

Dada que essa é a regra do jogo, você, autor do documento, é o responsável por delimitar sua rede de confiança. Se você não a delimita, significa que você está divulgando informação publicamente. Essa é a regra e é assim que vem sendo jogada há muito tempo. E eis que houve esse caso do limite de exclusão do Higgs pelo CMS com 0.9\, fb^{-1} de luminosidade integrada. O fato de você não querer mostrar seus dados ao público antes de fazer a análise como o cuidado que eles merecem, não significa que os olhos públicos não estarão em cima de você. Principalmente em experimentos de grande visibilidade pública, como é o caso desses grandes laboratórios.

Eu acho que vale a pena explicar um pouco melhor o que aconteceu então. No Fermilab, existe esse centro avançado do CMS e várias outras atividades relacionadas ao LHC. Em particular, existe esse LHC Physics Center, ou LPC. Na página do LPC você pode ver que há seminários regulares sobre assuntos relacionados ao LHC e, no último dia 8, teve o seguinte seminário (clique para aumentar):

Os slides da apresentação do Andrey Korytov (clique aqui para uma versão em HTML do cache do Google) que, como vocês podem ver na imagem acima não é nenhum iniciantes inexperiente no campo, foram deixados, por engano, públicos. Sim, foi um engano, eles deveriam ter sido mantidos privados até a EPS-HEP. Mas aconteceu e imediatamente o blog viXra obteve o PDF com os slides e redivulgou a informação. Eu vi o gráfico e coloquei aqui no Ars Physica.

Como o nosso blog é em português e a meu post era de segunda mão, ninguém deu muita bola. Mas o post no viXra log teve muita repercussão e ainda está tendo, como vocês podem ver nos comentários do post que linkei na meu post anterior. Aparentemente, um email foi distribuido internamente na colaboração avisando a todos os membros o que ocorreu e esse email foi posteriormente copiado na área de comentários do blog, de onde reproduzo:

Dear friends,

we have been informed sunday night that our internal, undigested Higgs limit plot appeared in blogs.

After some investigations we concluded that the source was very likely a seminar held on Friday July 8 at Fermilab. The Seminar was supposed to be internal to CMS and not approved material was shown there as it is normal in these cases. Instructions had been given to protect the material of the seminar but, for reasons yet to be established, the slides were not protected. The organizers take full responsibility and apologize profoundly. We would therefore close the incident here.

We will take every step possible to ensure this does not happen again. The really important lesson here is that we must continue to be vigilant on these matters. We’ll try to use this unfortunate incident to put in place additional preventive actions to protect internal material all over CMS. We remind everybody that Indico pages for talks where internal material is even only occasionally shown should be protected by default.

Now back to the preparatory work for EPS/LP
Best regards

Guido and Teresa

Primeiro, como assim very likely? Que bobagem, foi de lá e ponto. Nunca foi escondido pelo autor do blog. Mas tudo bem, eu achei a mensagem de alerta positiva. Agora, o que foi muito negativo, foram algumas respostas no blog:

E esse comentário veio de um IP do CERN! Para mim, isso denigre tanto a imagem do laboratório quanto as pessoas que vazam informação. Nesse caso foi um erro honesto. Viva com isso! Agora, sair xingando num blog? (Como vocês podem imaginar, os ****** eram palavrões que foram moderados posteriormente)

Eu não quero trabalhar com alguém que não respeita a privacidade do trabalho, mas tampouco quero trabalhar com alguém que dá esse tipo de xilique. O autor do blog disse que reportou o IP ao laboratório, pois há várias mensagens com esse mesmo tom nos comentários. É realmente triste que esse tipo de resposta de uma pessoa do CERN (e, convenhamos, provavelmente alguém do CMS) seja aceita pelo laboratório e pela colaboração.

Categorias:Ars Physica

CDF observa decaimento de Bs para dois múons.

quinta-feira, 14 jul 2011; \28\America/New_York\America/New_York\k 28 1 comentário

Outro artigo muito interessante que apareceu no arXiv essa semana foi esse aqui:

Search for B^0_s\rightarrow \mu^+\mu^- and B^0\rightarrow \mu^+\mu^- Decays with CDF II (arXiv:1107.2304)

onde o CDF afirma ter observado o decaimento B^0_s\rightarrow \mu^+\mu^-. Deixa eu contar um pouco da história. Esses decaimentos são super raros porque no modelo padrão não tem corrente neutra (o estado final tem carga elétrica total 0) com violação de sabor (os quarks que compõem o B_s^0 e o B_d^0 tem sabores diferentes). Isso quer dizer que esse decaimento só ocorre por efeitos quânticos e através da matriz CKM. O resultado é que branching ratio termina sendo minúsculo, na ordem de 10^{-9} para o B_s^0 e 10^{-10} para o B_d^0:


Processos que geram o decaimento observado. Copiado do blog Résonaances, que também falou sobre o artigo.

Bem, se lembra que eu disse que pessoal do Tevatron tinha que ser rápido? Então, isso é o CDF sendo rápido. Pois essa é uma daquelas reações para a qual o LHCb, um dos detectores do LHC, foi construído para estudar. E eles vão fazer muitos e muitos artigos sobre ela, sem dúvida. Mas o CDF analisou 7\, fb^{-1} de dados, muito mais do que o LHCb tem agora, e eles têm um bom sistema de tracking que é capaz de fazer identificação de partículas através de ionização por unidade de comprimento dE/dx. Além disso, eles usaram uma rede neural para avaliar os pesos de todas as variáveis que discriminam sinal de background para melhorar a observação.

O resultado pode ser visto na figura abaixo (copiada do artigo):

As duas primeiras linhas são relativas ao B_s^0 e você vê que para valores altos do discriminante da rede neural, o terceiro e quarto gráficos da esquerda para direita na primeira linha, onde é esperado sinal, eles conseguem observar! Também vale notar que no segundo gráfico, onde não é esperado sinal nenhum, eles também observam. 😛 (na terceira linha, para o B_d^0 não se observa nenhum sinal, mas isso é o esperado nesse caso).

O valor-p da observação é relativamente alto (0.66%) e eles mesmo admitem no artigo que é uma observação delicada e fraca. Contudo, eles puseram, pela primeira vez, um limite inferior na fração de decaimento do B_s\rightarrow \mu^+\mu^-: {\mathcal B}_{CDF}(B_s^0\rightarrow \mu^+\mu^-)=1.8^{+1.1}_{-0.9}\times 10^{-8} o que é muito maior que o previsto no modelo padrão: {\mathcal B}_{SM}(B_s^0\rightarrow \mu^+\mu^-)=(3.2\pm 0.2)\times 10^{-9}. Vários modelos além do Modelo Padrão preveêm um aumento nessa fração e essa pode ser mais uma indicação vinda do CDF de que algo estranho está acontecendo.

O D0 provavelmente não consegue fazer essa medida, mas em breve o LHCb deve divulgar fortes opiniões sobre o assunto.

Categorias:Ars Physica

Regras de Feynman para AdS/CFT?

quinta-feira, 14 jul 2011; \28\America/New_York\America/New_York\k 28 Deixe um comentário

Essa semana apareceram dois artigos muito interessantes no arXiv sobre o cálculo de amplitudes de espalhamento usando AdS/CFT. A idéia de usar a dualidade para calcular amplitudes vem desde os artigos originais, mas não é simples. Uma discussão didática pode ser encontrada na revisão (artigo antigo, mas ainda bom. Eu fico impressionado como o tempo passa rápido, essa revisão já tem mais de 12 anos!):

Large N Field Theories, String Theory and Gravity (hep-th/9905111)

O interessante da idéia é que se torna possível calcular amplitudes de espalhamento no limite de interação forte, algo que não é possível com diagramas de Feynman usuais. Contudo, a aplicação é bem limitada, pelo menos em física de partículas, já que nenhum de nossos modelos de interações fundamentais é conforme e o grau do grupo de gauge N é sempre pequeno. O valor de N tem ser grande para a dualidade valer no limite em que a teoria de cordas em AdS_5\times S^5 pode ser aproximada pelo limite clássico de supergravidade.

Quando isso vale, a função geradora da teoria de CFT é aproximada pela parte clássica da função geradora da supergravidade, isto é, aquela gerada por diagramas em nível árvore. Os campos na fronteira de AdS_5 são então as fontes de campos na CFT (se acoplando aos operadores aos quais eles são “duais”) e as interações no interior, o chamado bulk, podem ser lidas expandindo a ação de supergravidade em torno desse espaço. Esses diagramas ficaram conhecidos como diagramas de Witten, por terem sido originalmente propostos aqui:

ANTI DE SITTER SPACE AND HOLOGRAPHY (hep-th/9802150)

O fato das funções de Green terem que ser calculadas em AdS_5 torna as coisas mais complicadas que no caso de espaço plano. Isso sem contar que, como é sempre o caso em problemas de Dirichlet, para calcular o valor do campo você precisa saber tanto o propagador entre pontos no interior quanto propagadores entre um ponto na fronteira e outro no interior.

Em espaço plano, quando se calcula diagramas de Feynman, faz-se a conta no espaço de momentos e isso torna o calculo de amplitudes de espalhamento simples multiplicações sucessivas, pelo menos em nível árvore. Em AdS_5\times S^5 o espaço de momento não ajuda muito pois ele só torna explícitas as simetrias da fronteira, mas não do interior. Os cálculos simples de espalhamento são feitos em espaço de configuração, mas existe um limite para o que se pode fazer com isso antes que a conta se torne proibitivamente complicada. Alguns exemplos de amplitudes que foram calculadas logo após a proposta acima:

Conformal Field Theory Correlators from Classical Scalar Field Theory on AdS_{d+1} (hep-th/9804035)

Correlation functions in the CFT_d/AdS_{d+1} correspondence (hep-th/9804058)

On Four-point Functions in the CFT/AdS Correspondence (hep-th/9807097)

O que apareceu nessa última semana foi uma sugestão de usar transformadas de Mellin em vez de Fourier para calcular diagramas de Witten, criando o equivalente das regras de Feynman para esses diagramas:

Towards Feynman rules for Mellin amplitudes. (arXiv:1107.1504)

A Natural Language for AdS/CFT Correlators (arXiv:1107.1499)

Nos exemplos calculados explicitamente (principalmente no primeiro dos artigos acima) fica claro que a transformação para a o espaço de Mellin pode ser entendida como uma aplicação esperta da fórmula de estrela de Symanzik. A fórmula para o vértice de interação ainda é um tanto mais complicada e envolve funções hipergeométricas de Lauricella, mas pelo menos montar a expressão do diagrama se tornou, novamente, simples multiplicações.

Categorias:Ars Physica
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