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Wikipedia sobre física de partículas

domingo, 14 ago 2011; \32\America/New_York\America/New_York\k 32 2 comentários

Rapidinho. Me falaram que a definição de física de partículas da Wikipedia era muito ruim. E de fato, era assim:

Particle physics is a branch of physics that studies the elementary particle|elementary subatomic constituents of matter and radiation, and their interactions. The field is also called high energy physics, because many elementary particles do not occur under ambient conditions on Earth. They can only be created artificially during high energy collisions with other particles in particle accelerators.

Particle physics has evolved out of its parent field of nuclear physics and is typically still taught in close association with it. Scientific research in this area has produced a long list of particles.

Mas hein? Partículas que só podem ser criadas em aceleradores? Física de partículas é ensinada junto com física nuclear? A pesquisa produz partículas (essa é ótima!)?

Em que mundo essa pessoa vive? Reescrevi:

Particle Physics is a branch of physics that studies the existence and interactions of particles, which are the constituents of what is usually referred as matter or radiation. In our current understanding, particles are excitations of quantum fields and interact following their dynamics. Most of the interest in this area is in fundamental fields, those that cannot be described as a bound state of other fields. The set of fundamental fields and their dynamics are summarized in a model called the Standard Model and, therefore, Particle Physics is largely the study of the Standard Model particle content and its possible extensions.

Eu acho que ficou bem melhor. Vamos ver em quanto tempo algum editor esquentado da Wikipedia vai demorar para reverter. Atualmente está um saco participar da Wikipedia por causa dessas pessoas. 😦

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Fórum sobre Mulheres em Física no Encontro de Partículas e Campos

domingo, 14 ago 2011; \32\America/New_York\America/New_York\k 32 2 comentários

O Encontro de Partículas e Campos chegou ao fim, mas ainda tem várias coisas que eu vi e gostaria de compartilhar. Principalmente o que diz respeito aos planos para o futuro da física de altas energias nos EUA e no mundo, o que foi amplamente discutido nesse encontro. Mas antes disso, eu quero falar sobre um assunto que sempre me interessou muito: a sub-representação das mulheres na física. Esse é um problema de verdade e acho que a física só tem a ganhar se conseguirmos resolvê-lo. Além do ambiente de trabalho ficar muito mais bonito (ok, ok… eu sei que esse não é o post adequado para um comentário machista. Mas não deixa de ser verdade! :))

Se minha memória não me falha eu já escrevi sobre isso aqui no blog. Nesse encontro houve um fórum para discussão desse assunto onde várias questões sobre as quais eu nunca tinha parado para pensar foram levantadas. Eu acho que não importa muito quem estava no painel, basta dizer que havia físicas em início e meio de carreira, bem como experimentais e teóricas.

A primeira discussão levantada foi o problema de se constituir família enquanto se trabalha com física, chamado (em forma de piada) de “two-body problem”. Várias mulheres presentes deram a entender que esse era um problema pior para a mulher do que para o homem. Isso é falso, obviamente, mas precisou de alguma discussão para que se chegasse a essa conclusão. Ouvimos alguns relatos inclusive de maridos que abandonaram sua carreira para permitir que suas esposas pudessem exercer uma carreira científica. Isso não é mais incomum hoje e minha impressão é que esse primeiro tópico discutido era muito mais fruto do egoísmo individual do que o fato de ser mulher ou homem.

Um segundo assunto que foi amplamente discutido foi o momento ideal da carreira de se ter filhos, se é que isso existe. A discussão se concentrou na questão do que era menos pior: ter filhos durante o pós-doc ou durante o início da docência (por exemplo, durante um tenure-track como existe aqui nos EUA). Eu achei muito curioso como as opiniões divergiram e, no fim, a conclusão mais interessante foi que esse problema é muito pior em física teórica do que experimental. Ouvimos vários relatos de mulheres que foram mães durantes seus pós-docs e cujos companheiros de experimentos continuaram o trabalho durante sua ausência para maternidade e facilitaram sua volta depois do tempo devido e necessário. As físicas teóricas presentes relataram que isso é impossível no seu campo e que a ausência de artigos no período de maternidade ainda é visto com muito preconceito. É um absurdo que ainda exista esse tipo de comportamento.

O aspecto colaborativo da física experimental de altas energias foi repetidamente citado como positivo para mulheres. Várias vezes foi sugerido que as alunas e pós-docs sempre procurassem mentores dentro da sua instituição que pudesse garantir o tipo de suporte que descrevi no parágrafo acima, se necessário. Eu acho isso positivo, claro. O que eu achei curioso é que o a sub-representação feminina em algumas sub-áreas da física de altas de energias, como teoria, não é visto como um problema que merece atenção separada e muitos chegaram a citar as evidências apenas como anedóticas.

Eu não achei nenhuma estatística específica sobre isso e estou muito motivado a fazer um estudo sobre isso nos próximos meses. Mas a impressão das pessoas presentes é que as áreas de física teórica de altas energias e de instrumentação em altas energias ainda são muito hostis com as mulheres. Eu acho que deveria haver um programa específico para reverter essa situação, mas eu vou adiar a discussão até ter números que tornem meu argumento mais sólido. Por enquanto, vocês vão ter que acreditar na minha experiência.

Um tópico que não poderia faltar são as medidas afirmativas. Houve algumas críticas ao fato que esses programas são interrompidos quando eles começam a funcionar. Parece haver uma impressão das agências que financiam essas medidas de que, se uma universidade está numa posição um pouco melhor que as demais, mesmo que ainda longe do ideal, o foco deve ser voltado para aquelas em pior situação. Ouvimos, inclusive, sobre alguns casos em que isso significou um retrocesso para o esforço de tornar a área mais receptiva a mulheres.

Várias propostas específicas de medidas afirmativas foram discutidas, embora na maioria delas o painel tenha cometido a mesma falácia de não acreditar que o problema existe igualmente para os homens quanto para mulheres. Por exemplo, foi sugerido que o longo tempo entre a graduação e o primeiro emprego é pior para mulheres do que para homens. Isso é absurdo! Isso é um problemas para os dois e tem que ser atacado sem discriminação sexual. Também foi sugerido que buscas por docentes sem restrições de áreas tornaria o número entre homens e mulheres mais saudável. Isso é outra mentira, já que um dos frutos do preconceito é que há concentração de mulheres em algumas poucas áreas da física.

Mas também houve boas idéias postas na mesa. Reafirmou-se a necessidade de evitar o famoso chilly climate, sugeriu-se que as instituições de ensino criassem um curso de formação específico para os TAs e docentes homens sobre como tratar as alunas e colegas sem preconceito e, o que eu acho a melhor dentre todas as idéias, que as mulheres físicas sempre façam um trabalho de extensão de ir a colégios de educação básica falar sobre suas profissões.

Há um consenso de que grande parte do problema é apenas de pipeline. Menos alunas interessadas em física quando jovens, no futuro, 20 anos depois, resulta em menos mulheres como docentes nas universidade. Isso quer dizer que uma primeira educação científica mais ampla e o contato cedo com profissionais mulheres na área científica pode reverter grande parte do aspecto social imbuído nesse desequilíbrio. Algumas pessoas disseram que a menor desigualdade que existe em outros países, e citou-se em particular a Itália, é justamente devido a esse tipo de atitude diferente.

Eu gostaria muito que o fórum tivesse sido mais longo. As discussões estavam instigantes e as sugestões enriquecedoras. Eu realmente estou interessado em desenvolver essa pesquisa sobre a distribuição das mulheres em física de altas energias por sub-área. Estou pensando em fazer a divisão: theoretical theory, phenomenological theory, analist experimental, instrumentation (hardware) experimental.

Falando nisso, num próximo post eu também quero discutir os esforços que estão sendo feitos nesse país para se criar essa nova divisão da física de altas energias: instrumentação. Foi outro fórum muito interessante, mas agora eu tenho que pegar o trêm de volta para casa.

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