Início > Ars Physica > Fórum sobre Mulheres em Física no Encontro de Partículas e Campos

Fórum sobre Mulheres em Física no Encontro de Partículas e Campos

domingo, 14 ago 2011; \32\UTC\UTC\k 32 Deixe um comentário Go to comments

O Encontro de Partículas e Campos chegou ao fim, mas ainda tem várias coisas que eu vi e gostaria de compartilhar. Principalmente o que diz respeito aos planos para o futuro da física de altas energias nos EUA e no mundo, o que foi amplamente discutido nesse encontro. Mas antes disso, eu quero falar sobre um assunto que sempre me interessou muito: a sub-representação das mulheres na física. Esse é um problema de verdade e acho que a física só tem a ganhar se conseguirmos resolvê-lo. Além do ambiente de trabalho ficar muito mais bonito (ok, ok… eu sei que esse não é o post adequado para um comentário machista. Mas não deixa de ser verdade! :))

Se minha memória não me falha eu já escrevi sobre isso aqui no blog. Nesse encontro houve um fórum para discussão desse assunto onde várias questões sobre as quais eu nunca tinha parado para pensar foram levantadas. Eu acho que não importa muito quem estava no painel, basta dizer que havia físicas em início e meio de carreira, bem como experimentais e teóricas.

A primeira discussão levantada foi o problema de se constituir família enquanto se trabalha com física, chamado (em forma de piada) de “two-body problem”. Várias mulheres presentes deram a entender que esse era um problema pior para a mulher do que para o homem. Isso é falso, obviamente, mas precisou de alguma discussão para que se chegasse a essa conclusão. Ouvimos alguns relatos inclusive de maridos que abandonaram sua carreira para permitir que suas esposas pudessem exercer uma carreira científica. Isso não é mais incomum hoje e minha impressão é que esse primeiro tópico discutido era muito mais fruto do egoísmo individual do que o fato de ser mulher ou homem.

Um segundo assunto que foi amplamente discutido foi o momento ideal da carreira de se ter filhos, se é que isso existe. A discussão se concentrou na questão do que era menos pior: ter filhos durante o pós-doc ou durante o início da docência (por exemplo, durante um tenure-track como existe aqui nos EUA). Eu achei muito curioso como as opiniões divergiram e, no fim, a conclusão mais interessante foi que esse problema é muito pior em física teórica do que experimental. Ouvimos vários relatos de mulheres que foram mães durantes seus pós-docs e cujos companheiros de experimentos continuaram o trabalho durante sua ausência para maternidade e facilitaram sua volta depois do tempo devido e necessário. As físicas teóricas presentes relataram que isso é impossível no seu campo e que a ausência de artigos no período de maternidade ainda é visto com muito preconceito. É um absurdo que ainda exista esse tipo de comportamento.

O aspecto colaborativo da física experimental de altas energias foi repetidamente citado como positivo para mulheres. Várias vezes foi sugerido que as alunas e pós-docs sempre procurassem mentores dentro da sua instituição que pudesse garantir o tipo de suporte que descrevi no parágrafo acima, se necessário. Eu acho isso positivo, claro. O que eu achei curioso é que o a sub-representação feminina em algumas sub-áreas da física de altas de energias, como teoria, não é visto como um problema que merece atenção separada e muitos chegaram a citar as evidências apenas como anedóticas.

Eu não achei nenhuma estatística específica sobre isso e estou muito motivado a fazer um estudo sobre isso nos próximos meses. Mas a impressão das pessoas presentes é que as áreas de física teórica de altas energias e de instrumentação em altas energias ainda são muito hostis com as mulheres. Eu acho que deveria haver um programa específico para reverter essa situação, mas eu vou adiar a discussão até ter números que tornem meu argumento mais sólido. Por enquanto, vocês vão ter que acreditar na minha experiência.

Um tópico que não poderia faltar são as medidas afirmativas. Houve algumas críticas ao fato que esses programas são interrompidos quando eles começam a funcionar. Parece haver uma impressão das agências que financiam essas medidas de que, se uma universidade está numa posição um pouco melhor que as demais, mesmo que ainda longe do ideal, o foco deve ser voltado para aquelas em pior situação. Ouvimos, inclusive, sobre alguns casos em que isso significou um retrocesso para o esforço de tornar a área mais receptiva a mulheres.

Várias propostas específicas de medidas afirmativas foram discutidas, embora na maioria delas o painel tenha cometido a mesma falácia de não acreditar que o problema existe igualmente para os homens quanto para mulheres. Por exemplo, foi sugerido que o longo tempo entre a graduação e o primeiro emprego é pior para mulheres do que para homens. Isso é absurdo! Isso é um problemas para os dois e tem que ser atacado sem discriminação sexual. Também foi sugerido que buscas por docentes sem restrições de áreas tornaria o número entre homens e mulheres mais saudável. Isso é outra mentira, já que um dos frutos do preconceito é que há concentração de mulheres em algumas poucas áreas da física.

Mas também houve boas idéias postas na mesa. Reafirmou-se a necessidade de evitar o famoso chilly climate, sugeriu-se que as instituições de ensino criassem um curso de formação específico para os TAs e docentes homens sobre como tratar as alunas e colegas sem preconceito e, o que eu acho a melhor dentre todas as idéias, que as mulheres físicas sempre façam um trabalho de extensão de ir a colégios de educação básica falar sobre suas profissões.

Há um consenso de que grande parte do problema é apenas de pipeline. Menos alunas interessadas em física quando jovens, no futuro, 20 anos depois, resulta em menos mulheres como docentes nas universidade. Isso quer dizer que uma primeira educação científica mais ampla e o contato cedo com profissionais mulheres na área científica pode reverter grande parte do aspecto social imbuído nesse desequilíbrio. Algumas pessoas disseram que a menor desigualdade que existe em outros países, e citou-se em particular a Itália, é justamente devido a esse tipo de atitude diferente.

Eu gostaria muito que o fórum tivesse sido mais longo. As discussões estavam instigantes e as sugestões enriquecedoras. Eu realmente estou interessado em desenvolver essa pesquisa sobre a distribuição das mulheres em física de altas energias por sub-área. Estou pensando em fazer a divisão: theoretical theory, phenomenological theory, analist experimental, instrumentation (hardware) experimental.

Falando nisso, num próximo post eu também quero discutir os esforços que estão sendo feitos nesse país para se criar essa nova divisão da física de altas energias: instrumentação. Foi outro fórum muito interessante, mas agora eu tenho que pegar o trêm de volta para casa.

Categorias:Ars Physica
  1. Eliângela
    segunda-feira, 15 ago 2011; \33\UTC\UTC\k 33 às 10:41:21 EST

    Olá, Rafael!
    Antes de tudo, gostaria de parabenizá-lo pelo post!
    Me chamo Eliângela e sou doutoranda em Física na UFRN em Natal e sempre me interessei muito por essa discussão. Quando fazia o ensino médio ouvia minhas PROFESSORAS DE FÍSICA falar dos grandes nomes da ciência, só apareciam nomes masculinos e eu me questionava: e as mulheres? Será que não se interessavam por ciência? Talvez a única a ser mencionada fosse Marie Curie… Enfim mesmo tendo aula com mulheres não me recordo de nenhuma ter se dado ao trabalho de falar sobre a carreira cientifica o que talvez tenha sido a minha motivação para ingressar nessa área. Ainda na graduação em Física, eu questionava como os professores e colegas sobre o que as “Joanas D’Arc” da ciência poderiam ter feito… Mas as respostas eram na maioria das vezes comentários machistas do tipo “mulher nessa época não sabia o que era isso!”. Percebi que mesmo minhas colegas mulheres não tinham interesse em saber se realmente a ala feminina nunca produziu nada em ciência, mais especificamente em Física. Foi então que eu mesma tomei a iniciativa e num evento interno da universidade apresentei um pôster com algumas mulheres que enfrentaram preconceitos e obtiveram êxito em sua escolha. Na ocasião eu propus que esses nomes fossem lembrados em nossas aulas de física básica para que alunas, futuras cientistas, se sintam motivadas a ingressar na área. Alguns professores acharam o trabalho interessante vi que nem mesmo eles sabiam da existência de algumas daquelas mulheres.
    Bom, contei essa historinha porque ao final de seu post você sugere que nós Físicas façamos um trabalho e divulgação sobre essa temática, lembrei-me desse episódio de minha vida e acho válida a iniciativa. Espero que outras Físicas como eu também se sintam tocadas e vistam a camisa.

  1. terça-feira, 16 ago 2011; \33\UTC\UTC\k 33 às 15:07:13 EST

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: