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Cotas para universidades públicas federais e ensino médio brasileiro

domingo, 19 ago 2012; \33\America/New_York\America/New_York\k 33 21 comentários

Eu queria chamar atenção para diversas coisas que tem acontecido recentemente:

  1. PLC 180/2008 (Senado) e PL 73/1999 (Câmara)
  2. Resultados do Ideb 2011 (INEP/MEC)
  3. Desempenho de cotistas fica acima da média (Estadão)
  4. MEC quer aulas de reforço para cotistas em universidades federais (O Globo)
  5. [link extra, não comentado abaixo, mas relevante: MEC vai propôr a fusão de disciplinas do Ensino Médio (Folha de São Paulo)]

Todos eles são diretamente sobre a atual situação e mudanças no ensino público brasileiro. Eu vou fazer um passeio por cada um deles, na ordem acima, tentando mostrar o absurdo que está sendo desenhado e a falta de esperança que isso me dá no futuro do nosso país.

Os primeiros artigos se referem à aprovação pelo Senado Brasileiro de um Projeto de Lei da Câmara proposto em 1999, de autoria da Sra. Nice Lobão, que reserva 50% das vagas em universidade pública federais para alunos que estudaram o ensino médio integralmente em escola pública.

Eu não sou contra medidas afirmativas. Mas, ensino superior não é escola. Escola é até o ensino médio. Curso superior é para formar profissionais de alto nível e é um investimento que, pelo menos em princípio, é caro demais para ser feito errado. O que se vê no Brasil é uma inversão dessa idéia: muita gente vai para universidade só pelo diploma e a grande maioria das pessoas que se forma terminam trabalhando em empregos que não necessitam a formação que receberam. Além disso, o investimento é muito aquém do que eu considero necessário. Então já estamos começando errado.

Ser educado é uma necessidade do cidadão. Eu realmente acredito que uma pessoa só exerce plenamente sua cidadania se for educado. Por outro lado, ser um físico especialista em AdS/CFT, um engenheiro projetista de pontas em concreto protendido ou um neuro-cirurgião é não necessidade para ninguém exercer cidadania. É, contudo, uma necessidade ao país que haja pessoas especializadas nessas áreas e é bom que essas pessoas sejam boas no que fazem, já que esse tipo de atividade costuma ser de alto nível técnico.

Logo, o dinheiro investido numa universidade deve ser investido naquelas pessoas que mostrem motivação e aptidão para serem treinadas nessas atividades. De outra forma, seria jogar dinheiro e tempo das pessoas fora. Mais do que isso, seria correr o risco de não ter profissionais de alto nível técnico no país – e é isso que acontece. Medidas afirmativas no nível superior não servem para criar justiça social. É loucura fazer isso nesse nível. Medidas afirmativas no nível superior servem para consertar casos isolados de pessoas que são realmente muito boas e que de outra forma teriam o talento para essas profissões altamente especializadas desperdiçado.

O que eu quero dizer é que medidas afirmativas no ensino superior não é para servir à pessoa, mas para servir à sociedade. E, me desculpa, precisa ser muito ingênuo ou mal intencionado para achar que colocar 50% das vagas em medidas afirmativas vai ajudar a sociedade de qualquer forma. E eu vou defender o porquê estou falando isso.

Vamos olhar então o segundo link. Ele tem os dados do Ideb, que é uma avaliação do ensino básico (fundamental e médio) brasileiros que é feito desde 1997. A avaliação leva em conta duas coisas: o resultado de provas padrões aplicadas aos alunos no final do 5o ano (antiga 4a série), 9o ano (antiga 8a série) e 3o ano do ensino médio e o nível de abandono e reprovação nas escolas. A página é bem detalhada e você pode gastar bastante tempo olhando os resultados por estado, por município e até por escola! Os resultados também são separados por escolas públicas e particulares, o que serve bem o meu propósito aqui.

A nota é definida da seguinte forma: o resultado da prova padrão é normalizado entre (\mu - 3\sigma, \mu + 3\sigma) onde \mu e \sigma são a média e o desvio padrão das notas dos alunos em 1997. Além disso, cada período escolar avaliado recebe um peso dado por 1/(\sum_k 1/p_k) onde p_k é a taxa de aprovação e a soma k é sobre as séries avaliadas em cada colégio, algo que avalia o tempo médio para um aluno passar de série. O método é interessante mas não permite uma avaliação absoluta do ensino brasileiro, apenas relativa aos anos anteriores. O INEP diz que uma nota 6 seria equivalente à educação em países desenvolvidos, mas eu não faço idéia do que isso significa.

Bem, duas coisas são óbvias dos resultados. Primeiro, desde o início dessa avaliação, os resultados estão estagnados. E aqui eu acho que a desculpa de que educação é um investimento a longo prazo não se aplica mais – 14 anos já é muito tempo! Segundo, o nível das escolas públicas continua sendo por volta de 1.5 pontos abaixo da média, enquanto das escolas particulares em torno de 1 acima. O que é mais triste é que estamos, usando essa estatística descrita acima, 1.3 pontos abaixo do que estávamos em 1997! Ou seja, não só a comparação entre escolas públicas e particulares não mudou, mas na média a educação brasileira piorou.

Dados são sempre muito bem vindos, mas eu realmente não precisava dessa página para saber que o ensino médio público brasileiro é muito ruim. Ou seja, quando você coloca 50% das vagas nas universidades reservadas para essas pessoas, o que você está fazendo é diminuindo o nível das pessoas que entram. É muita vaga, não tem como qualquer pessoa argumentar que as universidades estariam pegando apenas a cauda da distribuição. Mas isso não impede as pessoas de tentarem fazer essa argumentação falaciosa, claro. E isso nos leva ao terceiro artigo.

O jornal O Globo mostra o resultado de políticas de cotas similares que já foram aplicadas em algumas universidades brasileiras e eles tentam argumentar que a nota e nível de desistência dos alunos cotistas é melhor que dos não-cotistas. O argumento é falacioso por várias razões, vamos listar alguns deles:

  • No vestibular, poucos cursos são muito concorridos. A maioria é pouco concorrido e a qualidade média dos alunos que entram já é, mesmo sem medidas afirmativas, muito baixa. Nesses cursos, não faz diferença o tipo de cota proposta para a qualidade dos alunos. Contudo, é injusto tirar a média de cursos muito concorridos, onde a qualidade é boa, com esses cursos. Tudo que você faz é apagar a evidência dos casos problemáticos na média.
  • Desistência de universidade não mede quase nada. O tempo de jubilamento, mesmo por reprovação, costuma ser gigantesco. Não há pressão para desistência de ninguém na universidade. Além disso muitos cotistas recebem auxílio financeiro, o que desfavorece qualquer intenção de desistência.
  • Também posso dizer por experiência de ter vivido numa dessas universidades que adotaram bem cedo um sistema exagerado de cotas que vários cursos tiveram que criar matérias introdutórias para suprir as deficiências dos alunos. Com esse tipo de supletivo fora do lugar é que realmente não há razão para que as notas sejam menores. Não é, pois, em desempenho durante o curso que vai se ver a besteira que está a ser feita. Mas sim na qualidade do profissional que se forma porque, se tempo é usado para revisar matéria do ensino médio, então o conteúdo profissional vai ser prejudicado, seja espremendo-o em cursos mal dados ou mesmo suprimindo-o.
  • E, por fim, convenhamos, vários cursos de início de faculdade não exigem um conhecimento direto do ensino médio. O problema, de novo, não pode ser visto na média pois só surgem naqueles outros que exigem. O artigo mesmo diz que a maior discrepância entre cotistas e não-cotistas aparece nas matérias de matemática e não é difícil entender porque. Novamente, tudo que está sendo feito é esconder o problema em grandes médias.

Mesmo se você ignorar todos os pontos acima, só quem nunca entrou numa sala de aula diria que a diferença observada é significativa. A diferença é muito menor que a variância das notas em qualquer um dos grupos de alunos e eu nem preciso olhar para os dados para ter certeza disso.

O penúltimo ponto acima é, de longe, o mais preocupante. Se as universidades realmente forçassem os alunos com deficiência a se nivelarem sem gastar o tempo que deveria ser dedicado a aprender o conteúdo de ensino superior ou a abandonarem, eu não estaria tão preocupado. Mas não é isso que vai ser feito, como pode ser visto na declaração do MEC reportado pelo último link acima. O MEC declara, com todas as letras, que vai querer que as universidades dêem cursos de ensino médio para suprir as falhas de formação dessas pessoas que entrarão na universidade sem condições.

Eu fico chateado com essas cadeia de eventos que vejo sendo formada na minha frente. Fico desgostoso e pessimista com o futuro da educação brasileira. Eu nunca achei que educação privada faça qualquer sentido. Para mim, educação deveria ser exclusivamente pública pois, como defendi acima, é algo que todo cidadão deve ter para exercer seu papel na sociedade plenamente. Contudo, dada a situação do Brasil, é triste o caso em que a única opção de um aluno seja estudar em escola pública e mais triste ainda quando a única opção de um profissional da licenciatura seja dar aula nesses colégios.

Um país onde os professores de ensino médio público ganham, em fim de carreira, R$2,800.00 (veja aqui) enquanto juízes ganham de R$40,000.00 a R$150,000.00 (veja aqui) está errado em suas bases.

Tem mais é que parar de trabalhar mesmo…

Categorias:Ars Physica
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