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Cotas para universidades públicas federais e ensino médio brasileiro

domingo, 19 ago 2012; \33\UTC\UTC\k 33 Deixe um comentário Go to comments

Eu queria chamar atenção para diversas coisas que tem acontecido recentemente:

  1. PLC 180/2008 (Senado) e PL 73/1999 (Câmara)
  2. Resultados do Ideb 2011 (INEP/MEC)
  3. Desempenho de cotistas fica acima da média (Estadão)
  4. MEC quer aulas de reforço para cotistas em universidades federais (O Globo)
  5. [link extra, não comentado abaixo, mas relevante: MEC vai propôr a fusão de disciplinas do Ensino Médio (Folha de São Paulo)]

Todos eles são diretamente sobre a atual situação e mudanças no ensino público brasileiro. Eu vou fazer um passeio por cada um deles, na ordem acima, tentando mostrar o absurdo que está sendo desenhado e a falta de esperança que isso me dá no futuro do nosso país.

Os primeiros artigos se referem à aprovação pelo Senado Brasileiro de um Projeto de Lei da Câmara proposto em 1999, de autoria da Sra. Nice Lobão, que reserva 50% das vagas em universidade pública federais para alunos que estudaram o ensino médio integralmente em escola pública.

Eu não sou contra medidas afirmativas. Mas, ensino superior não é escola. Escola é até o ensino médio. Curso superior é para formar profissionais de alto nível e é um investimento que, pelo menos em princípio, é caro demais para ser feito errado. O que se vê no Brasil é uma inversão dessa idéia: muita gente vai para universidade só pelo diploma e a grande maioria das pessoas que se forma terminam trabalhando em empregos que não necessitam a formação que receberam. Além disso, o investimento é muito aquém do que eu considero necessário. Então já estamos começando errado.

Ser educado é uma necessidade do cidadão. Eu realmente acredito que uma pessoa só exerce plenamente sua cidadania se for educado. Por outro lado, ser um físico especialista em AdS/CFT, um engenheiro projetista de pontas em concreto protendido ou um neuro-cirurgião é não necessidade para ninguém exercer cidadania. É, contudo, uma necessidade ao país que haja pessoas especializadas nessas áreas e é bom que essas pessoas sejam boas no que fazem, já que esse tipo de atividade costuma ser de alto nível técnico.

Logo, o dinheiro investido numa universidade deve ser investido naquelas pessoas que mostrem motivação e aptidão para serem treinadas nessas atividades. De outra forma, seria jogar dinheiro e tempo das pessoas fora. Mais do que isso, seria correr o risco de não ter profissionais de alto nível técnico no país – e é isso que acontece. Medidas afirmativas no nível superior não servem para criar justiça social. É loucura fazer isso nesse nível. Medidas afirmativas no nível superior servem para consertar casos isolados de pessoas que são realmente muito boas e que de outra forma teriam o talento para essas profissões altamente especializadas desperdiçado.

O que eu quero dizer é que medidas afirmativas no ensino superior não é para servir à pessoa, mas para servir à sociedade. E, me desculpa, precisa ser muito ingênuo ou mal intencionado para achar que colocar 50% das vagas em medidas afirmativas vai ajudar a sociedade de qualquer forma. E eu vou defender o porquê estou falando isso.

Vamos olhar então o segundo link. Ele tem os dados do Ideb, que é uma avaliação do ensino básico (fundamental e médio) brasileiros que é feito desde 1997. A avaliação leva em conta duas coisas: o resultado de provas padrões aplicadas aos alunos no final do 5o ano (antiga 4a série), 9o ano (antiga 8a série) e 3o ano do ensino médio e o nível de abandono e reprovação nas escolas. A página é bem detalhada e você pode gastar bastante tempo olhando os resultados por estado, por município e até por escola! Os resultados também são separados por escolas públicas e particulares, o que serve bem o meu propósito aqui.

A nota é definida da seguinte forma: o resultado da prova padrão é normalizado entre (\mu - 3\sigma, \mu + 3\sigma) onde \mu e \sigma são a média e o desvio padrão das notas dos alunos em 1997. Além disso, cada período escolar avaliado recebe um peso dado por 1/(\sum_k 1/p_k) onde p_k é a taxa de aprovação e a soma k é sobre as séries avaliadas em cada colégio, algo que avalia o tempo médio para um aluno passar de série. O método é interessante mas não permite uma avaliação absoluta do ensino brasileiro, apenas relativa aos anos anteriores. O INEP diz que uma nota 6 seria equivalente à educação em países desenvolvidos, mas eu não faço idéia do que isso significa.

Bem, duas coisas são óbvias dos resultados. Primeiro, desde o início dessa avaliação, os resultados estão estagnados. E aqui eu acho que a desculpa de que educação é um investimento a longo prazo não se aplica mais – 14 anos já é muito tempo! Segundo, o nível das escolas públicas continua sendo por volta de 1.5 pontos abaixo da média, enquanto das escolas particulares em torno de 1 acima. O que é mais triste é que estamos, usando essa estatística descrita acima, 1.3 pontos abaixo do que estávamos em 1997! Ou seja, não só a comparação entre escolas públicas e particulares não mudou, mas na média a educação brasileira piorou.

Dados são sempre muito bem vindos, mas eu realmente não precisava dessa página para saber que o ensino médio público brasileiro é muito ruim. Ou seja, quando você coloca 50% das vagas nas universidades reservadas para essas pessoas, o que você está fazendo é diminuindo o nível das pessoas que entram. É muita vaga, não tem como qualquer pessoa argumentar que as universidades estariam pegando apenas a cauda da distribuição. Mas isso não impede as pessoas de tentarem fazer essa argumentação falaciosa, claro. E isso nos leva ao terceiro artigo.

O jornal O Globo mostra o resultado de políticas de cotas similares que já foram aplicadas em algumas universidades brasileiras e eles tentam argumentar que a nota e nível de desistência dos alunos cotistas é melhor que dos não-cotistas. O argumento é falacioso por várias razões, vamos listar alguns deles:

  • No vestibular, poucos cursos são muito concorridos. A maioria é pouco concorrido e a qualidade média dos alunos que entram já é, mesmo sem medidas afirmativas, muito baixa. Nesses cursos, não faz diferença o tipo de cota proposta para a qualidade dos alunos. Contudo, é injusto tirar a média de cursos muito concorridos, onde a qualidade é boa, com esses cursos. Tudo que você faz é apagar a evidência dos casos problemáticos na média.
  • Desistência de universidade não mede quase nada. O tempo de jubilamento, mesmo por reprovação, costuma ser gigantesco. Não há pressão para desistência de ninguém na universidade. Além disso muitos cotistas recebem auxílio financeiro, o que desfavorece qualquer intenção de desistência.
  • Também posso dizer por experiência de ter vivido numa dessas universidades que adotaram bem cedo um sistema exagerado de cotas que vários cursos tiveram que criar matérias introdutórias para suprir as deficiências dos alunos. Com esse tipo de supletivo fora do lugar é que realmente não há razão para que as notas sejam menores. Não é, pois, em desempenho durante o curso que vai se ver a besteira que está a ser feita. Mas sim na qualidade do profissional que se forma porque, se tempo é usado para revisar matéria do ensino médio, então o conteúdo profissional vai ser prejudicado, seja espremendo-o em cursos mal dados ou mesmo suprimindo-o.
  • E, por fim, convenhamos, vários cursos de início de faculdade não exigem um conhecimento direto do ensino médio. O problema, de novo, não pode ser visto na média pois só surgem naqueles outros que exigem. O artigo mesmo diz que a maior discrepância entre cotistas e não-cotistas aparece nas matérias de matemática e não é difícil entender porque. Novamente, tudo que está sendo feito é esconder o problema em grandes médias.

Mesmo se você ignorar todos os pontos acima, só quem nunca entrou numa sala de aula diria que a diferença observada é significativa. A diferença é muito menor que a variância das notas em qualquer um dos grupos de alunos e eu nem preciso olhar para os dados para ter certeza disso.

O penúltimo ponto acima é, de longe, o mais preocupante. Se as universidades realmente forçassem os alunos com deficiência a se nivelarem sem gastar o tempo que deveria ser dedicado a aprender o conteúdo de ensino superior ou a abandonarem, eu não estaria tão preocupado. Mas não é isso que vai ser feito, como pode ser visto na declaração do MEC reportado pelo último link acima. O MEC declara, com todas as letras, que vai querer que as universidades dêem cursos de ensino médio para suprir as falhas de formação dessas pessoas que entrarão na universidade sem condições.

Eu fico chateado com essas cadeia de eventos que vejo sendo formada na minha frente. Fico desgostoso e pessimista com o futuro da educação brasileira. Eu nunca achei que educação privada faça qualquer sentido. Para mim, educação deveria ser exclusivamente pública pois, como defendi acima, é algo que todo cidadão deve ter para exercer seu papel na sociedade plenamente. Contudo, dada a situação do Brasil, é triste o caso em que a única opção de um aluno seja estudar em escola pública e mais triste ainda quando a única opção de um profissional da licenciatura seja dar aula nesses colégios.

Um país onde os professores de ensino médio público ganham, em fim de carreira, R$2,800.00 (veja aqui) enquanto juízes ganham de R$40,000.00 a R$150,000.00 (veja aqui) está errado em suas bases.

Tem mais é que parar de trabalhar mesmo…

Categorias:Ars Physica
  1. domingo, 19 ago 2012; \33\UTC\UTC\k 33 às 19:21:26 EST

    Deixe-me discordar. A cota de 50% não deve alterar substancialmente a situação atual do ensino superior no que se refere à qualidade. HOJE cerca de 45% do corpo discente (de 900 mil alunos) das IFES já são oriundos do ensino médio público [1].

    São 7,1 milhões de matriculados nos três anos do EM na rede pública. [2] O que daria, grosso modo, cerca de 2,4 milhões de alunos no 3o ano do EM.

    Cada IFES tem em média, cerca de 15 mil alunos. Considerando-se uma média de 4 anos de curso, isso corresponde a uma renovação de cerca de 4 mil alunos por IFES. São, então, cerca de 240 mil vagas no total. 50% corresponderiam a umas 120 mil vagas.

    Essas 120 mil vagas correspondem a cerca de 5% dos estudantes formados no ensino público. Isso dá uma boa filtrada: pega os alunos com pelo menos 1,5 DP acima da média.

    [1] https://conteudoclippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/8/10/ensino-publico-manda-45-dos-alunos-as-universidades-federais
    [2] http://www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2010/12/20/brasil-registra-42-9-milhoes-de-matriculas-na-rede-publica-diz-censo-escolar
    ———–

    []s,

    Roberto Takata

    • domingo, 19 ago 2012; \33\UTC\UTC\k 33 às 19:32:58 EST

      Olá Roberto,

      Obrigado pelo comentário e pelos links. Contudo, eu acho que os links cometem a mesma falácia sobre a qual argumentei acima. A de esconder o problema em médias. Eu tenho certeza que na maioria dos cursos nada vai mudar… a qualidade do ensino médio brasileiro é ruim mesmo. Eu tenho medo do que vai acontecer naqueles cursos em que isso não é verdade, nos cursos onde se formam os melhores profissionais de alto nível técnico do Brasil. Eu duvido (e não há nada nos seus links que diga a favor ou contra) que nesses cursos esses números correspondam à verdade.

      Abraços,

      Rafael.

      • domingo, 19 ago 2012; \33\UTC\UTC\k 33 às 19:52:15 EST

        Na UFBA, cotistas tiveram desempenho superior em:
        Biologia, Ciência da Computação, Ciências Sociais, Jornalismo, Produção Cultural, Decoração, Direito, Enfermagem, Engenharia de Minas, Engenharia Civil, Estatística, Farmácia, Filosofia, Fonoaudiologia, Geologia, História, Inglês, Letras Vernáculas, Desenho e Plástica, Educação Física, Licenciatura em Ciências, Medicina, Museologia, Música, Pedagogia, Química Secretariado,

        “Em 11 dos 18 cursos de maior concorrência, ou seja 61 %, os cotistas obtiveramcoeficiente de rendimento igual ou melhor que os não-cotistas, como mostra a tabelaabaixo:”
        http://www.ifcs.ufrj.br/~observa/relatorios/DesempenhoCotistasUFBA.pdf
        ————-

        Já são uns 10 anos de políticas de ações afirmativas, incluindo cotas, no acesso às universidades. O resultado geral não produziu nenhum desastre. Isso tem que ser levado em conta.

        Adendo, o texto lá do Estadão sobre desempenho dos cotistas comete um erro: na Unicamp o sistema é de bonificação no vestibular, não cotas.

        []s,

        Roberto Takata

    • domingo, 19 ago 2012; \33\UTC\UTC\k 33 às 22:55:51 EST

      Roberto,

      o primeiro ponto levantado, dos 45%, como o Rafael disse, esconde tudo em médias. Em algumas universidades deve ser muito superior e outras (como a UNIFESP ou a UFSCAR), bem inferior; e, ainda nessas, as diferenças de curso para curso devem ser gritantes.

      O segundo argumento, o dos 5%, supõe que todos os melhores alunos do ensino público serão cotistas de uma universidade federal, o que é ingênuo; existem as estaduais e excelentes particulares que fornecem bolsas, além do PROUNI.

      O exemplo da UnB reforça o argumento do Rafael: alunos de cursos de ciências, que exigem matemática em particular, apresentam sistematicamente diferenças provenientes em diferenças na base de formação. Matemática exige compreensão continuada de uma larga base de conhecimentos do ensino fundamental e médio, enquanto disciplinas de humanas, na maior parte, não possuem vínculos tão fortes com as matérias do ensino médio.

      O estudo da UFBA não revela quantos alunos já ingressavam do ensino público antes da adoção (ao menos eu não achei), o que torna comparações difíceis de serem feitas.

      Os estudos de raça sofrem de um grande mal: a diferença no espaço amostral (quantidades de negros e brancos) e sua relação com o desempenho do aluno. Não preciso citar o paradoxo de Simpson para lembrar que esse tipo de análise é complicada e comparar média com média, somando e dividindo pelo número, é no mínimo ignorar metade do estudo necessário.

      Em minha opinião pessoal, não queria ser eu o responsável por dizer a um garoto pobre de 17 anos que a vaga, por mais que tenha estudado, não será dele por sua cor de pele.

  2. domingo, 19 ago 2012; \33\UTC\UTC\k 33 às 19:41:14 EST

    Lopes,

    Que tal em um curso de Estatística?
    http://m.g1.globo.com/brasil/noticia/2012/08/uerj-criou-estrategias-para-incluir-cotistas.html
    ————-

    []s,

    Roberto Takata

    • domingo, 19 ago 2012; \33\UTC\UTC\k 33 às 19:48:49 EST

      O que a argumentação do link tem de diferente do que eu argumentei no meu texto?

      • domingo, 19 ago 2012; \33\UTC\UTC\k 33 às 20:00:08 EST

        Ué, tem que em um curso de *Estatística* os cotistas tiveram um bom desempenho. Até um pouco superior ao dos não-cotistas.

        []s,

        Roberto Takata

  3. domingo, 19 ago 2012; \33\UTC\UTC\k 33 às 20:09:36 EST

    Aqui avaliação dos cotistas na UnB:
    http://www.scielo.br/pdf/cp/v39n137/v39n137a14.pdf
    ————

    []s,

    Roberto Takata

  4. domingo, 19 ago 2012; \33\UTC\UTC\k 33 às 21:56:19 EST

    Teoricamente, pode ser que o resultado da adoção de cotas seja um sucesso absoluto para as universidades que as adotaram (notas mais altas, melhor desempenho de todos, etc.) e *ainda assim* o resultado social seja “desastroso”.

    Por exemplo se a qualidade da educação básica piorar, os alunos que não entrarem nessas universidades bem-sucedidas estarão em pior situação (do que agora, por exemplo). O resultado social de uma ação deve levar em conta não só os beneficiados com ela, mas os que deixam de se beneficiar. Se eu entendi direito, é um dos problemas com as cotas (http://www.valor.com.br/brasil/2783826/ensino-publico-manda-45-dos-alunos-universidades-federais): ela não vai mudar muito a distribuição atual da origem dos alunos (rede pública ou privada), mas vai alterar o recorte ‘étnico’ dentro dos alunos oriundos da pública. Ou seja, vai trocar um pobre por outro, usando agora um critério racialista.

    Não duvido que as cotas possam ter efeitos positivos, principalmente a curto prazo. O problema é que finge-se que não existem outras soluções — a óbvia sendo melhorar o ensino básico, outra sendo mudar o vestibular. E assim nos acostumamos a uma “política baseada em evidência” que consiste em mostrar um benefício da política comparado à sua ausência, sem nunca olhar para os seus custos externos ou compará-la com outras políticas competidoras.

    Só um outro comentário: eu tenho a impressão que esse estudo sobre o desempenho de cotistas citado no texto possui uma versão mais recente (http://www1.folha.uol.com.br/saber/1082887-alunos-com-bonus-por-raca-repetem-mais-na-unicamp.shtml). Ou é outro estudo? Eu coletei alguns artigos sobre o assunto aqui: http://leomrtns.blogspot.com.es/2012/08/cotas-aprovadas-problema-resolvido.html

  5. segunda-feira, 20 ago 2012; \34\UTC\UTC\k 34 às 08:53:51 EST

    Eu queria agradecer ao Roberto, Ricardo e Leonardo pelos links extras e pelos comentários. Todos eles são muito interessantes e acho que a discussão ficou mais rica com os pontos levantados.

  6. segunda-feira, 20 ago 2012; \34\UTC\UTC\k 34 às 11:06:32 EST

    Martins: “O problema é que finge-se que não existem outras soluções — a óbvia sendo melhorar o ensino básico, outra sendo mudar o vestibular.”

    Não há esse problema. Cotas e políticas de ações afirmativas *não* são apresentadas como soluções.
    “A OIT assim define ações afirmativas:
    ‘pacote coerente de medidas, de caráter temporário, objetivando especificamente a correção da posição de membros de um grupo-alvo em um ou mais aspectos de suas vidas sociais, de modo a se obter eqüidade efetiva’

    Destacam-se:
    – o caráter *temporário* (até que o efeito esperado se complete);
    – o objetivo é de inserção social dos membros do grupo atingido – não estão voltadas para combater o preconceito e sim a discriminação;
    – como dito no tópico sobre a definição de discriminação, ações afirmativas *não* são discriminatórias – elas procuram *incluir* membros de um grupo excluído e não excluir membros de um grupo.”
    http://neveraskedquestions.blogspot.com.br/2008/05/space-quota-exceeded.html
    ————

    Todos os que defendem AAs, em geral, e cotas, em particular, defendem a melhoria do ensino básico. Não são alternativas excludentes.

    []s,

    Roberto Takata

    • segunda-feira, 20 ago 2012; \34\UTC\UTC\k 34 às 13:12:33 EST

      Eu acho que é ingenuidade política acreditar que, depois de implementada, medida tão populista vai ser desfeita. Seria suicídio político para qualquer pessoa que tentar. Eu entendo que medidas afirmativas devem ser temporárias. Na prática, eu não vejo isso acontecendo no Brasil.

      • Raphael
        terça-feira, 21 ago 2012; \34\UTC\UTC\k 34 às 19:20:44 EST

        @Rafael
        Nao e ainda mais ingenuidade politica acreditar que vai haver alguma grande reforma no sistema educacional brasileiro nos proximos 10-20 anos? O que te leva a crer que a inexistencia de cotas vai acelerar alguma medida/projeto de longo prazo que vise solucionar os verdadeiros problemas da educacao publica? Como o Roberto disse acima as alternativas nao sao excludentes.

        Se na pratica as medidas afirmativas nao sao temporarias no Brasil, esse e um problema que tem de ser resolvido, mas nao deveria ser argumento pra eliminacao completa das mesmas. Se a aniquilacao de medidas alternativas favorecesse um debate maior sobre os problemas sistematicos do pais e acelerasse a solucao de tais, a discussao seria plausivel, mas a historia antiga e recente do Brasil mostra o contrario.

        E a universidade publica nao vai comecar a formar profissionais de baixa qualidade a partir de agora. Ela ja forma a tempos. A experiencia limitada que tenho ao ver amigos engenheiros e medicos que vieram de universidades publicas e a de que a decisao de ser um bom profissional e pessoal, mesmo porque, como ja disseram o tempo maximo para formatura e muito alto e o jubilamento requer esforco. Apontar as cotas como uma futura causa para ma formacao de profissionais no Brasil e simplificar um problema que vai muito alem disso e que ja existe e e preocupante (vejam os resultados das provas da OAB e do CRM de Sao Paulo).

  7. Harald Stricker
    terça-feira, 21 ago 2012; \34\UTC\UTC\k 34 às 09:50:16 EST

    Eu nasci num mundo onde o mérito era uma coisa importantíssima.

    Mas acho que pulei de universo enquanto dormia porque a suprema instância jurídica deste país me disse que mérito é uma qualidade ignorável para o ambiente acadêmico que tem outras preocupações para com seus novos estudantes…

    Acho que o post não menciona essa proparoxítona, mas eu quis ressucitá-la mesmo assim. Parece que deixamos de falar português. Falamos a Novilíngua de “1984” onde palavras mal quistas pelo governo desapareciam.

  8. Harald Stricker
    terça-feira, 21 ago 2012; \34\UTC\UTC\k 34 às 09:52:23 EST

    “Ressuscitá-la”. Perdão.

  9. quarta-feira, 22 ago 2012; \34\UTC\UTC\k 34 às 14:28:40 EST

    Só para alimentar um pouco a discussão: na UFABC, onde eu leciono desde o começo de 2011, todas as iniciativas elencadas acima para o ensino superior já vem sido implementadas há algum tempo, a saber: (1) 50% das vagas reservadas para alunos que fizeram o ensino médio em escolas públicas; (2) cotas para minorias étnicas; (3) ministração de disciplinas de reforço em nível de ensino médio no primeiro ano.

    Antes de entrar em detalhes, ressalto uma particularidade da UFABC que demanda um certo cuidado ao se transplantar conclusões de seu modelo para o âmbito nacional. Seus bacharelados de ingresso são todos interdisciplinares, sendo que a especialização (engenharias, física, etc.) é escolhida depois, tal como nas universidades americanas.

    Reservo meus comentários para o ponto (3), posto que os pontos (1) e (2) tem sido discutidos à exaustão. A iniciativa (3) na UFABC não caiu do céu, mas veio em virtude da necessidade (previsível) de lidar com as deficiências de formação de boa parte dos ingressos. Acho que nenhuma pessoa sensata acredita que deveria ser o papel da Universidade sanar essas deficiências, mas o ponto é que o problema está aí – esses alunos chegam para nós e temos que lidar com esse problema rapidamente, porque tais deficiências são cumulativas e acabam por acarretar, por exemplo, em altas taxas de evasão. Não sei dizer se a iniciativa (3) da maneira como vem sido implementada na UFABC tem sido eficaz contra esse problema – faltam-me dados para fazer tal afirmação – mas, por outro lado, disciplinas de reforço como “Bases Matemáticas” e “Bases Computacionais” não tem este como único objetivo. Por exemplo, mesmo em escolas particulares normalmente os alunos não aprendem o que é um teorema, o que é uma demonstração matemática, ou como se dá o raciocínio matemático mais formal, o que se reflete em deficiências menos óbvias mas muito mais frequentes quando os alunos vão cursar mesmo disciplinas obrigatórias de caráter prático mas que exigem um grau um pouco maior de abstração, como Probabilidade. A disciplina de “Bases Matemáticas” busca também preencher essas lacunas.

    Poder-se-ia argumentar que esses pontos deveriam também ser abordados no ensino médio, mas isso envolve também uma discussão mais ampla sobre a grade curricular das escolas brasileiras, públicas _e_ privadas.

  10. Sara Ribeiro
    sexta-feira, 31 ago 2012; \35\UTC\UTC\k 35 às 18:47:45 EST

    Eu acabei de me mudar para escola particular por causa do vestibular. E de repente ficou mais lucrativo fica na escola pública mesmo. Acho um absurdo as faculdades serem obrigadas a suprir as deficiências dos alunos.
    Na minha cidade, na UFSJ, os professores do curso de Jornalismo estavam discutindo sobre malhação (sim, ”aquela” novela) porque os alunos nao estavam conseguindo discutir assuntos mais ”avançados”.
    Enfim, é isso que está acontecendo aqui. E acredito que agora terei que estudar triplicado pra conseguir passar no vestibular.

  11. geanderson
    sábado, 29 set 2012; \39\UTC\UTC\k 39 às 20:05:03 EST

    Prefiro deixar de lado os dados, tabelas e médias, e olhar um pouco para o que acontece na minha universidade. Curso licenciatura em física e percebo que os alunos com melhor base em física e matemática são oriundos de escola pública, e a desistência no curso por incompetência foi maior com alunos das escolas particulares. Não quero aqui dizer que o ensino público é bom, por que sim é muito ruim, mas o seu argumento de que tudo vai piorar no futuro porque teremos mais alunos de escola pública nas universidades também é falacioso.

  12. Bruno
    sábado, 9 mar 2013; \10\UTC\UTC\k 10 às 18:50:03 EST

    Oi.
    Então…. já comecei a ouvir comentários entre os professores sobre cotas para os concursos públicos no Brasil…. confesso que fiquei triste com a notícia… Além disso, acredito que a ideia do programa Ciência Sem Fronteiras é justamente esta: quem quiser educação de qualidade vá para o exterior – já que estão dando bolsas para isso – porque por aqui no Brasil a ideia é justamente piorar o ensino. Com esse programa, os filhos das elites já têm onde estudar agora; os filhos dos ricos vão para o exterior. Com isso, as elites não vão contrariar o governo nesse ideal de piorar a educação… A ideia de piorar o ensino é formar mão de obra abundante e barata… A ideia das cotas é dar empregos para a parcela mais pobre da sociedade, porque com emprego e salário a pessoa consegue se desvencilhar das barreiras sociais. A cota de 50% não me incomoda muito, porque em números absolutos, o número de vagas no ensino superior aumentou, então embora haja 50% de vagas para cotas, não se está tirando vaga de quem se preparou mais… O que me incomoda mesmo é saber que não há qualquer pressão para que o professor dê uma aula com qualidade. O importante é ele entregar as notas na secretaria no dia certo e não reprovar muita gente. Mais absurdo ainda é saber que os salários dos professores – e incluo os federais – nem sempre vêm corretos. Ou seja, a ilegalidade anda solta… É muito interessante a ideia de criar cursos introdutórios no começo do curso para nivelar os alunos (cotistas ou não; tanto faz). O problema é que o professor terá que dedicar seu tempo a essa atividade, o que de fato tirará seu tempo para as atividades de pequisa e extensão. Então, a sociedade precisa responder o que prefere: ela quer professores mais dedicados ao ensino, tendo que nivelar os alunos, ou quer melhorar a pesquisa no país?
    Muito oportuno o texto do Rafael; realmente “ensino superior não é escola”…

  13. sexta-feira, 29 mar 2013; \13\UTC\UTC\k 13 às 15:07:22 EST

    É simples entender o ponto levantado pelo o autor.

    Eu, que passei bastante tempo na graduação, vi a física 1 (curso de engenharia) onde o pessoal se lascava por não saber derivada e integral (calculo 1 e física 1 eram cadeiras ministradas simultaneamente).

    Solução?! Introdução a Física, onde o sujeito “aprende” MRU, MCU, (aprende?! Como passou no vestibular se saber isso?! Decoreba de cursinho?!). Aí você compara as notas de um calouro do ano 2005 que tinha que aprender o princípio de Derivada por conta (antes de ter visto em cálculo) para se dar bem em Física, com um calouro de 2012 que ta aprendendo a fazer regra de 3 na faculdade?

    Antigamente tais matérias eram extras, chamadas de monitoria ou extracurriculares. Tinha que correr atrás. Hoje, realmente se perdem lá 60-360ha de um curso de exatas ensinando o cara a fazer conta de matemática de segundo grau, ou aprendendo a escrever em um curso de direito. Matérias essenciais para a boa formação profissional foram arrancadas do currículo para que essas matérias que seriam pré-requisitos (pra isso serve vestibular) fossem ministradas. Essa “infantilização” do ensino superior já está chegando nas universidades e institutos de renome do Brasil, infelizmente!

    Não vamos nos iludir com índices. Brasil é especialista em baixar a média geral para nivelar todos como iguais (e viva a “classe média” Zorra Total).

    E sim! Sou do partido que ensino superior é só pra quem fez por merecer e investiu tempo e dinheiro para se capacitar (em qualquer proporção. Afinal! Pobreza é bengala de acomodado, temos varias figuras que saíram do meio da m3rd@ pro sucesso, seja investindo tempo e/ou dinheiro. O que é preciso é investir). Não é lugar pra coitadinho que não fez por merecer e que quer curar problemas de autoestima. Se o objetivo é esse, coloca mais psicólogo no SUS que a conta fica mais barata.

    E antes que me chamem de playboy: ginásio em escola estadual (uma das mais violentas da grande Florianópolis) + ensino médio na CEFET (atual IFSC, onde entrei com muito estudo enquanto a escola estava em greve e meus “coleguinhas” soltavam pipa, iam pra praia ou ficavam jogando videogame o dia inteiro) + pais dedicados e cientes da importância da educação dos filhos e que fizeram muita hora extra pra pagar aulas particulares e cursos para compensar a defasagem do ensino público. Atualmente, Engenheiro de Computação.

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