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Archive for the ‘Economia’ Category

Notícias da Semana…

sábado, 7 abr 2012; \14\America/New_York\America/New_York\k 14 Deixe um comentário

Nos últimos 7–10 dias, muitas notícias interessantíssimas apareceram. E vale a pena dar uma olhada no que está circulando pelo mundo afora.

  1. Brazil a Great Place to do Physics … and Other Things“: Esse primeiro link é sobre programa de intercâmbio da APS, e o caso da reportagem conta sobre um aluno que saiu da Columbia University, em NY, e foi para o CBPF, no RJ. Como diz o rapaz que fez o intercâmbio, “Given that Rio was one of Richard Feynman’s favorite places, I was sure the experience would be very interesting, and I quickly became excited about it.”. 🙂
  2. Brown University forges research partnership in Brazil“: Esse segundo link é sobre a parceria que a Brown University assinou nessa semana com o IMPA (RJ). A parceria, promovida pela doação de um pai dum aluno da Brown, vai promover a colaboração em pesquisas, conferências e intercâmbios entre a Brown e o IMPA pelos próximos três anos.
  3. Open grad program allows students to pursue two fields“: Esse terceiro link é sobra um programa piloto que a Brown abriu esse ano e que poderia ser resumido como “Ciências Moleculares para a pós-graduação”. A Brown tem um currículo de graduação aberto, como o do Ciências Moleculares, desde os anos 70. E, agora, eles decidiram aplicar o mesmo princípio para a pós-graduação. A idéia é de que os alunos selecionados para participar desse experimento irão cursar seus respectivos doutoramentos, que será complementado com um mestrado em alguma outra disciplina. (A Brown permitia que seus alunos tirassem um ‘double-masters’, i.e., um duplo-mestrado até alguns anos atrás, quando essa opção foi cancelada em favor dessa nova empreitada multi- e inter-disciplinar.) E é disso que trata a reportagem, desse experimento em se ter um currículo multi- e inter-disciplinar na pós-graduação. Até onde eu conheço, essa é uma atitude completamente pioneira e que não existe em nenhuma outra escola. 😈
  4. How the Modern Physics was invented in the 17th century, part 1: The Needham Question“: Essa é a primeira parte (de um total de 3) de um blog convidado da SciAm, contando a história da Física moderna. Muito interessante.
  5. How Much Is a Professor Worth?“: Essa matéria do NYT trata do tópico de um novo livro que tenta comparar o salário de professores em diferentes países. Vale a pena ler pra ver em qual posição o Brasil se encontra, e como os diferentes países se comparam. Há muitos detalhes a serem analisados nessa questão todo… mas, de qualquer maneira, é um bom começo.
  6. Sociedade Brasileira de Física — Cortes no orçamento de ciência ameaçam futuro do Brasil“: o governo decidiu cortar o orçamento em cerca de 33% (comparado ao orçamento de 2010), entrando em rota de colisão com diversas conquistas recentes da política científica federal.
  7. Carnaval Is Over“: Seria esse o fim do milagre brasileiro? A FP faz uma lista dos vários fatores que influenciam essa questão.

Parcerias científicas internacionais, flexibilização do currículo da pós-graduação, história da Física, cortes do orçamento de ciência e tecnologia, e futuro econômico do país. Todas notícias relevantes e contemporâneas.

“E agora, José?”

Economia de Subsistência…

domingo, 21 ago 2011; \33\America/New_York\America/New_York\k 33 4 comentários

O blog Daily Infographic publicou um infográfico bastante interessante (que pode ser lido no seguinte link: What You Need to Live Off the Land): pra se manter uma economia de subsistência, vivendo-se sustentavelmente da terra, é preciso um pedaço de terra de aproximadamente 90 4.046,85642 8.093,71284 m2 (i.e., 2 acres: algo como um terreno quadrado com 89,9650646 m de lado).

Ou seja, estimando-se em 25 milhões de pessoas o número da fome de terra, estamos falando em cerca de 202.500 Km2 — isto é, aproximadamente 37% da área da França, ou cerca de 57% da área da Alemanha.

vivendo da terra

Vivendo da terra

Real e ficção na economia brasileira

quinta-feira, 2 jun 2011; \22\America/New_York\America/New_York\k 22 9 comentários

Este post apresenta opiniões sobre política econômica do autor e não necessariamente refletem as opiniões de todos os editores do blog.

Não foi com muita surpresa que eu vi essa sequência de notícias que você pode receber o fato mais importante diretamente dos títulos:

  1. DVD [no Brasil] custa mais que o triplo dos EUA
  2. iPad brasileiro é o mais caro do mundo
  3. Artigo no Financial Times vê bolha em formação no Brasil

fatos que estão também relacionados ao que eu postei sobre o fictício PIB brasileiro (comentários os quais parece que os brasileiros discordam…).

Parece vitrola quebrada, mas o elo de ligação é a tributação e a estrutura do serviço público no Brasil. A situação é tão grave que é assim: se o produto é importado, no Brasil ele é um dos mais caros do mundo por causa do excesso de tributos a importados; se o produto é nacional, ele também fica entre os mais caros do mundo, por causa do excesso de tributos internos. Eu considero a política brasileira com respeito a importações um atraso, eu vou me explicar abaixo. A tributação exagerada faz tudo ser mais caro no Brasil, onde os salários também são baixos, e o resultado vai desde um PIB surrealista — porque os serviços públicos e privados somados estão acima do preço real comparado a outros países — a anulação do poder de compra do brasileiro. No meu ver, a razão disto é que o serviço público brasileiro é muito caro, requerendo impostos que somam mais da metade de um produto no mercado. E a minha birra com isto é que o Brasil cobra para mais de 35% de imposto do PIB, acima da maioria dos países ricos, todavia oferece um serviço público de péssima qualidade.

Por quê? E qual a solução? Eu acredito que é porque o investimento do governo brasileiro não é no serviço final, é no sistema político. Por exemplo, o orçamento do Congresso Nacional e do Senado é maior que o orçamento total do MCT. Dado o orçamento total do MCT, que parte deste realmente vai para as mãos dos pesquisadores, e quanto se perde nas mãos dos diversos acessores, auxiliares, suplentes dentro do MCT e dentro das diversas secretarias e subsecretariais do serviço público? Como é possível que o Brasil tenha um investimento em educação pública (digo o número oficial do orçamento do MEC) superior ao do Canadá, mas os professores das escolas brasileiras ganham miséria? Estes últimos ganham pouco, mas ninguém do gabinete de educação das prefeituras e dos governos estaduais recebe três salários mínimos. No Brasil, os grandes salários públicos estão concentrados em certos cargos políticos e burocráticos enquanto que os serviços propriamente ditos recebem pouco investimento. Segundo os dados do IBGE deste ano, o funcionário público brasileiro em média recebe mais que o da área privada (sem incluir benefícios do setor público). Ou seja, não é que o orçamento do MEC é baixo e sim que há uma espécie de atrito financeiro no Estado brasileiro que faz com que a parcela do orçamento que é realmente investido no serviço ser baixa. E a corrupção faz parte natural disto porque o excesso de atravessadores a favorece.

A solução que ninguém gostaria de ver acontecer é começar a enxugar o estado brasileiro, diminuindo duas coisas: primeiro, acabando com o excesso de burocratas, secretários, auxiliares e tudo mais (incluindo os serviços de corregedoria e procuradoria dos próprios regularadores), e segundo, deixando serviços importantes como hospitais, planos de saúde, escolas, universidades públicas, policia e bombeiros, forças armadas, etc., mas acabando com certos excessos da participação do estado na economia, como o controle estatal de bancos e empresas (como a Petrobras e a Embraer) e acabando com leis de monopólio (como de extração de base energética). Antes que você pule da cadeira e brande de raiva “Absurdo!”, pense por que o estado brasileiro tem participação no setor privado, em primeiro lugar? Que benefício para a sociedade isso tras? Agora eu vou dar a razão de porque eu acredito que a privatização do Banco do Brasil e termino do monopólio energético iria ajudar o país: o Estado ficaria mais barato, e poderia diminuir impostos e criaria maior competição no mercado. Maior competição não vai automaticamente gerar melhor serviço mas é melhor a chance disto do que nenhuma chance. E com menos impostos, a economia cresce, os preços dos produtos ficam mais realista e o poder de compra do brasileiro aumenta. Com maior produção econonomica privada, a arrecadação do Estado não fica comprometida: você pode derrubar de 35% para 25% do PIB em imposto, mas se o PIB privado cresce, esses 25% podem representar algo mais significativo que 35% de uma economia engessada. E principalmente, com a diminuição dos burocratas, pode-se injetar o dinheiro do imposto no serviço, ao invés de deixá-lo com os secretários. Legislação que incentiva o setor privado a agir no lugar do publico localmente é outro elemento importante: leis como a Lei de Incentivo a Cultura deveriam ser emuladas para áreas como saúde, educação e ciência. Críticas de que esse sistema é ruim porque incentiva a Maria Bethânia, uma grande artista, é tolice. É como argumentar que é ruim a iniciativa privada descontar 15% de imposto de renda financiando um grande centro privado para o Miguel Nicolelis baseado no fato de que este já é um cientista bem estabelecido e com pesquisas de impacto e que no lugar disso o investimento deveria ir exclusivamente para um Centro de Estudo de Besouros da Amazônia. O incentivo privado a pesquisa reflete a própria realidade do que é ciência de interesse da sociedade ao invés do interesse de um grupo pequeno de burocratas.

OKay, chega. Por último eu quero comentar sobre a política de importação do Brasil, que eu acho absurda. A lógica parece ter sido estabelecida em algum momento da antiguidade brasileira quando alguém conseguiu convencer as pessoas que a entrada de produtos importados indiscriminada no país prejudica o mercado interno. Por que isso seria verdade? Alguém pode dizer: “porque importar diminui postos de trabalho interno”. Se uma câmera digital importada de Taiwan no Brasil custasse o mesmo que ela custa nos EUA (onde a câmera também é importada), haveria mais movimentação para a economia interna: criação de postos de trabalhos em transportadoras para levar dos portos as cidades, de gerentes de vendas e de vendedores, de técnicos da assistência técnica, de vendedores de peças, da indústria nacional fabricando acessórios, e por ai vai. Onde se criaria o emprego de assistência técnica no Brasil de novos postos de câmeras e lentes Nikon? Quem vai transportar os automóveis japoneses do porto até as concessionárias? Se o MacBook era inacessível ao brasileiro porque custava R$ 8 mil e passou ao preço norte-americano de R$1,6 mil, que mercado vai se beneficiar com a criação de novas lojas de pontos de venda de produtos da Apple, agora mais popular? A patente prova de que importação não atrapalha o mercado interno é os EUA, onde muitos produtos comercializados internamente (com excessão de alimentos, mas incluso bebidas alcóolicas) são importados. Grandes empresas estrangeiras tem hoje nos EUA o seu maior mercado (a começar pela população grande), e criam muitos postos de trabalho no país. Os únicos reais beneficiados da política tributária brasileira são alguns funcionários públicos, e exclusivamente estes.

O DOE cancela uma iniciativa massiva de treinamento…

segunda-feira, 25 abr 2011; \17\America/New_York\America/New_York\k 17 1 comentário

Quem quiser ler o original, pode encontrá-lo aqui: DOE Pulls the Plug on Massive Training Initiative (DOI: 10.1126/science.332.6026.162-a). DOE é uma abreviação, em Inglês, para “Department Of Energy”, que é o órgão americano análogo ao Ministério das Minas e Energia no Brasil. Historicamente, esse é o órgão que patrocina a pesquisa científica em Física de Partículas (pense em termos da Segunda Guerra Mundial) — no Brasil, esse papel é feito pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (através do CNPq e CAPES).

In April 2009, President Barack Obama announced an ambitious education and training initiative at the Department of Energy (DOE). Speaking to members of the U.S. National Academy of Sciences, Obama said a proposed 10-year, $1.6 billion program, dubbed “Regaining our Energy Science and Engineering Edge” (RE-ENERGYSE), would “capture the imagination of young people who can help us meet the energy challenge.”

But RE-ENERGYSE never got off the ground. Congress twice declined to fund any portion of its sprawling vision, which would have included graduate and postdoctoral fellowships, summer research projects for undergraduates, professional master’s degrees in clean energy, and associate degree programs to train a clean-energy technology workforce. In February, the White House threw in the towel, dropping the program from DOE’s 2012 budget request.

Energy Secretary Steven Chu insists that the Administration remains gung ho about attracting more students into the field of clean-energy research. But its 2012 budget request signals a major shift. Instead of RE-ENERGYSE, Chu is now touting expansion of a small graduate fellowship program that is run out of an office different from the one responsible for implementing RE-ENERGYSE.

To understand why RE-ENERGYSE never got off the ground, it helps to understand DOE’s checkered history in science education. Although some previous Administrations tried to carve out a larger role for DOE in this arena, Congress has traditionally seen education as a secondary mission for a department that already has major responsibilities for science, energy, national security, and environmental cleanup. So the broad scope of RE-ENERGYSE was a red flag for some influential legislators, who also wondered why it was under the jurisdiction of the energy undersecretary when existing education and workforce-training efforts were overseen by the science undersecretary (Science, 10 July 2009, p. 130).

Kristina Johnson, the former energy undersecretary whom Chu asked to manage RE-ENERGYSE, says that it seemed clear to her. “It’s a national imperative, and the president is strongly behind it,” she explains. “So I came in, very wide-eyed, and said we should do this. As an engineer, I like to set a goal and put in place a plan and then carry it out. It’s really pretty simple.”

Although Chu tried to explain the program to legislators when testifying on DOE’s 2010 budget, Congress eliminated his request for $115 million when it approved DOE’s overall budget. The next year’s request, for $55 million, fared no better. And last October, Johnson, a former engineering dean and successful entrepreneur who joined the Administration in May 2009, left DOE and now consults for energy companies. “When she left, RE-ENERGYSE was gone, too,” says one DOE official. The Administration made it official by removing the initiative from its 2012 budget.

“There are broad STEM workforce–development programs across the federal government,” says Carl Wieman, associate director for science at the White House Office of Science and Technology Policy, in explaining the decision. “And there are plenty of other opportunities to improve STEM education.” Wieman, a physics Nobelist and science educator who joined the Administration last fall, says that RE-ENERGYSE “may have been comprehensive, but that also makes it complex to set up and make work. So the decision was that we’ll find something that Congress is happier with and move on.”

That something, Chu says, is a request for $11 million in 2012 to more than double the number of graduate research fellows supported by DOE’s Office of Science. It’s the most direct way to beef up the nation’s clean-energy workforce, he says: “The pipeline starts early, by getting [elementary and secondary school students] interested in science. But [educating] undergraduates and those in graduate school, this is something that we feel very strongly about.” Some 150 fellows are now funded under a program begun in 2009. Last month, DOE also announced a competition this year to award 20 postdoctoral fellowships for research on clean-energy technologies.

As cidades mais científicas do mundo…

sábado, 19 mar 2011; \11\America/New_York\America/New_York\k 11 Deixe um comentário

O Physics arXiv blog publicou uma matéria interessante. Mas, antes de falar da notícia, eu tenho que avisar que não estou entre os maiores fãs desse blog — na verdade, minha opinião flutua bastante: alguns artigos são bons, outros ficam bem longe disso… mas, em todos os casos, o Physics arXiv blog é bem enviesado (a seleção dos tópicos que aparecem por lá deixa isso claro além de qualquer dúvida, isso pra não falar sobre o nível das discussões, sempre bem ‘passageiro’) — e isso sempre me incomoda muito.

De qualquer forma, e sem mais delongas… eis o artigo: Mashups Reveal World’s Top Scientific Cities. O original pode ser lido diretamente nos arXivs: Which cities produce worldwide more excellent papers than can be expected? A new mapping approach—using Google Maps—based on statistical significance testing.

A discussão no ‘Physics arXiv blog’ não passa de “mais do mesmo”: ciênci-o-metria. Infelizmente, perde-se a chance de se avaliar o artigo propriamente dito, escolhendo-se apenas notificar a “mensagem” contida no mesmo. Parece até mesmo um órgão de Relações Públicas, apenas alardeando e propagandeando.

O artigo propriamente dito é de tão baixa qualidade que a vontade que se tem é de apenas se repetir o adágio invisível, que diz que os artigos dos arXivs não escritos em [La]TeX são sempre de qualidade duvidosa — pior ainda quando são escritos em Word, ou algum editor de pior qualidade ainda; sem identação apropriada (quem ainda usa ‘identação à esquerda’, ao invés de ‘justificado’? :razz:): via de regra, a falta de atenção a esse tipo de detalhe num artigo costuma refletir a baixa qualidade do material escrito. Mas, como eu disse, esse é apenas um “adágio invisível”, uma unspoken rule, que não se vê, não se ouve, e cujo perfume não se sente. 😳 🙄

De qualquer forma, a máquina de salsicha continua na ativa: como se mensurar o imensurável: quais trabalhos científicos têm mais qualidade, quais são mais dignos de fomento, quais têm mais impacto na comunidade?

Todas essas são questões relevantes, claro, mas uma lição que a Ciência tem que aprender com a Arte é que a medição da criatividade é algo estupidamente difícil. Aliás, nem é preciso se apelar para o lado mais humanista desta questão: basta apenas se aprender Sistemas Dinâmicos corretamente (o que, de fato, parece ser algo tão complicado quanto nos dias de hoje). A razão deste meu argumento é bem simples: como se pode avaliar algo que possui resultados de médio a longo prazo (sem esperarmos por tal prazo)?

A resposta é simples: não é possível se avaliar nada que dependa de médio a longo prazo sem esperarmos tal prazo passar e medirmos o resultado efetivo do que se deseja avaliar. Ou seja, precisamos esperar o tempo passar pra podermos sequer ter a chance de sermos justos nesta empreitada! Ou seja, falando um pouco mais rigorosamente, é preciso termos acesso a todos os dados para podermos conhecer o problema de modo completo.

Infelizmente, com a idéia de que as Universidades devem ser “profissionalizadas” (sabe-se lá o que isso significa :razz:) e, mais ainda, de que toda a empreitada científica deve ser “profissionalizada”, todo esse tipo de questão métrica se torna relevante: como se pode escolher aquilo que há de “melhor” para se fomentar? Assim como numa empresa, numa linha de montagem, é preciso haver alguma forma de “selo de garantia”, alguma forma de “controle de qualidade”. (Note que não estou falando do processo de ensino de estudantes, mas sim de pesquisa científica — falar de ensino por si só abriria outra Caixa de Pandora!)

Entretanto, ao contrário de empresas, fábricas e linhas de montagem, Universidades e Pesquisa Científica [fundamental] possuem planos de ação, missões, de longo prazo, de longuíssimo prazo: há universidades com cerca de 1000 anos de existência: quantas empresas, fábricas e linhas de montagem podem dizer o mesmo?! A própria Revolução Industrial tem apenas cerca de 250 anos!

Felizmente ou não, esta é a natureza da busca pelo conhecimento, e este é o papel da Ciência, principalmente daquela dita fundamental (que costuma dar frutos bem distante das aplicações do dia-a-dia). Por outro lado, hoje em dia, na nossa Era da Informação, é possível se converter algo tão abstrato quanto Teoria dos Grafos em compiladores e navegadores. Este é o caminho da Ciência e do Conhecimento: a menos que se tenha acesso a toda informação, só se pode ver aquilo que está no curto prazo… 😉

Isso tudo só server pra fazer com qua a analogia posta acima — entre Sistemas Dinâmicos e Funções de Partição — fique ainda mais clara aos olhos: quando vc tem acesso à Função de Partição dum problema, vc tem em mãos toda a informação necessária pra resolver o problema completamente; no caso de Sistemas Dinâmicos, como o nome indica (dependência temporal), é muito difícil de se calcular o que vai acontecer no futuro (não-linearidades, caos, etc). E, no final das contas, tudo que se quer medir são os Fenômenos Críticos, as Transições de Fases, e as Propriedades de Escala do sistema em questão.

A mensagem é clara: sem uma visão mais global é impossível se poder qualificar e medir justamente um trabalho científico. Incontáveis exemplos, de Einstein à Wilson, todos nobelistas, jamais teriam os “índices” e os “fatores de impacto” necessários, hoje, para serem contratados em regime de ‘tenure track’ — isso é claro pra qualquer um que já tenha feito o exercício mental requerido por esta questão.

Algumas empresas e alguns nichos industriais já descobriram esse fato básico da natureza humana… aliás, no âmbito de Sistemas Dinâmicos tudo isso tem nome: Cisne Negro e Dragões Reis. 😈

Infelizmente, parece que esse aprendizado e essa mensagem ainda não chegaram na academia — um fato bem irônico, posto que a academia é o lugar onde tais idéias (transições de fase, cisne negros e dragões reis) nasceram! 😳 Então, por enquanto, nós ainda vamos nos debelando com índices e fatores de impacto e outras bobeiras afins. Eu gostaria que fosse feito um estudo com as revistas de maior impacto, procurando-se saber quantos dos artigos publicados nestas revistas deram origens a novos caminhos e novos ramos em seus respectivos campos da Ciência. Taí uma perguntinha bem capiciosa e que por motivos “mágicos” ainda ninguém teve a idéia de responder… 🙄 (Diquinha: eu não me lembro de Einstein ter publicado na Nature nem na Science, então nem as Relatividades nem a Mecânica Quântica (ou Teoria Quântica de Campos) tiveram suas origens nas revistas ditas de alto impacto; o mesmo vale, por exemplo, para as chamadas Transições Quânticas de Fase: o Kosterlitz não publicou numa revista de alto impacto — aliás, porque ninguém pergunta pro Kosterlitz o que ele pensa disso tudo, afinal de contas ele deu origem a todo um ramo da Física, logo deve saber o que significa “alto impacto científico”, não?! :razz:)

Pra finalizar, vou apenas me resignar a dizer que a análise estatística feita no tal artigo é de baixa qualidade, não apenas porque não leva em conta os cisnes negros e os dragões reis, mas também porque não leva em conta tantos outros métodos que a tornariam bem mais robusta. É uma pena, porque os “efeitos visuais”, os “efeitos especiais”, do artigo são bem bonitinhos… [bonitinhos mas ordinários! :razz:]

[]’s.

Atualizado (2011-Mar-19 @ 11:15h EDT): Ah… a ironia do destino. Assim que acabei de escrever o post acima, trombei no seguinte livro: Little Bets: How Breakthrough Ideas Emerge from Small Discoveries. O ponto do livro é clararamente exposto no título, mas também já foi feito por Asimov,

“The most exciting phrase to hear in science, the one that heralds new discoveries, is not ‘Eureka!’ (I’ve found it!), but ‘That’s funny…'”

Isaac Asimov.

Experimentação, passo-a-passo, erros e mais erros… é assim que se faz Ciência: a idéia de que pesquisa e progresso é feito através duma seqüência de ‘acertos’, de passos corretos, não poderia estar mais distante da realidade… c’est la vie

A sétima ou a septuagésima economia do mundo?

quinta-feira, 3 mar 2011; \09\America/New_York\America/New_York\k 09 4 comentários

A esquerda: subúrbio pobre de Chantilly, França, economia que, segundo o Ministro Dr. Mantega, a economia do subúrbio a direita superou em poder de compra em 2010.

Mentiras, vergonhosas mentiras e estatísticas, já diz o provérbio. Então o Mantega grita para todo mundo ouvir, o Brasil fechou 2010 com uma economia maior que a França. Isso se você olhar o PIB. Essas frases, “maior economia”, é o tipo de manipulação política de frase vaga que não diz nada. O que ele quis dizer foi que o PIB do Brasil é alto. Só isso. Mas dai para dizer que o poder de compra do brasileiro está em sétimo no mundo, não é apenas um salto quântico, é falso.

Está faltando algo ai nessa conta, Dr. Mantega. Por que enquanto o Brasil supera a França no PIB, eu não estou vendo o poder de compra do brasileiro médio superar o do francês (onde a renda per capita é três vezes maior que o Brasil… é isso mesmo, 3x). Se qualquer coisa, o que eu vi durante 2010 é que o poder de compra do brasileiro caiu em comparação com o norte-americano, e olha que o EUA entrou em uma das maiores depressões econômicas dos últimos 30 anos.

Ah, é que o Mantega esqueceu do seguinte: desse PIB ai, R$1,27 trilhões foi pago de imposto, isto é, 34,6%. Em comparação, carga tributária de outros países é: Japão (17,6%), Estados Unidos (26,9%), Suíça (26,9%), Irlanda (28,3%), Turquia (23,5%), México (20,4%). Só na escandinávia, na França e no Canadá que se paga (quase) tanto imposto como no Brasil. Eu não reclamaria de deixar 40% da renda no imposto como o dinamarquês faz, o tanto que o serviço público resultante fosse igual o da Dinamarca. No Canadá, se deixa 32,3% da renda em imposto, ligeiramente menos que o Brasil, mas eu tenho a leve impressão que o resultado do investimento público canadense, que inclui ai pensão, hospitais e escolas, é levemente de maior valor real do que o a contribuição do estado brasileiro para o PIB. Você não acha? Existe isso ai também. Olha, o PIB inclui o gasto oficial dito pelo governo. Então é mais ou menos assim: o governo do Brasil inclui no cálculo do IBGE do PIB um gasto com educação que é maior que o gasto do governo do Canadá… mas você vê os indicadores de educação do Canadá estarem comparáveis ao do Brasil? Anda pela a Universidade British Columbia (UBC) e me diz se a verba da sua faculdade federal, que na conta do governo é maior que a UBC, reflete a realidade. Como é possível o PIB brasileiro indicar maior gasto com educação que o canadense, se em um ranking de produção científica o Canadá fica entre os 5 primeiros do mundo e o Brasil fica depois do centésimo (100) lugar? Faltou incluir um estimador novo: um coeficiente de atrito do setor público. Para onde será que realmente vai o dinheiro da nota fiscal oficial do MEC, se o MEC diz que gasta mais com educação que o Canadá mas o professor de escola pública canadense ganha 60 mil dólares por ano? E tem mais: eu estimo grosseiramente que acima da metade do PIB do Brasil é do governo, de uma forma ou outra, porque não apenas o setor público representa um investimento de gasto no PIB no Brasil, como o privado real quase não existe: grande parte das maiores empresas do país e dos maiores bancos são do governo e controlados por pessoas indicadas pelo poder público, e não estão na mão de uma iniciativa privada autêntica. É o Banco do Brasil, a Caixa, Petrobrás, o maior acionário da Embraer, mais da metade da Vale e por ai vai. O mesmo não é verdade para os países verdadeiramente mais ricos do mundo, como a França.

Se a conta fosse feita corretamente, isto é, subtraindo o imposto e levando em conta o superfaturamento do serviço publico brasileiro, a economia útil do Brasil não ia ficar tão boa no ranking, ficando atrás de todas as demais economias ditas primeiro mundo e atrás de muitas outras em desenvolvimento. E se levar em conta a renda per capita, o Brasil fica em 70 lugar, abaixo de todos os países chamados de primeiro mundo e abaixo de muitos em desenvolvimento como Coréia do Sul, Cingapura, China e Hong Kong, Argentina, Chile e Urugay e até do México.

Que a economia brasileira tem um PIB maior que a da Islândia isso é óbvio. O problema é dizer que o poder de compra do brasileiro é maior que o do islandês; isso é patentemente falso. A renda per capita de lá é 4 vezes a do Brasil, o islandês paga menos da sua renda em imposto e obtém um serviço público de saúde e escolas muito mais eficiente, com exatos 0% de analfabetismo e 0 pessoas abaixo do nível da pobreza.

Então, Dr. Ministro, seja mais comedido nos comentários sobre o desempenho da economia nacional. Não vale absolutamente nada o Brasil ter o sétimo maior PIB do mundo, quando a real posição de produção da economia privada e do valor do setor público nos coloca lá pelo septuagésimo lugar, ou ainda mais embaixo.

Would the Bard Have Survived the Web?

terça-feira, 15 fev 2011; \07\America/New_York\America/New_York\k 07 3 comentários

O New York Times tem um artigo de opinião de hoje entitulado Would the Bard Have Survived the Web? (“Teriam os menestréis sobrevivido a Internet?”, tradução livre). Vcs podem ler o artigo em Inglês seguindo o link acima, ou, se preferirem, podem ler a tradução para pt_BR via Google Translate.

Aqui vão meus comentários sobre o assunto:

  • Poor understanding of the concept of “market”, as it was done in the past and as it is done today, in our “Information Era”;
  • Poor understanding of the concept of “intellectual property” and “copyright”;
  • Pathetically dismissive argument against “[a] handful of law professors and other experts”: a 6-line paragraph? Out of which, only a single phrase address the actual point?! Seriously, this is the best these 3 people could do to ground their defense in solid and robust arguments?! They couldn’t even come up with a typical list of pros and cons? Deconstructing this 1-paragraph argument is really a silly exercise: the misunderstanding of the differences between “Science” and “Technology” is enough to make this 1-paragraph self-destructive. This is pretty shameful… 😦
  • Here are a couple of question that i would like answer: if “Science” had patented some of its *basic* and *fundamental* research outcomes, like the following, what would these same folks be saying, what would their tune be: electromagnetism (TV, radio), quantum mechanics (modern electronics, semiconductor devices, X-rays, MRIs, etc), general relativity (GPS; fluid mechanics: think missiles and torpedos)? What would happen if all of these *fundamental research* discoveries had been patented, copyrighted and “intellectual property-ed”?! Science, Physics in fact, would definitely not need any government support today, nor run the risk to have DOE’s budget completely slashed (regarding research support).
  • And, the cherry on the top of this piece, is the constant comparison with the Dark Ages, with the Medieval Times… seriously: the world really did not change since then?! Over 300 years have passed and the best these 3 gentlemen can do is propose a “market” as it was done over 3 centuries ago? This is their *very best* solution to address their “problem”? Do they even understand that the very concept of “market” has changed in these 3 centuries? Do they understand that the very core of their issue is exactly the grasping to understand what the “Web” really means and how to best use it? Do they realize that people don’t quite know what to do with this deluge of information and possibilities coming from the Web? :sigh: 😦

O futuro da revisão-por-pares…

terça-feira, 8 fev 2011; \06\America/New_York\America/New_York\k 06 2 comentários

Depois da invenção dos arXivs, o problema de distribuição de publicações científicas foi efetivamente resolvido. Dessa forma, o papel dos jornais acadêmicos ficou essencialmente resumido à revisão-por-pares. Ou seja, no frigir dos ovos, o valor agregado que as jornais acadêmicos acrescentam aos artigos é apenas a revisão-por-pares, uma vez que a distribuição desses artigos não é mais problema na Era da Informação.

[N.B.: Pense em termos de uns 400 anos atrás, na época de Galileu: era preciso um manuscrito viajar de cavalo ou barco para que sua distribuição fosse efetivada. Claro que as coisas melhoraram com o correio moderno e com a invenção dos aviões… mas, no final das contas, o processo de distribuição continuava o mesmo em sua natureza: era preciso haver uma mudança física, mecânica, de um lugar para outro. Hoje em dia isso não é mais verdade: organizar, colecionar e distribuir artigos é uma tarefa essencialmente trivial: o exemplo dos arXivs sendo o mais gritante, e PLoS sendo um segundo exemplo. Infelizmente, eu não conheço nenhum esforço dessa natureza Free-Open Access nas Humanidades nem nas Ciências Sociais: seria muito interessante conhecer esforços nessas direções.]

Entretanto, atualmente há também um movimento para “aliviar” os jornais acadêmicos inclusive dessa atividade:

Felizmente (ou não 😛 ), esta não é uma idéia nova: esforços nesta direção já têm sido promovidos há anos. Vejam os exemplos abaixo,

Esses esforços costumam vir sob o nome de Ciência 2.0 — apesar de que, atualmente, já está se falando em Ciência 3.0!

[N.B.: Resumidamente, o “2.0” significa a incorporação das ferramentas de Web 2.0, enquanto que o “3.0” significa que metadata é usada de modo “decente” (ie, como a coisa foi designed para funcionar 😉 ).]

Mais ainda, há movimentos em direções ainda mais ambiciosas, como os abaixo,

Tanto o MathJobs quanto o AcademicJobsOnline têm o intuito de organizar e facilitar a busca de empregos (postdocs, professores, etc) em Matemática e Ciências em geral, respectivamente. Isso tem melhorado o processo infinitamente: antigamente, era preciso se escrever cartas de aplicação para diversas (até centenas!) e instituições; hoje em dia basta vc carregar seu material nesses sites e selecionar os empregos que vc gostou — o resto acontece automaGicamante. 😎

De fato, nossa Era Digital trouxe ferramentas absolutamente fantásticas, que conectam o mundo da pesquisa de modo nunca d’antes navegado… Claro, como toda espada, esta também tem dois gumes: o ‘lado negro’ de toda essa facilidade e conectividade é o atual campo da cienciometria, onde se acredita que é possível se mensurar “criatividade científica” através de índices que, na melhor das hipóteses, são apenas parciais (ie, são índices cujo significado estatístico é questionável).

Enfim, este é um momento bastante conturbado… mas que certamente não deixará “pedra sobre pedra”. 😉

This post translated to English (en_US) (courtesy of Google Translate).

História do Mundo, em menos de 5 minutos…

quarta-feira, 1 dez 2010; \48\America/New_York\America/New_York\k 48 1 comentário

Hans Rosling ataca mais uma vez! 😈

Bolsas para pós-graduação em física no Brasil e nos EUA

terça-feira, 29 dez 2009; \53\America/New_York\America/New_York\k 53 Deixe um comentário

Muitos já devem ter percebido que 3/4 dos editores desse blog fazem ou fizeram seu doutoramento nos EUA. Como tal, acho que temos algo a falar sobre isso. Eu queria discutir algo que é de extrema importância para qualquer pessoa: dinheiro. Meu objetivo não é chorar mágoas, até porque não tenho nenhuma nesse aspecto, mas sim deixar clara uma realidade.

Existe diversos desafios em viver nos EUA enquanto se faz uma pós-graduação e certamente dinheiro é uma delas. A situação do aluno estrangeiro nos EUA é muito diferente, por exemplo, do aluno estrangeiro no Brasil. A primeira grande diferença é que não há bolsas (fellowships) para alunos estrangeiros nos EUA. Por exemplo, agora em novembro o DOE abriu oportunidade para sua prestigiosa bolsa. Contudo, se você ler o edital verá que apenas cidadãos americanos podem se candidatar. Para ter uma base de comparação, você pode ir no site equivalente da FAPESP que tem a bolsa de maior prestígio no Brasil e verá que no Brasil a única exigência para se ter uma bolsa de doutorado é ser um potencial bom aluno de doutorado. Ou seja, se você já não tiver uma bolsa quando chega nos EUA, por exemplo, da CAPES-Fulbright ou, mesmo bolsa da Fulbright sem ligação à CAPES, você não vai conseguir outra.

Para quem não tem bolsa, a forma de suporte é através de TA (assistência de professores), quando você é pago diretamente pela universidade para dar aula, ou RA (assistência de pesquisa), quando você é pago por um grupo de pesquisa para fazer pesquisa junto com eles. Acho que já falei sobre essas atividades aqui no blog e não quero me repetir, o objetivo desse texto é só comparar a situação financeira do aluno no Brasil e nos EUA. Vamos então falar sobre valores, onde também há grande disparidade. Um fellowship desses disponíveis apenas para americanos é de aproximadamente 30-35k dólares por ano. Uma atividade de RA paga em torno de 22-25k dólares por ano. A bolsa da CAPES é de 1.3k por mês, o que dá 15.6k dólares por ano. Para se ter uma comparação de como isso é pouco, no ano de 2008, o governo americano traçou a linha de pobreza como uma renda anual de 11.2k dólares.

Se esse dinheiro já parece pouco, aí que vem a próxima supresa que todo se lembram no mês de abril: dinheiro recebido para fazer pós-graduação nos EUA também é sujeito a imposto de renda, diferentemente do Brasil. E aí o aluno estrangeiro tem outra disparidade: ele, além de ganhar menos ainda paga mais imposto (eu colocaria links aqui, mas a documentação do IRS é tão confusa que nem vale a pena).

Last but not least, há também o programa de Summer Federal Work-Study, que garante aos americanos o dinheiro durante as férias de verão enquanto os alunos internacionais, se voltarem para casa, ficam sem receber nada durante todo esse período. Alunos internacionais terminam com reduzindo suas férias a um mínimo possível e ainda tem que convencer algum grupo de pesquisa a pagar um salário durante o verão, o que é particularmente complicado nos primeiros anos da pós-graduação (mas praticamente garantido após você ter um orientador). Lembre-se que aluguel, contas e afins continuam vencendo durante o verão, e esse dinheiro tem que vir de algum lugar.

É difícil afirmar que há xenofobia (preconceito) envolvido. Poderíamos dizer que é reserva de mercado, mas eu não consigo deixar de achar socialmente injusto, principalmente se levarmos em conta que 36% dos alunos de pós-graduação em ciências e engenharia nos EUA não são americanos (chegando a 40% em física e 42% em matemática. Essa página da NSF é a única estatística em nível nacional dos alunos de pós-graduação nos EUA, mas é muito bem feita, vale a pena a visita). Mas talvez eu só esteja sendo parcial…

A realidade é que esse cenário vem piorando muito. Desde 9/11, passando por crises econômicas mundiais e novas tentativas de sequestro de aviões a cada ano o financiamento de estudantes é pior e os primeiros a sofrerem são os estudantes internacionais. Pelo que contam colegas nas UC (Berkeley, Santa Barbara, Los Angeles…), a situação financeira daquele estado[1] é tão séria que há alguns anos que o número de alunos internacionais financiados foi reduzido a um mínimo nunca visto antes.

Mas vale a pena? Claro que vale, só podia ser mais simples…

[1] Todos os links desse post são para páginas departamentais ou grandes jornais da mídia. Esse link é para o blog Cosmic Variance e, mais que isso, a entrada em questão é tão passional quanto as minhas nesse blog. Porém, veja as sugestões propostas: além da óbvia maior taxação sobre gasolina e petróleo há essa discussão crescente sobre a legalização da maconha. Eu não quero discutir isso nesse blog, não é o lugar, mas não posso deixar de comentar a ironia do Schwarznegger poder ser o governador responsável pela legalização da maconha num estado americano. E eu que achava que ver o Flamengo campeão brasileiro já era surpresa suficiente por uma década…

Previsivelmente Irracionais

sexta-feira, 2 out 2009; \40\America/New_York\America/New_York\k 40 Deixe um comentário

Se em última análise nossas decisões são o produto de instintos moldados pela evolução, até que ponto temos controle sobre elas?

Dan Ariely, economista do MIT, fala sobre como nós humanos somos previsivelmente irracionais. 🙂

Eu assisti estas palestras tempo atrás e achei muito interessante, dêem uma olhada! 🙂 Notem que há legendas em português. O livro mencionado em um dos colóquios foi publicado no Brasil pela editora Elsevier.

Estes fatos aparentemente são amplamente reconhecidos por estudiosos de economia, administração e marketing. Infelizmente, empresas empregam esse conhecimento para deliberadamente manipular o público a consumir seus produtos, como demonstrado no documentário A Corporação — que recomendo muito.

Controle de decisões

Nosso código moral e ambiente

A semana nos arXivs…

sexta-feira, 11 set 2009; \37\America/New_York\America/New_York\k 37 3 comentários


Ilusão

Ilusão

A semana nos arXivs…

quarta-feira, 29 abr 2009; \18\America/New_York\America/New_York\k 18 1 comentário


Calvin e a crise

terça-feira, 14 abr 2009; \16\America/New_York\America/New_York\k 16 3 comentários

Já que o Daniel postou uma citação do Calvin ontem, então aqui vai o Calvin explicando porque há crises econômicas na mundo. 😀

calvin_crisis

A tira ainda parece atual, mesmo tendo mais de 10 anos de existência.

Categorias:Economia Tags:,

Falando em fuga de cérebros…

terça-feira, 10 mar 2009; \11\America/New_York\America/New_York\k 11 Deixe um comentário

Pra quem sabe da importância desse assunto, os links abaixo são bastante interessantes e relevantes para essa discussão — vale a pena comparar o que ambos os textos dizem, e notar a diferença em política científica das partes envolvidas. Alguns trechos de ambos os artigos…

O trabalho que apresentei está disponível abaixo, e inclui alguns gráficos mostrando a forte tendência da CAPES e do CNPq de reduzir o apoio a estudos de brasileiros no exterior, e também de substituir as bolsas de doutorado por bolsas “sandwitch” de curta duração. Acho que estas políticas merecem uma discussão mais aprofundada.

A conclusão do artigo é que “es posible resumir esta discusión, remitiéndola a los riesgos y oportunidades que existen en la cooperación internacional. No se trata de optar por dos extremos, el de la internacionalización absoluta, que de hecho jamás va a existir, y el del nacionalismo cultural, científico y tecnológico, que tiene también obvios limites. Una política adecuada debería tomar en cuenta los beneficios del diálogo, oportunidades de aprendizaje y cooperación que existen cuando los caminos del intercambio y del flujo de personas e ideas están abiertos; asimismo, debería considerar los posibles límites de políticas educativas y de desarrollo científico y tecnológico que no invierten en la creación de instituciones de calidad en sus propios países, para que sea posible combinar de forma efectiva la investigación científica de calidad y actividades educativas, tecnológicas e científicas de interés y relevancia para sus propias sociedades. Esta no es, creo, una cuestión de recursos, sino que, principalmente, de orientación y actitud.

What should have been a short visit with her family in Belarus punctuated by a routine trip to an American consulate turned into a three-month nightmare of bureaucratic snafus, lost documents and frustrating encounters with embassy employees. “If you write an e-mail, there is no one replying to you,” she said. “Unfortunately, this is very common.”

Dr. Shkumatava, who ended up traveling to Moscow for a visa, is among the several hundred thousand students who need a visa to study in the United States. People at universities and scientific organizations who study the issue say they have heard increasing complaints of visa delays since last fall, particularly for students in science engineering and other technical fields.

(…)

The issue matters because American universities rely on foreign students to fill slots in graduate and postdoctoral science and engineering programs. Foreign talent also fuels scientific and technical innovation in American labs. And the United States can no longer assume that this country is everyone’s first choice for undergraduate, graduate or postgraduate work.

[]’s.

Esperteza no Mercado Financeiro…

terça-feira, 10 mar 2009; \11\America/New_York\America/New_York\k 11 9 comentários

Já não é de hoje que eu ando ouvindo as trombetas do apocalipse culpando os “analistas quantitativos” (chamados de “quants”) pela infâme crise financeira atual: segundo voz corrente em Wall Street, “a culpa de tudo é desses PhDs”,

“Quants occupy a revealing niche in modern capitalism. They make a lot of money but not as much as the traders who tease them and treat them like geeks. Until recently they rarely made partner at places like Goldman Sachs. In some quarters they get blamed for the current breakdown — “All I can say is, beware of geeks bearing formulas,” Warren Buffett said on “The Charlie Rose Show” last fall. Even the quants tend to agree that what they do is not quite science.”

Ou seja, no final das contas, eis o que está em jogo: Quanto mais “racionalização” (i.e., o trabalho dos quants) se tenta introduzir no tal “mercado financeiro”, pior fica a situação! 😥

Efetivamente, isso até faz sentido (nem acredito que falei isso — se protejam dos raios! 👿 ), uma vez que o tal “mercado financeiro” foi construído, historicamente, por forças que só viam uma maximização selvagem dos lucros, sem racionalidade nenhuma, quiçá ser passível de modelagem matemática. De fato, é como tentar se domar uma besta selvagem… com sete cabeças! 😯

Muita ingenuidade é acreditar que se pode simplesmente colocar um bando de gente modelando algo que, ainda hoje, contém forças intensas que não querem se submeter a nenhum tipo de racionalização (uma vez que, mais cedo ou mais tarde, isso acaba implicando numa racionalização dos lucros, i.e., vc não ganha tão selvagemente mas também não perde tanto dinheiro a ponto de causar uma epopéia mundial, como essa que estamos vivendo ❗ ).

O que é mais triste de tudo isso — absolutamente triste 😥 — é a idéia de que todo esse impasse não passa duma reinvenção da famigerada Guerra das Ciências (leia mais em Phony Science Wars, The Two Cultures, Making Social Science Matter, Social Text Affair, Edge Foundation, The Third Culture). Pior ainda, como o fato é que estamos numa crise financeira (recessão a caminho duma depressão!) de proporções mundiais, envolvendo as maiores potências econômicas atuais, fica cabalmente demonstrado que irracionalidade não leva a lugar nenhum, i.e., enquanto os cães ladravam (tentando avisar que a selvageria não iria levar a lugar nenhum), a caravana ia passando incólume (sem nunca perceber o tamanho do buraco negro que estava a sua frente).

Triste é ter que notar que essa é a essência da natureza humana: a completa e total falta de comunicação, um cabo-de-guerra onde todo mundo perde… 😥 Por que é tão difícil assim de finalmente darmos um passo a frente, largarmos essa irracionalidade “macho alpha” (que é a bússola guia dos “stock traders”) de lado, e partirmos em direção duma maior inclusão de razão na nossa vida como um todo, das “hard sciences” até o mercado financeiro?!

Esse é o objetivo final da chamada Terceira Cultura, que tenta construir uma ponte entre o antigo cabo-de-guerra representado pela “Guerra das Ciências”, e mover a humanidade adiante. E é isso que eu honestamente espero que deixemos como legado para as próximas gerações.

😈

Bill Moyers entrevista Robert Johnson…

sábado, 28 fev 2009; \09\America/New_York\America/New_York\k 09 Deixe um comentário

Pra quem não conhece os personagens em questão: Bill Moyers e Robert A. Johnson.

Algumas coisas que a física pode dizer sobre o Mercado Financeiro

sábado, 21 fev 2009; \08\America/New_York\America/New_York\k 08 Deixe um comentário

Em um post deste blog, o Rafael Calsaverini começou a explicar alguns resultados interessantes economia e finanças e como estas podem com a física.

Vou ser um pouco mais generalista neste post já que quero mostrar o que os físicos tem feito para finanças (que criou um novo campo chamado Econofísica), e como esses resultados levaram a mudanças em princípios que eram considerados já bem estabelecidos pelos economistas. Esses fatos experimentais (ou seja, foram dados medidos em mercados reais) são conhecidos na literatura como stylized facts .

Uma crença geral, e que motivaram a evolução das financas nos ultimos trinta anos, é que as séries de retorno de ativo financeiro é normal (ou gaussiana), ou seja, os ativos seguiriam um random walk simples. Esta simples hipotese se prova muito mais profunda quando analisada com cuidado. Cito duas características:

– Retornos passados não afetariam resultados futuros. Ou, melhor dizendo, o mercado é eficiente em informação. Isso significaria que TODA informação conhecida sobre aquele ativo já está incluida em seu preço atual. Isso implica que estudar a série de preços de algum ativo não traria nenhuma vantagem.

– Não existencia de crashs e bubbles (crash seriam quedas muito grandes e rapidas, como a crise de 2008 ou bubbles que é um crescimento explosivo do preço, como aconteceu com a nasdaq em 1998 com as empresas de internet) internas ao modelo. Isso porque uma queda de 15% em um dia seria um retorno de 10 desvios padrão, o que indicaria um evento de probabilidade menor que 0.0000000001%. Uma crise seria um fator externo ao modelo, e portanto não preditivel.

Todo o formalismo construído com base na hipótese da gaussianidade é chamado na literatura de hipótese do mercado eficiente.

Mas observando o funcionamento do mercado, nós sabemos que existem métodos de se fazerem previsões a partir da série de dados (isso vem feito a decadas por traders) e que mesmo fora de crises temos movimentos muito rápidos para serem considerados possíveis em um modelo gaussiano. Outra coisa que é facilmente visível nos dados do mercado, mas que não estava de acordo com o modelo gaussiano é a chamada volatility clustering, que é um efeito onde dias de retornos grandes (ou seja, dias onde o valor do mercado varia muito) tem grande probabilidade de serem seguidos outros dias onde o mercado varia muito.

Esses fatos nos levam a crer que a hipótese do mercado eficiente merecia uma revisão, fato que começou a ser levado a sério com o inicio da década de noventa. A gravação de séries de alta frequencia (ou seja, observar como o mercado se comportava em períodos muito curtos (primeiramente na ordem de minutos, atualmente na ordem de microsegundos) permitiu que nosso conhecimento dos comportamentos dos ativos melhorassem muito, e portanto, que as diferenças entre as distribuições fossem notadas. As séries de retorno, por exemplo, são de bordas mais significativas que a distribuição normal (o que significa que dias de variações extremas se tornem possíveis. Um retorno de 15% agora teria apenas 0.1% de chance de ocorrer). E em especial, o fim da hipótese do mercado eficiente implica que é possível observar as séries de preços e retirar informações delas.

Esses fatos ( que podem ser vistos como resultados experimentais, já que estão baseados fortemente nos dados), nos motivam a buscar modelos que tragam alguns destes comportamentos. Um exemplo disso é o “jogo da minoria” que está sendo explicado na seqüencia de posts do Rafael. E como ele está explicando, essa tentativa de trazer as finanças um comportamento microscópico permite aplicações de modelos já muito bem testados na física, e com isso técnicas de modelagem que conhecemos bem: teorias de campos, mecânica estatística, integrais de trajetória, transições de fase, por exemplo. E aparentemente tem tido resultados interessantes.

Toda essa mudança de paradigma sobre o mercado introduziu uma grande oportunidade de pesquisa: novas técnicas (vindas da matematica, física e engenharia) que eram bem conhecidas em suas areas passaram a serem testadas e utilizadas no mercado (por exemplo o post do Rafael citado no inicio, que fala de modelos de agentes). Obviamente nem todos os resultados são positivos. Em 1998 o LTCM, um grande hedge fund que utilizava técnicas modernas de previsão, quebrou, gerando perdas de bilhões de dolares. Hoje é sabido que eles ignoraram uma hipótese básica de toda essa mudança de paradigma: não consideraram a possibildiade de retonros nao gaussianos.

———

Observação: No post sobre fluxos de Ricci, o Daniel comenta brevemente sobre a ligação entre processos de Wiener e Mecanica Quantica. Isso será uma bastante util no próximo post desta série, já que leva a algo que é conhecido como Quantum Finance.

Novas estruturas sociais e o cientista hacker…

quinta-feira, 19 fev 2009; \08\America/New_York\America/New_York\k 08 Deixe um comentário

Com a crescente fusão entre ciência e tecnologia (principalmente TI), surgem novas formas de produção e distribuição do conhecimento.

Origens da divulgação científica

Em ciências (exatas, humanas ou biológicas), desde os primórdios até hoje, a forma preferida de divulgação do conhecimento é oral, por meio de palestras, congressos e conversas formais ou informais. Isso acontece porque explicar a lógica por detrás de uma idéia, de um raciocínio ou de uma metodologia, costuma requerer mais do que a comunicação escrita pode oferecer. Ao vivo, é possível interagir com o interlocutor. Perguntas e respostas são fundamentais para o entendimento.

Com o desenvolvimento histórico, porém, os modos de organização sociais mudaram, outros continentes foram descobertos, a humanidade se expandiu. A história das ciências também mudou: a cada nova escolha feita pelas sociedades, era necessária uma nova adaptação do método científico e de sua divulgação. Na Babilônia e no Egito, há registros de números Pitagóricos, incluindo o famoso teorema de Pitágoras, que datam de 1900-1600 AC, alguns ainda em escrita cuneiforme. Compare isso com as nossas mais modernas formas de escrita: TeX, XHTML, MathML.

Enquanto o mundo era pequeno (Europa/Eurásia) e com o aparecimento de “centros de excelência” para as diversas áreas do saber, a divulgação do conhecimento humano acontecia sem grandes problemas. Porém, com a entrada do “Novo Mundo”, as distâncias começaram a mudar o modo de divulgação científica, passando de oral para escrita. Só assim era possível comunicar as descobertas para os diversos cantos do mundo. Publicava-se uma enciclopédia, uma revista, e essa era levada de barco para o resto do globo. Foi basicamente por essa razão – transposição das distâncias –, num contexto de desenvolvimento da tecnologia da impressão por Gutenberg, que as revistas científicas tomaram a forma que, em alguns casos, adotam até hoje. Contudo, a revolução tecnológica desse último século, incluindo a revolução digital, começou a chacoalhar as fundações desse modelo.

Internet: agilidade na popularização do conhecimento

Flexibilidade e dinamismo na divulgação do conhecimento são peças fundamentais em ciências. Dentre outras razões, estão o simples fato de se atrair um maior interesse no trabalho dos pesquisadores (jovens cientistas, alunos) e o fato de que o resultado da pesquisa de um determinado grupo poder catapultar a pesquisa de outros grupos. Quanto mais pessoas tiverem acesso aos resultados de determinada pesquisa e quanto mais rápido esses resultados forem divulgados, maior será a chance de avançar aquela área do saber. Em alguns casos, essa dinâmica é necessária para manter vivo um campo do conhecimento.

A invenção da Internet e a popularização das tecnologias de computadores, modems, bandas-largas e redes foram um passo fundamental na direção de se agilizar a produção e divulgação do conhecimento. Hoje em dia, é rotina um pesquisador de um lado do globo comunicar seus resultados para seus colaboradores em outros cantos do planeta. Quando se adiciona a isso o fato de que o conhecimento da humanidade pode seguir um novo paradigma de “velocidade, flexibilidade e dinâmica”, esse avanço tecnológico passa a ser incomensurável.

Esse novo ”modus operandi” é fundamental para que se possa maximizar os caminhos da ciência: tanto na direção do cientista para o leitor quanto na do leitor para o cientista. Mas, para que isso se realize, é imprescindível que a divulgação seja o mais democrática possível, habilitanto qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo a ter acesso a informação. Nossa sociedade industrial transformou-se em uma sociedade que valoriza a informação. Essa é uma das razões que justifica a existência de modelos de distribuição como o usado pelo arXiv (distribuição gratuita) em lugar de modelos canônicos (revistas especializadas e seus custos).

Ciência da Computação e a revolução digital

Ciência e tecnologia são conceitos diferentes. De acordo com suas definições de dicionário:

  • ciência: conhecimento; conhecimento de princípios e causas; confirmação da verdade dos fatos;
  • tecnologia: aplicação prática da ciência para o comércio e/ou indústria [sinônimos: engenharia, ciência aplicada].

Dada essa distinção, surge a questão de como ciência e tecnologia se relacionam. Em outras palavras, “qual é a ”distância” entre um fato científico e seu correspondente tecnológico?” Para quem está familiarizado com essa questão, é fácil ver que isso é complicado. É preciso entrar nos pormenores de cada área do saber e avaliar o quão próximo do dia-a-dia cada uma delas está. “O que é que se pode fazer de prático com Gravitação Quântica?” Contraste isso com: “O que é que se pode fazer de prático com uma vacina contra a AIDS?” ou ainda “O que é que se pode fazer de prático com a nanotecnologia?” A Gravitação Quântica está bem longe de trazer resultados práticos para o nosso dia-a-dia. Em compensação, pesquisas em HIV e em nanotecnologia estão presentes e afetam a nossa vida diariamente.

Entretanto, é preciso ter cuidado com esse tipo de afirmação: avanços tecnológicos aparecem onde menos se espera. As dificuldades técnicas em se construir equipamentos para pesquisa pura, como aceleradores de partículas (por exemplo, CERN e SLAC) levaram a avanços enormes para os componentes de computadores. O volume de dados que trafega pelas redes de computadores desses experimentos chega a atingir 1 Terabyte (1024 Gigabytes) por segundo, e uma colisão típica nesses aceleradores leva alguns segundos. Um experimento para se medir alguma propriedade de uma teoria de Gravitação Quântica pode levar a avanços dessa natureza.

Para ilustrar esse argumento, vale a pena lembrar duas frases do físico inglês Michael Faraday. Enquanto Faraday explicava uma nova descoberta para o Ministro das Finanças e para o Primeiro Ministro britânicos, perguntaram-lhe ”‘Mas afinal, que uso tem isso?’”, no que Faraday respondeu, ”‘Excelência, é provável que em breve o senhor esteja cobrando impostos sobre isso’”. Em uma outra conversa, o Primeiro Ministro britânico lhe perguntou a respeito de uma nova descoberta ”‘Que valor tem isso?’”; Faraday respondeu, ”‘Que valor tem um recém-nascido?’” e prosseguiu explicando que sem os cuidados de uma boa infância, um recém-nascido não cresce e não se torna um adulto criativo e trabalhador.

Na área de Ciência da Computação, a distância entre ciência e tecnologia fica ainda mais difícil de medir. Por exemplo, Teoria dos Grafos é uma das áreas de pesquisa da matemática pura. Porém, em Ciência da Computação, o conhecimento de Teoria dos Grafos é fundamental para a construção de compiladores (programas que traduzem código escrito em uma linguagem para linguagem de máquina), ou então para o desenvolvimento das linguagens usadas na criação de páginas WWW para a Internet, como o HTML, XHTML, XML, CSS e seus interpretadores (navegadores, como Mozilla Firefox e Opera). Uma teoria abstrata como Teoria dos Grafos acabou gerando uma aplicação imediata. Sem ela, nenhum de nós estaria surfando na Internet hoje.

A Ciência da Computação introduziu um novo paradigma a respeito dessa “distância” entre teórico e prático. E esse novo paradigma trouxe consigo um novo conceito para a nossa sociedade pós-industrial: ”O conceito de Sociedade da Informação”. Uma visão corrente afirma que foi a Tecnologia da Informação que causou essa mudança. Entretanto, é preciso ter em mente que esta teve origem na Ciência da Computação. Uma nova gama de ciências apareceram por causa desse ”insight”, como Teoria da Informação e Inteligência Artificial. O momento histórico, portanto, é mais do que propício para discutirmos uma possível liberação dos meios convencionais de divulgação científica.

Propriedade intelectual

Cooperação e colaboração entre cientistas e acesso às pesquisas e seus resultados são pontos para que se caminhe em direção ao futuro. Portanto, tanto a ciência quanto seus pesquisadores são historicamente livres. No começo dos tempos científicos, a pesquisa e seus resultados tinham uma aplicação prática muito mais tímida do que hoje em dia. Atualmente, é possível ganhar um Prêmio Nobel pela descoberta da estrutura de dupla-hélice do DNA (via cristalografia de raios-X), ou pela descoberta da liberdade assintótica dos quarks, coisa que os egípcios e babilônios jamais sonharam. As aplicações da nanotecnologia vão desde tecidos inteligentes até computadores quânticos e ”spintrônica”. No campo de biotecnologia, desenvolvem-se fármacos para combater um vírus específico. Em suma, aprendemos a dar forma, cor, sabor e até cara para nossos achados científicos de tal forma que, teorias antes consideradas completamente abstratas e sem aplicação prática, são hoje os pilares de uma revolução no nosso modo de vida.

Com esses avanços, um método para a proteção do conhecimento foi desenvolvido. Trata-se da ”Propriedade Intelectual”. Esse desenvolvimento ocorreu ao mesmo tempo em que a nossa ciência ficava cada vez mais próxima da tecnologia. Isso acontece por uma razão bem simples: economicamente, é mais fácil atribuir valor à tecnologia do que à ciência. Afinal de contas, o que é mais fácil quantificar: a Teoria Quântica de Campos e seus aceleradores de partículas ou os computadores e suas tecnologias de rede e bandas-largas? O que é mais fácil de medir: 20 anos de estudo ou um novo antibiótico?

Em vista disso, a medida de ”distância” entre ciência e tecnologia passou a ser cada vez mais fundamental: com o aumento da proteção sobre o conhecimento, o custo sobre o desenvolvimento científico pode tornar-se proibitivo. O desenvolvimento científico deixaria de ser livre. Já imaginaram o que seria do mundo moderno se Maxwell tivesse “cobrado” por sua teoria, o Eletromagnetismo? Sua teoria resume-se a 5 equações. Quatro delas descrevem os fênomenos elétricos e magnéticos propriamente ditos e uma delas descreve a conservação de carga. Essas equações, chamadas Equações de Maxwell, são a base de tudo que é elétrico, eletrônico e magnético hoje em dia (lâmpadas, geladeiras, microondas, computadores). Isso ilustra a dificuldade de atribuir-se um valor econômico a descobertas científicas.

Porém, é necessário dar valor à tecnologia, afinal de contas os produtos e resultados das pesquisas científicas têm que gerar alguma coisa. E é por isso que o paradigma atual, de revolução digital e sociedade da informação, é tão crítico. Como foi mostrado acima em Ciência da Computação, essa distância entre ciência e tecnologia é algo mal definido. Um mestre em Teoria dos Grafos pode inventar um novo compilador, isto é, um teórico pode produzir tecnologia. A Ciência da Computação é a primeira a permitir esse nível de interação entre teoria e prática, entre ciência e tecnologia. Esse é o primeiro palco onde a mais abstrata das matemáticas acaba tendo aplicações práticas de uma utilidade inigualável.

Bazar do conhecimento: por uma sociedade livre e universal

É essa mistura entre ciência e tecnologia, entre teoria e prática, que foi responsável pela revolução digital, pelo nosso novo paradigma cultural (pós-industrial) de sociedade da informação. Portanto, nesse novo momento histórico nós, enquanto coletividade/sociedade, teremos que fazer uma escolha que mudará nossas vidas de forma crítica: ”como é que vamos lidar com a impossibilidade de se medir a distância entre ciência e tecnologia?”. Essa pergunta é fundamental para os futuros modelos econômicos.

Dentre os estudiosos dessa nova economia e sociedade, destacam-se Eric Raymond (The Cathedral and the Bazaar) e Richard Stallman (Free Software, Free Society). O ponto principal dessas referências é que tudo que nelas é descrito como cultura hacker sempre fez parte da cultura da ciência e dos cientistas. Segundo o dicionário dos programadores, a definição de ”hacker” é “um programador para quem a computação em si é sua própria recompensa” e “aquele que gosta do desafio intelectual de superar barreiras criativamente ou encontrar alternativas para limitações”). Ora, cientistas têm sido assim desde sempre. Cientistas são ”hackers”: hackers da matemática, da física, da química, da biologia, da ciência da computação.

Portanto, e chegamos agora ao ponto crucial: estamos vivendo o momento do ”interlace de culturas”, de permeação da cultura ”hacker” na cultura científica. Creio que esse interlace se originou na Ciência da Computação, a primeira ciência a permitir uma interação intensa entre teoria e prática. Assim, nesse momento cultural, vivemos a impossibilidade de discernir ciência de tecnologia e cultura hacker de cultura científica. Dessa forma, a escolha crítica que teremos que fazer reside no fato de que a cultura hacker/científica é fundamental e diferente do paradigma econômico em que vivemos hoje, principalmente no que diz respeito à produção de valor.

O caminho na direção de uma sociedade mais livre e universalmente inclusiva terá que lidar com essas questões, terá que formular respostas para essas questões, terá que encontrar novos paradigmas sociais e econômicos que acomodem essas questões. Um dos problemas a serem atacados é o da universalidade da ciência, principalmente no que diz respeito à sua divulgação. A meu ver, a solução mais universalmente inclusiva e livre para essa questão deve seguir os moldes do arXiv. Trata-se de uma solução que permita o acesso irrestrito ao conhecimento, às pesquisas e seus resultados. E, dado o modelo econômico atual, isso só pode ser feito através de uma forma eletrônica e gratuita de divulgação científica. Seria fantástico se o modelo do arXiv fosse adotado para todas as outras áreas do saber.

Epílogo: Uma breve história do arXiv

No começo, o arXiv era chamado “LANL preprint archive” (LANL é o Laboratório Nacional de Los Alamos – lugar onde a física das bombas atômicas da Segunda Guerra Mundial foi finalmente entendida e “dominada”). Ele é um arquivo para ”preprints” eletrônicos de artigos científicos nos campos de Física, Matemática, Ciência da Computação e Biologia Quantitativa. No passado, o servidor do arXiv ficava no LANL mas, atualmente, o arXiv é servido e operado pela Universidade de Cornell, além de ser espelhado pelo mundo afora. Sua idéia original é devida ao físico Paul Ginsparg.

O arXiv surgiu em 1991 como um arquivo de ”preprints” em física (hep-th, sigla que denota “física teórica de altas energias”) e, mais tarde, foi expandido para incluir, além de outras áreas de física, matemática, ciência da computação e, mais recentemente, biologia quantitativa. Em Março de 2004, o arXiv continha cerca de 267.000 preprints e recebia cerca de 3.000-4.000 novos preprints por mês!

O primeiro nome do arXiv foi xxx.lanl.gov, porém esse nome foi mudado quando se descobriu que programas de “censorware” (ou seja, programas de filtragem de conteúdo) estavam bloqueando seu acesso a partir de diversos sites, acreditando que as três letras X implicassem num site pornográfico. A idéia do XXX era a de que o arXiv era melhor que o WWW em todos os aspectos (já que a letra x vem depois da letra w no alfabeto).

A existência do arXiv foi um dos fatores mais importantes que levou à presente revolução em publicações científicas, conhecida como Open Access Movement (veja também Budapest Open Access Initiative e Berlin Declaration), com a possibilidade de levar ao desaparecimento das revistas científicas tradicionais (e, mais importante ainda, seus modelos de publicação).

Um método popular para se acessar a porção de matemática do arXiv é via o portal da Universidade da Califórnia em Davis chamado de Front. O portal oferece um método de busca poderoso e uma interface mais amigável para o usuário. Por essa razão, o arquivo de matemática é conhecido como ”[the] Front”.

Cientistas e matemáticos profissionais (como Grigori Perelman em 2002 e Richard Arenstorf em 2004) ”carregam” regularmente seus achados e demonstrações matemáticas no arXiv para o acesso e revisão mundial (e gratuito).

Referências

Enquete…

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Como calcular juros próximo a velocidade da luz?

quinta-feira, 19 fev 2009; \08\America/New_York\America/New_York\k 08 1 comentário

Por intermédio do meu orientador, Robert Caldwell, eu descobri essa peça inusitada de trabalho escrito pelo economista Paul Krugman em 1978, Prêmio Nobel de economia de 2008:

Teoria de mercado interestelar, Paul Krugman.

Resumo
Este artigo estende a teoria de mercado interplanetária para a teoria de mercado interestelar. Está primariamente considerando a seguinte questão: como os juros sobre bens em trânsito devem ser calculados quando os bens em questão viajam próximos a velocidade da luz? Isto é um problema porque o tempo de trânsito é menor para um observador viajando com os bens em comparação a um observador estacionário. Uma solução é derivada da teoria econômica, e dois inúteis, porém verídicos, teoremas são derivados.

(:

Categorias:Ars Physica, Economia Tags:

Micromotivos e macrocomportamento, parte I

sexta-feira, 31 out 2008; \44\America/New_York\America/New_York\k 44 5 comentários

Escolhendo como título o nome do livro famoso de um laureado pelo prêmio Sveriges Riksbank de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel [1], Thomas Schelling [2], pretendo discutir um pouco a minha área de pesquisa recente: modelagem quantitativa em ciências sociais e economia. Apesar de parecer um assunto novo, esse tipo de modelagem é na verdade bastante antigo, remontando a  Pierre de Laplace, Thomas Malthus,  David Ricardo, passando por Léon Walras, John Von Neumann e companhia. Essa é no entanto uma área de modelos bastante primários e ainda muito qualitativos. Ao longo desse período de história da modelagem quantitativa de fenômenos sociais houve um diálogo intenso (e negligenciado pelos dois lados)  com a física, particularmente a termodinâmica e a nascente mecânica estatística no final do século XIX. Ao longo das últimas duas décadas essa relação se intensificou novamente e o paradigma da mecânica estatística passou a integrar um programa de pesquisa em ciências sociais e economia com a criação de modelos microscópicos para diversos aspectos como dinâmica de opiniões, tráfego de automóveis,  negociações no mercado financeiro e outros.

A mecânica estatística é a área da física que lida com a ponte entre a dinâmica microscópia dos constituíntes da matéria e as observações macroscópicas que fazemos sobre ela. Por exemplo ela é capaz de, assumindo-se as leis de Newton para o movimento das moléculas de um gás, mostrar que as propriedades macroscópicas do mesmo devem satisfazer certas equações de estado (por exemplo a famosa lei dos gases ideias PV = nRT). É importante notar que essa ponte é feita admitindo-se um certo grau de ignorância sobre o estado microscópico do sistema e a forma correta de se fazer isso é associar uma distribuição de probabilidades aos possíveis estados microscópicos.

O primeiro problema na direção de um modelo estatístico para problemas economicos deve ser então identificar qual é a dinâmica microscópica – a forma com que cada agente economico se move no espaço de configurações. Para as moléculas dos gases temos leis newtonianas de movimento, para partículas menores temos a mecânica quântica. O que temos para pessoas tomando decisões de consumo e poupança, empresas tomando decisões de produção, governos intervindo e bancos decidindo taxas de empréstimo?

Nesse ponto é que paramos para a primeira grande crítica a esse tipo de modelagem. Partículas microscópicas não são conscientes, não aprendem, não tomam decisões racionais nem usam critérios objetivos para mover-se. São diferentes das pessoas. São mesmo? A história da modelagem das decisões economicas começou no século XIX com Léon Walras, Vilfredo Pareto e uma analogia com a mecânica. Walras criou uma teoria de equilíbrio, em analogia com o equilibrio mecânico. Claro que ninguém está propondo que pensemos nas partículas como pequenos seres racionais, mas a analogia com a mecânica e com a termodinâmica levou os economistas a admitir a idéia de que decisões racionais são tomadas através de problemas otimização (maximização de lucros, minimização de custos, etc.).

Na teoria microeconomica neoclássica as pessoas agem segundo escalas de preferência ordenadas através de um função chamada Utilidade. Construiu-se um modelo segundo o qual as pessoas agem para maximizar uma função que diz quão “felizes” elas estão com a decisão que tomaram, sujeito a vínculos que dependem das decisões das outras pessoas. A evolução dessa linguagem levou à construção do modelo de agente econômico ubíquo: o chamado Homo economicus, um agente ultra-racional, capaz de maximizar uma função  utilidade complicada de diversos parâmetros e escolher dentre todas as estratégias a que mais lhe traz benefício. Esse agente ideal tem poder computacional infinito e completo conhecimento de seu espaço de possíveis estratégias.

Esse modelo, apesar de ter bem servido à economia por um século, passou a ser questionado através de problemas em que era claro que, mesmo que houvesse um agente com esse grau de racionalidade, não há estratégias ótimas a se seguir diante da limitada informação disponível ao agente. Um desses modelos é o El Farol Bar. Hoje há modelos de agentes economicos tendem a ser mais realistas e focam-se na capacidade de aprendizado e desenvolvimento de estratégias “on-the-fly”, trocando o agente ultra-racional por um com racionalidade limitada.

Mas mesmo que nos mantenhamos no problema de agentes ultra-racionais, ainda resta a pergunta: como ligamos os modelos microscópicos de maximização de utilidade ao comportamento macroscópico da economia? Nesse campo a análise economica ofereceu poucas respostas. Há poucos estudos teóricos [3] anteriores à década de 90 por exemplo sobre quais são as propriedades de uma economia de escambo de duas mercadorias com muitos agentes neo-clássicos – que maximizam a utilidade em cada transação atingindo um equilíbrio local de Pareto. Os livros clássicos de microeconomia tratam de um problema com dois agentes e os de macroeconomia usam esses resultados para tirar conclusões globais (!). Hoje em dia é um exercício trivial simular isso em computador, mas esse é um problema que  deve ter solução analítica – não passa de um gás de agentes que quando se chocam trocam mercadorias conservadas segundo uma regra de espalhamento bem definida com taxas de transição conhecidas ainda que a regra de maximização de utilidade seja razoavelmente relaxada.

Depois desse blablablá todo (parece mesmo que estou virando economista: em dois posts usei apenas uma equação, e a mais simples que eu conheço :P), permita-me ao menos deixá-los com um tira gosto. No meu próximo post vou comentar um pequeno modelo com solução analítica em que se pode ilustrar o uso de agentes com racionalidade limitada e uma agregação que remete à mecânica estatística – apesar das analogias imperfeitas. É um pequeno modelo de decisão de tráfego, baseado no jogo da minoria. Apesar do contexto diferente, é um modelo que possui claras analogias com problemas de decisão binária que podem ser observadas no mercado financeiro (comprar ou vender?) e que possui a característica fundamental de que o agente gostaria de estar sempre na minoria.

Notas:

[1] Com freqüência denominado erroneamente de Nobel de Economia.

[2] Micromotives and Macrobehavior, Thomas Schelling.

[3] Talvez o problema não seja a escassez de resultados teóricos, mas uma falta de capacidade minha de encontrá-los.

Update:

Dias atrás o físico Jean-Phillipe Bouchaud, professor da École Polytechnique, na França, Chairman do fundo de investimentos francês CFM e pioneiro em pesquisa na interface entre economia e física estatísica escreveu um ensaio para a revista Nature apontando a necessidade desse tipo de modelagem:  Economics need a scientific revolutionNature 455, 1181 (30 October 2008).

A Crise e os fundos no Brasil

domingo, 26 out 2008; \43\America/New_York\America/New_York\k 43 2 comentários

Em um post recente do Daniel sobre a crise, ele comentou sobre como os fundos quantitativos (chamados por ai de quants) americanos estão se saindo na crise atual.

Estes fundos existem no Brasil, apesar de serem muito recentes e em baixa quantidade. Na contagem atual existem sete fundos quantitativos no Brasil, e a maioria deles ainda são muito pequenos (ou seja, a maior parte ainda está com menos de 100 milhões em administração). Mas vale a pena dar uma olhada como as coisas tem saído para eles, e como elas poderão ficar no futuro.

No mes de outubro, a média dos maiores fundos nacionais foi de -256% do CDI (mensal), deixando a média pouco acima do CDI no ano (só 0,42%). Isso mostra como a situação está crítica ao longo dos últimos meses, com uma volatilidade média de 7%.

Podemos então observar como os fundos quantitativos tem se saído: Escolhendo três fundos quantitativos nacionais, a média de rendimento está em 130 % do CDI, com uma volatilidade de 3%a 4 %.  E diferentemente dos fundos tradicionais, não tiveram uma mudança de regime ao longo das ultimas semanas, que causou grandes perdas nos fundos tradicionais.

O grande problema dos fundos quantitativos nacionais é que, por serem muito novos, não administram uma grande quantidade de recursos. Com esse resultado, é de se esperar que atraiam mais atenção do público, mas ainda sofrem um preconceito de serem fundos comandados por ‘maquinas’.

Glossário

CDI: Certificado de Depósito Interbancário. Títulos emitidos por bancos como forma de captação o aplicação de recursos. É a taxa utilizada como referencia por operações financeiras. Por esse motivo fundos medem seu desempenho como uma porcentagem em relação ao CDI do periodo.

Fundo Quantitativo: Fundo de Investimento que utiliza estratégias de maior complexidade matematica para decisões de como aplicar na bolsa. 

Volatilidade: Desvio Padrão da série de retornos do fundo.

A Crise Financeira…

sábado, 11 out 2008; \41\America/New_York\America/New_York\k 41 8 comentários

A crise econômica que atualmente afeta o mundo inteiro, tem sido o foco de mutias notícias ultimamente. Em particular, para um resumão do que está em jogo, vcs podem dar uma lida em Understand the Financial Crisis — esse é um Wiki feito pelo pessoal da Wired; é só rolar a página e se divertir.

Porém, duas reportagens me deixaram oficialmente estressado:

  1. Paulson Warns Of “Fragile” Economy;
  2. A Look At Wall Street’s Shadow Market.

Ambas foram feitas pelo programa 60 minutes, que é um dos programas mais bem sucedidos da televisão norte-americana, sendo o jornal televisivo mais assistido, e celebrou seu aniversário de 40 anos em Setembro de 2008.

Como vcs podem ver (tanto no vídeo quanto na transcrição), nos dois programas que foram ao ar em finais-de-semana consecutivos, houve uma menção em cada um do seguinte fato: os Físicos e Matemáticos, os “PhDs de Wall Street”, como seus modelos numéricos, não-humanos, frios, nunca viram a crise chegando.

Uma das primeiras coisas que me deixa nervoso com esse tipo de insinuação é a retórica de que “modelos matemáticos”, por alguma razão, não são “humanos” o suficiente pra lidar com todas as variáveis que modelam o “mercado”. Como se modelos matemáticos precisassem ter alguma característica fundamental para poder modelor correta e precisamente qualquer fenômeno da Natureza. Depois da Mecânica Quântica, da Relatividade Geral, de irmos pra Lua, dos Computadores, da Internet, e tudo o mais que a Ciência criou… inclusive as estatísticas usadas ao longo de ambos os programas em questão para justificar a lógica sendo explicada e desenvolvida ao longo da reportagem… ainda assim, os repórteres/editores se viram na necessidade de usar uma retórica reminiscente das “Science Wars” — vcs podem ler mais sobre as “science wars” na seguinte resenha: Phony Science Wars.

É um absurdo acreditar que a mesma ciência que, de um lado corrobora a lógica sendo usada (através de dados estatísticos, gráficos e inferências), por outro lado não é suficientemente robusta para modelar o famigerado “mercado”.

O que me leva diretamente ao segundo ponto que me deixa tenso: A mesma “ciência” que errou tão profusamente de um lado, faturou bilhões de dólares do outro — basta seguir o faturamento de duas firmas pra se perceber tal fato:

Durante o mesmo período em que essas duas empresas (hedge funds) tiveram seus maiores faturamentos (2007–2008), bancos como o Citigroup e Merrill Lynch tiveram suas maiores perdas! Ou seja, a mesma razão pela qual uns tiveram seus maiores faturamento, outros tiveram suas maiores perdas.

Simplesmente não é possível que essa “ciência”, que já está soando como “magia negra”, só funcione de um lado dessa cerca, só funcione para algumas empresas mas não para todas.

É claro que essa não é a resposta… a resposta só pode ser uma: existe gente competente e gente incompetente — é simples assim. Pra se arrumar um emprego na Renaissance Tech ou na D.E. Shaw, o processo de seleção é árduo e duro: é preciso se saber muito mais que “matemática financeira”… é preciso realmente se conhecer o que está em jogo: até aplicações de Cadeias de Monte Carlo, Finanças Quânticas, Teoria dos Jogos e Teoria de Jogos Quânticos!

Portanto, o simples fato de que esses dois exemplos conseguiram não só se safar, mas mais ainda, conseguiram faturar alto, pelas mesmas razões que levaram outros bancos à falência, mostra claramente que não é problema da Ciência, nem de ser fria, nem de ser não-humana… mas sim das pessoas contratadas pra fazer algo que não conhecem bem.

Mais ainda, qualquer um que tenha um amigo(a) trabalhando em bancos de investimento, os famosos Analistas Quantitativos, sabe muito bem como essa dinâmica funciona: em geral, quants são vistos como não sendo tão capazes quanto os brokers, aquela galera que fica no chão da bolsa, gritando furiosamente pra comprar ou vender ações… seguindo os modelos desenvolvidos pelos quants. É ainda aquele resquício primitivo da natureza humana… 😥

Pior do que tudo isso é o fato de que o mercado de Hedge Funds é completamente desregulamentado — i.e., a mesma razão que está sendo dada para toda essa quebralheira que está havendo, é a que permitiu que Hedge Funds como os exemplificados acima faturassem alto.

Portanto, a palavra de ordem não é que Físicos ou Matemáticos e seus modelos não sabiam o que estavam fazendo… mas sim que havia muita incompetência sendo distribuída por Wall Street afora. Engraçado, não: ao invés de se mistificar o mundo, dizendo que a Ciência só funciona de um lado da cerca, mas não do outro (retomando as “Science Wars”), tudo parece que faz sentido quando se nota a obviedade em questão: gente mal preparada causou danos incríveis.

Infelizmente, para se poder olhar a realidade na cara e enfrentá-la com dignidade, é preciso coragem… coragem para poder admitir que crimes foram cometidos… tanto que o FBI já está investigando toda essa bagunça

É isso aí… agora deixo vcs com alguns links para maiores diversões:

[]’s.

Atualizado: Isso tudo me fez lembrar do filme Wall Street. Vem bem a calhar, não?!

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