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Archive for the ‘Economia’ Category

Notícias da Semana…

sábado, 7 abr 2012; \14\UTC\UTC\k 14 Deixe um comentário

Nos últimos 7–10 dias, muitas notícias interessantíssimas apareceram. E vale a pena dar uma olhada no que está circulando pelo mundo afora.

  1. Brazil a Great Place to do Physics … and Other Things“: Esse primeiro link é sobre programa de intercâmbio da APS, e o caso da reportagem conta sobre um aluno que saiu da Columbia University, em NY, e foi para o CBPF, no RJ. Como diz o rapaz que fez o intercâmbio, “Given that Rio was one of Richard Feynman’s favorite places, I was sure the experience would be very interesting, and I quickly became excited about it.”. 🙂
  2. Brown University forges research partnership in Brazil“: Esse segundo link é sobre a parceria que a Brown University assinou nessa semana com o IMPA (RJ). A parceria, promovida pela doação de um pai dum aluno da Brown, vai promover a colaboração em pesquisas, conferências e intercâmbios entre a Brown e o IMPA pelos próximos três anos.
  3. Open grad program allows students to pursue two fields“: Esse terceiro link é sobra um programa piloto que a Brown abriu esse ano e que poderia ser resumido como “Ciências Moleculares para a pós-graduação”. A Brown tem um currículo de graduação aberto, como o do Ciências Moleculares, desde os anos 70. E, agora, eles decidiram aplicar o mesmo princípio para a pós-graduação. A idéia é de que os alunos selecionados para participar desse experimento irão cursar seus respectivos doutoramentos, que será complementado com um mestrado em alguma outra disciplina. (A Brown permitia que seus alunos tirassem um ‘double-masters’, i.e., um duplo-mestrado até alguns anos atrás, quando essa opção foi cancelada em favor dessa nova empreitada multi- e inter-disciplinar.) E é disso que trata a reportagem, desse experimento em se ter um currículo multi- e inter-disciplinar na pós-graduação. Até onde eu conheço, essa é uma atitude completamente pioneira e que não existe em nenhuma outra escola. 😈
  4. How the Modern Physics was invented in the 17th century, part 1: The Needham Question“: Essa é a primeira parte (de um total de 3) de um blog convidado da SciAm, contando a história da Física moderna. Muito interessante.
  5. How Much Is a Professor Worth?“: Essa matéria do NYT trata do tópico de um novo livro que tenta comparar o salário de professores em diferentes países. Vale a pena ler pra ver em qual posição o Brasil se encontra, e como os diferentes países se comparam. Há muitos detalhes a serem analisados nessa questão todo… mas, de qualquer maneira, é um bom começo.
  6. Sociedade Brasileira de Física — Cortes no orçamento de ciência ameaçam futuro do Brasil“: o governo decidiu cortar o orçamento em cerca de 33% (comparado ao orçamento de 2010), entrando em rota de colisão com diversas conquistas recentes da política científica federal.
  7. Carnaval Is Over“: Seria esse o fim do milagre brasileiro? A FP faz uma lista dos vários fatores que influenciam essa questão.

Parcerias científicas internacionais, flexibilização do currículo da pós-graduação, história da Física, cortes do orçamento de ciência e tecnologia, e futuro econômico do país. Todas notícias relevantes e contemporâneas.

“E agora, José?”

Economia de Subsistência…

domingo, 21 ago 2011; \33\UTC\UTC\k 33 4 comentários

O blog Daily Infographic publicou um infográfico bastante interessante (que pode ser lido no seguinte link: What You Need to Live Off the Land): pra se manter uma economia de subsistência, vivendo-se sustentavelmente da terra, é preciso um pedaço de terra de aproximadamente 90 4.046,85642 8.093,71284 m2 (i.e., 2 acres: algo como um terreno quadrado com 89,9650646 m de lado).

Ou seja, estimando-se em 25 milhões de pessoas o número da fome de terra, estamos falando em cerca de 202.500 Km2 — isto é, aproximadamente 37% da área da França, ou cerca de 57% da área da Alemanha.

vivendo da terra

Vivendo da terra

Real e ficção na economia brasileira

quinta-feira, 2 jun 2011; \22\UTC\UTC\k 22 9 comentários

Este post apresenta opiniões sobre política econômica do autor e não necessariamente refletem as opiniões de todos os editores do blog.

Não foi com muita surpresa que eu vi essa sequência de notícias que você pode receber o fato mais importante diretamente dos títulos:

  1. DVD [no Brasil] custa mais que o triplo dos EUA
  2. iPad brasileiro é o mais caro do mundo
  3. Artigo no Financial Times vê bolha em formação no Brasil

fatos que estão também relacionados ao que eu postei sobre o fictício PIB brasileiro (comentários os quais parece que os brasileiros discordam…).

Parece vitrola quebrada, mas o elo de ligação é a tributação e a estrutura do serviço público no Brasil. A situação é tão grave que é assim: se o produto é importado, no Brasil ele é um dos mais caros do mundo por causa do excesso de tributos a importados; se o produto é nacional, ele também fica entre os mais caros do mundo, por causa do excesso de tributos internos. Eu considero a política brasileira com respeito a importações um atraso, eu vou me explicar abaixo. A tributação exagerada faz tudo ser mais caro no Brasil, onde os salários também são baixos, e o resultado vai desde um PIB surrealista — porque os serviços públicos e privados somados estão acima do preço real comparado a outros países — a anulação do poder de compra do brasileiro. No meu ver, a razão disto é que o serviço público brasileiro é muito caro, requerendo impostos que somam mais da metade de um produto no mercado. E a minha birra com isto é que o Brasil cobra para mais de 35% de imposto do PIB, acima da maioria dos países ricos, todavia oferece um serviço público de péssima qualidade.

Por quê? E qual a solução? Eu acredito que é porque o investimento do governo brasileiro não é no serviço final, é no sistema político. Por exemplo, o orçamento do Congresso Nacional e do Senado é maior que o orçamento total do MCT. Dado o orçamento total do MCT, que parte deste realmente vai para as mãos dos pesquisadores, e quanto se perde nas mãos dos diversos acessores, auxiliares, suplentes dentro do MCT e dentro das diversas secretarias e subsecretariais do serviço público? Como é possível que o Brasil tenha um investimento em educação pública (digo o número oficial do orçamento do MEC) superior ao do Canadá, mas os professores das escolas brasileiras ganham miséria? Estes últimos ganham pouco, mas ninguém do gabinete de educação das prefeituras e dos governos estaduais recebe três salários mínimos. No Brasil, os grandes salários públicos estão concentrados em certos cargos políticos e burocráticos enquanto que os serviços propriamente ditos recebem pouco investimento. Segundo os dados do IBGE deste ano, o funcionário público brasileiro em média recebe mais que o da área privada (sem incluir benefícios do setor público). Ou seja, não é que o orçamento do MEC é baixo e sim que há uma espécie de atrito financeiro no Estado brasileiro que faz com que a parcela do orçamento que é realmente investido no serviço ser baixa. E a corrupção faz parte natural disto porque o excesso de atravessadores a favorece.

A solução que ninguém gostaria de ver acontecer é começar a enxugar o estado brasileiro, diminuindo duas coisas: primeiro, acabando com o excesso de burocratas, secretários, auxiliares e tudo mais (incluindo os serviços de corregedoria e procuradoria dos próprios regularadores), e segundo, deixando serviços importantes como hospitais, planos de saúde, escolas, universidades públicas, policia e bombeiros, forças armadas, etc., mas acabando com certos excessos da participação do estado na economia, como o controle estatal de bancos e empresas (como a Petrobras e a Embraer) e acabando com leis de monopólio (como de extração de base energética). Antes que você pule da cadeira e brande de raiva “Absurdo!”, pense por que o estado brasileiro tem participação no setor privado, em primeiro lugar? Que benefício para a sociedade isso tras? Agora eu vou dar a razão de porque eu acredito que a privatização do Banco do Brasil e termino do monopólio energético iria ajudar o país: o Estado ficaria mais barato, e poderia diminuir impostos e criaria maior competição no mercado. Maior competição não vai automaticamente gerar melhor serviço mas é melhor a chance disto do que nenhuma chance. E com menos impostos, a economia cresce, os preços dos produtos ficam mais realista e o poder de compra do brasileiro aumenta. Com maior produção econonomica privada, a arrecadação do Estado não fica comprometida: você pode derrubar de 35% para 25% do PIB em imposto, mas se o PIB privado cresce, esses 25% podem representar algo mais significativo que 35% de uma economia engessada. E principalmente, com a diminuição dos burocratas, pode-se injetar o dinheiro do imposto no serviço, ao invés de deixá-lo com os secretários. Legislação que incentiva o setor privado a agir no lugar do publico localmente é outro elemento importante: leis como a Lei de Incentivo a Cultura deveriam ser emuladas para áreas como saúde, educação e ciência. Críticas de que esse sistema é ruim porque incentiva a Maria Bethânia, uma grande artista, é tolice. É como argumentar que é ruim a iniciativa privada descontar 15% de imposto de renda financiando um grande centro privado para o Miguel Nicolelis baseado no fato de que este já é um cientista bem estabelecido e com pesquisas de impacto e que no lugar disso o investimento deveria ir exclusivamente para um Centro de Estudo de Besouros da Amazônia. O incentivo privado a pesquisa reflete a própria realidade do que é ciência de interesse da sociedade ao invés do interesse de um grupo pequeno de burocratas.

OKay, chega. Por último eu quero comentar sobre a política de importação do Brasil, que eu acho absurda. A lógica parece ter sido estabelecida em algum momento da antiguidade brasileira quando alguém conseguiu convencer as pessoas que a entrada de produtos importados indiscriminada no país prejudica o mercado interno. Por que isso seria verdade? Alguém pode dizer: “porque importar diminui postos de trabalho interno”. Se uma câmera digital importada de Taiwan no Brasil custasse o mesmo que ela custa nos EUA (onde a câmera também é importada), haveria mais movimentação para a economia interna: criação de postos de trabalhos em transportadoras para levar dos portos as cidades, de gerentes de vendas e de vendedores, de técnicos da assistência técnica, de vendedores de peças, da indústria nacional fabricando acessórios, e por ai vai. Onde se criaria o emprego de assistência técnica no Brasil de novos postos de câmeras e lentes Nikon? Quem vai transportar os automóveis japoneses do porto até as concessionárias? Se o MacBook era inacessível ao brasileiro porque custava R$ 8 mil e passou ao preço norte-americano de R$1,6 mil, que mercado vai se beneficiar com a criação de novas lojas de pontos de venda de produtos da Apple, agora mais popular? A patente prova de que importação não atrapalha o mercado interno é os EUA, onde muitos produtos comercializados internamente (com excessão de alimentos, mas incluso bebidas alcóolicas) são importados. Grandes empresas estrangeiras tem hoje nos EUA o seu maior mercado (a começar pela população grande), e criam muitos postos de trabalho no país. Os únicos reais beneficiados da política tributária brasileira são alguns funcionários públicos, e exclusivamente estes.

O DOE cancela uma iniciativa massiva de treinamento…

segunda-feira, 25 abr 2011; \17\UTC\UTC\k 17 1 comentário

Quem quiser ler o original, pode encontrá-lo aqui: DOE Pulls the Plug on Massive Training Initiative (DOI: 10.1126/science.332.6026.162-a). DOE é uma abreviação, em Inglês, para “Department Of Energy”, que é o órgão americano análogo ao Ministério das Minas e Energia no Brasil. Historicamente, esse é o órgão que patrocina a pesquisa científica em Física de Partículas (pense em termos da Segunda Guerra Mundial) — no Brasil, esse papel é feito pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (através do CNPq e CAPES).

In April 2009, President Barack Obama announced an ambitious education and training initiative at the Department of Energy (DOE). Speaking to members of the U.S. National Academy of Sciences, Obama said a proposed 10-year, $1.6 billion program, dubbed “Regaining our Energy Science and Engineering Edge” (RE-ENERGYSE), would “capture the imagination of young people who can help us meet the energy challenge.”

But RE-ENERGYSE never got off the ground. Congress twice declined to fund any portion of its sprawling vision, which would have included graduate and postdoctoral fellowships, summer research projects for undergraduates, professional master’s degrees in clean energy, and associate degree programs to train a clean-energy technology workforce. In February, the White House threw in the towel, dropping the program from DOE’s 2012 budget request.

Energy Secretary Steven Chu insists that the Administration remains gung ho about attracting more students into the field of clean-energy research. But its 2012 budget request signals a major shift. Instead of RE-ENERGYSE, Chu is now touting expansion of a small graduate fellowship program that is run out of an office different from the one responsible for implementing RE-ENERGYSE.

To understand why RE-ENERGYSE never got off the ground, it helps to understand DOE’s checkered history in science education. Although some previous Administrations tried to carve out a larger role for DOE in this arena, Congress has traditionally seen education as a secondary mission for a department that already has major responsibilities for science, energy, national security, and environmental cleanup. So the broad scope of RE-ENERGYSE was a red flag for some influential legislators, who also wondered why it was under the jurisdiction of the energy undersecretary when existing education and workforce-training efforts were overseen by the science undersecretary (Science, 10 July 2009, p. 130).

Kristina Johnson, the former energy undersecretary whom Chu asked to manage RE-ENERGYSE, says that it seemed clear to her. “It’s a national imperative, and the president is strongly behind it,” she explains. “So I came in, very wide-eyed, and said we should do this. As an engineer, I like to set a goal and put in place a plan and then carry it out. It’s really pretty simple.”

Although Chu tried to explain the program to legislators when testifying on DOE’s 2010 budget, Congress eliminated his request for $115 million when it approved DOE’s overall budget. The next year’s request, for $55 million, fared no better. And last October, Johnson, a former engineering dean and successful entrepreneur who joined the Administration in May 2009, left DOE and now consults for energy companies. “When she left, RE-ENERGYSE was gone, too,” says one DOE official. The Administration made it official by removing the initiative from its 2012 budget.

“There are broad STEM workforce–development programs across the federal government,” says Carl Wieman, associate director for science at the White House Office of Science and Technology Policy, in explaining the decision. “And there are plenty of other opportunities to improve STEM education.” Wieman, a physics Nobelist and science educator who joined the Administration last fall, says that RE-ENERGYSE “may have been comprehensive, but that also makes it complex to set up and make work. So the decision was that we’ll find something that Congress is happier with and move on.”

That something, Chu says, is a request for $11 million in 2012 to more than double the number of graduate research fellows supported by DOE’s Office of Science. It’s the most direct way to beef up the nation’s clean-energy workforce, he says: “The pipeline starts early, by getting [elementary and secondary school students] interested in science. But [educating] undergraduates and those in graduate school, this is something that we feel very strongly about.” Some 150 fellows are now funded under a program begun in 2009. Last month, DOE also announced a competition this year to award 20 postdoctoral fellowships for research on clean-energy technologies.

As cidades mais científicas do mundo…

sábado, 19 mar 2011; \11\UTC\UTC\k 11 Deixe um comentário

O Physics arXiv blog publicou uma matéria interessante. Mas, antes de falar da notícia, eu tenho que avisar que não estou entre os maiores fãs desse blog — na verdade, minha opinião flutua bastante: alguns artigos são bons, outros ficam bem longe disso… mas, em todos os casos, o Physics arXiv blog é bem enviesado (a seleção dos tópicos que aparecem por lá deixa isso claro além de qualquer dúvida, isso pra não falar sobre o nível das discussões, sempre bem ‘passageiro’) — e isso sempre me incomoda muito.

De qualquer forma, e sem mais delongas… eis o artigo: Mashups Reveal World’s Top Scientific Cities. O original pode ser lido diretamente nos arXivs: Which cities produce worldwide more excellent papers than can be expected? A new mapping approach—using Google Maps—based on statistical significance testing.

A discussão no ‘Physics arXiv blog’ não passa de “mais do mesmo”: ciênci-o-metria. Infelizmente, perde-se a chance de se avaliar o artigo propriamente dito, escolhendo-se apenas notificar a “mensagem” contida no mesmo. Parece até mesmo um órgão de Relações Públicas, apenas alardeando e propagandeando.

O artigo propriamente dito é de tão baixa qualidade que a vontade que se tem é de apenas se repetir o adágio invisível, que diz que os artigos dos arXivs não escritos em [La]TeX são sempre de qualidade duvidosa — pior ainda quando são escritos em Word, ou algum editor de pior qualidade ainda; sem identação apropriada (quem ainda usa ‘identação à esquerda’, ao invés de ‘justificado’? :razz:): via de regra, a falta de atenção a esse tipo de detalhe num artigo costuma refletir a baixa qualidade do material escrito. Mas, como eu disse, esse é apenas um “adágio invisível”, uma unspoken rule, que não se vê, não se ouve, e cujo perfume não se sente. 😳 🙄

De qualquer forma, a máquina de salsicha continua na ativa: como se mensurar o imensurável: quais trabalhos científicos têm mais qualidade, quais são mais dignos de fomento, quais têm mais impacto na comunidade?

Todas essas são questões relevantes, claro, mas uma lição que a Ciência tem que aprender com a Arte é que a medição da criatividade é algo estupidamente difícil. Aliás, nem é preciso se apelar para o lado mais humanista desta questão: basta apenas se aprender Sistemas Dinâmicos corretamente (o que, de fato, parece ser algo tão complicado quanto nos dias de hoje). A razão deste meu argumento é bem simples: como se pode avaliar algo que possui resultados de médio a longo prazo (sem esperarmos por tal prazo)?

A resposta é simples: não é possível se avaliar nada que dependa de médio a longo prazo sem esperarmos tal prazo passar e medirmos o resultado efetivo do que se deseja avaliar. Ou seja, precisamos esperar o tempo passar pra podermos sequer ter a chance de sermos justos nesta empreitada! Ou seja, falando um pouco mais rigorosamente, é preciso termos acesso a todos os dados para podermos conhecer o problema de modo completo.

Infelizmente, com a idéia de que as Universidades devem ser “profissionalizadas” (sabe-se lá o que isso significa :razz:) e, mais ainda, de que toda a empreitada científica deve ser “profissionalizada”, todo esse tipo de questão métrica se torna relevante: como se pode escolher aquilo que há de “melhor” para se fomentar? Assim como numa empresa, numa linha de montagem, é preciso haver alguma forma de “selo de garantia”, alguma forma de “controle de qualidade”. (Note que não estou falando do processo de ensino de estudantes, mas sim de pesquisa científica — falar de ensino por si só abriria outra Caixa de Pandora!)

Entretanto, ao contrário de empresas, fábricas e linhas de montagem, Universidades e Pesquisa Científica [fundamental] possuem planos de ação, missões, de longo prazo, de longuíssimo prazo: há universidades com cerca de 1000 anos de existência: quantas empresas, fábricas e linhas de montagem podem dizer o mesmo?! A própria Revolução Industrial tem apenas cerca de 250 anos!

Felizmente ou não, esta é a natureza da busca pelo conhecimento, e este é o papel da Ciência, principalmente daquela dita fundamental (que costuma dar frutos bem distante das aplicações do dia-a-dia). Por outro lado, hoje em dia, na nossa Era da Informação, é possível se converter algo tão abstrato quanto Teoria dos Grafos em compiladores e navegadores. Este é o caminho da Ciência e do Conhecimento: a menos que se tenha acesso a toda informação, só se pode ver aquilo que está no curto prazo… 😉

Isso tudo só server pra fazer com qua a analogia posta acima — entre Sistemas Dinâmicos e Funções de Partição — fique ainda mais clara aos olhos: quando vc tem acesso à Função de Partição dum problema, vc tem em mãos toda a informação necessária pra resolver o problema completamente; no caso de Sistemas Dinâmicos, como o nome indica (dependência temporal), é muito difícil de se calcular o que vai acontecer no futuro (não-linearidades, caos, etc). E, no final das contas, tudo que se quer medir são os Fenômenos Críticos, as Transições de Fases, e as Propriedades de Escala do sistema em questão.

A mensagem é clara: sem uma visão mais global é impossível se poder qualificar e medir justamente um trabalho científico. Incontáveis exemplos, de Einstein à Wilson, todos nobelistas, jamais teriam os “índices” e os “fatores de impacto” necessários, hoje, para serem contratados em regime de ‘tenure track’ — isso é claro pra qualquer um que já tenha feito o exercício mental requerido por esta questão.

Algumas empresas e alguns nichos industriais já descobriram esse fato básico da natureza humana… aliás, no âmbito de Sistemas Dinâmicos tudo isso tem nome: Cisne Negro e Dragões Reis. 😈

Infelizmente, parece que esse aprendizado e essa mensagem ainda não chegaram na academia — um fato bem irônico, posto que a academia é o lugar onde tais idéias (transições de fase, cisne negros e dragões reis) nasceram! 😳 Então, por enquanto, nós ainda vamos nos debelando com índices e fatores de impacto e outras bobeiras afins. Eu gostaria que fosse feito um estudo com as revistas de maior impacto, procurando-se saber quantos dos artigos publicados nestas revistas deram origens a novos caminhos e novos ramos em seus respectivos campos da Ciência. Taí uma perguntinha bem capiciosa e que por motivos “mágicos” ainda ninguém teve a idéia de responder… 🙄 (Diquinha: eu não me lembro de Einstein ter publicado na Nature nem na Science, então nem as Relatividades nem a Mecânica Quântica (ou Teoria Quântica de Campos) tiveram suas origens nas revistas ditas de alto impacto; o mesmo vale, por exemplo, para as chamadas Transições Quânticas de Fase: o Kosterlitz não publicou numa revista de alto impacto — aliás, porque ninguém pergunta pro Kosterlitz o que ele pensa disso tudo, afinal de contas ele deu origem a todo um ramo da Física, logo deve saber o que significa “alto impacto científico”, não?! :razz:)

Pra finalizar, vou apenas me resignar a dizer que a análise estatística feita no tal artigo é de baixa qualidade, não apenas porque não leva em conta os cisnes negros e os dragões reis, mas também porque não leva em conta tantos outros métodos que a tornariam bem mais robusta. É uma pena, porque os “efeitos visuais”, os “efeitos especiais”, do artigo são bem bonitinhos… [bonitinhos mas ordinários! :razz:]

[]’s.

Atualizado (2011-Mar-19 @ 11:15h EDT): Ah… a ironia do destino. Assim que acabei de escrever o post acima, trombei no seguinte livro: Little Bets: How Breakthrough Ideas Emerge from Small Discoveries. O ponto do livro é clararamente exposto no título, mas também já foi feito por Asimov,

“The most exciting phrase to hear in science, the one that heralds new discoveries, is not ‘Eureka!’ (I’ve found it!), but ‘That’s funny…'”

Isaac Asimov.

Experimentação, passo-a-passo, erros e mais erros… é assim que se faz Ciência: a idéia de que pesquisa e progresso é feito através duma seqüência de ‘acertos’, de passos corretos, não poderia estar mais distante da realidade… c’est la vie

A sétima ou a septuagésima economia do mundo?

quinta-feira, 3 mar 2011; \09\UTC\UTC\k 09 4 comentários

A esquerda: subúrbio pobre de Chantilly, França, economia que, segundo o Ministro Dr. Mantega, a economia do subúrbio a direita superou em poder de compra em 2010.

Mentiras, vergonhosas mentiras e estatísticas, já diz o provérbio. Então o Mantega grita para todo mundo ouvir, o Brasil fechou 2010 com uma economia maior que a França. Isso se você olhar o PIB. Essas frases, “maior economia”, é o tipo de manipulação política de frase vaga que não diz nada. O que ele quis dizer foi que o PIB do Brasil é alto. Só isso. Mas dai para dizer que o poder de compra do brasileiro está em sétimo no mundo, não é apenas um salto quântico, é falso.

Está faltando algo ai nessa conta, Dr. Mantega. Por que enquanto o Brasil supera a França no PIB, eu não estou vendo o poder de compra do brasileiro médio superar o do francês (onde a renda per capita é três vezes maior que o Brasil… é isso mesmo, 3x). Se qualquer coisa, o que eu vi durante 2010 é que o poder de compra do brasileiro caiu em comparação com o norte-americano, e olha que o EUA entrou em uma das maiores depressões econômicas dos últimos 30 anos.

Ah, é que o Mantega esqueceu do seguinte: desse PIB ai, R$1,27 trilhões foi pago de imposto, isto é, 34,6%. Em comparação, carga tributária de outros países é: Japão (17,6%), Estados Unidos (26,9%), Suíça (26,9%), Irlanda (28,3%), Turquia (23,5%), México (20,4%). Só na escandinávia, na França e no Canadá que se paga (quase) tanto imposto como no Brasil. Eu não reclamaria de deixar 40% da renda no imposto como o dinamarquês faz, o tanto que o serviço público resultante fosse igual o da Dinamarca. No Canadá, se deixa 32,3% da renda em imposto, ligeiramente menos que o Brasil, mas eu tenho a leve impressão que o resultado do investimento público canadense, que inclui ai pensão, hospitais e escolas, é levemente de maior valor real do que o a contribuição do estado brasileiro para o PIB. Você não acha? Existe isso ai também. Olha, o PIB inclui o gasto oficial dito pelo governo. Então é mais ou menos assim: o governo do Brasil inclui no cálculo do IBGE do PIB um gasto com educação que é maior que o gasto do governo do Canadá… mas você vê os indicadores de educação do Canadá estarem comparáveis ao do Brasil? Anda pela a Universidade British Columbia (UBC) e me diz se a verba da sua faculdade federal, que na conta do governo é maior que a UBC, reflete a realidade. Como é possível o PIB brasileiro indicar maior gasto com educação que o canadense, se em um ranking de produção científica o Canadá fica entre os 5 primeiros do mundo e o Brasil fica depois do centésimo (100) lugar? Faltou incluir um estimador novo: um coeficiente de atrito do setor público. Para onde será que realmente vai o dinheiro da nota fiscal oficial do MEC, se o MEC diz que gasta mais com educação que o Canadá mas o professor de escola pública canadense ganha 60 mil dólares por ano? E tem mais: eu estimo grosseiramente que acima da metade do PIB do Brasil é do governo, de uma forma ou outra, porque não apenas o setor público representa um investimento de gasto no PIB no Brasil, como o privado real quase não existe: grande parte das maiores empresas do país e dos maiores bancos são do governo e controlados por pessoas indicadas pelo poder público, e não estão na mão de uma iniciativa privada autêntica. É o Banco do Brasil, a Caixa, Petrobrás, o maior acionário da Embraer, mais da metade da Vale e por ai vai. O mesmo não é verdade para os países verdadeiramente mais ricos do mundo, como a França.

Se a conta fosse feita corretamente, isto é, subtraindo o imposto e levando em conta o superfaturamento do serviço publico brasileiro, a economia útil do Brasil não ia ficar tão boa no ranking, ficando atrás de todas as demais economias ditas primeiro mundo e atrás de muitas outras em desenvolvimento. E se levar em conta a renda per capita, o Brasil fica em 70 lugar, abaixo de todos os países chamados de primeiro mundo e abaixo de muitos em desenvolvimento como Coréia do Sul, Cingapura, China e Hong Kong, Argentina, Chile e Urugay e até do México.

Que a economia brasileira tem um PIB maior que a da Islândia isso é óbvio. O problema é dizer que o poder de compra do brasileiro é maior que o do islandês; isso é patentemente falso. A renda per capita de lá é 4 vezes a do Brasil, o islandês paga menos da sua renda em imposto e obtém um serviço público de saúde e escolas muito mais eficiente, com exatos 0% de analfabetismo e 0 pessoas abaixo do nível da pobreza.

Então, Dr. Ministro, seja mais comedido nos comentários sobre o desempenho da economia nacional. Não vale absolutamente nada o Brasil ter o sétimo maior PIB do mundo, quando a real posição de produção da economia privada e do valor do setor público nos coloca lá pelo septuagésimo lugar, ou ainda mais embaixo.

Would the Bard Have Survived the Web?

terça-feira, 15 fev 2011; \07\UTC\UTC\k 07 3 comentários

O New York Times tem um artigo de opinião de hoje entitulado Would the Bard Have Survived the Web? (“Teriam os menestréis sobrevivido a Internet?”, tradução livre). Vcs podem ler o artigo em Inglês seguindo o link acima, ou, se preferirem, podem ler a tradução para pt_BR via Google Translate.

Aqui vão meus comentários sobre o assunto:

  • Poor understanding of the concept of “market”, as it was done in the past and as it is done today, in our “Information Era”;
  • Poor understanding of the concept of “intellectual property” and “copyright”;
  • Pathetically dismissive argument against “[a] handful of law professors and other experts”: a 6-line paragraph? Out of which, only a single phrase address the actual point?! Seriously, this is the best these 3 people could do to ground their defense in solid and robust arguments?! They couldn’t even come up with a typical list of pros and cons? Deconstructing this 1-paragraph argument is really a silly exercise: the misunderstanding of the differences between “Science” and “Technology” is enough to make this 1-paragraph self-destructive. This is pretty shameful… 😦
  • Here are a couple of question that i would like answer: if “Science” had patented some of its *basic* and *fundamental* research outcomes, like the following, what would these same folks be saying, what would their tune be: electromagnetism (TV, radio), quantum mechanics (modern electronics, semiconductor devices, X-rays, MRIs, etc), general relativity (GPS; fluid mechanics: think missiles and torpedos)? What would happen if all of these *fundamental research* discoveries had been patented, copyrighted and “intellectual property-ed”?! Science, Physics in fact, would definitely not need any government support today, nor run the risk to have DOE’s budget completely slashed (regarding research support).
  • And, the cherry on the top of this piece, is the constant comparison with the Dark Ages, with the Medieval Times… seriously: the world really did not change since then?! Over 300 years have passed and the best these 3 gentlemen can do is propose a “market” as it was done over 3 centuries ago? This is their *very best* solution to address their “problem”? Do they even understand that the very concept of “market” has changed in these 3 centuries? Do they understand that the very core of their issue is exactly the grasping to understand what the “Web” really means and how to best use it? Do they realize that people don’t quite know what to do with this deluge of information and possibilities coming from the Web? :sigh: 😦
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