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Archive for the ‘Brazilian Politics’ Category

Notícias da Semana…

sábado, 7 abr 2012; \14\America/New_York\America/New_York\k 14 Deixe um comentário

Nos últimos 7–10 dias, muitas notícias interessantíssimas apareceram. E vale a pena dar uma olhada no que está circulando pelo mundo afora.

  1. Brazil a Great Place to do Physics … and Other Things“: Esse primeiro link é sobre programa de intercâmbio da APS, e o caso da reportagem conta sobre um aluno que saiu da Columbia University, em NY, e foi para o CBPF, no RJ. Como diz o rapaz que fez o intercâmbio, “Given that Rio was one of Richard Feynman’s favorite places, I was sure the experience would be very interesting, and I quickly became excited about it.”. 🙂
  2. Brown University forges research partnership in Brazil“: Esse segundo link é sobre a parceria que a Brown University assinou nessa semana com o IMPA (RJ). A parceria, promovida pela doação de um pai dum aluno da Brown, vai promover a colaboração em pesquisas, conferências e intercâmbios entre a Brown e o IMPA pelos próximos três anos.
  3. Open grad program allows students to pursue two fields“: Esse terceiro link é sobra um programa piloto que a Brown abriu esse ano e que poderia ser resumido como “Ciências Moleculares para a pós-graduação”. A Brown tem um currículo de graduação aberto, como o do Ciências Moleculares, desde os anos 70. E, agora, eles decidiram aplicar o mesmo princípio para a pós-graduação. A idéia é de que os alunos selecionados para participar desse experimento irão cursar seus respectivos doutoramentos, que será complementado com um mestrado em alguma outra disciplina. (A Brown permitia que seus alunos tirassem um ‘double-masters’, i.e., um duplo-mestrado até alguns anos atrás, quando essa opção foi cancelada em favor dessa nova empreitada multi- e inter-disciplinar.) E é disso que trata a reportagem, desse experimento em se ter um currículo multi- e inter-disciplinar na pós-graduação. Até onde eu conheço, essa é uma atitude completamente pioneira e que não existe em nenhuma outra escola. 😈
  4. How the Modern Physics was invented in the 17th century, part 1: The Needham Question“: Essa é a primeira parte (de um total de 3) de um blog convidado da SciAm, contando a história da Física moderna. Muito interessante.
  5. How Much Is a Professor Worth?“: Essa matéria do NYT trata do tópico de um novo livro que tenta comparar o salário de professores em diferentes países. Vale a pena ler pra ver em qual posição o Brasil se encontra, e como os diferentes países se comparam. Há muitos detalhes a serem analisados nessa questão todo… mas, de qualquer maneira, é um bom começo.
  6. Sociedade Brasileira de Física — Cortes no orçamento de ciência ameaçam futuro do Brasil“: o governo decidiu cortar o orçamento em cerca de 33% (comparado ao orçamento de 2010), entrando em rota de colisão com diversas conquistas recentes da política científica federal.
  7. Carnaval Is Over“: Seria esse o fim do milagre brasileiro? A FP faz uma lista dos vários fatores que influenciam essa questão.

Parcerias científicas internacionais, flexibilização do currículo da pós-graduação, história da Física, cortes do orçamento de ciência e tecnologia, e futuro econômico do país. Todas notícias relevantes e contemporâneas.

“E agora, José?”

Economia de Subsistência…

domingo, 21 ago 2011; \33\America/New_York\America/New_York\k 33 4 comentários

O blog Daily Infographic publicou um infográfico bastante interessante (que pode ser lido no seguinte link: What You Need to Live Off the Land): pra se manter uma economia de subsistência, vivendo-se sustentavelmente da terra, é preciso um pedaço de terra de aproximadamente 90 4.046,85642 8.093,71284 m2 (i.e., 2 acres: algo como um terreno quadrado com 89,9650646 m de lado).

Ou seja, estimando-se em 25 milhões de pessoas o número da fome de terra, estamos falando em cerca de 202.500 Km2 — isto é, aproximadamente 37% da área da França, ou cerca de 57% da área da Alemanha.

vivendo da terra

Vivendo da terra

O Brasil no Chronicle of Higher Education…

sábado, 9 jul 2011; \27\America/New_York\America/New_York\k 27 7 comentários

O jornal The Chronicle of Higher Education é uma das referência no mundo da Educação Superior — assim como o Times Higher Education.

No começo da semana, o Chronicle publicou a seguinte matéria sobre o Brasil: Brazil Reaches Out. Essa reportagem também apareceu no Physics Today: Brazil reaches out (Physics Today).

Pra quem está com preguiça de clicar no link da Physics Today, aqui vai o comentário deles (em sua integridade):

Chronicle of Higher Education: The Brazilian government has announced that it will fund 75,000 studentships to study abroad, worth $30,000 each. Brazil’s university system is successful, but that success is not unqualified; scientific research is highly variable in quality, and there is a shortage of researchers. Student bodies of elite universities tend to be economically homogenous. The Brazilian government recognizes that the country’s higher education system will need to expand rapidly while improving in quality if it is to support the country’s economic growth: 7.5% last year, with another 4% predicted for 2011 despite the global slowdown.

O ponto principal da reportagem é o seguinte: o governo brasileiro anunciou 75.000 bolsas-de-estudos (para estudo no exterior) no valor de US$30.000 cada. (Posso estar enganado, eu até gostaria de ter mais informações a esse respeito, mas meu entendimento é que essas bolsas são para áreas onde não há possibilidade de se fazer a pesquisa no Brasil.)

Eu, confesso, tenho algumas dúvidas. Por exemplo, como esse valor de US$30.000 é calculado e aplicado para uma bolsa de doutoramento? A tuition (custo anual) das escolas pode variar muito: nos USA, para a pós-graduação, uma escola pública (e.g., UCLA ou UCSD, SUNY-SB, Rutgers, etc) pode cobrar cerca de ~US$20.000 para alunos estrangeiros (que claramente têm origem fora do estado onde essas escolas se localizam — a anuidade para residentes do estado é consideravelmente mais baixa: cerca de 25% do valor cobrado para quem vem de fora do estado), assim como uma escola privada (Harvard, MIT, Princeton, Brown, Chicago) pode cobrar até US$40.000 por ano! E isso não inclui o salário para o doutorando, que gira em torno de US$2.000/mês (i.e., cerca de ~US$21.000–US$24.000 por ano), dando um total de até ~US$65.000 por ano. Portanto, mesmo uma média simples entre os dois tipos possíveis de anuidades já dá o valor anunciado para as bolsas, cerca de ~US$30.000.

Claro, a situação na Europa é bem diferente e varia bastante de país pra país (e.g., Reino Unido, França, Alemanha). Então, eu imagino que os valores europeus vão ser um pouco mais baixos quando comparados aos valores americanos. Por outro lado, a conta européia vem em Euros, o que torna tudo cerca de 43% mais caro que a conta americana. Então, um custo de ~€21.000 se torna algo como ~US$30.000.

Mais ainda, quem conhece gente que foi pro exterior pago pelo CNPq, sabe o quão comum é o atraso do pagamento dessas pessoas…: muito mais comum do que deveria — às vezes vc recebe por 3 meses atrasados. De qualquer modo, essa já é outra questão, apesar de relevante pra pessoa que está do outro lado do oceano.

Fora isso, também é importante se colocar esses números em comparação com os dados do post Como a Ciência escapou da Foice do Orçamento — até agora. Em particular, os seguintes artigos são de extrema relevância: Brazil cuts its science budget e Brazil’s budget cut dismays scientists . Esses cortes não precisam, necessariamente, afetar as bolsas mencionadas acima. Entretanto, as pessoas formadas por este programa de bolsas vão necessariamente (por causa do contrato da bolsa) voltar para o Brasil — o que imediatamente traz a seguinte pergunta à tona: “Com esses cortes, será que haverá empregos para esses bolsistas? Ou será que eles simplesmente vão ficar desempregados depois de voltarem? Há planos para a absorção desses bolsistas?” E por aí afora…

Portanto, a notícia soa boa, mas sem os devidos detalhes fica difícil de se saber o quão realista isso tudo é.

Reproduzo aqui o artigo do Chronicle em sua integridade.

Brazil Reaches Out

July 5, 2011, 12:14 pm, By Nigel Thrift.

In Brazil on a delegation with the Deputy Prime Minister and the Minister of State for Universities and Science. As usual with these delegations, they tend to be a mixture of frenzied last-minute reorganizations and moments of formal ceremony. They certainly require serious stamina occasioned by crammed programmes and non-stop travel.

But this delegation was buoyed by the Brazilian government’s announcement of 75,000 studentships to study abroad over the next four years, each worth $30,000, of which the UK looks set to obtain a good number.

What is striking about Brazilian higher education its range and variety. There are numerous private institutions, some of which are of good quality. There are state universities. There are federal universities. There are a number of federal science and technology institutions like CAPES, along with many national institutes of science and technology. There are a number of companies (most notably Petrobras and Embraer) which have close associations with universities. I was able to visit the University of Sao Paulo, an august institution boosted by the fact that a proportion of the State of Sao Paulo’s sales tax goes to universities (other countries take note).

What became clear to me was that Brazilian higher education is now in a state of take-off. Brazilian research is often world class. It is the 13th biggest knowledge producer as measured by numbers of papers. In particular, Brazilian research in is paramount in fields like engineering and aspects of the biological sciences.

In a meeting with luminaries from the world of Brazilian higher education, what was clear was that they are bullish about the future and that the scholarship scheme is a tangible expression of that optimism, as well as a desire to diversify the locations in which students study (which are currently led by the United Sates and France).

What is very different from many other countries which are now in economic take-off is that Brazil already has a thriving university system which has achieved many successes. It needs to expand its higher education system rapidly but the goal that has been set for participation rates seems entirely possible. In fact, it is about the same rate of expansion as the UK has achieved over the last 30 years.

There are clearly still problems. For example, the elite universities tend to be populated by students from well-off backgrounds. But Brazil is hardly the only country that can be accused of that. Again, there is very considerable variation in quality. Again, Brazil is hardly the only country that can be accused of that. It has a shortage of researchers to match its ambitions. Once more, Brazil is hardly the only country that can be accused of that.

In other words, this cannot be seen as a situation in which a country needs “help.” Rather, it requires a partnership of equals in which the non-Brazilian partner realizes that the Brazilian partner has much more to offer than the prospect of studentships abroad. Those studentships are a sign off greater engagement but an engagement that will be a two-way process right from the very start.

Real e ficção na economia brasileira

quinta-feira, 2 jun 2011; \22\America/New_York\America/New_York\k 22 9 comentários

Este post apresenta opiniões sobre política econômica do autor e não necessariamente refletem as opiniões de todos os editores do blog.

Não foi com muita surpresa que eu vi essa sequência de notícias que você pode receber o fato mais importante diretamente dos títulos:

  1. DVD [no Brasil] custa mais que o triplo dos EUA
  2. iPad brasileiro é o mais caro do mundo
  3. Artigo no Financial Times vê bolha em formação no Brasil

fatos que estão também relacionados ao que eu postei sobre o fictício PIB brasileiro (comentários os quais parece que os brasileiros discordam…).

Parece vitrola quebrada, mas o elo de ligação é a tributação e a estrutura do serviço público no Brasil. A situação é tão grave que é assim: se o produto é importado, no Brasil ele é um dos mais caros do mundo por causa do excesso de tributos a importados; se o produto é nacional, ele também fica entre os mais caros do mundo, por causa do excesso de tributos internos. Eu considero a política brasileira com respeito a importações um atraso, eu vou me explicar abaixo. A tributação exagerada faz tudo ser mais caro no Brasil, onde os salários também são baixos, e o resultado vai desde um PIB surrealista — porque os serviços públicos e privados somados estão acima do preço real comparado a outros países — a anulação do poder de compra do brasileiro. No meu ver, a razão disto é que o serviço público brasileiro é muito caro, requerendo impostos que somam mais da metade de um produto no mercado. E a minha birra com isto é que o Brasil cobra para mais de 35% de imposto do PIB, acima da maioria dos países ricos, todavia oferece um serviço público de péssima qualidade.

Por quê? E qual a solução? Eu acredito que é porque o investimento do governo brasileiro não é no serviço final, é no sistema político. Por exemplo, o orçamento do Congresso Nacional e do Senado é maior que o orçamento total do MCT. Dado o orçamento total do MCT, que parte deste realmente vai para as mãos dos pesquisadores, e quanto se perde nas mãos dos diversos acessores, auxiliares, suplentes dentro do MCT e dentro das diversas secretarias e subsecretariais do serviço público? Como é possível que o Brasil tenha um investimento em educação pública (digo o número oficial do orçamento do MEC) superior ao do Canadá, mas os professores das escolas brasileiras ganham miséria? Estes últimos ganham pouco, mas ninguém do gabinete de educação das prefeituras e dos governos estaduais recebe três salários mínimos. No Brasil, os grandes salários públicos estão concentrados em certos cargos políticos e burocráticos enquanto que os serviços propriamente ditos recebem pouco investimento. Segundo os dados do IBGE deste ano, o funcionário público brasileiro em média recebe mais que o da área privada (sem incluir benefícios do setor público). Ou seja, não é que o orçamento do MEC é baixo e sim que há uma espécie de atrito financeiro no Estado brasileiro que faz com que a parcela do orçamento que é realmente investido no serviço ser baixa. E a corrupção faz parte natural disto porque o excesso de atravessadores a favorece.

A solução que ninguém gostaria de ver acontecer é começar a enxugar o estado brasileiro, diminuindo duas coisas: primeiro, acabando com o excesso de burocratas, secretários, auxiliares e tudo mais (incluindo os serviços de corregedoria e procuradoria dos próprios regularadores), e segundo, deixando serviços importantes como hospitais, planos de saúde, escolas, universidades públicas, policia e bombeiros, forças armadas, etc., mas acabando com certos excessos da participação do estado na economia, como o controle estatal de bancos e empresas (como a Petrobras e a Embraer) e acabando com leis de monopólio (como de extração de base energética). Antes que você pule da cadeira e brande de raiva “Absurdo!”, pense por que o estado brasileiro tem participação no setor privado, em primeiro lugar? Que benefício para a sociedade isso tras? Agora eu vou dar a razão de porque eu acredito que a privatização do Banco do Brasil e termino do monopólio energético iria ajudar o país: o Estado ficaria mais barato, e poderia diminuir impostos e criaria maior competição no mercado. Maior competição não vai automaticamente gerar melhor serviço mas é melhor a chance disto do que nenhuma chance. E com menos impostos, a economia cresce, os preços dos produtos ficam mais realista e o poder de compra do brasileiro aumenta. Com maior produção econonomica privada, a arrecadação do Estado não fica comprometida: você pode derrubar de 35% para 25% do PIB em imposto, mas se o PIB privado cresce, esses 25% podem representar algo mais significativo que 35% de uma economia engessada. E principalmente, com a diminuição dos burocratas, pode-se injetar o dinheiro do imposto no serviço, ao invés de deixá-lo com os secretários. Legislação que incentiva o setor privado a agir no lugar do publico localmente é outro elemento importante: leis como a Lei de Incentivo a Cultura deveriam ser emuladas para áreas como saúde, educação e ciência. Críticas de que esse sistema é ruim porque incentiva a Maria Bethânia, uma grande artista, é tolice. É como argumentar que é ruim a iniciativa privada descontar 15% de imposto de renda financiando um grande centro privado para o Miguel Nicolelis baseado no fato de que este já é um cientista bem estabelecido e com pesquisas de impacto e que no lugar disso o investimento deveria ir exclusivamente para um Centro de Estudo de Besouros da Amazônia. O incentivo privado a pesquisa reflete a própria realidade do que é ciência de interesse da sociedade ao invés do interesse de um grupo pequeno de burocratas.

OKay, chega. Por último eu quero comentar sobre a política de importação do Brasil, que eu acho absurda. A lógica parece ter sido estabelecida em algum momento da antiguidade brasileira quando alguém conseguiu convencer as pessoas que a entrada de produtos importados indiscriminada no país prejudica o mercado interno. Por que isso seria verdade? Alguém pode dizer: “porque importar diminui postos de trabalho interno”. Se uma câmera digital importada de Taiwan no Brasil custasse o mesmo que ela custa nos EUA (onde a câmera também é importada), haveria mais movimentação para a economia interna: criação de postos de trabalhos em transportadoras para levar dos portos as cidades, de gerentes de vendas e de vendedores, de técnicos da assistência técnica, de vendedores de peças, da indústria nacional fabricando acessórios, e por ai vai. Onde se criaria o emprego de assistência técnica no Brasil de novos postos de câmeras e lentes Nikon? Quem vai transportar os automóveis japoneses do porto até as concessionárias? Se o MacBook era inacessível ao brasileiro porque custava R$ 8 mil e passou ao preço norte-americano de R$1,6 mil, que mercado vai se beneficiar com a criação de novas lojas de pontos de venda de produtos da Apple, agora mais popular? A patente prova de que importação não atrapalha o mercado interno é os EUA, onde muitos produtos comercializados internamente (com excessão de alimentos, mas incluso bebidas alcóolicas) são importados. Grandes empresas estrangeiras tem hoje nos EUA o seu maior mercado (a começar pela população grande), e criam muitos postos de trabalho no país. Os únicos reais beneficiados da política tributária brasileira são alguns funcionários públicos, e exclusivamente estes.

Estrutura de bandas, ARPES e o LNLS 2

domingo, 15 maio 2011; \19\America/New_York\America/New_York\k 19 Deixe um comentário

Hoje em dia, muito do que se é feito sobre desenvolvimento e caracterização de novos materiais para nanoeletrônica (nanotubos de carbono, nanofios, grafeno, isolantes topológicos, …) pode ser entendido através da estrutura de banda. Em especial, as propriedades eletrônicas, magnéticas, químicas e ópticas dos materiais são determinadas por este tipo de informação. Entretanto, aqui no Brasil, determinar uma simples estrutura de banda não é tão simples quanto parece.

Estrutura de bandas

Quando estamos estudando sistemas periódicos como sólidos (1D, 2D ou 3D) a “dinâmica” dos elétrons (de valência) no material pode ser descrita através de um Hamiltoniano periódico

H = \displaystyle\sum_{\vec{R}} H_{\vec{R}},

onde \vec{R} são os vetores da rede de Bravais e H_{\vec{R}} é o Hamiltoniano dos elétrons numa única célula unitária localizada em \vec{R}.

Por ser periódico, uma das maneiras mais naturais de diagonalizar o operador Hamiltoniano é tomando a transformada de Fourier dele no espaço-k, o espaço dos vetores de onda. Assim, o Hamiltoniano toma a forma

H = \int_{BZ}\frac{d^3k}{(2\pi)^3} \mathcal{H}(\vec{k}).

A diagonalização de \mathcal{H}(\vec{k}) fornece o espectro (conjunto de todos autovalores) \{ \epsilon_n(\vec{k})\} que são chamadas comumente de estrutura de bandas. Plotando estas várias funções \epsilon_n(\vec{k}) por caminhos que passam pelos pontos de alta simetria da zona de Brillouin vamos obter algo como na Fig. 1, isto é um exemplo do que chamamos de estrutura de bandas.

Os estados eletrônicos que estão abaixo de uma certa energia (energia de Fermi)  são estados ocupados, os que estão acima são estados desocupados. Estas estruturas de bandas são únicas de cada material, e é através dela que determinamos as propriedades eletrônicas, magnéticas, químicas e ópticas dos novos materiais que estão surgindo.

Existem vários métodos teóricos para calcular este tipo de estrutura de bandas. Por exemplo, eu costumo usar métodos ab initio baseados na Teoria do Funcional da Densidade, ou modelo Hamiltonianos no formalismo de segunda quantização (espaço de Fock) como o método tight binding. Mas como um experimento pode confirmar isto?

ARPES

Do ponto de vista experimental uma das mais diretas de determinar isto é usando o método ARPES (Angle Resolved Photoemission Spectroscopy). Este método consiste numa espectroscopia de fotoemissão que mede as energias e momentos dos elétrons emitidos pelo material com uma resolução angular. Isto permite construir a dispersão da banda e a energia de Fermi do material. O esquema de como esta medidas são feitas é mostrado na Fig. 2.

Figura 2. Setup experimental do ARPES.

Embora tenham conceitos simples, os equipamentos necessários precisam de boas precisões. E aqui no Brasil ainda não há nenhum lugar que possa fazer uma medida ARPES. Quem mais tem capacidade de fazer isso é o LNLS (Laboratório Nacional de Luz Síncrotron), mas é necessário de um outro anel síncroton mais moderno para tornar este tipo de medida uma realidade.

LNLS 2

Há algum tempo estão falando numa construção de um outro anel para o LNLS. Este novo anel, batizado de Sirius, teria energia de 3 GeV, seria mais brilhante e teria também um espectro de energia mais amplo. Neste anel seria possível fazer medidas ARPES. O LNLS 2 (ou Sirius) traria outras vantagens além do ARPES, mas este tipo de upgrade é que eu estou mais atualizado, alguém de dentro do LNLS poderia informar melhor todas as outras vantagens. Alguns detalhes do novo anel podem ser encontradas no link: http://www.lnls.br/sLista-108/Sirius.aspx

Entretanto esta obra tem um custo um pouco elevado, R$ 360 milhões que seriam investidos ao longo de 3 anos. Este tipo de investimento é mais importante do que construir um estádio novo pra Copa do Mundo ou pra Olimpíada, mas não é tão falado quanto eles. O Brasil PRECISA deste tipo de investimento pra continuar evoluindo na ciência como todo mundo deseja, mas por enquanto só nos resta esperar que isto realmente saia do papel.


O Brasil não tem Primeira Emenda

quarta-feira, 16 fev 2011; \07\America/New_York\America/New_York\k 07 17 comentários

Alguém argumentar que o Brasil tem censura oficializada pelo Estado não me surpreende, mas foi inesperado quando vi que em pelo menos um parâmetro que mede censura, o de remover links de matérias publicadas por jornais do sistema de busca do Google, o Brasil é o recordista mundial (Estadão, 15/02/2011), superando Líbia, China e Irã.

O Brasil não tem liberdade de expressão. Muito pelo contrário, a lei brasileira pode chegar ao ponto de impedir um estudante de criticar um professor, um comediante de contar piada, um político de soltar um xingamento, ou mesmo uma pessoa qualquer fazer um comentário no twitter racista ou machista. A situação é mais séria quando um jornal é impedido de publicar matérias investigativas sobre possível corrupção praticada pela família Sarney, ou a relação de algumas empreiteiras com Gilberto Kassab, e quando não se pode tocar em candidatos políticos (veja e.g. aqui sobre como até o óbvio pode ser censurado, ou aqui para ver como debate entre políticos tem que ser feito com exagerado cuidado). Mas todos esses casos de gravidade variada caem dentro de um problema amplo dos oficiais do Estado brasileiro, desde a pequena instância até os Supremos e Superiores tribunais: a falta do valor moral de proteção a liberdade de expressão sem limites*.

Sim, sem limites. Em primeiro lugar, não é papel do Estado julgar ou regular o que as pessoas dizem. É certo que eu posso achar um comentário no twitter ou uma opinião de um político inapropriada, exagerada, sem educação; mas não é papel do Estado definir que palavras são aceitáveis e quais não são, que tom de linguagem é aceitável e qual não é, que opinião é apropriada e qual não é. Se alguém quiser ser chulo e emotivo, outras pessoas podem julgar por si mesmas o material. O que aconteceu com os brasileiros? Onde ficou o mote da revolução da democracia de que posso não concordar com nada do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-lo? O Brasil vive uma censura velada em que não se pode emitir opinião sincera sobre figuras políticas. Isso só serve a manutenção de status quo e intimidar as ações oposicionistas e de minorias. Um exemplo é o caso dos estudantes da UnB que duas vezes se viram vítimas de professores inescrupulosos que vão até a justiça eliminar críticas aos seus métodos de ensino (e ainda ganham a causa!). E não vem ao caso aqui se o método do professor é bom ou não e se a carta dos estudantes é ou não justa. Vixe, se alguma opinião pré-formada eu tenho sobre isso é a de achar que os professores tem maturidade para saber o que fazem e os alunos tem imaturidade para achar que sabem. Mas independente de quem está “certo” a respeito de como a disciplina deve ser ensinada, uma coisa é clara: os alunos deveriam ter o direito de expressar sua opinião sem ser recriminados por isso. As decisões dos juízes de Brasília machucam a democarcia brasileira, estabelecem uma posição privilegiada para um grupo de pessoas que nem se quer foram eleitas democraticamente e impede o diálogo sobre ensino dentro da universidade. No caso de candidatos políticos, qualquer pessoa no Brasil deveria ter o direito de expressar sua opinião sobre o plano político socio-economico, a vida pessoal, e quaisquer outras características ligadas a um político a véspera das eleições. Afinal, se qualquer coisa o debate para as eleições quer atingir é convencer que uma pessoa pode estar mais qualificada que outra. Se eu quiser escrever um texto explicitando todas as razões porque é uma péssima ideia votar em X ou se eu simplesmente quiser tuitar “X é um aproveitador”, eu devo ter o direito guardado pela constituição de dizê-lo, mesmo que X se sinta ofendido. Não cabe ao Estado validar tampouco que assertivas são verídicas e que assertivas são falsas — até porque o Estado nem se quer tem o aparato humano e intelectual para fazer isso. Derrubar sites da Internet com dizeres a políticos que são potencialmente falsos é uma atitude direcionada para salvaguardar a eleição de um político ao invés de servir ao bem estar público de acesso a informação. Se a informação for falsa, cabe ao leitor avaliar, e esse é o preço que nós devemos admitir em pagar para não deixar o Estado delimitar com leis pré-1780 o que é ou não a opinião “certa”, ou a forma “certa” de expressá-la.

O melhor que o Estado faz pelo bem social amplo não é defender o interesse privado de pessoas que se sentem ofendidas com declarações públicas, e sim garantir que qualquer declaração pública possa ser feita.



*: Admito que nem sempre serve bem ao argumento comparar a sociedade brasileira a outras, mas aqui é meio inevitável: nos EUA, nenhum desses casos se quer iria a julgamento, porque na audiência preliminar o juiz quase certamente iria dispensa-los com base na Primeira Emenda da Constituição estadunidense de 1791.

Verdades, mentiras e estatisticas na campanha eleitoral

quarta-feira, 13 out 2010; \41\America/New_York\America/New_York\k 41 3 comentários

Peço licença aos meus co-blogueiros para falar sobre as eleições presidenciais. Uma vez que eu não vou emitir nenhum juízo sobre nenhum dos candidatos, nem explicitar preferência alguma, creio que não há problema. Na verdade o tema eleitoral é só uma desculpa para falar sobre estatística :P. Caso haja problema, por favor me avisem.

Nessa campanha presidencial – como, aliás, deve ser em qualquer campanha eleitoral – tem acontecido uma fenômeno interessante nas propagandas e discursos de aliados de cada um dos candidatos do segundo turno. Ambas as campanhas tentam comparar os governos de Lula e FHC apresentando todo tipo de números e estatísticas. O interessante é que o cenário parece estranhamente ambíguo: para cada estatística que mostra Lula melhor que FHC existe outra que mostra o exato contrário. Para dois exemplos interessantes desse tipo de campanha, veja esses dois links:

Esse fenômeno pode parecer estranho para os espectadores da campanha menos acostumados aos números. Afinal, quem foi melhor para o ensino superior, FHC que aumentou o número de matrículas ou Lula que criou mais universidades? Quem diminuiu mais a pobreza, FHC que aumentou 4 vezes mais o IDH ou Lula que criou 3 vezes mais empregos?

Não há nada de estranho aí. O que está por trás dessa estranheza é uma falácia estatística que pode ser chamada “falácia do atirador”. Imagine um homem que quer demonstrar que é um excelente atirador e te mostra um alvo pintado em um campo de tiro, com 10 tiros certeiros na mosca. Você pode achar que ele é um grande atirador mesmo, mas sabe como ele produziu esse resultado?

O atirador ergueu uma enorme parede de madeira, de 10 metros de largura e 5 de altura, colocou-se na posição de tiro e descarregou 500 tiros contra a parede, sem tentar mirar particularmente em nenhuma posição. Claro que depois disso a parede estará cravejada de buracos e em alguns lugares haverá buracos de tiro mais próximos um dos outros. O atirador escolhe convenientemente 10 buracos que, ao acaso, ficaram bastante próximos entre si e desenha e pinta o alvo em torno deles. Então ele corta o resto da madeira e recoloca o alvo em sua posição original, com 10 tiros “certeiros” na mosca.

O homem não é um excelente atirador. Ele apenas escolheu o alvo depois de ter os resultados. Ele selecionou os “bons” resultados e descartou os ruins. Ele transformou uma distribuição bastante larga em uma distribuição mais estreita apenas descartando certos resultados e mostrando outros.

Como isso se aplica à campanha eleitoral?

Para cada aspecto de um governo que você queira avaliar, existe um sem número de estatísticas que podem ser usadas. Se, por exemplo, eu quero avaliar a evolução da renda, posso mostrar o crescimento do PIB per capita, ou de algum índice de salários, ou da fração do PIB correspondente aos salários, ou quanto subiram os salários em comparação com a taxa básica de juros, ou comparar com taxas “reais” praticadas no mercado. Posso comparar esses números em dólares ou reais, posso comparar o poder aquisitivo real, ou quanto essa renda compra de uma certa cesta de produtos essenciais. Posso focar apenas no crescimento da renda da classe C, ou em quanto cresceu (ou caiu) a razão da renda da classe C pela renda da classe A. Posso comparar quantos bens de consumo essenciais as pessoas conseguem comprar, ou posso comparar quanto o crescimento de suas rendas se compara com o rendimento de um certo investimento padronizado. Todas essas são formas de comparar quanto a renda cresceu.

Deu para perceber que existe um grande número de estatísticas para comparar dois governos, mesmo que fiquemos apenas no restrito conjunto de estatísticas referentes ao aumento da renda. Se eu comparar todos esses números entre o governo A e o governo B, alguns resultados serão pró-A e outros serão pró-B. É natural que seja assim por uma razão simples: há uma flutuação incrível nesses números. Flutuações temporais, flutuações causadas por diferentes metodologias ou mesmo flutuação que resulta do processo de amostragem. A incerteza nesses números as vezes é muito grande, e medidas em semanas diferentes podem causar flutuações de vários pontos percentuais. Não temos um valor determinado para esses números, temos uma distribuição de probabilidades que representa o quanto sabemos sobre eles. E essa distribuição é relativamente larga.

Então existe uma probabilidade de que cada estatística seja pró-A ou pró-B, ainda que os governos A e B tenham sido mais ou menos parecidos. E mesmo que o governo A tenha sido muito melhor que o governo B em certo sentido, ainda assim teremos uma certa probabilidade de ter um certo número de estatísticas pró-B. Mas eu sempre posso escolher que fração das estatísticas que eu pretendo mostrar será pró-A ou pró-B. Eu posso apenas mostrar 100% de estatísticas pró-A e argumentar assim que o governo A foi incrível. Isso é bem ilustrado pela famosa propaganda da Folha de São Paulo de alguns anos atrás, em que se apresenta diversas estatísticas positivas do governo de Adolf Hitler na Alemanha, que certamente foi um governo desastroso!!!

Então é impossível comparar dois governos com estatísticas? Claro que não. É perfeitamente possível. Apenas é necessário fazê-lo de forma sistemática, com métodos claros, com padrões e referências bem definidos. Existem procedimentos para se evitar a falácia do atirador em estudos estatísticos. Por exemplo, pode-se escolher que estatísticas serão calculadas de antemão, antes da colheita de dados, de acordo com um método bem definido. Isso evita que se “desenhe o alvo” em torno do resultado desejado. Pode-se fazer uma análise de sensitividade, mostrando que ainda que a metodologia fosse diferente, o resultado não seria tão diferente assim. Enfim, existem técnicas para isso.

Mas isso é algo que campanhas eleitorais nunca serão capazes de fazer. Elas são enviesadas por princípio, a cesta de índices que escolhem para mostrar é viciada e sua interpretação errônea e vazia. E isso vale para qualquer campanha, independente da orientação ideológica do candidato. É inevitável. Não chega nem a ser desonestidade, é da natureza da propaganda. O ideal seria que, ao invés de usar os números de forma leviana, fossem contratados estatísticos profissionais e neutros para criar essas análises. Mas isso nunca vai acontecer. 😉

O melhor é que o eleitor esteja atento às formas com que os números podem ser usados contra ele. Números adequadamente escolhidos podem defender qualquer estória que se deseje contar. Mas não fique achando que toda estatística é resultado de manipulação. Há métodos adequados para se evitar a manipulação, mesmo a manipulação involuntária.

Há uma citação de natureza ética difundida entre os estatísticos adequada para fechar essa discussão. Infelizmente não me lembro o autor ou a exata fraseologia, mas a essência é: é sempre possível mentir usando a estatística, mas é impossível dizer a verdade sem ela.

Questão da Fuvest sobre o LHC

quarta-feira, 6 jan 2010; \01\America/New_York\America/New_York\k 01 4 comentários

Nesse final de semana, dos dias 3 a 5, aconteceu a segunda fase do vestibular da Fuvest, o maior do país. Através desse tópico do Orkut fiquei sabendo de uma questão multidisciplinar de Física. A Fuvest ainda não divulgou a prova oficialmente, mas o site da Uol, através do curso pré-vestibular Objetivo, tem a questão e um modelo de resposta em seu site.

O ítem ao qual me refiro é o c, cujo enunciado diz:

Além do desenvolvimento científico, cite outros dois interesses que as nações envolvidas nesse consórcio teriam nas experiências realizadas no LHC.

Antes de qualquer comentário, vou repetir aqui o modelo errado de resposta que aparece no site hoje (06-jan-2010):

Além dos interesses científicos, os países envolvidos no projeto LHC possuem interesses geoestratégicos. Tais pesquisas poderão servir à indústria bélica, por exemplo, no desenvolvimentos de novas armas. Não se pode descartar ainda os interesses econômicos, como na dinamização de processos produtivos, ligados a setores civis, destacando-se o setor energético e o desenvolvimentos de novos produtos, materiais e processos que podem permitir uma provável redução de custos na produção.

(os grifos são meus)

Antes de mais nada, queria frisar que acho a questão fenomenal, embora não seja exatamente uma questão de física, mas sim de geopolítica e história. Contudo, essa é uma grande questão no desenvolvimento científico de um país: como justificar o investimento de dinheiro em ciência básica, que muitas vezes parece, para as pessoas ingênuas, ser um fundo morto?

Investir em ciência não é jogar dinheiro fora e já tivemos outros posts aqui no blog falando sobre isso, inclusive mostrando números. O importante nesse caso é esse questionamento ter aparecido numa prova de vestibular, o que certamente força e forçará que essa questão tão importante para um plano de desenvolvimento nacional seja discutida ainda quando os cidadãos estão se formando.

Por outro lado, a resposta dada pelo profissional que montou o gabarito e divulgada pelo curso pré-vestibular Objetivo, é um grande atraso. Mostra justamente o tipo de pré-concepção que resulta numa percepção pública errada e possivelmente danosa para ciência básica.

O LHC é um experimento de ciência básica. Ele não tem qualquer tipo de serviço, mesmo que secundário, à indústria bélica ou de geração de energia, como diz o modelo de resposta divulgado. É verdade que há interesse econômico no LHC, mas isso não é a resposta e sim a pergunta. A resposta correta para essa pergunta, que não é raza, envolve a maneira não trivial como o dinheiro envolvido em ciência retorna ao país: principalmente através da formação de profissionais de altíssima capacidade para resolver problemas, sejam eles de física básica ou de outras questões tecnólogicas.

Eu não estou dizendo que qualquer profissional que trabalhe no LHC seja um exímio especialista em qualquer área de tecnologia. Muito pelo contrário, eu diria: o perfil das pessoas que trabalham nesses experimentos é por muitas vezes de uma pessoa hiper-especialista e muito limitada. São poucos os que realmente se destacam pela sua colaboração (a questão é que em física experimental é mais difícil de ver isso que em física teórica). Mas o importante, nesses grandes experimentos, é o esforço coletivo. É a expertise do grupo e não de um indivíduo apenas.

Claro que a questão não quer uma resposta longa na forma de uma dissertação discutindo esses aspectos não-triviais. Experimentos de Física de Altas Energias, como o do CERN, forçam o desenvolvimento de várias tecnologias associadas como de eletrônica muito rápida em ambientes com muita radiação, computação, criogenia, entre outras coisas… No caso dos experimentos do LHC há um esforço particular para o desenvolvimento da chamada GRID de computação e a estrutura de redes com velocidade e qualidade de serviço para que ela funcione. A resposta correta à pergunta certamente vai nessa direção.

Claro que tudo isso – GRID e afins – é bem secundário, cientificamente falando. Mas é necessário para as questões discutidas aqui: a correta percepção pública da ciência. Afinal, foram 10 bilhões de dólares investidos e não foi a toa. Não é tanto dinheiro assim1, mas em qualquer jornal da mídia, quando essa quantia é citada, o que mais se vê é gente dizendo que esse dinheiro não deveria ser investido em ciência. Esse esperneio despropositado começa em sala de aula, quando os professores, que são os primeiros formadores de opinião, dão esse tipo de resposta absurda à questão.

1. Claro que 10 bilhões de dólares é, em termos abolutos, muito dinheiro. Mas um experimento desse envolve em torno de 10 mil pessoas e dura em torno de 20 anos. Então, é algo como um investimento de 50 mil dólares para um experimento por ano, por pesquisador. O que não é tanto assim para o padrão de qualquer ciência.

Bolsas para pós-graduação em física no Brasil e nos EUA

terça-feira, 29 dez 2009; \53\America/New_York\America/New_York\k 53 Deixe um comentário

Muitos já devem ter percebido que 3/4 dos editores desse blog fazem ou fizeram seu doutoramento nos EUA. Como tal, acho que temos algo a falar sobre isso. Eu queria discutir algo que é de extrema importância para qualquer pessoa: dinheiro. Meu objetivo não é chorar mágoas, até porque não tenho nenhuma nesse aspecto, mas sim deixar clara uma realidade.

Existe diversos desafios em viver nos EUA enquanto se faz uma pós-graduação e certamente dinheiro é uma delas. A situação do aluno estrangeiro nos EUA é muito diferente, por exemplo, do aluno estrangeiro no Brasil. A primeira grande diferença é que não há bolsas (fellowships) para alunos estrangeiros nos EUA. Por exemplo, agora em novembro o DOE abriu oportunidade para sua prestigiosa bolsa. Contudo, se você ler o edital verá que apenas cidadãos americanos podem se candidatar. Para ter uma base de comparação, você pode ir no site equivalente da FAPESP que tem a bolsa de maior prestígio no Brasil e verá que no Brasil a única exigência para se ter uma bolsa de doutorado é ser um potencial bom aluno de doutorado. Ou seja, se você já não tiver uma bolsa quando chega nos EUA, por exemplo, da CAPES-Fulbright ou, mesmo bolsa da Fulbright sem ligação à CAPES, você não vai conseguir outra.

Para quem não tem bolsa, a forma de suporte é através de TA (assistência de professores), quando você é pago diretamente pela universidade para dar aula, ou RA (assistência de pesquisa), quando você é pago por um grupo de pesquisa para fazer pesquisa junto com eles. Acho que já falei sobre essas atividades aqui no blog e não quero me repetir, o objetivo desse texto é só comparar a situação financeira do aluno no Brasil e nos EUA. Vamos então falar sobre valores, onde também há grande disparidade. Um fellowship desses disponíveis apenas para americanos é de aproximadamente 30-35k dólares por ano. Uma atividade de RA paga em torno de 22-25k dólares por ano. A bolsa da CAPES é de 1.3k por mês, o que dá 15.6k dólares por ano. Para se ter uma comparação de como isso é pouco, no ano de 2008, o governo americano traçou a linha de pobreza como uma renda anual de 11.2k dólares.

Se esse dinheiro já parece pouco, aí que vem a próxima supresa que todo se lembram no mês de abril: dinheiro recebido para fazer pós-graduação nos EUA também é sujeito a imposto de renda, diferentemente do Brasil. E aí o aluno estrangeiro tem outra disparidade: ele, além de ganhar menos ainda paga mais imposto (eu colocaria links aqui, mas a documentação do IRS é tão confusa que nem vale a pena).

Last but not least, há também o programa de Summer Federal Work-Study, que garante aos americanos o dinheiro durante as férias de verão enquanto os alunos internacionais, se voltarem para casa, ficam sem receber nada durante todo esse período. Alunos internacionais terminam com reduzindo suas férias a um mínimo possível e ainda tem que convencer algum grupo de pesquisa a pagar um salário durante o verão, o que é particularmente complicado nos primeiros anos da pós-graduação (mas praticamente garantido após você ter um orientador). Lembre-se que aluguel, contas e afins continuam vencendo durante o verão, e esse dinheiro tem que vir de algum lugar.

É difícil afirmar que há xenofobia (preconceito) envolvido. Poderíamos dizer que é reserva de mercado, mas eu não consigo deixar de achar socialmente injusto, principalmente se levarmos em conta que 36% dos alunos de pós-graduação em ciências e engenharia nos EUA não são americanos (chegando a 40% em física e 42% em matemática. Essa página da NSF é a única estatística em nível nacional dos alunos de pós-graduação nos EUA, mas é muito bem feita, vale a pena a visita). Mas talvez eu só esteja sendo parcial…

A realidade é que esse cenário vem piorando muito. Desde 9/11, passando por crises econômicas mundiais e novas tentativas de sequestro de aviões a cada ano o financiamento de estudantes é pior e os primeiros a sofrerem são os estudantes internacionais. Pelo que contam colegas nas UC (Berkeley, Santa Barbara, Los Angeles…), a situação financeira daquele estado[1] é tão séria que há alguns anos que o número de alunos internacionais financiados foi reduzido a um mínimo nunca visto antes.

Mas vale a pena? Claro que vale, só podia ser mais simples…

[1] Todos os links desse post são para páginas departamentais ou grandes jornais da mídia. Esse link é para o blog Cosmic Variance e, mais que isso, a entrada em questão é tão passional quanto as minhas nesse blog. Porém, veja as sugestões propostas: além da óbvia maior taxação sobre gasolina e petróleo há essa discussão crescente sobre a legalização da maconha. Eu não quero discutir isso nesse blog, não é o lugar, mas não posso deixar de comentar a ironia do Schwarznegger poder ser o governador responsável pela legalização da maconha num estado americano. E eu que achava que ver o Flamengo campeão brasileiro já era surpresa suficiente por uma década…

Sobre meu afastamento do Stoa por causa de uma brincadeira de 1º de abril até a exclusão da minha conta

quarta-feira, 29 abr 2009; \18\America/New_York\America/New_York\k 18 11 comentários

Logo do Stoa invertidoToda história do meu – Tom falando – afastamento do projeto Stoa, assim como a exclusão de minha conta do Stoa e todos meus textos, começou com a publicação no Stoa de uma brincadeira no contexto de primeiro de abril, que vocês podem checar aqui, Governador avalia planos de privatização da USP em reunião com reitora.

Publiquei esse texto no final da tarde do dia 1º de abril, por volta das 18h, e logo na madrugada do dia 2 coloquei um aviso de que tratava-se de uma brincadeira, aviso que parece não ter sido suficiente para as pessoas que sentiram-se incomodadas com a brincadeira.

No dia 14 de abril fico sabendo que a consultoria jurídica da USP entra em contato com o diretor do CTI USP, Gil da Costa Marques,  e que haveria um possível processo contra ele por parte da reitoria, por causa dessa brincadeira minha. Vale lembrar que o Stoa é um projeto do CTI.

Poucos dias depois fico sabendo que as medidas tomadas serão: 1. meu desligamento do projeto Stoa e 2. um pedido de desculpas de minha parte e do coordenador do projeto Stoa, o professor Ewout ter Haar, por causa do ocorrido.

O pedido de desculpas foi publicado por mim dia 23 de abril, que pode ser lido aqui, Esclarecimento sobre inoportuno texto que simulava desestatização da USP (não está mais disponível no link original, pois todos meus textos foram apagados do Stoa). Pedi desculpas por algo que não achei errado e até agora não entendo todo estardalhaço criado e nem imaginava as dimensões que isso resultaria, pois não queria também prejudicar meus amigos colaboradores do projeto Stoa, nem que o projeto fosse por água a baixo por minha causa. Antes eu do que todo o projeto, pois sei que continuaria em boas mãos.

Os ânimos das pessoas incomodadas com o ocorrido pareciam ter acalmados após meu pedido de desculpas e as coisas ficariam assim. Entretanto, dia 27 de abril, foi publicada uma matéria no UOL sobre um bolão para acertar o dia que a greve na USP começaria, que fiz há meses usando meu blog no Stoa, veja Ex-aluno da USP faz bolão e premia quem acerta dia de início da greve na universidade. A jornalista Simone Harnik entrou em contato comigo na tarde do dia 24 de abril, uma sexta-feira, pois queria entender melhor sobre o bolão. Deixei claro para ela que eu não tinha mais nenhum vínculo com a USP, muito menos com o Stoa, apesar de eu ter ajudado a criar o projeto.

A publicação dessa matéria no UOL Educação parece ter sido a gota d’água para a reitora da USP, Suely  Vilela, pois, segundo fui informado por email na noite do dia 27 de abril, ela ligou para o diretor do CTI dizendo algo do tipo “Como é que vocês afastaram o Everton do projeto e aparece essa matéria com ele na capa do UOL?”. Pressões da reitoria sobre Gil da Costa Marques surgiram, que entrou em contato com o coordenador do projeto Stoa, que entrou em contato comigo.

Fui informado que minha conta seria excluída, a pedido do diretor do CTI (pressionado pela reitora ou alguém da reitoria, imagino), o que foi feito ontem, dia 28 de abril. Eles deram um tempo para eu fazer backup dos meus textos do meu blog e fóruns de discussão, que eu já fazia assinando os feeds RSS no Google Reader (depois vou ter que publicar um a um nesse novo blog e infelizmente perdi todos comentários).

O pedido de desculpas acabou sendo publicado pela equipe Stoa na noite do dia 28 de abril, veja Sobre uma falsa notícia veiculada no Stoa, o que acabou repercutindo muito mal de imediato e gerou protestos por parte de usuários do Stoa (atualização: os textos publicados no Stoa foram alterados para ficarem visíveis apenas para usuários online, portanto coloquei links para locais externos onde foram publicados):

Após terrível repercusão, o Stoa foi colocado em estado de manutenção, me parece que a pedido do diretor do CTI, de modo que ninguém pode ver textos na página principal, nem logar-se no sistema.

Salvei os textos acima no meu computador, pois temo que o sistema Stoa será desligado da tomada, assim, sem mais nem menos, pois parece que o sistema hierárquico da Universidade de São Paulo funciona assim: alguém com mais poder político pode fazer e desfazer o que quiser, sem precisar dar satisfação ou justificativas racionais alguma a todos envolvidos (afinal, são quase 9 mil usuários cadastrados no Stoa!).

Nesse texto quis apenas relatar o que ocorreu e a cronologia dos fatos, tentando ser o mais imparcial possível. Depois escrevo mais sobre o ocorrido e a sucessão dos fatos, iniciados por uma fatídica brincadeira de 1º de abril.

Posts relacionados

Esse texto foi originalmente publicado num novo blog que criei (http://blogdotom.wordpress.com), após meu blog do Stoa ter sido apagado:  Sobre meu afastamento do Stoa por causa de uma brincadeira de 1º de abril até a exclusão da minha conta

A semana nos arXivs…

sexta-feira, 10 abr 2009; \15\America/New_York\America/New_York\k 15 Deixe um comentário

Regulamentação da profissão de físico

sexta-feira, 10 abr 2009; \15\America/New_York\America/New_York\k 15 70 comentários

Disclaimer: Como sempre, nesses artigos mais polêmicos, prefiro começar deixando claro que as opiniões que se seguem são minhas e podem não corresponder às opiniões dos colegas editores do blog. Além disso, não quero ofender ninguém com o texto escrito e estou criando esse artigo justamente para promover a discussão entre pessoas com opiniões divergentes.

Curta história da regulamentação e o projeto de lei.

Já tem bastante tempo que uma parcela dos físicos brasileiros discute uma possível regulamentação da profissão de físico no pais. Esse boletim da SBF conta um pouco da história:

Regulamentação da Profissão de Físico

Não me é claro a necessidade nem os benefícios de uma regulamentação da profissão de físico. Na verdade, vejo isso como um passo para trás e, pelos motivos que tentarei mostrar aqui e por outros que possam ficar para futuras discussões, vou tentar argumentar porque sou contra esse projeto de lei. Eis o projeto:

Projeto de Lei 159 – 2005

O projeto foi incialmente apresentado pelo senador Crivella do Rio de Janeiro após ter sido contactado por Luiz Cesar Barçante. Mesmo depois de muito tempo e de muitas discussões acaloradas com o Barçante, até hoje não me é claro qual foi sua motivação inicial para levar esse projeto adiante. A SBF, que sob uma certa lógica seria um órgão adequeado através do qual propôr esse projeto, abraçou o projeto de lei inclusive modificando-o levemente com um pré-projeto que já tramitava internamente a alguns anos.

Objetivo de uma regulamentação.

A primeira coisa a se perguntar é: qual é o objetivo de uma regulamentação de uma profissão e o que ela representa. Toda profissão tem sua importância social, mas algumas profissões influenciam diretamente a vida de indivíduos. Nesse caso, o governo regulamenta a profissão criando um órgão que garante a reponsabilidade social e legal no exercício da profissão para que ninguém sofra diretamente com más condutas. Por exemplo, é esperado que o governo regulamente quem pode exercer a profissão de cirurgião, já que é óbvio que uma má conduta pode levar a morte de um indivíduo. Da mesma forma, é entendido que a pessoa que vai projetar um arranha-céu seja um engenheiro com conhecimento para tal. Assim, na minha forma de ver, a regulamentação de uma profissão tem por objetivo a proteção da sociedade e não do profissional. Eu concordo que em alguns casos, principalmente os mais antigos, a regulamentação da profissão tenha sido criada para defender o profissional, mas com esse objetivo não faz sentido discriminar cada profissão e é para isso que temos a consolidação das leis do trabalho.

Nesse ponto já temos que começar a nos perguntar se isso se aplica a física. Sinceramente, não vejo como. É claro que física tem um impacto social, mas pela forma como é exercida ela tende a ser auto-regulatória. Não há ninguém que precisa ser protegido diretamente e somente quem é de fato competente consegue ter impacto na sociedade. Novamente, não quer dizer que não haja físicos incompetentes atuando profissionalmente, claro que há e sempre terá. Mas isso é um problema local que não justifica uma regulamentação. Na verdade, não é óbvio que uma regulamentação faria com que eles deixassem de existir. Usando novamente o exemplo da medicina e da engenharia, que são profissões regulamentadas, não é difícil encontrar profissionais incompetentes exercendo suas funções e que não são repreendidos nem pelo próprio conselho criado na regulamentação. Minha impressão é a oposta, que esses conselhos criam um corporativismo que torna difícil avaliar esses profissionais.

O ponto principal é que a física é uma profissão essencialmente de pesquisa, mesmo que essa não seja exercida no meio acadêmico. É uma inverdade que apenas o curso de física habilita a pessoa a desenvolver tal pesquisa, mesmo em áreas reconhecidas como “físicas”. O curso de física é um facilitador, é um lugar onde as pessoas adiquirem conhecimentos básicos para desenvolver tais pesquisas, mas de longe não é um curso profissionalizante. E mais uma vez é latente a incompatibilidade de uma regulamentação com a profissão de físico. É ridículo de imaginar que uma pessoa formada, por exemplo, em engenharia não poderia ser empregada numa indústria de semicondutores para pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias em estado sólido. E isso é só um exemplo. O desenvolvimento de novos conhecimento e o acesso a eles deve ser livre a qualquer pessoa, não somente àqueles que portam um pedaço de papel.

Físico é profissão? Desvantagens imediatas e vantagens duvidosas.

Um argumento usado muitas vezes em defesa da regulamentação é que ela “criaria” oficialmente a profissão de físico no aspecto legal. Isso é mentira, inclusive ofensiva! A profissão de físico é reconhecida como ocupação trabalhista pelo governo como pode ser facilmente verificado numa leitura rápida:

Classificação Brasileira de Ocupações – Físico

Repito: físico é profissão. Regulamentar não é sinônimo de reconhecer.

Uma regulamentação vem imediatamente com um ônus: burocracia. É previsto a criação de conselhos federais e estaduais para controlar e legislar sobre o exercício da profissão. Isso também implica em dinheiro para manter essa estrutura, ou seja, teríamos que começar a pagar para exercer a profissão de físico no país. Burocracia tem que ser muito bem pensada e justificada, porque uma vez criada nunca mais se destrói. Essa burocracia, como venho tentando mostrar, não trás nenhum benefício.

Não estou dizendo que a organização de uma classe de trabalhadores não pode trazer vantagens. Claro que pode. E esse, no meu entender, é o papel da Sociedade Brasileira de Física. Se a SBF não funciona conforme os profissionais almejam (e não estou dizendo que este seja o caso), o que se deve fazer é mudar a SBF e não criar uma estrutura burocrática maior ainda.

Uma pretensa vantagem que uma regulamentação traria é a reserva de mercado e a garantia de um salário mínimo honesto para a profissão. Vou comentar mais sobre isso a seguir, mas a pergunta aqui é: reserva de mercado para que mercado? Regulamentar uma profissão e reservar o exercício aos portadores de um diploma não vão fazer vagas aparecerem de um dia para o outro. Isso é uma ilusão.

Engessamento das atribuições profissionais e empregos fora da academia.

A física tem mais uma característica que torna uma regulamentação complicada. Sua área de atuação é incrivelmente diversa e continua crescendo. O projeto de lei em questão justifica a regulamentação citando exemplos de aplicações modernas que não existiam 50 anos atrás. Por exemplo: econofísica, física médica, entre outros. Mas pela própria forma como ciência é feita, é provável que em 50 anos físicos atuem profissionalmente em áreas que nem existem hoje em dia. E então o que faremos? Físicos brasileiros não poderão trabalhar nessa área? Ou teremos que rever todas as leis num processo lento, engessado que só traria prejuízos? Minha impressão é que é nenhum dos dois, e que essa lei seria simplesmente ignorada. Novamente, gastos e nenhuma vantagem.

Engessamento profissional rapidamente se reflitiria nos cursos universitários que seriam também engessados para formar cada vez mais resolvedores de problemas daquelas áreas previstas na lei. Isso é ortogonal ao que eu entendo por ciência. Fazer ciência, fazer física é criar coisas novas. Novas idéias, novas teorias, novos experimentos, novas tecnologias, novas aplicações. Como que um projeto de lei pode determinar o que é novo?

Isso tem conexão imediata com outra argumentação em defesa da regulamentação: a inserção do profissional da física nas indústrias, ou mais geralmente, fora da academia. Várias vezes já ouvi dizer que no Brasil não há físicos fora da academia porque a profissão não é regulamentada. Antes de argumentar logicamente contra, deixa eu dar um contra exemplo. Essas mesmas pessoas concordam que em países de “primeiro-mundo”, como aqui nos EUA, essa inserção existe. De fato, eu vejo que muitos formandos do bacharelado em física vão para o mercado e não para academia (se você não acredita em mim, veja a estatística da AIP abaixo). E não há uma regulamentação da profissão de físico para garantir isso.

Trends in initial outcomes of physics bachelor’s 1995-2006

O que há é emprego e profissionais capacitados. A formação de um profissional da física para academia é muito diferente da formação de um profissional para o mercado. Se queremos realmente que físicos tenham mais empregos em indústrias, por exemplo, a primeira coisa que temos que fazer é ter cursos com esse objetivo em foco. Os cursos de física no Brasil, salvo poucas excessões, são extremamente acadêmicos (me parece, embora não conheça de perto, que os cursos da USP-São Carlos e da UNICAMP tem um carácter não-acadêmico). E isso é algo que vem de longa data, nossos professores foram formados assim e estão apenas repassando sua forma de ver física. Se queremos mudar isso, precisamos de uma política específica para mudar o perfil da formação profissional. Não de uma regulamentação.

Além disso, claro, precisamos de empregos. Não adiante nada ter profissionais capacitados se não há onde trabalhar. Nada que uma regulamentação vá criar. Uma regulamentação não vai criar empresas de tecnologia de ponta onde físicos podem trabalhar desenvolvendo novas tecnologia. Uma regulamentação também não vai criar novos centros médicos onde físicos pode trabalhar desenvolvendo técnicas de medical imaging. Física aplicada, no estágio do desenvolvimento atual da física, exige a criação de um tipo de mercado que ainda é muito pequeno no Brasil. Mais vale lutar pela criação de uma política pública de incentivo de criação desse mercado do que por uma regulamentação. Quando esse mercado existir, esses empregos serão naturalmente preenchidos pelo profissional mais capacitado. Essas atividades são muito caras e ninguém quer jogar dinheiro fora. Se o físico for o profissional mais capacitado, não há necessidade de uma regulamentação. Tal como não há em nenhum outro lugar do mundo onde esses empregos existem e onde físicos são empregados neles.

Responsabilidade social: o caso da física médica e da física nuclear.

Outro argumento dado pelas pessoas que defendem a regulamentação é que existem áreas de atuação do profissional da física que têm impacto em indivíduos tão direto quanto um cirurgião ou um engenheiro, para usar os mesmos exemplos de antes. Esses são casos muito pontuais, mas para manter a honestidade da argumentação vou discutir alguns dos casos mais comuns: primeiramente o do físico médico e do físico nuclear e depois do professor de física.

O físico médico tem um papel cada vez mais preponderante no sistema de saúde moderno. Não só em medical imaging, como já citei, que são cada vez mais importante para diagnósticos mais precisos mas também em tratamento com radioterapia e feixes de aceladores de partículas. Já com essas atribuições e com as novas que certamente surgirão no futuro, a responsabilidade social desse profissional é similar à de qualquer outro profissional da saúde. É natural então que essa atividade seja regulamentada. Pode ser uma surpresa, mas ela já é: uma pesquisa rápida no site da ANVISA retorna legislações como essa e outras que tornam obrigatório por lei a presença de um profissional com especialização em física médica nessas atividades de saúde.

Também foi natural a criação de cursos de bacharelado em física médica. Isso é o exemplo prático do que argumentei na seção anterior. É necessário que haja profissionais capacitados e é isso que esses cursos treinam. Perfeitamente válido. O que não é válido é regulamentar toda a profissão de físico, prejudicando uma série de outros profissionais para algo que já existe.

O mesmo vale para as diversas aplicações da física nuclear. O governo mantém inclusive registro dos profissionais credenciados a exercer essas funções que são regulamentadas pelo CNEN:

CNEN – Profissionais Credenciados

É provável que existam outras sub-áreas da física, muito bem determinadas, que necessitem regulamentação. E como cidadão, não como físico, luto por elas. Mas isso não tem nada a ver com a regulamentação da profissão de físico como um todo.

O caso da licencitura em física: LDB e falta de professores.

Para finalizar, gostaria de comentar sobre a questão dos professores de física. Esse é um assunto que merece certamente um artigo só para ele (na verdade, eu já fiz algo nessa linha aqui no blog quando comparei o sistema americano com o brasileiro). Acredito que o exercício da profissão de professor de física para o ensino médio e fundamental tem uma responsabilidade social tão grande quanto um físico médico ou um físico nuclear. Basta abrir os olhos para ver o desastre que é uma geração inteira mal educada cientificamente.

Algumas pessoas dizem que uma regulamentação poderia melhorar essa situação ao exigir por força de lei que apenas licenciados em física pudessem exercer o cargo de professor dessa disciplina . Novamente, isso é falacioso. Primeiro, o problema não é só com professores de física. O problema é com os professores de ensino médio e fundamental. Então é inútil buscar uma solução dentro desse subconjunto. Além disso, já foi previsto desde a Leis de Diretrizes e Bases de 1996 que apenas licenciados em cada discplinas poderiam atuar como professor.

Lei de Diretrizes e Bases – 1996
Decreto No 3.276 – 1999

No entanto, o início da aplicação dessa lei vem sendo postergado devido a imensa falta de professores. Eu acho que a solução desses problemas vem através de melhores salários. E eu também acredito que a união dos profissionais em organizações de classe torna a reinvidação mais forte. Só não vejo porque tem que regulamentar toda a profissão de física para fazer isso.

Responsabilidade legal: indústrias e geração de tecnologia (update: 11/04/2009).

O primeiro feedback desse ensaio foi no orkut:

Pois se não há um conselho para físicos, como ele pode ser responsabilizado por possíveis erros? É exatamente por isso que físicos não podem ir para indústrias!

Em uníssono com a resposta do Daniel (no link), insisto que físicos não vão para o mercado, ou especificamente para indústrias, porque ou não são o profissional mais competente ou não há vagas no tipo de indústria que temos. A idéia de promover mais parcerias escolas-indústrias no curso de física, algo que existe até certo ponto em outros cursos, é muito mais eficiente do que regulamentar a profissão. Na verdade, isso é uma rua de duas mãos: as indústrias ganham com bom profissionais e as universidades ganham porque as indústrias vão investir na infraestrutura de ensino e pesquisa. Uma regulamentação não vai fazer isso acontecer. Um norte na política científica e, principalmente, uma mudança de visão das pessoas que administram os centros de ensino e pesquisa, sim.

Sobre a questão de responsabilidade legal, pouco posso comentar. Mas posso comentar um pouco como eu vejo a dinâmica da produção industrial. Gerar tecnologia é diferente de produzir tecnologia. O objetivo de uma pesquisa numa indústria, onde vejo os empregos para físicos, é gerar tecnologias, criar algo novo. Toda a responsabilidade e risco dessa atividade é interna ao empreendimento. Produzir a tecnologia gerada é outra atividade, que é uma das grandes atribuições da engenharia. A tecnologia produzida chega ao indivíduo fora do empreendimento industrial e isso implica em responsabilidades legais que inclusive justificam apropriadamente a regulamentação da engenharia.

O caminho de qualquer grande projeto moderno é a multidisciplinaridade. Para dar um exemplo, nesse post sobre estatística (no vídeo), o palestrante comenta sobre a necessidade de ter pessoas com formação de estatístico analisando os dados do projeto genoma. Se você quer fazer algo realmente complexo, é improvável que apenas uma pessoa, no tempo limitado de vida que temos, consiga dominar com perfeição todas as proficiencias necessárias para o projeto.

É verdade, contudo, que há físicos querendo trabalhar com engenharia, querendo produzir tecnologia. Alguns inclusives devem possuir o conhecimento para tal. Como venho insistindo, não é um pedaço de papel que define o que você sabe ou é capaz de fazer profissionalmente. Essas pessoas têm impedimento legal de fazer isso pois o CONFEA/CREA só reconhece como engenheiro aquele formado numa graduação em engenharia. Isso é uma limitação deles, um erro eu diria. Mas não se conserta um erro criando outro.

Conclusão.

A conclusão é que esse projeto de lei é, no mínimo, despropositado. Eu iria além dizendo que ele é potencialmente danoso. Para a maioria das coisas já temos leis suficientes e não há necessidade de qualquer burocracia extra. Das coisas que precisam ser mudadas, a maioria não exige a adoção de novas leis pelo legislativo mas sim a adoção de novas políticas públicas pelo executivo. O máximo que essa regulamentação irá criar são novos orgãos públicos que servirão de mais cabides de emprego e ferramenta de manobras políticas.

É impensável imaginar que só a pessoa que fez um curso superior de física possa fazer física. Sou contra.

Falando em fuga de cérebros…

terça-feira, 10 mar 2009; \11\America/New_York\America/New_York\k 11 Deixe um comentário

Pra quem sabe da importância desse assunto, os links abaixo são bastante interessantes e relevantes para essa discussão — vale a pena comparar o que ambos os textos dizem, e notar a diferença em política científica das partes envolvidas. Alguns trechos de ambos os artigos…

O trabalho que apresentei está disponível abaixo, e inclui alguns gráficos mostrando a forte tendência da CAPES e do CNPq de reduzir o apoio a estudos de brasileiros no exterior, e também de substituir as bolsas de doutorado por bolsas “sandwitch” de curta duração. Acho que estas políticas merecem uma discussão mais aprofundada.

A conclusão do artigo é que “es posible resumir esta discusión, remitiéndola a los riesgos y oportunidades que existen en la cooperación internacional. No se trata de optar por dos extremos, el de la internacionalización absoluta, que de hecho jamás va a existir, y el del nacionalismo cultural, científico y tecnológico, que tiene también obvios limites. Una política adecuada debería tomar en cuenta los beneficios del diálogo, oportunidades de aprendizaje y cooperación que existen cuando los caminos del intercambio y del flujo de personas e ideas están abiertos; asimismo, debería considerar los posibles límites de políticas educativas y de desarrollo científico y tecnológico que no invierten en la creación de instituciones de calidad en sus propios países, para que sea posible combinar de forma efectiva la investigación científica de calidad y actividades educativas, tecnológicas e científicas de interés y relevancia para sus propias sociedades. Esta no es, creo, una cuestión de recursos, sino que, principalmente, de orientación y actitud.

What should have been a short visit with her family in Belarus punctuated by a routine trip to an American consulate turned into a three-month nightmare of bureaucratic snafus, lost documents and frustrating encounters with embassy employees. “If you write an e-mail, there is no one replying to you,” she said. “Unfortunately, this is very common.”

Dr. Shkumatava, who ended up traveling to Moscow for a visa, is among the several hundred thousand students who need a visa to study in the United States. People at universities and scientific organizations who study the issue say they have heard increasing complaints of visa delays since last fall, particularly for students in science engineering and other technical fields.

(…)

The issue matters because American universities rely on foreign students to fill slots in graduate and postdoctoral science and engineering programs. Foreign talent also fuels scientific and technical innovation in American labs. And the United States can no longer assume that this country is everyone’s first choice for undergraduate, graduate or postgraduate work.

[]’s.

Edição de fevereiro.

terça-feira, 17 fev 2009; \08\America/New_York\America/New_York\k 08 36 comentários

O título é um pedido de desculpas por ter estado tão ausente nessas ultimas semanas, mas nem sempre dá para aparecer por aqui. Então, esse vai ser um post com diversos assuntos, motivado por conversas com colegas ao longo do último mês, a maioria no orkut. Então, nessa edição temos:

  1. História da física (parte 2) – Anomalias
  2. A história do Jim Simons, Renaissance Tech e Stony Brook
  3. Partícula num aro (parte 2) – Mecânica quântica
  4. Rapid communications: pós-graduações no EUA e conferência sobre supercordas

Há algum tempo, um colega me perguntou sobre a relação de laços de Wilson e anomalias. Eu não conhecia a relação e, na verdade, ela nem chega a ser muito profunda. Em vista da oportunidade, deixa eu contar o que são anomalias de uma forma semi-técnica, aborando um pouco da história envolvida.

Tudo começou com um cálculo que foi tentado por Tomonaga onde ele calculou perturbativamente em 1 loop o propagador do fóton \langle J_{em}^{\mu} J_{em}^{\nu} \rangle. Há dois fatos experimentais inequívocos sobre o fóton (que na verdade é um só): ele não tem massa e é trasnversal, ie, há apenas dois estados de polarização. O problema dessa conta é que as quantidades definidas na ação de Maxwell, quando interpretadas quanticamente não são as quantidades medidas. São parâmetros livres, que na verdade são divergentes. As quantidades medidas dependem das interações. Quando elas são levadas em consideração, essas divergências deixam de existir e a ação quântica efetiva passa a ser função de quantidades finitas. Essa é a idéia do que se chama renormalização: em teorias renormalizáveis a ação quântica efetiva tem a mesma expressão funcional quando renormalizada ou não, mas os limites são tomados em pontos diferentes.

Bem, deixando os detalhes técnicos de lado, Tomonaga encontrou uma massa para o fóton e um estado não transveral, correções indesejadas que não podiam ser renormalizadas (Tomonaga, naquela época, usava o curioso termo “amalgamado”). Não demorou muito para as pessoas entenderem o papel das simetrias no cálculo das correções quântica. Bem, o importante para história é que essas inconsistências levou Tomonaga e seus colaboradore, Fukuda e Miyamoto a examinarem o próximo diagrama mais simples: um triângulo, ie \langle J_{\pi}J_{em} ^{\mu}J_{em}^{\nu} \rangle em 1 loop. Novamente, o resultado parecia não preservar invariância de gauge e, algo novo, o acoplamento com um pseudovetor U_{\mu} era diferente de com um pseudoescalar \partial_{\mu}U, o que é inconsistente com a equação de Dirac (na camada de massa \partial_{\mu}(\overline{\psi}\gamma_5\gamma^{\mu}\psi)=-2m\overline{\psi}\gamma_5\psi). Novamente eles perceberam que o problema estava na relação das simetrias com as integrais divergentes que apareciam durante a conta.

Esse trabalho, depois de algum tempo, chegou aos ouvido de Steinberger, em Princeton, através de Yukawa. Eles então decidiram aplicar o então recente método de Pauli-Villars para refazer as contas. E, como os leitores envovidos nessa área devem saber, o resultado foi invariante de Lorentz e invariante de gauge. Contudo, a diferença no acoplamento entre pseudoescalar e do pseudovetor continuava diferente. Em linguagem moderna: há uma anomalia quiral! Eles não sabiam muito o que fazer com esse resultado na época e a melhor sugestão no fim do artigo era esperar pela detecção experimental da reação \pi^0\rightarrow 2\gamma. Acho que poucas pessoas adotariam essa postura hoje em dia :D, mas o importante é que esse decaimento do pi-zero, na época chamado de Neutretto, de fato existe.

O problema, claro, não é simples e demorou até 1951 para Schwinger publicar uma nova forma de ataque ao problema. Num artigo que considero muito bonito “On Gauge Invariance and Vaccum Polarization”, Schwinger notou pela primeira vez com clareza que era necessário que os métodos de resolução das funções de Green fossem a todo instante invariantes de Gauge para que o resultado também fosse. Ele mostrou que a auto-energia do fóton, de fato, cancela na camada de massa e tudo parecia feliz. Mas ele também encontrou que o acoplamento para o pseudovetor e o pseudoescalar eram iguais. Um resultado que parece contrariar a existência de uma anomalia quiral. Schwinger justamente introduzia linhas de Wilson para fazer um “point-spliting” da corrente divergente. Vou deixar comentários extras para o final.

Mas outros muitos anos se passaram, e apesar dos problemas, as pessoas continuaram a usar teorias quânticas de campos para descrever a fenomenologia das interações fracas, que era o assunto quente da época. Em 1963, Rosenfeld, estudando a propriedade dos neutrinos na teoria V-A esbarrou no mesmo problema do diagrama triagular e fazendo a conta de forma a manter a invariância de gauge, ele calculou pela primeira vez a expressão da anomalia quiral, mas não deu prosseguimento à análise do resultado. Nessa época, teorias quânticas de campos não estavam muito em alta. Existiam outras teorias com pretensão de substituí-la, como a teoria de Regge e o programa da matriz-S. Existiam também teorias que pretendiam descrever teoria quântica de campos de uma forma não-perturbativa, como a teoria de álgebras de correntes.

Foi meio natural que as pessoas que trabalhavam com álgebras de correntes tentassem verificar seus resultados perturbativamente com TQC, e várias dessas pessoas deram contribuições determinantes para a criação das teorias modernas de gauge. Em particular, Gell-Mann e Levy, na década de 60, escreveram um artigo analisando as “PCAC” (putz… nem interessa! :roll:, na prática quero dizer \partial_{\mu}j_5^{\mu}=f_{\pi}m_{\pi}^2\pi(x) ) num modelo sigma linear. Na teoria quântica de campos que eles montaram, essa relação era realizada classicamente. É modelinho muito interessante com simetria SO(4) e quebrada espontaneamente. Esse trabalho se tornou uma leitura obrigatória em vários dos centros importantes de teoria quântica de campos na época. Em Stony Brook, B. Lee começou a estudar a renormalização dessa teoria e escreveu um pequeno livro influente sobre o assunto. Um aluno de doutorado de Utretch, G. ‘t Hooft, conheceu Lee na escola de verão de Carsège e resolveu aplicar os métodos para teorias de gauge. Deu no que deu. 😈

Depois disso, não demorou muito para Adler e, indendentemente, Bell e Jackiw entenderem a origem das anomalias como simetrias da ação clássica que não existem na ação efetiva quântica e escrevê-la como é conhecida hoje em dia. Vale notar no artigo do Bell e Jackiw, durante a batalha para entender quando a anomalia aparecia ou não nas contas, o seguinte comentário que vai no coração da questão:

Since the integral is linearly divergent a shift of variable picks up a surface term.

🙂 Que seja. Essa história, claro, não termina por aqui e tem muito mais coisa interessante. Mas fica para outro dia.

Antes de terminar, deixa eu só fazer um comentário sobre a conta do Schwinger. Eu acho que quem entendeu o que estava acontecendo foi o Adler. Schwinger, na sua ânsia justificada de preservar a invariância de gauge, considerava apenas derivadas covariantes na equação de conservação da corrente. Isso gera um termo extra igual a menos a anomalia. Ele também regularizava a corrente usando laços de Wilson, o que, naturalmente, preserva a invariância de gauge e introduz um termo igual a mais a anomalia. E assim, ambos se cancelam. Acontece.


Semana passada, o Jim Simons veio aqui na universidade conversar com os alunos durante o colóquio. Claro que colóquio com o Jim Simons não fica limitado aos alunos, mas lota o auditório. Foi razoavelmente interessante, ele contou sobre sua trajetória. Posso reproduzir um pouco do que ouvi e do que minha memória não fez questão de perder. Eu sei que tem leitores e editores aqui diretamente interessados em análise do mercado financeiro e, se infelizmente não posso dar muitos dados técnicos, pelo menos poderei contar uma história de sucesso.

O colóquio, que foi atípico, teve o título oficial de “Matemática, Bom Senso e Boa Sorte”. Para quem não sabe, O Jim Simons foi diretor do Instituto de Matemática de Stony Brook na década de 60, quando ele ainda não era o 178-ésimo homem mais rico do mundo. Ele hoje é dono da Renaissence Technologies, um fundo de investimento muito bem sucedido. Simons, que é o mesmo das “formas (teoria) de Chern-Simons”, nunca se afastou da universidade e investe muito dinheiro aqui. Ele, há alguns anos, quando o DOE resolveu cortar fundos dos laboratórios nacionais, manteve o BNL funcionando com dinheiro do seu bolso. Recentemente, ele doou quase 100 milhões para a construção do Simons Center for Geometry and Physics:

Simons Center for Geometry and Physics

Durante o colóquio ele anunciou mais uma doação de 20 milhões para o departamento de física. Isso só para citar as grandes doações. O Simons também mantém diversos programas aqui dentro, como um centro de formação em física de aceleradores, um programa para jovens do ensino médio em física de laser, entre outras coisas. O Brasil tem várias pessoas acima dele na lista da Forbes: o Antônio Ermírio de Moraes, Joseph Safra, o Eike Batista e o Jorge Paulo Lemann. O Safra recentemente fez algo semelhante com o IINN que já foi citado várias vezes aqui no blog. O Lemann também mantém programas de colaboração entre o Brasil e a universidade de Harvard, que se não é ideal, pelo menos é bom (ele doou um dinheiro para construção, em SP, de um escritório para organizar essas colaborações). Os demais, eu não sei estão associados à algum projeto desse porte. Mas se não estão, deveriam.

A parte matemática do título é então antiga. Naquela época, Simons era um recém doutor em matemática com um emprego em Princeton cuja carga horária deveria ser dividida metade para matemática e a outra metade para decifrar códigos da Guerra Fria. Só que um dia ele resolveu dar uma declaração para um jornalista dizendo que ele estava usando todas as metades da matemática agora e que só depois iria usar a metade para decifração de códigos de guerra. Bem, não é preciso muita imaginação para saber o que aconteceu com ele no mesmo dia. Despedido de Princeton, ele foi contratado para ser diretor (e efetivamente montar) o recém criado Insituto de Matemática de Stony Brook, um emprego que, para ser sincero, ninguém queria. Ele topou e começou um grupo que deu grandes frutos. Hoje, o programa de pós-graduação de Stony Brook normalmente aparece entre os top 5 do país. Durante sua estada aqui como diretor ele também manteve colaboração com o Yang no Instituto de Física. Os dois foram dos principais responsáveis por criar a ponte entre a física e a matemática das teorias de gauge (conexões de fibrados).

Agora vem a parte boa sorte. Naquela época, Simons investiu dinheiro com um amigo que trabalhava com câmbio e, por sorte, ganhou uma bolada de alguns milhões. E milhões de dólares naquela época era muito mais do que hoje. Milionário de uma hora para outra, ele resolveu mudar de direção na vida. Se esse colega dele podia ganhar dinheiro, ele também poderia. Matemático que era, ele e um outro professor daqui de Stony Brook começaram a tentar criar modelos para investir em câmbio. A realidade é que não deu muito certo, mas Simons conta que naquela época era tão fácil ganhar dinheiro, que ele rapidamente multiplicou seu dinheiro por um fator de 10 (e ele conta que isso nem chegou a impressionar muita gente).

Bom senso é a última parte. A década de 80 veio e ganhar dinheiro ficou um pouco mais difícil. Nesse ponto, ele decidiu novamente investir somente na construção de modelos. Com a ajuda de outro matemático (que me esqueci o nome, acho que ele não está mais na Renaissance Tech, parece que ele não conseguia trabalhar muito bem em equipe), ele abandonou completamente o tipo de investimento que fazia antes para só fazer investimentos baseados nos resultados desses modelos de mercado. Dessa vez deu certo. Hoje em dia, a Renaissance Tech conta com uma equipe composta basicamente de Ph.D.s e se orgulha de ter, mantidas as devidas proporções, um ambiente de trabalho acadêmico num fundo de investimento. Nem todos matemáticos, claro. Parece que hoje em dia há muito cientista da computação, já que além de criar modelos eles tem que lidar com a análise de 3 TB de dados por dia e tomar as decisões antes dos concorrentes. Se há alguma diferença do meio acadêmico real é que o resultado das suas idéias está alí, na sua frente, tudo reduzido a quanto dinheiro você ganhou ou perdeu.

No que volta à matemática. Simons recentemente voltou a trabalhar com matemática. Ele certamente é o aluno mais rico do mundo nessa área :P. E está trabalhando ativamente com o Dennis Sullivan, aqui mesmo em Stony Brook. Interessante, não?


Há algum tempo atrás, eu e Leandro escrevemos sobre a mecânica clássica de uma partícula num aro e como se pode aprender bastante sobre física com esse modelo simples. O post teve uma repercussão ótima e me motiva a fazer uma segunda parte. Vamos agora estudar a mecânica quântica de uma partícula no aro e vamos ver que podemos aprender também uma miríade de coisas através de analogias. Esse post vai ser um pouco mais alto nível, mas com certeza tem seu público.

Vou começar com uma lagrangeana bem geral:

L=\frac{M}{2}\dot{\phi}^2+A\dot{\phi}

Note que o segundo termo, sendo uma derivada total não influencia a equação de movimento que é simplesmente M\ddot{\phi}=0, onde M é o momento de inércia e \phi é uma variável angular.

Duas coisas devem ser notadas, para um determinado tempo inicial e final, há infinitas soluções para as equações de movimento, classificadas por um número inteiro (o número de voltas que ela dá no círculo). Isso é uma consequência da topologia não-trivial, ou mais especificamente, do grupo fundamental não-trivial, do círculo. Esse é o tópico que quero falar.

Além disso note que apesar de não mudar as equações de movimento, o momento canônico e a hamiltiana se alteram:

p =m\dot{\phi}+A;\qquad H=\frac{1}{2M}(p-A)^2

e é por isso que a mecânica quântica desse exemplo é tão bacana. Quantizar o sistema corresponde a tornar \phi,p operadores num espaço de Hilbert tal que [\phi, p]=i. O estado da partícula será então descrito por uma função de onda que obedece à equação de Schrödinger H\psi=E\psi. Para p ser uma quantidade mensurável, é necessário que ele seja auto-adjunto. Certamente, se escolhermos uma representação em que p=-i\partial_{\phi} ele será hermitiano. Porém, para ser auto-adjunto ele temos que definir condições de contorno do tipo \psi(\phi+2\pi)=e^{i\xi}\psi(\phi) onde diferentes escolhas de \xi correspondem à situações físicas distintas que pode, em princípio, serem diferenciadas por experiências de espalhamento. Vale a pena fazer a conta da matriz-S para verificar isso por si próprio, é supreendente a importância das condições de contorno.

Vamos começar com o caso \xi=0. A solução do espectro nesse caso é simples:

\psi_m=e^{im\phi};\qquad E_m=\frac{1}{2M}(m-A)^2;\qquad m\in\mathbb{Z}

Se você conhece o efeito Aharanov-Bohm, vai notar que A nada mais é que um fluxo magnético de valor \theta=2\pi A. Inclusive, fazendo conexão como tópico anterior, acho que as primeiras pessoas a notarem a hoje óbvia descrição desse efeito através da holonomias de conexões em fibrados foi justamente Yang e Simons. Mas voltando, note que a ação correspondente a A será:

S_{top}=\int_{t_1}^{t_2}A\dot{\phi}=\theta\frac{\Delta\phi}{2\pi}

que só depende das posições iniciais e finais. Essa ação também conta quantas vezes a partícula deu a volta no círculo. Como é comum escrever \theta para o fluxo magnético, esse tipo de termo ficou conhecido como termo \theta, sobre o qual já falei várias vezes aqui.

Note ainda que \theta múltiplo de 2\pi não afeta o espectro e que para \theta múltiplo ímpar de \pi, o espectro é simétrico por paridade.

Uma pessoa mais ousada arriscaria dizer: “Esse termo A eu tiro com uma transformação de gauge (classicamente: trasnformação canônica) da solução”. Você pode até tentar, só que aí suas condições de contorno vão corresponder a \xi=-\theta que, como eu argumentei, é fisicamente distinta.

Um outro método de quantização é o de integral de trajetórias. Nesse caso, a ação do termo topológico fatora e a função partição euclidiana fica escrita como:

Z=\sum_{Q=-\infty}^{\infty}e^{i\theta Q}\int_{\phi(0)-\phi(T)=2\pi Q}\mathcal{D}\phi\,e^{-\int_0^T d\tau M\dot{\phi}^2/2}

para baixas temperaturas (ie, longos tempos euclidianos), só o estado de menor energia importa. Se considerarmos M\rightarrow 0, o estado de menor energia fica duplamente degenerado e esse estado passa a ser igual a uma partícula de spin 1/2. Não estou dizendo que essa é a origem do spin, não há nenhuma simetria SU(2) nesse problema, mas um modelo parecido com esse pode e é utilizado como uma teoria efetiva para (quasi-)partículas de spin 1/2 e, além disso, partículas de spin 1/2 são fermions e a origem das duas possíveis estatísticas em 3 dimensões – férmions e bósons – tem tudo a ver com esse tipo de análise topológica.

Termos \theta se multiplicam na física e eu acho que esse pequeno exemplo deu para ilustrar várias de suas características:

  • Realiza representações irredutíveis unitárias do grupo fundamental do espaço-alvo. Bem, não discuti isso, mas é por isso que o termo se chama topológico;
  • Responsável pela interferência quântica entre setores toplógicos. Note que quando escrevi a função partição após rotação de Wick (supondo que ela seja possível), a única superposição quântica residual é devido ao termo topológico;
  • Não afeta as equações de movimento;
  • Muda as condições de quantização do espectro quântico;
  • É um termo periódico, não quantizado contudo;
  • \theta=0,\pi possuem simetrias adicionais;
  • \theta=\pi implica em degenerescência do espectro;
  • Equivalente a uma mudança nas condições de contorno.

Claro que esse não é o único termo topológico possível. Para fazer conexão agora com o primeiro tópico que eu escrevi, no estudo de anomalias é bem relevante a ação de Wess-Zumino-Witten (é o termo de anomalia integrado), que também é um termo topológico. Há muitos outros, mas eles ficam para outra chance. (Se eu for cumprir todas essas continuações, não trabalho mais :P)


Ping-pong rápido:

  1. Eu, quando estava aplicando para os EUA, juntei nessa comunidade do orkut:

    GRE – Física (orkut)

    muita informação sobre o processo de vir estudar aqui com o intuito de ajudar as pessoas que querem mas não encontram ajuda, como foi meu caso. A realidade é que poucos alunos de física no Brasil tentam vir para os EUA. Acho que muitos não tentam não é porque não querem, mas porque não tem informações suficientes. Infelizmente, muita informação que estava na comunidade foi perdida ou está desatualizada. Mais do que isso, os mesmos motivos que estão fazendo a gente se mudar do orkut para o BC e para o AP, estão me motivando, junto com um colega brasileiro que também é doutorando aqui em Stony Brook, a criar um fonte mais acessível para essas informações. Manterei vocês atualizados. No entanto, eu sei que alguns colegas e leitores daqui estudam no exterior e, então, eu “convoco” vocês a divulgar mais as informações, de forma organizada, como é o processo de aplicação para ajudar as pessoas mais novas e incentivá-las a ir atrás de uma boa formação profissional.

  2. Está acontecendo no KITP/UCSB uma conferência sobre supercordas com vários cursos bacanas de coisas realmente modernas e atualizadas nessa área.

    Para quem quiser ver as palestras: Fundamental Aspects of Superstring Theory

    É uma conferência longa com várias palestras didáticas. Além disso, ela está comemorando o octagésimo aniversário do Stanley Mandelstam que teve um papel proeminente para o desenvolvimento dos primórdios dessa teoria.

Até a próxima.

Manifesto da Sociedade Brasileira Física

quinta-feira, 5 fev 2009; \06\America/New_York\America/New_York\k 06 3 comentários

Hoje de tarde a Sociedade Brasileira de Física (SBF) enviou para os seus sócios o seguinte manifesto.

“Prezado Sócio

Como é sabido, o Congresso propôs um corte de 52% no orçamento de 2009 que o Executivo formulou para a área de C&T. Propôs também um corte de quase R$1 bilhão no orçamento da apes. Juntamente com a SBPC, a SBF tem manifestado apoio ao Executivo em seu esforço de recompor o orçamento para eliminar ou minimizar os cortes em C&T e Educação. Um artigo sobre o assunto, assinado pelos presidentes da SBPC e da SBF, foi publicado na Folha de SP em 25/01/2009 e seu impacto foi bastante para que um editorial da Folha fosse publicado dois dias depois.
Temos notícia de que o Executivo tem tido sucesso nas negociações com o Congresso, mas é necessário que nos movimentemos em concerto até que o orçamemnto final seja aprovado em março vindouro.
Convocamos todos os sócios a se pronunciarem por todos os meios que lhe forem disponíveis: artigos em jornais, contatos com congressistas e com formadores de opinião. Mensagens por email a congressistas podem ser muito efetivas, especialmente a:

José Sarney <sarney@senado.gov.br>, Presidente do Senado
Delcídio Amaral <delcidio.amaral@senado.gov.br>, Relator da Comissão Mista de Orçamento

Michel Temer <dep.micheltemer@camara.gov.br> Presidente da Câmara dos Deputados
Mendes Ribeiro Filho <dep.mendesribeirofilho@camara.gov.br> Presidente da Comissão Mista de Orçamento

Um texto sugerido para tal mensagem, caso lhe falte tempo para fazer o seu, é:

Senhor Senador(Deputado)

Como membro da comunidade científica e tecnológica do país, venho manifestar minha preocupação com cortes que o Orçamento da União para 2009 possa sofrer nos campos da Educação, Ciência e Tencologia. Para enfrentar a crise econômica internacional, muitos países líderes decidiram investir solidamente nesses campos, e ao Brasil não resta outra opção. Solicitamos ainda atenção do Exmo Senador(Deputado) para o fato de que interrupções, mesmo breves, em programas de pós-graduaçao e ciência podem comprometer esforços que vêm sendo realizado há longo tempo, o que torna o dano muito desproporcional à poupança.

Agradecemos a coloboração de todos.

Alaor Chaves – Presidente da SBF”

Eu já fiz a minha parte, acabei de mandar um email para estes senadores e deputados, um email não vai mudar nada, mas muitos podem fazer muita coisa.

Manifesto contra corte de recursos para Ciência e Tecnologia

segunda-feira, 2 fev 2009; \06\America/New_York\America/New_York\k 06 7 comentários

Acabo de ler num post do Antônio Guimarães, pós-doc do IAG USP, que criaram um manifesto contra o corte de verbas para a Ciência no brasil, divulgado recentemente aqui no Ars Physica.

Reproduzo aqui o texto do manifesto. Para assiná-lo, acesse http://www.edm.org.br/edm/manifesto.aspx

A possibilidade de corte de recursos do Ministério de Ciência e Tecnologia, se consumado,
irá interromper o ciclo virtuoso de progresso científico, iniciado há mais de duas décadas.

Um sólido desenvolvimento científico e tecnológico é, nos dias de hoje, o caminho mais consistente para a riqueza e a soberania das nações. Os países que apresentaram maior desenvolvimento social e econômico no período que se seguiu à Segunda Grande Guerra foram aqueles que, independentemente do seu modelo político, implementaram uma política consistente e de longo prazo para o aprimoramento de suas pesquisas. O Brasil nas últimas três décadas vem exercendo uma política consistente na área de Ciência, cujo resultado é hoje medido pelos índices expressivos de sua produtividade científica. Mais importante, o aumento da qualificação do parque brasileiro de pesquisa e a inovação tecnológica dela decorrente vêm gerando riquezas ao país. Temas estratégicos para o desenvolvimento nacional, tais como o aumento da produtividade agrícola, a descoberta de novos campos de petróleo e gás, o desenvolvimento de fontes alternativas de energia, o aprimoramento da tecnologia aeronáutica, as estratégias inteligentes de conservação ambiental, as pesquisas em genética e os novos procedimentos de tratamento de moléstias de nosso povo (incluindo a utilização de células-tronco, a produção de novos medicamentos e a instrumentação médica) possuem, todos eles, a “impressão digital” dos pesquisadores brasileiros.

Nesse cenário, vemos com grande preocupação a possibilidade de corte de recursos do Ministério de Ciência e Tecnologia, que, se consumado, irá interromper o ciclo virtuoso de progresso científico, iniciado há mais de duas décadas. Um retrocesso nesse momento resultará em conseqüências negativas em médio e longo prazo. Oportunidades de pesquisa serão perdidas, pesquisadores jovens e experientes migrarão para países que lhes ofereçam melhores oportunidades, e um grande número de estudantes perderá a oportunidade de ingressar em atividades de pesquisa. O atual governo dos Estados Unidos da América do Norte isentou de cortes a área de Ciência e Tecnologia, mesmo estando no centro da grave crise econômica. Com isso, os EUA elegem o desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia como um instrumento poderoso para vencer as vicissitudes da atual conjuntura e promover o bem estar social.

Temos convicção de que o Congresso Nacional, fórum maior das decisões dos destinos da Nação, será sensível a esta questão e assegurará as condições para o contínuo progresso científico e tecnológico de nosso País, recompondo as previsões orçamentárias para o ano de 2009, que foram elaboradas com sobriedade e alinhadas com as metas do Plano de Ação de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Nacional. Somente com investimentos em ciência e tecnologia sairemos fortalecidos dessa crise.

Prof. Dr. Colombo Celso Gaeta Tassinari
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Técnicas Analíticas para Exploração de Petróleo e Gás

Prof. Dr. Euripedes Constantino Miguel
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Psiquiatria do Desenvolvimento para crianças e adolescentes

Prof. Dr. Glaucius Oliva
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Biotecnologia Estrutural e Química Medicinal em Doenças Infecciosas

Prof. Dr. João Evangelista Steiner
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Astrofísica

Prof. Dr. Jorge Elias Kalil Filho
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Investigação em Imunologia

Prof. Dr. José Antonio Frizzone
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Pesquisa e Inovação em Engenharia da Irrigação

Prof. Dr. José Carlos Maldonado
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Sistemas Embarcados Críticos

Prof. Dr. José Roberto Postali Parra
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Semioquímicos na Agricultura

Prof. Dr. Marcos Silveira Buckeridge
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol

Profa. Dra. Mayana Zatz
Coordenadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Células-Tronco em Doenças Genéticas Humanas

Profa. Dra. Nadya Araújo Guimarães
Coordenadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos da Metrópole

Profa. Dra. Ohara Augusto
Coordenadora do Instituto Nacional de Ciência Tecnologia de Processos Redox em Biomedicina-Redoxoma

Prof. Dr. Paulo Hilário Nascimento Saldiva
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Análise Integrada do Risco Ambiental

Prof. Dr. Roberto Mendonça Faria
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Eletrônica Orgânica

Prof. Dr. Roberto Passetto Falcão
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Células-Tronco e Terapia Celular

Prof. Dr. Sérgio França Adorno de Abreu
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Violência, Democracia e Segurança Cidadã

Prof. Dr. Vanderlei Salvador Bagnato
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Óptica e Fotônica

Enquanto isso, no brasil… Corte de verbas para Ciência

quinta-feira, 22 jan 2009; \04\America/New_York\America/New_York\k 04 14 comentários

Enquanto o presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, está a caminho de um maior estímulo a pesquisas científicas em seu país, tendência mundial, como na Índia, Coréia do Sul, China (alguém acha um link?) e possivelmente muitos outros países, o Brasil está cortando 18% das verbas destinadas para ciência e tecnologia.

Aqui você é o palhaçoO ministro da ciência e tecnologia, Sérgio Resende, considera o corte de R$ 1,1 bilhão como irresponsável. Segundo a matéria da Folha, o responsável pelo corte é o deputado senador Delcídio Amaral (PT-MS).

Me pergunto, o que o minstro fez para evitar esse corte absurdo?  O que podemos fazer na prática como forma de protesto? Não sei se é reversível, mas os responsáveis devem pagar. Que tal algum leitor daqui adotar o deputado senador Delcídio? (Melhor estender mais ainda a campanha Adote um Vereador, como já sugerido pelo Névio.)

Atualizando (22/01/08 às 14h):

Notícias relacionadas (entendendo a crise):

Veja também

Pensando o quê…?!

terça-feira, 18 nov 2008; \47\America/New_York\America/New_York\k 47 3 comentários

A edição de novembro/dezembro (2008) da Seed Magazine está fantástica! :mrgreen: Eu sei que alguns acham que meu estilo de fala ou de escrita é meio hiperbólico, talvez uma herança italiana, de falar com as mãos, alto, festivamente (deixando tudo isso bem claro através do uso de diversos pontos-de-exclamação, “!”)… mas, no caso em questão, essa é realmente uma observação concreta de fato: A Seed está completando seu primeiro ano de existência com o moto Ciência é Cultura, ❗ , e não poderia ter escolhido fazê-lo de modo melhor:

Eu recomendo a todos que quiserem e puderem, que comprem a revista: vale a pena (até o papel em que a revista foi impressa é especial — realmente, está uma edição excelente)! E, quem não puder, espere um pouco, porque o conteúdo da revista deve ficar disponível na rede em breve. 😉

Em particular, na seção Emergent Science City 2008, apareceu o IINN. A reportagem é de Maywa Montenegro e traduzo-a abaixo.

Natal, Brasil

Natal é a capital do estado nordestino do Rio Grande do Norte, um dos mais pobres do Brasil. O estado contribui com menos de 1% para o PIB do país, e a taxa de analfabetismo é quase o dobro do resto da média nacional.

Mas essa cidade acabou de se tornar o local dum novo e robusto experimento que vai testar a possibilidade de se usar a Ciência para alavancar transformações econômicas e sociais para a região. O Instituto Internacional de Neurociência de Natal (IINN), construído numa fazenda montanhosa a 20 quilômetros da cidade, incorpora um prédio de pesquisa com 25 laboratórios, uma clínica de saúde gratuita e uma escola para crianças entre 11 e 15 anos. O chamado “campus do cérebro” é visto como o primeiro duma série de institutos (análogo aos Max Planck) espalhados pelo Brasil, o começo duma Renascença para a pesquisa científica do país.

O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, da Duke University, concebeu os primeiros planos do IINN em 2003 como uma forma de reverter o vazamento de cérebros da sua terra natal. Em 2007, Nicolelis juntamente com mais dois cientistas brasileiros da Duke, haviam levantado US$ 25 milhões para o projeto, quantia essa que foi equiparada pelo presidente Inácio Lula da Silva depois de visitar o campus em agosto passado. (O presidente “Lula” ficou tão impressionado com os esforços de Nicolelis que recentemente ele incumbiu o neurocientista a criar um currículo de ciência para quase 354 novos colégios técnicos.)

Planos para escalar o IINN para uma escola de 5.000 alunos e construção de mais laboratórios, uma clínica maior, um complexo desportivo, e um parque ecológico sublinham uma dimensão importante do desenvolvimento de Natal: a idéia de que ciência avança somente através do fomento do envolvimento social, extendendo-se da torre de marfim para dentro da comunidade. Esses planos também seguem a tendência de “parques científicos”: em última instância, o IINN formará o cerne dum parque biotecnológico de 1.000 a 2.000 hectares para energia, TI, e negócios farmacêuticos. Como Nicolélis e Lula disseram num editorial de fevereiro, “O gigante dos trópicos finalmente acordou”.

N.B.: os links/URLs não estão no original; eu os coloquei para melhor contextualizar o texto praqueles que não conhecem o MPI nem o editorial de fevereiro/08 da SciAm.

A comparação com os MPI me deixou, honestamente, de queixo caído: faço muito gosto que isso seja a mais pura verdade! 😎

Minha pergunta, claro, é a seguinte: “Quando é que vem o bloco da Física?!” 😈

Ainda nessa mesma de reportagens de qualidade excelente, a revista The Atlantic lançou um projeto novo, que merece uma visita:

É isso aí: a diversão está garantidíssima! 😎

Atualizado (2008-Nov-25 @ 09:57h): Aqui vai o link oficial:

[]’s.

Plano de Nação…

sexta-feira, 14 nov 2008; \46\America/New_York\America/New_York\k 46 2 comentários

No post O Obama brasileiro, fizemos alguns comentários sobre a matéria homônima no CSM — e como bem observaram o Rafael e o Tom, algumas diferenças entre Lula e Obama são mais do que simplesmente “marcantes”.

Pra citar um exemplo do ponto que foi levantado pelos dois, eu cito o exemplo abaixo: uma matéria ainda da época que o Obama era apenas candidato à presidência (e não “presidente eleito”, como agora),

É isso mesmo que vcs viram: uma matéria de sete páginas pra revista Foreign Affairs! 😯

Pra quem não conhece, a revista Foreign Affairs é, essencialmente, um repositório para os diversos ângulos que compõem um “Plano de Nação”.

Na época em que o FHC ainda era “professor-at-large” no Watson Institute da Brown, eu me lembro duma reunião que tivemos e eu perguntei pra ele quando (no passado) o Brasil havia tido um “Plano de Nação” e qual era o atual. Um amigo meu da Ciência Política me deu um cutucão na hora… e, por muito tempo, isso foi matéria de chacota, quer dizer, a minha ingenuidade [em fazer a pergunta].

Aparentemente, a resposta é óbvia pra muitos… mas, não o era pra mim — até porque, sendo o FHC um renomado sociólogo, eu achei que nada mais natural do que ele, que conhece o tema, ter um Plano de Nação, uma visão para o futuro do Brasil. Bom, a resposta que ele (FHC) me deu foi bem ‘lisa’, daquelas que cada vez que vc “aperta” tentando entendê-la, ela escorrega cada vez mais: essencialmente, a “mensagem” da resposta era que a política brasileira ainda era muito “caótica” (pra não dizer “primitiva”) pra comportar soluções proporcionalmente tão “rígidas” quanto um plano de longo (10, 15, 25, 50 anos!) prazo.

É aí que entra a diferença não só marcante mas também gritante do longo artigo acima, publicado numa revista renomada internacionalmente: essa é a visão dum candidato à presidência [do país dele], mostrando claramente qual é o jogo dele.

As perguntas que ficam, pra mim, são as de sempre: “Por que é que nossos intelectuais das Ciências Sociais (sociologia, política, economia, direito) não têm um mecanismo análogo no nosso país?” Ainda mais hoje em dia, não é preciso que seja uma publicação em papel, com custo elevado e tudo mais… não, hoje em dia, depois da revolução digital, qualquer website dá conta de exprimir de modo completamente democrático e transparente o que pensam nossos intelectuais sobre o futuro de longo prazo da nossa Nação.

Nesse sentido, eu acho que estudos como o abaixo, são absolutamente fundamentais:

Aqui vai um resuminho mínimo desse artigo:

Estudo da Anprotec propõe a estruturação de um Sistema Nacional de Parques Tecnológicos a partir de investimentos da ordem de R$ 10,2 bilhões em 20 parques nos próximos cinco anos.

Bom, nesse tom… agora podemos começar o final-de-semana! 🙂

[]’s!

Atualizado (2008-Nov-15 @ 09:42h): Ainda em tempo:

[]’s.

Algumas notícias sobre o Brasil…

quinta-feira, 13 nov 2008; \46\America/New_York\America/New_York\k 46 Deixe um comentário

O CSM continua sua série sobre o Brasil (parte 2/3 — a terceira e última parte vem amanhã, e também será colocada aqui no AP 😉 ), também com repercurssões pela BBC; e um novo livro lida com a idéia duma nova governança global:

Como se isso já não fosse suficiente pra garantir a diversão, deixo uma saidêra impagável:

[]’s!

Atualizado (2008-Nov-13 @ 17:15h): A terceira parte da reportagem saiu,

O Obama brasileiro…

quarta-feira, 12 nov 2008; \46\America/New_York\America/New_York\k 46 10 comentários

O editorial de hoje do jornal Christian Science Monitor é bastante interessante:

Aliás, já até causou alguma repercurssão, Lula ‘poderá dar lições a Obama’, diz jornal americano.

Entretanto, uma das diferenças que eu vejo pode ser facilmente ilustrada com o seguinte exemplo:

Qual foi a última vez que um presidente brasileiro se sentou com alguma comissão da SBF?! 🙄

Pra quem não conhece a história do CSM, apesar dele publicar uma coluna religiosa diária (na seção “The Home Forum”), ele não é uma plataforma de evangelização; pelo contrário, é um pioneiro do jornalismo online (o CSM passou a ser publicado exclusivamente online!), e já foi agraciado com o Prêmio Pulitzer sete vezes. Quem quiser saber mais sobre o jornal, pode ler o About the Monitor.

[]’s.

Sérgio Vieira de Melo no TED…

quarta-feira, 12 nov 2008; \46\America/New_York\America/New_York\k 46 1 comentário

Pra quem não conhece, Sérgio Vieira de Melo foi um diplomata brasileiro na ONU por mais de 34 anos, reconhecido mundialmente por seus esforços humanitários.

😥

Categorias:Brazilian Politics, Politics Tags:

Como reconstruir o Brasil…

quarta-feira, 15 out 2008; \42\America/New_York\America/New_York\k 42 3 comentários

Acabei de trombar no seguinte artigo:

Ele foi escrito por Jeffrey Sachs (mais sobre ele em Wikipedia: Jeff Sachs e Project Syndicate: Jeffrey D. Sachs) e mostra claramente um plano para lidar com os problemas atuais nos USA.

Na verdade, a minha pergunta é: Existem esforços semelhantes ou análogos no Brasil? Ou, em outras palavras, Qual é o Plano de Nação para o Brasil? Ou seja, onde queremos estar em 10, 15, 20, 30, 50 anos?! Quem são os nossos pensadores e intelectuais que vêm à público (o artigo acima apareceu não só na Internet, mas também na revista “Fortune”) se manifestar a respeito dessa quetão (assim como fez o Jeff Sachs, no artigo acima)?

Uma das poucas respostas que eu conheço para a pergunta acima é, Projetos de Brasil.

Um outro esforço que eu também conheço é: O BRASIL TEM JEITO? (ISBN: 857110932X, ISBN-13: 9788571109322) e O BRASIL TEM JEITO?, V.2 (ISBN: 853780035X, ISBN-13: 9788537800355).

Mas, fora isso, confesso, não conheço muito mais… claro, estou filtrando todo tipo de ‘crackpots’ e porcarias afins — só estou me concentrando em esforços sérios, científicos, robustos.

😕

P.S.: Me lembro dum congresso que houve na Brown sobre o Brasil (a Brown tem um excelente conjunto de brasilianistas, incluindo o Skidmore“Coleção Skidmore” da Biblioteca da Brown) que reunia gente de vários lugares dos USA e Europa, incluindo o FHC, Skidmore e outros mais (que certamente estão sendo injustiçados pela minha falha memória). Num dado momento, eu perguntei sobre o “Projeto de Nação para o Brasil”… o silêncio e a pausa longa foram claros e notórios… seguidos de uma enxurrada de frases soltas, sem significado. Lembro também de alguns colegas, pegando no meu pé (brincando, como bons brasileiros que somos) depois da palestra, falando que aquilo não era pergunta que se fazia…

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