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O Brasil no Chronicle of Higher Education…

sábado, 9 jul 2011; \27\America/New_York\America/New_York\k 27 7 comentários

O jornal The Chronicle of Higher Education é uma das referência no mundo da Educação Superior — assim como o Times Higher Education.

No começo da semana, o Chronicle publicou a seguinte matéria sobre o Brasil: Brazil Reaches Out. Essa reportagem também apareceu no Physics Today: Brazil reaches out (Physics Today).

Pra quem está com preguiça de clicar no link da Physics Today, aqui vai o comentário deles (em sua integridade):

Chronicle of Higher Education: The Brazilian government has announced that it will fund 75,000 studentships to study abroad, worth $30,000 each. Brazil’s university system is successful, but that success is not unqualified; scientific research is highly variable in quality, and there is a shortage of researchers. Student bodies of elite universities tend to be economically homogenous. The Brazilian government recognizes that the country’s higher education system will need to expand rapidly while improving in quality if it is to support the country’s economic growth: 7.5% last year, with another 4% predicted for 2011 despite the global slowdown.

O ponto principal da reportagem é o seguinte: o governo brasileiro anunciou 75.000 bolsas-de-estudos (para estudo no exterior) no valor de US$30.000 cada. (Posso estar enganado, eu até gostaria de ter mais informações a esse respeito, mas meu entendimento é que essas bolsas são para áreas onde não há possibilidade de se fazer a pesquisa no Brasil.)

Eu, confesso, tenho algumas dúvidas. Por exemplo, como esse valor de US$30.000 é calculado e aplicado para uma bolsa de doutoramento? A tuition (custo anual) das escolas pode variar muito: nos USA, para a pós-graduação, uma escola pública (e.g., UCLA ou UCSD, SUNY-SB, Rutgers, etc) pode cobrar cerca de ~US$20.000 para alunos estrangeiros (que claramente têm origem fora do estado onde essas escolas se localizam — a anuidade para residentes do estado é consideravelmente mais baixa: cerca de 25% do valor cobrado para quem vem de fora do estado), assim como uma escola privada (Harvard, MIT, Princeton, Brown, Chicago) pode cobrar até US$40.000 por ano! E isso não inclui o salário para o doutorando, que gira em torno de US$2.000/mês (i.e., cerca de ~US$21.000–US$24.000 por ano), dando um total de até ~US$65.000 por ano. Portanto, mesmo uma média simples entre os dois tipos possíveis de anuidades já dá o valor anunciado para as bolsas, cerca de ~US$30.000.

Claro, a situação na Europa é bem diferente e varia bastante de país pra país (e.g., Reino Unido, França, Alemanha). Então, eu imagino que os valores europeus vão ser um pouco mais baixos quando comparados aos valores americanos. Por outro lado, a conta européia vem em Euros, o que torna tudo cerca de 43% mais caro que a conta americana. Então, um custo de ~€21.000 se torna algo como ~US$30.000.

Mais ainda, quem conhece gente que foi pro exterior pago pelo CNPq, sabe o quão comum é o atraso do pagamento dessas pessoas…: muito mais comum do que deveria — às vezes vc recebe por 3 meses atrasados. De qualquer modo, essa já é outra questão, apesar de relevante pra pessoa que está do outro lado do oceano.

Fora isso, também é importante se colocar esses números em comparação com os dados do post Como a Ciência escapou da Foice do Orçamento — até agora. Em particular, os seguintes artigos são de extrema relevância: Brazil cuts its science budget e Brazil’s budget cut dismays scientists . Esses cortes não precisam, necessariamente, afetar as bolsas mencionadas acima. Entretanto, as pessoas formadas por este programa de bolsas vão necessariamente (por causa do contrato da bolsa) voltar para o Brasil — o que imediatamente traz a seguinte pergunta à tona: “Com esses cortes, será que haverá empregos para esses bolsistas? Ou será que eles simplesmente vão ficar desempregados depois de voltarem? Há planos para a absorção desses bolsistas?” E por aí afora…

Portanto, a notícia soa boa, mas sem os devidos detalhes fica difícil de se saber o quão realista isso tudo é.

Reproduzo aqui o artigo do Chronicle em sua integridade.

Brazil Reaches Out

July 5, 2011, 12:14 pm, By Nigel Thrift.

In Brazil on a delegation with the Deputy Prime Minister and the Minister of State for Universities and Science. As usual with these delegations, they tend to be a mixture of frenzied last-minute reorganizations and moments of formal ceremony. They certainly require serious stamina occasioned by crammed programmes and non-stop travel.

But this delegation was buoyed by the Brazilian government’s announcement of 75,000 studentships to study abroad over the next four years, each worth $30,000, of which the UK looks set to obtain a good number.

What is striking about Brazilian higher education its range and variety. There are numerous private institutions, some of which are of good quality. There are state universities. There are federal universities. There are a number of federal science and technology institutions like CAPES, along with many national institutes of science and technology. There are a number of companies (most notably Petrobras and Embraer) which have close associations with universities. I was able to visit the University of Sao Paulo, an august institution boosted by the fact that a proportion of the State of Sao Paulo’s sales tax goes to universities (other countries take note).

What became clear to me was that Brazilian higher education is now in a state of take-off. Brazilian research is often world class. It is the 13th biggest knowledge producer as measured by numbers of papers. In particular, Brazilian research in is paramount in fields like engineering and aspects of the biological sciences.

In a meeting with luminaries from the world of Brazilian higher education, what was clear was that they are bullish about the future and that the scholarship scheme is a tangible expression of that optimism, as well as a desire to diversify the locations in which students study (which are currently led by the United Sates and France).

What is very different from many other countries which are now in economic take-off is that Brazil already has a thriving university system which has achieved many successes. It needs to expand its higher education system rapidly but the goal that has been set for participation rates seems entirely possible. In fact, it is about the same rate of expansion as the UK has achieved over the last 30 years.

There are clearly still problems. For example, the elite universities tend to be populated by students from well-off backgrounds. But Brazil is hardly the only country that can be accused of that. Again, there is very considerable variation in quality. Again, Brazil is hardly the only country that can be accused of that. It has a shortage of researchers to match its ambitions. Once more, Brazil is hardly the only country that can be accused of that.

In other words, this cannot be seen as a situation in which a country needs “help.” Rather, it requires a partnership of equals in which the non-Brazilian partner realizes that the Brazilian partner has much more to offer than the prospect of studentships abroad. Those studentships are a sign off greater engagement but an engagement that will be a two-way process right from the very start.

A física da pesquisa e a física da sala de aula

quarta-feira, 29 set 2010; \39\America/New_York\America/New_York\k 39 2 comentários

Disclaimer: esse post é uma opinião muito pessoal de seu autor, e pode ser que os outros membros do blog não concordem.

Como eu já disse por aqui, eu fico bastante entusiasmado com a idéia de cursos abertos online e disponibilização de material em vídeo, como na iniciativa OpenCourseWare, por exemplo. E eu sou um usuário adicto desses materiais. Já devo ter ouvido as aulas de mais de uma dezena desses cursos, por diversão mesmo, em áreas muito diversas (história, estudos religiosos, biologia, antropologia…). Mas não comecei esse texto para falar desses cursos, mas para falar de algo que esses cursos me fizeram notar a respeito de uma diferença fundamental entre o ensino de física e o ensino em outras áreas do conhecimento, de forma particular, mas não restrita, nas ciências médicas e biológicas.

Para exemplificar o que quero dizer, vou me referir à terceira aula do curso de biologia geral dado na primavera de 2010, na Universidade da Califórnia em Berkeley, cujas aulas em vídeo e éudio estão disponíveis para download no site de webcasts da universidade (http://webcast.berkeley.edu). Em certo ponto dessa aula, a professora diz “e realmente nos últimos 5 ou 6 anos muita pesquisa foi feita para entender a estrutura interna e função do ribossomo, e eu vou mostrar para vocês uma imagem…” e passa a discorrer sobre assunto de pesquisa muito recente, sobre o qual ainda há dúvidas e questões em discussão. Cenas como essa são comuns em todos os cursos que ouvi. Assuntos de pesquisa são citados na sala de aula rotineiramente e discutidos nos trabalhos e dissertações que os alunos tem de entregar para ser avaliados. Isso me chocou. Me chocou como algo completamente alheio com a minha experiência de sala de aula, que acredito ser não muito diferente da experiência de todos os físicos formados no Brasil, e provavelmente no mundo todo. É inconcebível na nossa experiência que um professor de Física I (ou de Physics 101) entre na sala de aula e dê como exercício de casa a uma turma mista de dezenas e dezenas ingressantes de diversos cursos – engenharia, física, química, … – a leitura de um artigo de pesquisa publicado a menos de 10 anos. Nenhum assunto discutido em uma aula de física, mesmo nos últimos anos da faculdade, é mais recente do que a década de 40. Em compensação, poucos assuntos discutidos em uma aula de biologia celular são mais antigos que a década de 70, e muitos tem menos de 10 ou 15 anos de idade! E por que é assim?

Tudo bem, há uma série de explicações muito plausíveis para isso. Talvez a mais forte seja que os conceitos físicos e as ferramentas matemáticas usadas na pesquisa são muito mais avançados do que os que estão sendo estudados na graduação, e que é necessário um período longo de treinamento para sair da primeira aula sobre as leis de movimento de Newton e chegar na mecânica quântica, passando por todos aqueles passos intermediários. A maturação de um físico é um processo longo e lento, nessa visão. Vai da primeira aula de Física I até mais ou menos o meio do doutorado. A física é uma ciência mais antiga e madura, dizem os que defendem essa idéia, e um estudante de física tem que estudar toooodas essas coisas com detalhes, desde o nascimento da mecânica newtoniana até a mecânica quântica e suas aplicações mais elementares. Além disso, um ingressante em física ainda não foi exposto nem ao ferramental matemático básico para prosseguir aprendendo física – o cálculo, a algebra linear e etc…

Apesar de acreditar que há alguma verdade nisso, sinceramente acho que ela é exagerada e super-simplificada pela típica autosuficiência e arrogância dos físicos (eu me incluo nessa conta) e pela inércia do sistema educacional. Faz anos que é assim, foi assim que fizemos no passado, é assim que faremos no futuro porque é assim que se ensina física. E bem, veja só, é mais difícil aprender física, não é?

Não. Não é. Sinceramente, não é. Aprender biologia pra valer é tão difícil quanto aprender física. Ou mais! Pode ter um pouco menos de matemática, mas nas duas ou três primeiras aulas do curso introdutório para a graduação da UC Berkeley que assisti já há uma série de mecanismos celulares complicados, relações entre as organelas, estruturas moleculares complicadas, como as isomerias e as simetrias afetam a função das moléculas, e se o carbono alfa está assim, então a isomeria faz com que o poro da membrana nuclear fique assado… 😯 😯 😯

Não é fácil, definitivamente. E não é “coleção de selos”, é uma sequencia lógica de mecanismos e estruturas bem entendida até certo ponto. Eu não estou acompanhando direito.

Porque um ingressante de biologia está pronto para discutir a biologia molecular dos poros da membrana nuclear de maneira tão detalhada e um estudante de física não está pronto para discutir fenômenos críticos e transições de fase, ou entender, pelo menos num nível qualitativo, o que é decoerência, o que são teorias de campo conforme e porque a correspondência AdS/CFT é tão importante, quais são as alternativas para explicar energia escura, porque o grafeno é um material tão especial, porque é tão difícil ter materiais semicondutores que sejam ferromagnéticos, o que a física por trás de folding de proteínas tem a ver com a física de cristais magnéticos, quais são os melhores candidatos para física além do modelo padrão, como podemos detectar radiação Hawking?

E se tocamos nesse assunto, porque não ir mais fundo? Se os estudantes de física não chegam à metade do século passado, os estudantes do colegial param muito antes disso. A física que fingimos ensinar nas escolas tem pelo menos 150 anos de idade, e é absolutamente inútil para essas pessoas da forma como é ensinada, em todos os aspectos. Não estimulam curiosidade científica, não as ajudam a entender o ambiente tecnológico em que vivem, não fornecem ferramentas de trabalho úteis e nem as preparam para a universidade.

O ensino de Física está, em minha opinião, caduco em todos os níveis e precisando de urgente reforma. E quanto mais a pesquisa avança, mais urgente essa mudança se torna. Se queremos pessoas prontas para integrar os quadros de pesquisa, se queremos estudantes motivados e se queremos desenvolver o quanto antes o gosto pela pesquisa, precisamos forçar a fazer o que os biólogos fizeram de forma natural, e trazer a física da pesquisa de volta para as salas de aula.

Regulamentação de profissões, e da profissão de Físico em particular

terça-feira, 27 jul 2010; \30\America/New_York\America/New_York\k 30 Deixe um comentário

O Rafael Lopes de Sá, escreveu recentemente sobre isso aqui no Ars Physica, e como no caso dele, esse post é a minha visão pessoal sobre o assunto. Pode ser que outras pessoas que escrevem aqui discordem. Minha opinião é muito similar à dele, então se você tiver preguiça de ler mais um texto contra a regulamentação da profissão de físico, basta ler o dele! 🙂 Esse texto na verdade foi escrito na comunidade de Física do orkut uns meses atrás, e o assunto surgiu novamente em outras discussões e então eu resolvi resgatá-lo e recauchutá-lo para ser digno de post de blog. Fiz isso mais para ter um link para mandar para quem pergunta minha opinião do que por qualquer outra razão, mas acho que ficou suficientemente bom para ser útil para vocês.  Enfim, ao texto…

Eu acredito que estamos melhor sem regulamentação. Vou dar duas séries de argumentos – uma de porque eu sou contra o sistema de regulamentações como um todo e outra de porque eu sou contra a regulamentação da profissão de físico ainda que o sistema de regulamentações não seja desmantelado.

O sistema de regulamentação de profissões.

Só existe uma razão objetiva para regulamentar uma profissão: impedir que pessoas não qualificadas exerçam atividades que representam um risco sério caso sejam mal executadas. Qualquer regulamentação que não se baseie nisso só tem um objetivo: criar um clubinho de pessoas que controlam uma série de atividades e impedir o acesso de outras pessoas a essas atividades, gerando uma reserva de mercado. Esse segundo tipo de regulamentação é, na minha opinião, perverso e prejudicial.

Prejudicial ao mercado: inibe a geração de empregos e inibe o crescimento de novas áreas de aplicação de conhecimentos antigos, além de aumentar artificialmente o custo de contratação.

Prejudicial para os profissionais: uma vez regulamentada a profissão, ficam estabelecidos limites claros para o que aquele profissional faz e o que ele não faz e é muito provável que se isso se cristalize no mercado profissional. Isso limita as atividades que você pode desenvolver: há atividades que você é capaz de fazer por causa de sua formação específica, mas não há vagas para pessoas com a sua formação nessa área.

Finalmente, prejudicial para a formação das pessoas. A existência de atividades privativas faz com que os conselhos profissionais obriguem os cursos a ensinarem algumas disciplinas, engessando as estruturas curriculares e preenchendo a grade horário dos estudantes com disciplinas  mal colocadas. Por exemplo isso acontece com os cursos de engenharia: por conta da grande quantidade de atividades que são privativas de engenheiros de todas as áreas, todos os cursos são obrigados a ministrar, por exemplo, matérias associadas a construção civil e a projeto de sistemas elétricos, ainda que isso não esteja nem próximo das intenções profissionais de um típico estudante de engenharia de controle e automação ou de engenharia metalúrgica.

A profissão de físico em particular.

Acima eu dei razões pelas quais eu sou radicalmente contra o sistema de regulamentação de profissões – que eu acho que deveria ser estritamente limitado a profissões que trazem risco. Mas isso está aí e não há muitas chances de que esse sistema de regulamentação seja posto de lado. Por isso, para que eu estabeleça meus argumentos, ainda são necessárias razões para não se regulamentar a profissão de Físico ainda que o sistema de regulamentações continue.

Regulamentar a Física como profissão exige a delimitação de que atividades serão privativas de um físico, que só ele poderia desempenhar. Entretanto, um coisa que salta aos olhos é o fato de que não existe realmente um corpo de atividades acima das quais você pode colocar o rótulo “Física”. Física não é um conjunto de atividades ou técnicas mas um conjunto de conhecimentos. Não é como a Medicina, a Fisioterapia, a Engenharia Elétrica, a Enfermagem ou a Geologia –  que, além de seus respectivos conjuntos de conhecimentos associados, possuem um arsenal de técnicas e atividades práticas que as caracterizam. Certamente um físico está habilitado por seus conhecimentos a desempenhar diversas tarefas úteis, mas não são tarefas privativas que qualquer outro profissional não possa aprender e desempenhar com a mesma eficiência.

Pode-se objetar a essa observação dizendo que há sim uma tarefa que envolve grandes riscos e que seria primordialmente tarefa dos físicos: dosimetria de radiações e manipulação de elementos radioativos. Eu discordo fortemente dessa visão. Essa é uma atividade que a gigantesca maioria das pessoas formadas em Física (eu inclusive) não está apta a desempenhar porque não há treinamento específico no curso. Os poucos físicos que são capazes de lidar com substâncias radioativas são aqueles que participaram algum projeto de pesquisa envolvendo essas substâncias. Finalmente: as técnicas  para se lidar com essas substâncias não exigem uma formação específica em física para serem aprendidas. Essas não são atividades que exigem todo o conhecimento adquirido em um curso de quatro anos de física, mas que qualquer profissional de física, química, engenharia ou áreas correlatas poderia desempenhar depois de um curso técnico específico.

Finalmente, qual seria o efeito de se regulamentar Física como profissão?

Seria criada uma reserva de mercado para certas atividades. Muitos vêem isso como vantagem, eu vejo como problema. Hospitais e departamentos de radiologia seriam obrigados a contratar físicos, para empregos incompatíveis com todo o treinamento que esses profissionais possuem. É ridículo supor que exige-se uma formação completa em física para se dosar a radiação de um aparelho de raios X. Basta uma formação de técnico em radiologia. E não se engane – a remuneração vai ser compatível com a de um técnico. Ninguém vai pagar salário de nível superior para fazer essa atividade.

Há quem argumente a favor da regulamentação pela criação de um piso salarial e aumento da remuneração de físicos. Mas físicos não ganham mal. Em uma recente pesquisa da FGV física era o 31º curso superior mais bem remunerado, com salário inicial médio de R$ 3500.

A necessidade de treinamento específico vai fazer com que se insira, nos cursos de bacharelado em física, disciplinas obrigatórias de instrumentação e dosimetria de radiações, e a grande maioria dos profissionais de física não vai trabalhar nessas áreas.

Diversas atividades que hoje são desenvolvidas com sucesso por pessoas formadas em física ficariam de fora da legislação: computação, finanças, projeto de produtos, … e vão sobrar para a física tarefas menos remuneradas e talvez mais facilmente conectáveis ao curso de graduação: metrologia, dosimetria, …

Finalmente, a Fisica não é, nunca foi e nunca será privativa de um clube de pessoas que resolvam delimitá-la. Por duas razões.

Em primeiro lugar, Física, como um corpo de conhecimentos teóricos, pode ser aprendida por qualquer um. Não é um processo de iniciação misterioso que está fora do alcance dos outros mortais. Qualquer um com tempo e disposição pode pegar os livros e entender do que se trata o assunto. Aliás, boa parte dos dois primeiros anos dos cursos de física que é aprendido pelos físicos nos cursos de graduação é compartilhado com quase todos os cursos de ciências exatas, e muito da parte mais avançada do curso é compartilhada com outros cursos como química, engenharia elétrica e outros.

Além disso, a Física não é delimitável. É IMPOSSÍVEL traçar uma linha e dizer que o que está lá dentro é Física e o que está fora não é. Isso não é uma característica apenas da física mas de todo campo que é eminentemente científico e não técnico. Também é impossível delimitar o que um biólogo faz, o que um químico faz, o que um matemático faz, o que um sociólogo faz, o que um estatístico faz. Há uma interface tão tênue e tão fluida entre essas áreas que qualquer um é capaz de estudar, aprender e ingressar em qualquer atividade que um físico for capaz de exercer.

É assim que é, e é assim que tem que ser. Essa é a nossa riqueza e o que realmente diferencia um profissional com uma forte formação científica e quantitativa: não há limitações no que ele pode aprender a fazer.

Seminário de Física-Matemática de Königsberg…

sábado, 6 mar 2010; \09\America/New_York\America/New_York\k 09 2 comentários

ResearchBlogging.org

Königsberg é uma cidade na Alemanha famosa por suas sete pontes. Mas, há outra razão também: 150 anos depois dessas pontes inspirarem Euler, nos idos de 1880, a Universidade de Königsberg possuia um seminário de Física-Matemática, que ajudou a formar a carreira científica de David Hilbert e de Hermann Minkowski.

O simples fato de que esse tipo de seminário existia naqueles tempos é um tributo às reformas (Era Prussiana) no sistema educacional alemão: essas reformas começaram com as idéias de Martinho Lutero, que desejava que todas as pessoas devessem ser educadas para poderem ler e interpretar a Bíblia por si sós, independentemente. Foi esse conceito de educação obrigatória que se tornou o ideal educacional alemão da época.

No século 18, o então “Reino da Prússia” foi um dos primeiros países do mundo ( ❗ ) a introduzir educação gratuita e obrigatória. Por volta de 1810, depois das “Guerras Napoleônicas“, a Prússia introduziu o conceito de “certificações estaduais” para professores, o que levantou significativamente o nível da educação naquele país.

O Seminário de Física-Matemática nasceu com Franz Neumann e Carl Jacobi — eles foram patrocinados por Friedrich Wilhelm Bessel, astrônomo e diretor do observatório. Esse foi o primeiro seminário oficial da Prússia a incorporar métodos matemáticos no ensino de Física — um passo com muitas conseqüências: a universidade se tornou o centro duma escola de física-matemática, o que moldou a formação dessa disciplina de modo substancial!

Eis algumas outras conseqüências desse Seminário:

  1. Os atendentes dos seminários, jovens pesquisadores, transferiram as idéias educacionais básicas pra outras universidades, onde elas eram adaptadas e desenvolvidas. Isso é muito análogo ao conceito moderno de pós-doutorado, onde o recém-doutor deixa sua instituição e vai exercer seu primeiro emprego, como pós-doutor, em outra instituição, levando consigo os ensinamentos e idéias adquiridas em sua alma matter;
  2. No contexto científico da Física e da Matemática, o Seminário influenciou fortemente o desenvolvimento de áreas de pesquisa e metodologias; &
  3. Devido a responsabilidade pedagógica e esforço pessoal de Franz Neumann, por mais de 4 décadas, o Seminário tem que ser visto como o começo duma nova disciplina, que pode ser chamada de Física Teórica (ou Física Matemática).

Ainda mais importante que o Seminário, foi o Colóquio semanal, em matemática, estabelecido por Lindemann (em 1884). O Colóquio oferecia um fórum para palestras e diálogos científicos no nível de pesquisa (ao contrário do Seminário, cujo objetivo era mais pedagógico, no sentido de ensinar os tópicos expostos) ❗

Para mais detalhes e maiores diversões… o artigo abaixo é muito gostoso de se ler. 😈

Referências

  • Schwermer, J. (2010). Minkowski in Königsberg 1884: A talk in Lindemann’s colloquium Bulletin of the American Mathematical Society, 47 (2), 355-362 DOI: 10.1090/S0273-0979-10-01291-7
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