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Posts Tagged ‘brasil’

Notícias da Semana…

sábado, 7 abr 2012; \14\UTC\UTC\k 14 Deixe um comentário

Nos últimos 7–10 dias, muitas notícias interessantíssimas apareceram. E vale a pena dar uma olhada no que está circulando pelo mundo afora.

  1. Brazil a Great Place to do Physics … and Other Things“: Esse primeiro link é sobre programa de intercâmbio da APS, e o caso da reportagem conta sobre um aluno que saiu da Columbia University, em NY, e foi para o CBPF, no RJ. Como diz o rapaz que fez o intercâmbio, “Given that Rio was one of Richard Feynman’s favorite places, I was sure the experience would be very interesting, and I quickly became excited about it.”. 🙂
  2. Brown University forges research partnership in Brazil“: Esse segundo link é sobre a parceria que a Brown University assinou nessa semana com o IMPA (RJ). A parceria, promovida pela doação de um pai dum aluno da Brown, vai promover a colaboração em pesquisas, conferências e intercâmbios entre a Brown e o IMPA pelos próximos três anos.
  3. Open grad program allows students to pursue two fields“: Esse terceiro link é sobra um programa piloto que a Brown abriu esse ano e que poderia ser resumido como “Ciências Moleculares para a pós-graduação”. A Brown tem um currículo de graduação aberto, como o do Ciências Moleculares, desde os anos 70. E, agora, eles decidiram aplicar o mesmo princípio para a pós-graduação. A idéia é de que os alunos selecionados para participar desse experimento irão cursar seus respectivos doutoramentos, que será complementado com um mestrado em alguma outra disciplina. (A Brown permitia que seus alunos tirassem um ‘double-masters’, i.e., um duplo-mestrado até alguns anos atrás, quando essa opção foi cancelada em favor dessa nova empreitada multi- e inter-disciplinar.) E é disso que trata a reportagem, desse experimento em se ter um currículo multi- e inter-disciplinar na pós-graduação. Até onde eu conheço, essa é uma atitude completamente pioneira e que não existe em nenhuma outra escola. 😈
  4. How the Modern Physics was invented in the 17th century, part 1: The Needham Question“: Essa é a primeira parte (de um total de 3) de um blog convidado da SciAm, contando a história da Física moderna. Muito interessante.
  5. How Much Is a Professor Worth?“: Essa matéria do NYT trata do tópico de um novo livro que tenta comparar o salário de professores em diferentes países. Vale a pena ler pra ver em qual posição o Brasil se encontra, e como os diferentes países se comparam. Há muitos detalhes a serem analisados nessa questão todo… mas, de qualquer maneira, é um bom começo.
  6. Sociedade Brasileira de Física — Cortes no orçamento de ciência ameaçam futuro do Brasil“: o governo decidiu cortar o orçamento em cerca de 33% (comparado ao orçamento de 2010), entrando em rota de colisão com diversas conquistas recentes da política científica federal.
  7. Carnaval Is Over“: Seria esse o fim do milagre brasileiro? A FP faz uma lista dos vários fatores que influenciam essa questão.

Parcerias científicas internacionais, flexibilização do currículo da pós-graduação, história da Física, cortes do orçamento de ciência e tecnologia, e futuro econômico do país. Todas notícias relevantes e contemporâneas.

“E agora, José?”

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O Brasil no Chronicle of Higher Education…

sábado, 9 jul 2011; \27\UTC\UTC\k 27 7 comentários

O jornal The Chronicle of Higher Education é uma das referência no mundo da Educação Superior — assim como o Times Higher Education.

No começo da semana, o Chronicle publicou a seguinte matéria sobre o Brasil: Brazil Reaches Out. Essa reportagem também apareceu no Physics Today: Brazil reaches out (Physics Today).

Pra quem está com preguiça de clicar no link da Physics Today, aqui vai o comentário deles (em sua integridade):

Chronicle of Higher Education: The Brazilian government has announced that it will fund 75,000 studentships to study abroad, worth $30,000 each. Brazil’s university system is successful, but that success is not unqualified; scientific research is highly variable in quality, and there is a shortage of researchers. Student bodies of elite universities tend to be economically homogenous. The Brazilian government recognizes that the country’s higher education system will need to expand rapidly while improving in quality if it is to support the country’s economic growth: 7.5% last year, with another 4% predicted for 2011 despite the global slowdown.

O ponto principal da reportagem é o seguinte: o governo brasileiro anunciou 75.000 bolsas-de-estudos (para estudo no exterior) no valor de US$30.000 cada. (Posso estar enganado, eu até gostaria de ter mais informações a esse respeito, mas meu entendimento é que essas bolsas são para áreas onde não há possibilidade de se fazer a pesquisa no Brasil.)

Eu, confesso, tenho algumas dúvidas. Por exemplo, como esse valor de US$30.000 é calculado e aplicado para uma bolsa de doutoramento? A tuition (custo anual) das escolas pode variar muito: nos USA, para a pós-graduação, uma escola pública (e.g., UCLA ou UCSD, SUNY-SB, Rutgers, etc) pode cobrar cerca de ~US$20.000 para alunos estrangeiros (que claramente têm origem fora do estado onde essas escolas se localizam — a anuidade para residentes do estado é consideravelmente mais baixa: cerca de 25% do valor cobrado para quem vem de fora do estado), assim como uma escola privada (Harvard, MIT, Princeton, Brown, Chicago) pode cobrar até US$40.000 por ano! E isso não inclui o salário para o doutorando, que gira em torno de US$2.000/mês (i.e., cerca de ~US$21.000–US$24.000 por ano), dando um total de até ~US$65.000 por ano. Portanto, mesmo uma média simples entre os dois tipos possíveis de anuidades já dá o valor anunciado para as bolsas, cerca de ~US$30.000.

Claro, a situação na Europa é bem diferente e varia bastante de país pra país (e.g., Reino Unido, França, Alemanha). Então, eu imagino que os valores europeus vão ser um pouco mais baixos quando comparados aos valores americanos. Por outro lado, a conta européia vem em Euros, o que torna tudo cerca de 43% mais caro que a conta americana. Então, um custo de ~€21.000 se torna algo como ~US$30.000.

Mais ainda, quem conhece gente que foi pro exterior pago pelo CNPq, sabe o quão comum é o atraso do pagamento dessas pessoas…: muito mais comum do que deveria — às vezes vc recebe por 3 meses atrasados. De qualquer modo, essa já é outra questão, apesar de relevante pra pessoa que está do outro lado do oceano.

Fora isso, também é importante se colocar esses números em comparação com os dados do post Como a Ciência escapou da Foice do Orçamento — até agora. Em particular, os seguintes artigos são de extrema relevância: Brazil cuts its science budget e Brazil’s budget cut dismays scientists . Esses cortes não precisam, necessariamente, afetar as bolsas mencionadas acima. Entretanto, as pessoas formadas por este programa de bolsas vão necessariamente (por causa do contrato da bolsa) voltar para o Brasil — o que imediatamente traz a seguinte pergunta à tona: “Com esses cortes, será que haverá empregos para esses bolsistas? Ou será que eles simplesmente vão ficar desempregados depois de voltarem? Há planos para a absorção desses bolsistas?” E por aí afora…

Portanto, a notícia soa boa, mas sem os devidos detalhes fica difícil de se saber o quão realista isso tudo é.

Reproduzo aqui o artigo do Chronicle em sua integridade.

Brazil Reaches Out

July 5, 2011, 12:14 pm, By Nigel Thrift.

In Brazil on a delegation with the Deputy Prime Minister and the Minister of State for Universities and Science. As usual with these delegations, they tend to be a mixture of frenzied last-minute reorganizations and moments of formal ceremony. They certainly require serious stamina occasioned by crammed programmes and non-stop travel.

But this delegation was buoyed by the Brazilian government’s announcement of 75,000 studentships to study abroad over the next four years, each worth $30,000, of which the UK looks set to obtain a good number.

What is striking about Brazilian higher education its range and variety. There are numerous private institutions, some of which are of good quality. There are state universities. There are federal universities. There are a number of federal science and technology institutions like CAPES, along with many national institutes of science and technology. There are a number of companies (most notably Petrobras and Embraer) which have close associations with universities. I was able to visit the University of Sao Paulo, an august institution boosted by the fact that a proportion of the State of Sao Paulo’s sales tax goes to universities (other countries take note).

What became clear to me was that Brazilian higher education is now in a state of take-off. Brazilian research is often world class. It is the 13th biggest knowledge producer as measured by numbers of papers. In particular, Brazilian research in is paramount in fields like engineering and aspects of the biological sciences.

In a meeting with luminaries from the world of Brazilian higher education, what was clear was that they are bullish about the future and that the scholarship scheme is a tangible expression of that optimism, as well as a desire to diversify the locations in which students study (which are currently led by the United Sates and France).

What is very different from many other countries which are now in economic take-off is that Brazil already has a thriving university system which has achieved many successes. It needs to expand its higher education system rapidly but the goal that has been set for participation rates seems entirely possible. In fact, it is about the same rate of expansion as the UK has achieved over the last 30 years.

There are clearly still problems. For example, the elite universities tend to be populated by students from well-off backgrounds. But Brazil is hardly the only country that can be accused of that. Again, there is very considerable variation in quality. Again, Brazil is hardly the only country that can be accused of that. It has a shortage of researchers to match its ambitions. Once more, Brazil is hardly the only country that can be accused of that.

In other words, this cannot be seen as a situation in which a country needs “help.” Rather, it requires a partnership of equals in which the non-Brazilian partner realizes that the Brazilian partner has much more to offer than the prospect of studentships abroad. Those studentships are a sign off greater engagement but an engagement that will be a two-way process right from the very start.

Você escolhe: ou reclama da corrupção, ou reclama da Maria Bethânia.

segunda-feira, 21 mar 2011; \12\UTC\UTC\k 12 13 comentários

Mas não pode reclamar dos dois.

Quando o Estado cobra imposto e o dinheiro vai para pagar o salário de um dos legislativos mais caros do planeta, muita gente, eu inclusive, reclama. Afinal, o gasto salarial da Câmara dos Deputados Federais é maior que todo o orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia, que também inclui o pagamento de salários dos funcionários do MCT, além do repasse para os órgãos de pesquisa federais como o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), entre outros.

Agora, quando se há uma lei sensata que permite descontar uma parcela do imposto de renda — apesar de miserável, acredite, apenas 4% a 6% de uma das tarifas mais altas do mundo! — trocando o poder de decisão do Estado para onde investir o dinheiro da economia privada para a sociedade, deixando de repassar dinheiro para burocratas e finalmente aplicando-o direto na mão de algo produtivo a sociedade, surgem todas essas pessoas criticando o mecanismo. Críticas que, por sinal, partem de premissas falsas. Primeiro, a Lei Rouanet não permite a Maria Bethânia ganhar R$ 1 milhão dos cofres públicos. Essa é a definição da lei: ela permite a iniciativa privada — portanto, por definição, dinheiro que não é do governo! — investir no blog da Maria Bethânia. É uma coisa tão boa, que eu fico estupefato com todo esse cri-cri-cri em cima de Bethânia. Quer dizer então que seria melhor os 4% do imposto de renda ir para o governo do que ir direito para a produção de arte? Será mesmo que é melhor deixar esse dinheiro para essa instituição, o governo brasileiro, onde todo o dinheiro do maior projeto social do Ministério do Esporte é um esquema de desvio de verbas públicas do PC do B? Onde há mensalões do PT, do DEM e do PSDB? Onde quase a totalidade da arrecadação do imposto vai para sustentar um pequeno grupo de indivíduos, e muito pouco dele de fato vai para serviços públicos? As pessoas estão reclamando do abatimento do imposto de renda de 4% da Lei Rouanet como se esse dinheiro, uma vez no governo, fosse revertido em políticas públicas. Não é. Talvez no mundo de fantasia em que o governo brasileiro gasta mais com Ciência e Tecnologia do que pagando salário de acessor de deputado, mas no mundo real, não é.

Vale lembrar que essa lei foi o que permitiu a criação do cinema brasileiro, e colocou o país no mapa: Central do Brasil, Carandiru, Cidade de Deus, Tropa de Elite, e mais recentemente, Lixo Extraordinário; todos foram possíveis graças a iniciativa privada, e não ao governo. E ainda assim, a iniciativa privada muitas vezes tem prejuízo, digamos assim, ao incentivar a cultura, pois 4% a 6% do imposto para esse fim pode ser facilmente menos do que a empresa esteja interessada em investir no projeto.

Se o projeto de Bethânia é descabido, ainda bem que existe a Lei Rouanet, porque é graças a ela que quem vai decidir é a sociedade civil. Se não fosse por essa lei, e os artistas dependessem de verba pública do MinC, a decisão seria exclusiva dos burocratas da situação. Que provavelmente aprovariam o projeto, e depois desviariam o dinheiro. Como o dinheiro do projeto não é nem um centavo do MinC, vamos frisar isso aqui, vai da iniciativa privada decidir se vai ou não financia-lo.

Eu aplaudo a lei Rouanet. E vaias para quem está reclamando de Bethânia. O ideal seria essa lei existir para outros setores também, como pesquisa científica. Assim pesquisadores brasileiros poderiam captar recursos sem depender da miséria do repasse do governo brasileiro para isso.

Uma obra de arte como poucas

segunda-feira, 14 mar 2011; \11\UTC\UTC\k 11 1 comentário

Uma obra de arte forte constrói-se em nós com uma multitude de aspectos, a criatividade do tema, da concepção, a estética, o esforço e técnica envolvidos, e, como não, o seu significado. Por esse olhar, a série de fotografias do artista plástico brasileiro Vik Muniz são uma das formas de arte mais sublimes. Muniz foi a um dos maiores aterros sanitários do mundo, o Jardim Gramacho no Rio de Janeiro, e transformou lixo em arte durante quase todo o ano de 2008, e com seu trabalho mudou a vida das pessoas dentro de uma das comunidades mais pobres do Brasil, e possivelmente, do mundo. Um grupo de catadores de lixo brasileiros de repente encontra um artista plástico mundialmente reconhecido que mora a 25 anos nos Estados Unidos, que os convida para participar ativamente de sua próxima obra. Eles não serão apenas os sujeitos das peças; eles serão os artistas que as pintarão dentro do ateliê. Como fica o universo de uma pessoa que antes vivia em uma das mais degradantes condições de trabalho imagináveis após ela se transformar em um criador de uma obra de arte que vai a leilão em Londres e transcorre o mundo em galerias? Só alguém que viveu tal experiência pode saber. “Eu nunca esperava ter uma foto minha em um museu. A gente se põe muito pequena, e as pessoas lá fora acham a gente tão grande, tão bonito”, descreveu emocionada a Irmã em uma entrevista a TV brasileira dentro do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Ela vendia almoço para os catadores dentro do aterro. Aos demais, como eu, resta assistir o papel transformativo da arte em Lixo Extraordinário (Waste Land), um filme inspirador e de levantar a alma. A película de Muniz ganhou o prêmio de melhor documentário de 2010 escolhido pela audiência do Festival de Sundance, o prêmio Panorama de melhor filme no Festival de Berlim, e Prêmio Direitos Humanos da Anistia Internacional. Ele deve chegar as lojas em DVD essa semana (já disponível nos EUA para download). De uma indústria cinematográfica que evidenciou a corrupção e violência do país em Carandiru, Cidade de Deus e Tropa de Elite, é formidável ver um filme que pinta uma comunidade de forma tão bela.

Irmã, 2008. Clique para ampliar. Direitos reservados do artista, imagem exibida com autorização.
 

Mãe e filhos (Suellen), 2008. Clique para ampliar. Direitos reservados do artista, imagem exibida com autorização.

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O Brasil não tem Primeira Emenda

quarta-feira, 16 fev 2011; \07\UTC\UTC\k 07 17 comentários

Alguém argumentar que o Brasil tem censura oficializada pelo Estado não me surpreende, mas foi inesperado quando vi que em pelo menos um parâmetro que mede censura, o de remover links de matérias publicadas por jornais do sistema de busca do Google, o Brasil é o recordista mundial (Estadão, 15/02/2011), superando Líbia, China e Irã.

O Brasil não tem liberdade de expressão. Muito pelo contrário, a lei brasileira pode chegar ao ponto de impedir um estudante de criticar um professor, um comediante de contar piada, um político de soltar um xingamento, ou mesmo uma pessoa qualquer fazer um comentário no twitter racista ou machista. A situação é mais séria quando um jornal é impedido de publicar matérias investigativas sobre possível corrupção praticada pela família Sarney, ou a relação de algumas empreiteiras com Gilberto Kassab, e quando não se pode tocar em candidatos políticos (veja e.g. aqui sobre como até o óbvio pode ser censurado, ou aqui para ver como debate entre políticos tem que ser feito com exagerado cuidado). Mas todos esses casos de gravidade variada caem dentro de um problema amplo dos oficiais do Estado brasileiro, desde a pequena instância até os Supremos e Superiores tribunais: a falta do valor moral de proteção a liberdade de expressão sem limites*.

Sim, sem limites. Em primeiro lugar, não é papel do Estado julgar ou regular o que as pessoas dizem. É certo que eu posso achar um comentário no twitter ou uma opinião de um político inapropriada, exagerada, sem educação; mas não é papel do Estado definir que palavras são aceitáveis e quais não são, que tom de linguagem é aceitável e qual não é, que opinião é apropriada e qual não é. Se alguém quiser ser chulo e emotivo, outras pessoas podem julgar por si mesmas o material. O que aconteceu com os brasileiros? Onde ficou o mote da revolução da democracia de que posso não concordar com nada do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-lo? O Brasil vive uma censura velada em que não se pode emitir opinião sincera sobre figuras políticas. Isso só serve a manutenção de status quo e intimidar as ações oposicionistas e de minorias. Um exemplo é o caso dos estudantes da UnB que duas vezes se viram vítimas de professores inescrupulosos que vão até a justiça eliminar críticas aos seus métodos de ensino (e ainda ganham a causa!). E não vem ao caso aqui se o método do professor é bom ou não e se a carta dos estudantes é ou não justa. Vixe, se alguma opinião pré-formada eu tenho sobre isso é a de achar que os professores tem maturidade para saber o que fazem e os alunos tem imaturidade para achar que sabem. Mas independente de quem está “certo” a respeito de como a disciplina deve ser ensinada, uma coisa é clara: os alunos deveriam ter o direito de expressar sua opinião sem ser recriminados por isso. As decisões dos juízes de Brasília machucam a democarcia brasileira, estabelecem uma posição privilegiada para um grupo de pessoas que nem se quer foram eleitas democraticamente e impede o diálogo sobre ensino dentro da universidade. No caso de candidatos políticos, qualquer pessoa no Brasil deveria ter o direito de expressar sua opinião sobre o plano político socio-economico, a vida pessoal, e quaisquer outras características ligadas a um político a véspera das eleições. Afinal, se qualquer coisa o debate para as eleições quer atingir é convencer que uma pessoa pode estar mais qualificada que outra. Se eu quiser escrever um texto explicitando todas as razões porque é uma péssima ideia votar em X ou se eu simplesmente quiser tuitar “X é um aproveitador”, eu devo ter o direito guardado pela constituição de dizê-lo, mesmo que X se sinta ofendido. Não cabe ao Estado validar tampouco que assertivas são verídicas e que assertivas são falsas — até porque o Estado nem se quer tem o aparato humano e intelectual para fazer isso. Derrubar sites da Internet com dizeres a políticos que são potencialmente falsos é uma atitude direcionada para salvaguardar a eleição de um político ao invés de servir ao bem estar público de acesso a informação. Se a informação for falsa, cabe ao leitor avaliar, e esse é o preço que nós devemos admitir em pagar para não deixar o Estado delimitar com leis pré-1780 o que é ou não a opinião “certa”, ou a forma “certa” de expressá-la.

O melhor que o Estado faz pelo bem social amplo não é defender o interesse privado de pessoas que se sentem ofendidas com declarações públicas, e sim garantir que qualquer declaração pública possa ser feita.



*: Admito que nem sempre serve bem ao argumento comparar a sociedade brasileira a outras, mas aqui é meio inevitável: nos EUA, nenhum desses casos se quer iria a julgamento, porque na audiência preliminar o juiz quase certamente iria dispensa-los com base na Primeira Emenda da Constituição estadunidense de 1791.

Eu sou ateu, e a ATEA não fala por mim.

sexta-feira, 10 dez 2010; \49\UTC\UTC\k 49 58 comentários

Com uma certa preocupação que eu vi hoje a notícia de que uma associação brasileira de ateus, a ATEA, pretende vincular em algumas cidades do país uma campanha publicitária sobre ateismo. A campanha mostra um cartaz com Hitler e Chaplin lado ao lado e Hitler identificado como crente e Chaplin como ateu, e um cartaz com uma imagem do ataque de 11 de setembro nos EUA com a mensagem “Se Deus existe, tudo é permitido.”

Essa campanha é ruim em diversos níveis.

Primeiro, ela não serve de momento de reflexão para ninguém. Ora, se uma pessoa estiver caminhando na rua e vê um outdoor como estes ou o cartaz no fundo de um ônibus, sendo um cristão — como quase 80% dos brasileiros devem ser —, a última coisa que vai passar na cabeça dessa pessoa é “Nossa, realmente, eu acho que posso me permitir pensar pelos próximos dias que Deus não existe para ver onde isso me leva.” Muito mais provável essa pessoa vai ser inundada de uma cólera contra a insinuação de que sua fé é a mesma de Hitler ou dos terroristas, ou que ela seria capaz de atos similares por crer em Deus. Se há algo que se aprende em Debate I na escola é o seguinte: no momento que você compara seu opositor a Hitler, você perdeu automaticamente. Mensagens como estas são exageradas, e foram assim deliberadamente com o intuito de ser inflamatórias.

Além de não fazer a população religiosa refletir sobre religião, a campanha é negativa para ateus como eu. Ela associa a ateismo agressividade — porque a campanha é claramente agressiva contra a religião. Vocês já viram algum anúncio da Coca-Cola que associa a empresa ou a seus concorrentes uma enorme agressividade? A Coca-Cola é uma empresa de sucesso com uma marca muito bem vista no mundo inteiro e deveria ser usada como exemplo de publicidade. Ao invés de mostrar Hitler tomando Pepsi, a Coca-Cola prefere anúncios onde ela mostra um modo de vida desejável a população associado a bebida. Na América do Sul, a empresa mantém uma campanha publicitária recorrente mostrando crianças jogando futebol na rua, alegres, felizes. No Nordeste do Brasil, a empresa tem uma campanha recorrente mostrando jovens diferentes sorridentes na praia dançando. Ao invés de mostrar um cartaz negativo sobre religião, que tal mostrar exemplos positivos do ateísmo? Em primeiro lugar, assim você não assusta de imediato o seu consumidor para ele ter repulsa por você — e com razão, se você chamar ele de Hitler e terrorista. Se alguma coisa essa campanha pode fazer pelos ateus, é criar ainda mais preconceito, desconfiança e raiva contra a falta de crença em Deus.

Eis aqui um exemplo muito melhor de campanha publicitária. Mostrem Humberto Teixeira, o compositor de Asa Branca, e uma roda de forró tradicional do Ceará para ser vinculada no nordeste, como em Salvador. Teixeira era ateu. E a frase, ao invés de dizer “Quem acredita em Deus mata a mãe”, pode ser algo como: “Ateus também fazem arte. Diga não ao preconceito religioso” (algo do tipo, não fiz um brainstorm pô). Mostrem John Lennon em São Paulo com os dizeres “Mesmo sem crer em Deus, ele falava de paz aos homens.” Mostrem Angelina Jolie e Brad Pitt com crianças africanas e falem sobre os milhões que o casal doa para ações sociais e de saúde pública em países pobres pelo bem dos outros, e cite de passagem que eles não acreditam em Deus. Mostrem Chico Buarque compondo uma poesia. Mostrem grandes médicos e biólogos como Crick e Watson e as maravilhas da medicina que salvam vidas e surgiram de suas pesquisas, e associem esse modo de vida de busca pela melhoria de vida humana com pessoas que não tem religião.

Mas por favor, não chamem os religiosos de Hitler.

Mais sobre isso na Folha de S. Paulo.

Pompéo: triciclo elétrico brasileiro?

sábado, 14 nov 2009; \46\UTC\UTC\k 46 33 comentários

Parece que um grupo de engenheiros brasileiros deu início a um interessante projeto de construir e mercantilizar um triciclo elétrico, que mais parece um carro compacto de dois lugares. Eis o Pompéo:

De acordo com a reportagem original do Yahoo, Pompéu só existe por enquanto como desenho, O triciclo é projeto inicial dos engenheiros Renato César Pompeu da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e Carlos Eduardo Momblanch da Motta.Uma pergunta que tenho é: já foi construído um protótipo do motor com sucesso? Um protótipo do triciclo já está em parte construído com sucesso [veja o comentário do engenheiro Carlos E. M. da Motta]. A versão comercial do motor será construída pela empresa brasileira WEG. Segundo seus criadores, Pompéu chegaria até a 90 km/h e consumiria hoje cerca de 4 centavos da sua conta de eletricidade para rodar 1 km. Uma versão de motor a álcool também foi projetada, mas o que mais me interessou foi a versão elétrica. Além de ter potencial para uso empresarial como carro de prestação de serviços que não exigem transporte de carga pesada, o automóvel pode atrair consumidores que usam diariamente um carro para viagem até o trabalho. O triciclo ocuparia pouco espaço no trânsito e poluiria menos (ou nada). Mas eu vejo esse projeto como um embrião para o desenvolvimento de outros automóveis elétricos brasileiros para competir na nova indústria do Chevy Volt e do Tesla Roadster, que você talvez já tenha ouvido falar.

O Volt da Chevrolet está programado para entrar no mercado norte-americano no ano que vem. O carro é equipado com um motor elétrico que utiliza uma bateria para percorrer até aproximadamente 65 km sem recarga. Todavia, o carro é bivalente e o motor do Volt pode usar combustão quando a bateria acaba. Um parênteses: O projeto do Volt é um exemplo de como as empresas são desprovidas de ideologia que não seja ganhar muito dinheiro, pois o presidente atual da GM Chevrolet é um desses sujeitos que não acredita em aquecimento global e que acha que a poluição causada por humanos é irrelevante ao planeta, não obstante, ele pessoalmente através de entrevistas fez a promoção do Volt na mídia estadunidense.

Volt, apresentado pela GM, começa a ser vendido em 2010 nos EUA.

O Tesla Roadster já é vendido nos EUA a partir de $100 mil dólares, em um país onde o Honda Civic custa US$15 mil. Não sei qual o preço estimado do GM Volt, mas espero que não seja muito mais caro que um carro compacto da GM, que não sai por mais de US$ 15 mil. O Pompéu está previsto para vender no Brasil só a partir de 2012, por talvez cerca de R$30 mil — que hoje talvez seja um preço um pouco salgado para um triciclo simples. Você pode receber atualizações do projeto inscrevendo-se na lista de emails do site oficial.



Tesla Roadster

Para saber mais: leia o comentário do engenheiro Carlos Eduardo Momblanch da Motta, a quem agradeço muito as informações, e o site oficial do projeto:

http://www.triciclopompeo.com.br/

e também uma notícia no Yahoo.

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