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Posts Tagged ‘Ciência’

Regulamentação de profissões, e da profissão de Físico em particular

terça-feira, 27 jul 2010; \30\UTC\UTC\k 30 Deixe um comentário

O Rafael Lopes de Sá, escreveu recentemente sobre isso aqui no Ars Physica, e como no caso dele, esse post é a minha visão pessoal sobre o assunto. Pode ser que outras pessoas que escrevem aqui discordem. Minha opinião é muito similar à dele, então se você tiver preguiça de ler mais um texto contra a regulamentação da profissão de físico, basta ler o dele! 🙂 Esse texto na verdade foi escrito na comunidade de Física do orkut uns meses atrás, e o assunto surgiu novamente em outras discussões e então eu resolvi resgatá-lo e recauchutá-lo para ser digno de post de blog. Fiz isso mais para ter um link para mandar para quem pergunta minha opinião do que por qualquer outra razão, mas acho que ficou suficientemente bom para ser útil para vocês.  Enfim, ao texto…

Eu acredito que estamos melhor sem regulamentação. Vou dar duas séries de argumentos – uma de porque eu sou contra o sistema de regulamentações como um todo e outra de porque eu sou contra a regulamentação da profissão de físico ainda que o sistema de regulamentações não seja desmantelado.

O sistema de regulamentação de profissões.

Só existe uma razão objetiva para regulamentar uma profissão: impedir que pessoas não qualificadas exerçam atividades que representam um risco sério caso sejam mal executadas. Qualquer regulamentação que não se baseie nisso só tem um objetivo: criar um clubinho de pessoas que controlam uma série de atividades e impedir o acesso de outras pessoas a essas atividades, gerando uma reserva de mercado. Esse segundo tipo de regulamentação é, na minha opinião, perverso e prejudicial.

Prejudicial ao mercado: inibe a geração de empregos e inibe o crescimento de novas áreas de aplicação de conhecimentos antigos, além de aumentar artificialmente o custo de contratação.

Prejudicial para os profissionais: uma vez regulamentada a profissão, ficam estabelecidos limites claros para o que aquele profissional faz e o que ele não faz e é muito provável que se isso se cristalize no mercado profissional. Isso limita as atividades que você pode desenvolver: há atividades que você é capaz de fazer por causa de sua formação específica, mas não há vagas para pessoas com a sua formação nessa área.

Finalmente, prejudicial para a formação das pessoas. A existência de atividades privativas faz com que os conselhos profissionais obriguem os cursos a ensinarem algumas disciplinas, engessando as estruturas curriculares e preenchendo a grade horário dos estudantes com disciplinas  mal colocadas. Por exemplo isso acontece com os cursos de engenharia: por conta da grande quantidade de atividades que são privativas de engenheiros de todas as áreas, todos os cursos são obrigados a ministrar, por exemplo, matérias associadas a construção civil e a projeto de sistemas elétricos, ainda que isso não esteja nem próximo das intenções profissionais de um típico estudante de engenharia de controle e automação ou de engenharia metalúrgica.

A profissão de físico em particular.

Acima eu dei razões pelas quais eu sou radicalmente contra o sistema de regulamentação de profissões – que eu acho que deveria ser estritamente limitado a profissões que trazem risco. Mas isso está aí e não há muitas chances de que esse sistema de regulamentação seja posto de lado. Por isso, para que eu estabeleça meus argumentos, ainda são necessárias razões para não se regulamentar a profissão de Físico ainda que o sistema de regulamentações continue.

Regulamentar a Física como profissão exige a delimitação de que atividades serão privativas de um físico, que só ele poderia desempenhar. Entretanto, um coisa que salta aos olhos é o fato de que não existe realmente um corpo de atividades acima das quais você pode colocar o rótulo “Física”. Física não é um conjunto de atividades ou técnicas mas um conjunto de conhecimentos. Não é como a Medicina, a Fisioterapia, a Engenharia Elétrica, a Enfermagem ou a Geologia –  que, além de seus respectivos conjuntos de conhecimentos associados, possuem um arsenal de técnicas e atividades práticas que as caracterizam. Certamente um físico está habilitado por seus conhecimentos a desempenhar diversas tarefas úteis, mas não são tarefas privativas que qualquer outro profissional não possa aprender e desempenhar com a mesma eficiência.

Pode-se objetar a essa observação dizendo que há sim uma tarefa que envolve grandes riscos e que seria primordialmente tarefa dos físicos: dosimetria de radiações e manipulação de elementos radioativos. Eu discordo fortemente dessa visão. Essa é uma atividade que a gigantesca maioria das pessoas formadas em Física (eu inclusive) não está apta a desempenhar porque não há treinamento específico no curso. Os poucos físicos que são capazes de lidar com substâncias radioativas são aqueles que participaram algum projeto de pesquisa envolvendo essas substâncias. Finalmente: as técnicas  para se lidar com essas substâncias não exigem uma formação específica em física para serem aprendidas. Essas não são atividades que exigem todo o conhecimento adquirido em um curso de quatro anos de física, mas que qualquer profissional de física, química, engenharia ou áreas correlatas poderia desempenhar depois de um curso técnico específico.

Finalmente, qual seria o efeito de se regulamentar Física como profissão?

Seria criada uma reserva de mercado para certas atividades. Muitos vêem isso como vantagem, eu vejo como problema. Hospitais e departamentos de radiologia seriam obrigados a contratar físicos, para empregos incompatíveis com todo o treinamento que esses profissionais possuem. É ridículo supor que exige-se uma formação completa em física para se dosar a radiação de um aparelho de raios X. Basta uma formação de técnico em radiologia. E não se engane – a remuneração vai ser compatível com a de um técnico. Ninguém vai pagar salário de nível superior para fazer essa atividade.

Há quem argumente a favor da regulamentação pela criação de um piso salarial e aumento da remuneração de físicos. Mas físicos não ganham mal. Em uma recente pesquisa da FGV física era o 31º curso superior mais bem remunerado, com salário inicial médio de R$ 3500.

A necessidade de treinamento específico vai fazer com que se insira, nos cursos de bacharelado em física, disciplinas obrigatórias de instrumentação e dosimetria de radiações, e a grande maioria dos profissionais de física não vai trabalhar nessas áreas.

Diversas atividades que hoje são desenvolvidas com sucesso por pessoas formadas em física ficariam de fora da legislação: computação, finanças, projeto de produtos, … e vão sobrar para a física tarefas menos remuneradas e talvez mais facilmente conectáveis ao curso de graduação: metrologia, dosimetria, …

Finalmente, a Fisica não é, nunca foi e nunca será privativa de um clube de pessoas que resolvam delimitá-la. Por duas razões.

Em primeiro lugar, Física, como um corpo de conhecimentos teóricos, pode ser aprendida por qualquer um. Não é um processo de iniciação misterioso que está fora do alcance dos outros mortais. Qualquer um com tempo e disposição pode pegar os livros e entender do que se trata o assunto. Aliás, boa parte dos dois primeiros anos dos cursos de física que é aprendido pelos físicos nos cursos de graduação é compartilhado com quase todos os cursos de ciências exatas, e muito da parte mais avançada do curso é compartilhada com outros cursos como química, engenharia elétrica e outros.

Além disso, a Física não é delimitável. É IMPOSSÍVEL traçar uma linha e dizer que o que está lá dentro é Física e o que está fora não é. Isso não é uma característica apenas da física mas de todo campo que é eminentemente científico e não técnico. Também é impossível delimitar o que um biólogo faz, o que um químico faz, o que um matemático faz, o que um sociólogo faz, o que um estatístico faz. Há uma interface tão tênue e tão fluida entre essas áreas que qualquer um é capaz de estudar, aprender e ingressar em qualquer atividade que um físico for capaz de exercer.

É assim que é, e é assim que tem que ser. Essa é a nossa riqueza e o que realmente diferencia um profissional com uma forte formação científica e quantitativa: não há limitações no que ele pode aprender a fazer.

Research Blogging…

sexta-feira, 19 fev 2010; \07\UTC\UTC\k 07 Deixe um comentário

Pra quem não conhece, o Research Blogging é um site com a missão de de (…) identifying the best, most thoughtful blog posts about peer-reviewed research.” (“identificar os melhores, mais reflexivos posts sobre pesquisa arbitrada-por-pares”).

Pois bem, a partir de hoje (2010-Feb-19), 07:49 EDT, o AP está devidamente cadastrado! 😈

Então, se preparem: a partir de agora, nossos posts sobre trabalhos publicados virão com uma marca nova. 😉

O realejo do dia…

segunda-feira, 19 out 2009; \43\UTC\UTC\k 43 Deixe um comentário

“Symphony of Science — We Are All Connected” (ft. Sagan, Feynman, deGrasse Tyson & Bill Nye),

Colaboração e Ciência: tudo a ver…

segunda-feira, 19 out 2009; \43\UTC\UTC\k 43 1 comentário

Semana passada saíram algumas notícias que são, IMHO, extraordinárias no sentido de mostrar o quão valiosa é a cooperação e a colaboração num ambiente criativo.

A Nature fez duas reportagens, uma sobre o Google Wave e outra sobre o Polymath Project,

Por outro lado, um pessoal do Secret Blogging Seminar lançou um site muito interessante, chamado MathOverflow,

Semana passada, eu entrei em contato com o Anton Geraschenko perguntando mais detalhes sobre o projeto do MathOverflow e tudo mais. E o primeiro link acima é, essencialmente, uma resposta às minhas perguntas.

No final das contas, eles estão sendo patrocinados por um professor em Stanford que está arcando com os custos duma solução ‘hosted’ de StackExchange — que é o software por detrás do StackOverflow, ServerFault, SuperUser, DocType, e HowTo Geek.

Então, eu acho que seria uma idéia genial a de se mandar uma proposta de divulgação científica pro CNPq. Quem sabe não sai, assim, um PhysicsOverflow?! 💡 😈

Esse é você + Ciência

Esse é você + Ciência

A Física da Psicologia Humana

quinta-feira, 24 set 2009; \39\UTC\UTC\k 39 6 comentários

Talvez interesse para vocês, principalmente para os nossos leitores que são professores colegiais de física — ou mesmo quem quer falar de física para o público –, essa seguinte palestra do Steven Pinker


The Stuff of Thought, áudio MP3 na iTunes U, grátis, The RSA, 1h25min.

onde ele fala logo no início, entre outras coisas, sobre a física da psicologia humana.

O que é, exatamente? Entende-se hoje que o comportamento humano é o produto da evolução das espécies. Todos os animais superiores são dotados de instintos natos que constituem um conjunto de teorias físicas do mundo. Para ilustrar, vou usar dois outros exemplos diferentes da palestra (que você encontra no Como a Mente Funciona do Pinker), e que não estão ligados a linguagem. O primeiro é a conservação da massa. Todo mamífero tem escrito no cérebro essa suposição sobre a matéria. Quando Bambi vê uma leoa distante andando perpendicularmente a sua linha de visão e a imagem da leoa é obstruída por uma rocha, Bambi sabe que há um leão atrás da rocha, mesmo que esse tenha desaparecido do campo de visão. Essa é uma suposição básica sobre o universo que os mamíferos inteligentes fazem. O cérebro dos animais superiores foi dotado dessa suposição porque aqueles que não a tinham ficavam despreocupados quando um predador se escondia e consequentemente eram presa mais fácil. O DNA associado a esse comportamento foi portanto desfavorecido na população. Outro exemplo é a lei da gravitação. Quando um humano se encontra na beira de um precipício, o cérebro automaticamente reconhece o perigo e injeta na corrente sangüínea (não ligo para você novo acordo ortográfico!) os hormônios necessários para reação adequada: os movimentos musculares são drasticamente desacelerados, de fato, podem até congelar por um tempo. Essa injeção hormonal é involuntária, não depende se você já aprendeu ou não a lei da gravidade na escola: o cérebro pressupõe que objetos não permanecem no ar sem sustentação. A origem evolutiva do medo inato de altura é bem óbvia.

As leis físicas supostas pelo cérebro humano não precisam ser corretas ou precisas. Elas são o produto direto de tentativa e erro da evolução. Aprendendo qual é a física da psicologia, os psicólogos podem testar a teoria mostrando situações a seres humanos em que a física da psicologia é explicitamente violada. Os mais notórios exemplos são as ilusões de óptica. Como a imagem que se forma na retina é bidimensional, informação do mundo tridimensional é perdida. Ainda assim, o cérebro reconstrói a informação de profundidade. Isso só é possível porque há uma série de suposições sobre a propagação de raios de luz (perspectiva) e conservação da massa. Violar parte desses pressupostos permite aos psicólogos criar parte das ilusões ópticas (existem ilusões de óptica de outros tipos, como aquelas associadas a tentativa do cérebro de preencher padrões da região de visão central na visão periférica).

Nessa palestra da RSA, e também no livro homônimo (no Brasil: Do que é feito o pensamento, Cia. das Letras), Pinker explora como uma análise cuidadosa da gramática das línguas revela alguns desses pressupostos que o cérebro humano faz sobre o mundo. É a física da psicologia e da linguagem.
Eu deixo o Pinker falar sobre parte do que eles tem apreendido sobre o comportamento humano. Um dos aspectos interessantes da palestra é a observação de que, na gramática, tempo é tratado “como uma dimensão do espaço”. Isso remete a construção da linguagem com base em analogias, coisa que o Pinker explora brevemente no Como a Mente Funciona (e explica nessa palestra também).

Ao ensinar física newtoniana, eu creio que as explorações dessa área da psicologia podem ser interessantes para alunos de colégio, para verem como a física é útil em outras ciências de uma forma inusitada. Porque nesse caso não é que modelos matemáticos da física estão sendo usados para descrever o disparar de um neurônio, e sim a noção de teorias físicas entra para entender alguns dos aspectos do comportamento humano. 🙂

A semana nos arXivs…

quarta-feira, 29 abr 2009; \18\UTC\UTC\k 18 1 comentário


A semana nos arXivs…

quinta-feira, 2 abr 2009; \14\UTC\UTC\k 14 Deixe um comentário
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