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Pseudociência by Elsevier: o caso El Naschie

segunda-feira, 8 dez 2008; \50\America/New_York\America/New_York\k 50 4 comentários

Por Alexandre Abdo *

Ni!

Resumo: M. S. El Naschie, editor chefe do periódico Chaos, Solitons and Fractals, publicado pela Elsevier, e pela qual nós brasileiros pagamos para ter acesso, é um charlatão que há anos usa a própria revista que edita para promover pseudociência, já publicados mais de 300 artigos nessa linha.

Não precisarei alongar-me no assunto pois o Maurício Tuffani já fez um excelente trabalho[1], e para quem lê inglês sugiro olhar também a discussão original no blog n-Category Café[2]:

[1] http://laudascriticas.wordpress.com/2008/12/01/csf/

[2] http://golem.ph.utexas.edu/category/2008/11/the_case_of_m_s_el_nas

Vale lembrar, contudo, que no nosso contexto acadêmico brasileiro a dependência cega em fatores de impacto (numerocracia), e subserviência a interesses partidários estão desfigurando o cenário científico de forma a empoderar picaretas como este.

A primeira delas leva a aberrações como os casos de plágio passados impunemente e a fabricação de citações – fora problemas de outra natureza, como privilegiar pesquisas previsíveis e de curto prazo.

A segunda leva ao crescimento desestruturado das universidades que vem derrubando critérios fundamentais de qualidade e dificultando o debate crítico que previniria esses desvios éticos.

No caso El Naschie, o assunto chamou a atenção de líderes científicos internacionais e, por mais que o sistema das editoras seja insustentável, o problema do momento foi ao menos exposto e há visibilidade para o diálogo  sobre as mudanças necessárias.

Já no Brasil, fica a cada dia mais difícil expôr esses maus elementos, e cada dia mais fácil para eles ganharem força política. E assim, mesmo quando expostos, no final nada é feito: vide o que se passa no IFUSP.
Abs,

abdo

Fonte: http://stoa.usp.br/abdo/weblog/38731.html

* pô, desse jeito o Abdo vai ter mais posts que eu aqui no AP. Melhor eu tratar de por em prática algumas idéias que quero escrever aqui. 😛

Avaliando cientistas: índices bibliométricos e numerocracia

quarta-feira, 1 out 2008; \40\America/New_York\America/New_York\k 40 Deixe um comentário

Por Alexandre Abdo

Ni!

Recentemente a revista “Ethics in Science and Environmental Politics” criou uma Sessão Temática para discutir “The use and misuse of bibliometric indices in evaluating scholarly performance”.

Traduzindo: o uso e mal uso de índices bibliométricos na avaliação da performance acadêmica.

Os artigos publicados, disponíveis a todos, cobrem diversos aspectos dessa questão:

http://www.int-res.com/abstracts/esep/v8/n1/

Escrevo este post pois esse é um tema fundamental para toda a comunidade científica, mas ainda mais para a brasileira, que tem muito a ganhar com essa discussão – ou perder com a falta dela.

A questão dos índices bibliométricos surge ancorada em duas outras questões: a da incompetência administrativa e a do isolamento entre o meio científico e a sociedade.

E uma vez que ambas são fatos gritantes em nosso país, é imprescindível termos um diálogo aberto a esse respeito.

O uso indiscriminado de índices bibliométricos, que vem substituindo a consulta de representantes da comunidade científica, troca uma avaliação imprecisa porém direta do valor científico, por uma medida precisa de algo cuja relação com o valor científico não é nem direta, nem completa e, muito menos, universal.

Que não se negue que, quando bem interpretados, esses índices podem ser úteis como parte de uma avaliação. Mas seu uso mais comum, como fator predominante na distribuição de recursos, adotado com avidez no Brasil para escamotear a incompetência dos administradores, sob a alegação de uma objetividade fictícia, é inequivocamente nocivo e está desfigurando a prática científica, afastando-a dos seus objetivos de solidez, criatividade e inovação.

As tentativas de focar a discussão na “melhoria” dos índices (necessária é claro) é também equivocada, pois evita lidar com o problema real, dificultando ainda mais sua solução.

E qual esse problema? Pois é fácil identificá-lo: o isolamento entre academia e sociedade e a incompetência dos administradores públicos.

É um mecanismo simples: administradores incompetentes acham mais fácil criar um sistema que os exima de responsabilidade e garanta bons slogans de campanha a estreitar os laços com a academia e sociedade e trilhar o caminho difícil, de entender profundamente as necessidades e competências da comunidade científica e os projetos relevantes para a nação.

Por outro lado, cientistas reclamam, mas não conseguem se organizar por estarem acomodados pela facilidade de gerar esses números (publicar em “revistas de impacto” é estupidamente fácil, basta não tentar nada ousado ou inovador demais que possa dar errado, e não contrariar as tendências internacionais) e por estarem totalmente desconectados da sociedade que poderia pressionar o governo.

Além disso, que não se negue a existência de um grande grupo de pesquisadores nas universidades públicas que se maravilha na possibilidade de escamotear sua incompetência gerando “miríades de papers” sem relevância nenhuma mas que ganham espaço nas “revistas de impacto”, que na verdade só querem vender papel.

Mais lamentavelmente, este último grupo, também absolvido de suas responsabilidades pela numerocracia, se aproveita do tempo livre para mineirar cargos políticos nas universidades e iniciar relações espúrias com os administradores que os trataram tão bem.

Bom, como consequência dessa lógica, que também se aplica a outros setores regidos pela numerocracia, acompanhamos diariamente o governo brasileiro sucatear os serviços prestados à população, valendo-se de múltiplos índices para se vangloriar e afastar os “perigosos fantasmas” da transparência administrativa e participação popular.

Educação, saúde, ciência, estão todos “melhorando” segundo “dados oficiais” ao mesmo tempo em que a realidade de quem trabalha continua a mesma (desgraça), e enquanto o terceiro setor e governos paralelos organizam-se como reação à ausência completa de estado.

Nesta eleição vamos políticos fazendo comíssios em acordo com traficantes, vemos avaliações internacionais escancarar o desastre do ensino brasileiro, mas os índices do governo só sobem. Cada um, como dizem, vê o que quer.

A numerocracia é uma mágica que permite aos administradores parecerem objetivos, se isentando de responsabilidade, ao mesmo tempo em que fazem o que bem entendem com o dinheiro público.

Na ciência, o que vemos é priorização arbitrária e desestruturada de projetos, ao mesmo tempo em que continuam os apadrinhamentos, em algumas áreas até reinam os incompetentes, e fragiliza-se nossos interesses diante do projeto internacional.

Para nós da comunidade universitária, será lamentável se permitirmos a continuidade desse processo, e falharemos se não levarmos esse debate, mais amplo, à sociedade.

Abs!

abdo

~~

Fonte: http://stoa.usp.br/abdo/weblog/29473.html

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