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Posts Tagged ‘Filosofia’

As Raízes da Metafísica…

segunda-feira, 22 ago 2011; \34\UTC\UTC\k 34 1 comentário

Acabei de ler o post The Roots of Metaphysics que trata do Paradoxo de Russell — que tem a mesma natureza do Argumento Diagonal (o fato de que os Reais são incontáveis).

Entretanto, no sentido exposto no texto — “(…) no set of existential statements can entail a universal statement” —, a primeira coisa que veio a minha mente foi o Teorema do Limite Central (e suas “variações sobre o tema”). Ou seja, apesar dos pesares, minha crítica ao texto, ao modo como o problema foi exposto no texto, é que eu não achei que a noção de recursividade ficou exposta de modo claro o suficiente (de modo que se note que ela é o ‘pilar’ por detrás do problema sendo tratado). A analogia feita no texto é a de que enquanto a afirmação “todos os morcegos estão na pia” é universal, a afirmação “há um morcego na pia” é existencial. O problema dessa analogia é que nós já sabemos, a priori, que o número de morcegos é finito (assumindo, claro, que só existem morcegos no nosso planeta), o que faz uma diferença enorme em toda essa brincadeira. Num certo sentido, o problema dessa analogia está no Paradoxo de Banach–Tarski: se fosse possível, através dum corte ao meio, se obter dois morcegos idênticos entre si, a partir dum morcego original, aí sim, essa seria uma analogia bona fide, uma vez que a recursividade estaria então implementada no problema. Aliás, é por essas, e outras, que existem diferentes formulações da Teoria de Conjuntos, como, e.g., Teoria de Conjuntos de Zermelo–Fraenkel (e suas respectivas objeções), assim como Teoria de Topos e Teoria de Conjuntos de Tarski–Grothendieck.

Acho interessante ver que o Paradoxo de Russell é de ~1925… e que, por exemplo, os Teoremas de Incompletude de Gödel são de 1931: quando postos em contexto, acho que as implicações são bem interessantes. :wicked:

No final das contas, esse assunto tem um nome: Meta-Matemática — leia mais sobre isso em Meta Math! The Quest for Omega e Omega and why maths has no TOEs. Ou seja, como devemos usar a matemática pra avaliar a própria matemática?

Num certo sentido, isso me leva a pensar diretamente sobre o conceito de Grupo de Renormalização, Teorias Efetivas e Espaço de Teorias (em física teórica) (ver também Grupo de Renormalização Funcional). Ou seja, em Física existem teorias que são fundamentalmente desconexas (como, por exemplo, a Relatividade Geral e a Mecânica Quântica); entretanto, existe todo um outro conjunto de teorias que estão conectadas via o Grupo de Renormalização: ou seja, existe uma teoria pra explicar cada conjunto de graus-de-liberdade (ie, as variáveis que descrevem uma determinada teoria); entretanto, é possível se rearranjar um conjunto de graus-de-liberdade de modo a se obter as variáveis relevantes para se explicar outra teoria — esse fenômeno leva o nome de Transição de Fase.

Nesse sentido, existem várias escalas relevantes para a Física, que efetivamente formam “ilhas de teorias”, ou “ilhas de verdade” (à la Gödel). Dessa forma, acabamos com um sistema multi-fractal: a auto-similaridade consiste no fato de que toda a estrutura Física se repete nas diversas escalas: Lagrangianos, [quantização via] Integral de Trajetória de Feynman, Renormalização, etc, etc, etc — exceto, claro, por pontos-fixos não-triviais no Fluxo de Renormalização. 😉

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O Lamento dum Matemático…

domingo, 21 ago 2011; \33\UTC\UTC\k 33 1 comentário

Acabei de encontrar esse artigo (PDF), escrito por Keith Devlin, onde a seguinte citação aparece:

“… The first thing to understand is that mathematics is an art. The difference between math and the other arts, such as music and painting, is that our culture does not recognize it as such. Everyone understands that poets, painters, and musicians create works of art, and are expressing themselves in word, image, and sound. In fact, our society is rather generous when it comes to creative expression; architects, chefs, and even television directors are considered to be working artists. So why not mathematicians?”

(Tradução livre: “… A primeira coisa a entender é que a matemática é uma arte. A diferença entre a matemática e as outras artes, como música e pintura, é que nossa cultura não a reconhece [como arte]. Todo mundo entende que poetas, pintores, e músicos criam trabalhos de arte, e se expressam em palavras, imagens e sons. De fato, nossa sociedade é meio generosa quando o assunto é expressão criativa; arquitetos, chefs [de cozinha], e até mesmo diretores de TV são considerados artistas. Então, por que não os matemáticos?”)

Taí uma desses “perguntinhas capiciosas” que têm a capacidade de mudar muita coisa… “Por que não os matemáticos?”

Novas estruturas sociais e o cientista hacker…

quinta-feira, 19 fev 2009; \08\UTC\UTC\k 08 Deixe um comentário

Com a crescente fusão entre ciência e tecnologia (principalmente TI), surgem novas formas de produção e distribuição do conhecimento.

Origens da divulgação científica

Em ciências (exatas, humanas ou biológicas), desde os primórdios até hoje, a forma preferida de divulgação do conhecimento é oral, por meio de palestras, congressos e conversas formais ou informais. Isso acontece porque explicar a lógica por detrás de uma idéia, de um raciocínio ou de uma metodologia, costuma requerer mais do que a comunicação escrita pode oferecer. Ao vivo, é possível interagir com o interlocutor. Perguntas e respostas são fundamentais para o entendimento.

Com o desenvolvimento histórico, porém, os modos de organização sociais mudaram, outros continentes foram descobertos, a humanidade se expandiu. A história das ciências também mudou: a cada nova escolha feita pelas sociedades, era necessária uma nova adaptação do método científico e de sua divulgação. Na Babilônia e no Egito, há registros de números Pitagóricos, incluindo o famoso teorema de Pitágoras, que datam de 1900-1600 AC, alguns ainda em escrita cuneiforme. Compare isso com as nossas mais modernas formas de escrita: TeX, XHTML, MathML.

Enquanto o mundo era pequeno (Europa/Eurásia) e com o aparecimento de “centros de excelência” para as diversas áreas do saber, a divulgação do conhecimento humano acontecia sem grandes problemas. Porém, com a entrada do “Novo Mundo”, as distâncias começaram a mudar o modo de divulgação científica, passando de oral para escrita. Só assim era possível comunicar as descobertas para os diversos cantos do mundo. Publicava-se uma enciclopédia, uma revista, e essa era levada de barco para o resto do globo. Foi basicamente por essa razão – transposição das distâncias –, num contexto de desenvolvimento da tecnologia da impressão por Gutenberg, que as revistas científicas tomaram a forma que, em alguns casos, adotam até hoje. Contudo, a revolução tecnológica desse último século, incluindo a revolução digital, começou a chacoalhar as fundações desse modelo.

Internet: agilidade na popularização do conhecimento

Flexibilidade e dinamismo na divulgação do conhecimento são peças fundamentais em ciências. Dentre outras razões, estão o simples fato de se atrair um maior interesse no trabalho dos pesquisadores (jovens cientistas, alunos) e o fato de que o resultado da pesquisa de um determinado grupo poder catapultar a pesquisa de outros grupos. Quanto mais pessoas tiverem acesso aos resultados de determinada pesquisa e quanto mais rápido esses resultados forem divulgados, maior será a chance de avançar aquela área do saber. Em alguns casos, essa dinâmica é necessária para manter vivo um campo do conhecimento.

A invenção da Internet e a popularização das tecnologias de computadores, modems, bandas-largas e redes foram um passo fundamental na direção de se agilizar a produção e divulgação do conhecimento. Hoje em dia, é rotina um pesquisador de um lado do globo comunicar seus resultados para seus colaboradores em outros cantos do planeta. Quando se adiciona a isso o fato de que o conhecimento da humanidade pode seguir um novo paradigma de “velocidade, flexibilidade e dinâmica”, esse avanço tecnológico passa a ser incomensurável.

Esse novo ”modus operandi” é fundamental para que se possa maximizar os caminhos da ciência: tanto na direção do cientista para o leitor quanto na do leitor para o cientista. Mas, para que isso se realize, é imprescindível que a divulgação seja o mais democrática possível, habilitanto qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo a ter acesso a informação. Nossa sociedade industrial transformou-se em uma sociedade que valoriza a informação. Essa é uma das razões que justifica a existência de modelos de distribuição como o usado pelo arXiv (distribuição gratuita) em lugar de modelos canônicos (revistas especializadas e seus custos).

Ciência da Computação e a revolução digital

Ciência e tecnologia são conceitos diferentes. De acordo com suas definições de dicionário:

  • ciência: conhecimento; conhecimento de princípios e causas; confirmação da verdade dos fatos;
  • tecnologia: aplicação prática da ciência para o comércio e/ou indústria [sinônimos: engenharia, ciência aplicada].

Dada essa distinção, surge a questão de como ciência e tecnologia se relacionam. Em outras palavras, “qual é a ”distância” entre um fato científico e seu correspondente tecnológico?” Para quem está familiarizado com essa questão, é fácil ver que isso é complicado. É preciso entrar nos pormenores de cada área do saber e avaliar o quão próximo do dia-a-dia cada uma delas está. “O que é que se pode fazer de prático com Gravitação Quântica?” Contraste isso com: “O que é que se pode fazer de prático com uma vacina contra a AIDS?” ou ainda “O que é que se pode fazer de prático com a nanotecnologia?” A Gravitação Quântica está bem longe de trazer resultados práticos para o nosso dia-a-dia. Em compensação, pesquisas em HIV e em nanotecnologia estão presentes e afetam a nossa vida diariamente.

Entretanto, é preciso ter cuidado com esse tipo de afirmação: avanços tecnológicos aparecem onde menos se espera. As dificuldades técnicas em se construir equipamentos para pesquisa pura, como aceleradores de partículas (por exemplo, CERN e SLAC) levaram a avanços enormes para os componentes de computadores. O volume de dados que trafega pelas redes de computadores desses experimentos chega a atingir 1 Terabyte (1024 Gigabytes) por segundo, e uma colisão típica nesses aceleradores leva alguns segundos. Um experimento para se medir alguma propriedade de uma teoria de Gravitação Quântica pode levar a avanços dessa natureza.

Para ilustrar esse argumento, vale a pena lembrar duas frases do físico inglês Michael Faraday. Enquanto Faraday explicava uma nova descoberta para o Ministro das Finanças e para o Primeiro Ministro britânicos, perguntaram-lhe ”‘Mas afinal, que uso tem isso?’”, no que Faraday respondeu, ”‘Excelência, é provável que em breve o senhor esteja cobrando impostos sobre isso’”. Em uma outra conversa, o Primeiro Ministro britânico lhe perguntou a respeito de uma nova descoberta ”‘Que valor tem isso?’”; Faraday respondeu, ”‘Que valor tem um recém-nascido?’” e prosseguiu explicando que sem os cuidados de uma boa infância, um recém-nascido não cresce e não se torna um adulto criativo e trabalhador.

Na área de Ciência da Computação, a distância entre ciência e tecnologia fica ainda mais difícil de medir. Por exemplo, Teoria dos Grafos é uma das áreas de pesquisa da matemática pura. Porém, em Ciência da Computação, o conhecimento de Teoria dos Grafos é fundamental para a construção de compiladores (programas que traduzem código escrito em uma linguagem para linguagem de máquina), ou então para o desenvolvimento das linguagens usadas na criação de páginas WWW para a Internet, como o HTML, XHTML, XML, CSS e seus interpretadores (navegadores, como Mozilla Firefox e Opera). Uma teoria abstrata como Teoria dos Grafos acabou gerando uma aplicação imediata. Sem ela, nenhum de nós estaria surfando na Internet hoje.

A Ciência da Computação introduziu um novo paradigma a respeito dessa “distância” entre teórico e prático. E esse novo paradigma trouxe consigo um novo conceito para a nossa sociedade pós-industrial: ”O conceito de Sociedade da Informação”. Uma visão corrente afirma que foi a Tecnologia da Informação que causou essa mudança. Entretanto, é preciso ter em mente que esta teve origem na Ciência da Computação. Uma nova gama de ciências apareceram por causa desse ”insight”, como Teoria da Informação e Inteligência Artificial. O momento histórico, portanto, é mais do que propício para discutirmos uma possível liberação dos meios convencionais de divulgação científica.

Propriedade intelectual

Cooperação e colaboração entre cientistas e acesso às pesquisas e seus resultados são pontos para que se caminhe em direção ao futuro. Portanto, tanto a ciência quanto seus pesquisadores são historicamente livres. No começo dos tempos científicos, a pesquisa e seus resultados tinham uma aplicação prática muito mais tímida do que hoje em dia. Atualmente, é possível ganhar um Prêmio Nobel pela descoberta da estrutura de dupla-hélice do DNA (via cristalografia de raios-X), ou pela descoberta da liberdade assintótica dos quarks, coisa que os egípcios e babilônios jamais sonharam. As aplicações da nanotecnologia vão desde tecidos inteligentes até computadores quânticos e ”spintrônica”. No campo de biotecnologia, desenvolvem-se fármacos para combater um vírus específico. Em suma, aprendemos a dar forma, cor, sabor e até cara para nossos achados científicos de tal forma que, teorias antes consideradas completamente abstratas e sem aplicação prática, são hoje os pilares de uma revolução no nosso modo de vida.

Com esses avanços, um método para a proteção do conhecimento foi desenvolvido. Trata-se da ”Propriedade Intelectual”. Esse desenvolvimento ocorreu ao mesmo tempo em que a nossa ciência ficava cada vez mais próxima da tecnologia. Isso acontece por uma razão bem simples: economicamente, é mais fácil atribuir valor à tecnologia do que à ciência. Afinal de contas, o que é mais fácil quantificar: a Teoria Quântica de Campos e seus aceleradores de partículas ou os computadores e suas tecnologias de rede e bandas-largas? O que é mais fácil de medir: 20 anos de estudo ou um novo antibiótico?

Em vista disso, a medida de ”distância” entre ciência e tecnologia passou a ser cada vez mais fundamental: com o aumento da proteção sobre o conhecimento, o custo sobre o desenvolvimento científico pode tornar-se proibitivo. O desenvolvimento científico deixaria de ser livre. Já imaginaram o que seria do mundo moderno se Maxwell tivesse “cobrado” por sua teoria, o Eletromagnetismo? Sua teoria resume-se a 5 equações. Quatro delas descrevem os fênomenos elétricos e magnéticos propriamente ditos e uma delas descreve a conservação de carga. Essas equações, chamadas Equações de Maxwell, são a base de tudo que é elétrico, eletrônico e magnético hoje em dia (lâmpadas, geladeiras, microondas, computadores). Isso ilustra a dificuldade de atribuir-se um valor econômico a descobertas científicas.

Porém, é necessário dar valor à tecnologia, afinal de contas os produtos e resultados das pesquisas científicas têm que gerar alguma coisa. E é por isso que o paradigma atual, de revolução digital e sociedade da informação, é tão crítico. Como foi mostrado acima em Ciência da Computação, essa distância entre ciência e tecnologia é algo mal definido. Um mestre em Teoria dos Grafos pode inventar um novo compilador, isto é, um teórico pode produzir tecnologia. A Ciência da Computação é a primeira a permitir esse nível de interação entre teoria e prática, entre ciência e tecnologia. Esse é o primeiro palco onde a mais abstrata das matemáticas acaba tendo aplicações práticas de uma utilidade inigualável.

Bazar do conhecimento: por uma sociedade livre e universal

É essa mistura entre ciência e tecnologia, entre teoria e prática, que foi responsável pela revolução digital, pelo nosso novo paradigma cultural (pós-industrial) de sociedade da informação. Portanto, nesse novo momento histórico nós, enquanto coletividade/sociedade, teremos que fazer uma escolha que mudará nossas vidas de forma crítica: ”como é que vamos lidar com a impossibilidade de se medir a distância entre ciência e tecnologia?”. Essa pergunta é fundamental para os futuros modelos econômicos.

Dentre os estudiosos dessa nova economia e sociedade, destacam-se Eric Raymond (The Cathedral and the Bazaar) e Richard Stallman (Free Software, Free Society). O ponto principal dessas referências é que tudo que nelas é descrito como cultura hacker sempre fez parte da cultura da ciência e dos cientistas. Segundo o dicionário dos programadores, a definição de ”hacker” é “um programador para quem a computação em si é sua própria recompensa” e “aquele que gosta do desafio intelectual de superar barreiras criativamente ou encontrar alternativas para limitações”). Ora, cientistas têm sido assim desde sempre. Cientistas são ”hackers”: hackers da matemática, da física, da química, da biologia, da ciência da computação.

Portanto, e chegamos agora ao ponto crucial: estamos vivendo o momento do ”interlace de culturas”, de permeação da cultura ”hacker” na cultura científica. Creio que esse interlace se originou na Ciência da Computação, a primeira ciência a permitir uma interação intensa entre teoria e prática. Assim, nesse momento cultural, vivemos a impossibilidade de discernir ciência de tecnologia e cultura hacker de cultura científica. Dessa forma, a escolha crítica que teremos que fazer reside no fato de que a cultura hacker/científica é fundamental e diferente do paradigma econômico em que vivemos hoje, principalmente no que diz respeito à produção de valor.

O caminho na direção de uma sociedade mais livre e universalmente inclusiva terá que lidar com essas questões, terá que formular respostas para essas questões, terá que encontrar novos paradigmas sociais e econômicos que acomodem essas questões. Um dos problemas a serem atacados é o da universalidade da ciência, principalmente no que diz respeito à sua divulgação. A meu ver, a solução mais universalmente inclusiva e livre para essa questão deve seguir os moldes do arXiv. Trata-se de uma solução que permita o acesso irrestrito ao conhecimento, às pesquisas e seus resultados. E, dado o modelo econômico atual, isso só pode ser feito através de uma forma eletrônica e gratuita de divulgação científica. Seria fantástico se o modelo do arXiv fosse adotado para todas as outras áreas do saber.

Epílogo: Uma breve história do arXiv

No começo, o arXiv era chamado “LANL preprint archive” (LANL é o Laboratório Nacional de Los Alamos – lugar onde a física das bombas atômicas da Segunda Guerra Mundial foi finalmente entendida e “dominada”). Ele é um arquivo para ”preprints” eletrônicos de artigos científicos nos campos de Física, Matemática, Ciência da Computação e Biologia Quantitativa. No passado, o servidor do arXiv ficava no LANL mas, atualmente, o arXiv é servido e operado pela Universidade de Cornell, além de ser espelhado pelo mundo afora. Sua idéia original é devida ao físico Paul Ginsparg.

O arXiv surgiu em 1991 como um arquivo de ”preprints” em física (hep-th, sigla que denota “física teórica de altas energias”) e, mais tarde, foi expandido para incluir, além de outras áreas de física, matemática, ciência da computação e, mais recentemente, biologia quantitativa. Em Março de 2004, o arXiv continha cerca de 267.000 preprints e recebia cerca de 3.000-4.000 novos preprints por mês!

O primeiro nome do arXiv foi xxx.lanl.gov, porém esse nome foi mudado quando se descobriu que programas de “censorware” (ou seja, programas de filtragem de conteúdo) estavam bloqueando seu acesso a partir de diversos sites, acreditando que as três letras X implicassem num site pornográfico. A idéia do XXX era a de que o arXiv era melhor que o WWW em todos os aspectos (já que a letra x vem depois da letra w no alfabeto).

A existência do arXiv foi um dos fatores mais importantes que levou à presente revolução em publicações científicas, conhecida como Open Access Movement (veja também Budapest Open Access Initiative e Berlin Declaration), com a possibilidade de levar ao desaparecimento das revistas científicas tradicionais (e, mais importante ainda, seus modelos de publicação).

Um método popular para se acessar a porção de matemática do arXiv é via o portal da Universidade da Califórnia em Davis chamado de Front. O portal oferece um método de busca poderoso e uma interface mais amigável para o usuário. Por essa razão, o arquivo de matemática é conhecido como ”[the] Front”.

Cientistas e matemáticos profissionais (como Grigori Perelman em 2002 e Richard Arenstorf em 2004) ”carregam” regularmente seus achados e demonstrações matemáticas no arXiv para o acesso e revisão mundial (e gratuito).

Referências

Enquete…

Diversão garantida…

😈

Dúvida, pseudo-ciência e liberdade de expressão

sábado, 18 out 2008; \42\UTC\UTC\k 42 6 comentários

Todos os aficcionados por ciência tem por hobby delatar e atacar os divulgadores de bad-science, ou pseudo-ciência – aqueles estudos com ares pretenciosos de ciência mas que no fundo não têm sustentação objetiva. Alguns até diriam que é o papel dos acadêmicos da ciência tomarem a frente nessa batalha e capitanear os esforços pela erradicação da pseudo-ciência, inspirados em Carl Sagan, Richard Dawkins e outros heróis. Entretanto esbarramos aí em questões complicadas, às quais eu pretendo discutir sem dar respostas – uma vez que eu não as tenho. Creio aliás que são questões onde é mais útil pensar sobre o assunto com cuidado do que ter respostas (1).

A primeira questão é a óbvia questão demarcatória: que é pseudo-ciência? Que venham os falsificacionistas, os kuhnianos, os lakatosianos, Hume, Feyerabend e todos os filósofos da ciência de mãos dadas admitir que nunca resolveram essa questão. Não parece, pelo menos por enquanto, ser possível definir ciência sem excluir ou incluir coisas que não gostaríamos que estivessem lá. Ciência e não-ciência não são classes de equivalência de sistemas lógicos. O que podemos fazer é outra pergunta: que atitudes são esperadas de um cientista, e quais atitudes são esperadas de um pseudo-cientista? E logo depois podemos nos perguntar porque as atitudes do cientista são preferíveis às do pseudo-cientista.

Para atacar essa pergunta vou citar, o que é um péssimo costume pessoal, um grande cientista:

É a nossa responsabilidade como cientistas, sabendo do grande progresso que vem de uma satisfatória filosofia da ignorância, (…) ensinar como a dúvida não deve ser temida mas bem-vinda e discutida; e demandar essa liberdade, como nosso dever perante todas as futuras gerações.

Richard P. Feynman, What Do You Care What Other People Think(3)

Meus grifos e minha tradução (perdoem-me por qualquer erro). Essa citação, usada numa bela palestra do Prof. Nestor Caticha sobre a vida de Feynman semana passada no Convite à Física (2), aponta na direção do que é considerado entre os cientistas um padrão de comportamento desejável (porém nem sempre seguido): honestidade intelectual, particularmente honestidade com a dúvida. Ter dúvida e não se sentir constrangido, admitir não saber e admitir que a nossa capacidade de conhecer é limitada e que seu produto é sujeito à revisão é a atitude esperada de cientista. Essa dúvida entretanto não é passiva. O estado de dúvida é o estado de busca da sanação dessa dúvida.

O pseudo-cientista arquetípico não age assim. Ele brande a certeza em uma verdade revelada, que lhe foi transmitida por meios misteriosos e que todos os outros não conseguem enxergar. Ele crê ter o mundo contra sí, contra a sua verdade auto-evidente.

Por que é bom agir como um cientista e não como um pseudo-cientista? Eu não sou um estudioso de ética para atacar essa pergunta. Eu estaria muito mais disposto a responder: o que a sociedade ganha se as pessoas agirem como cientistas e não como pseudo-cientistas? Há dezenas de possíveis lucros para a sociedade: governantes dispostos a revisarem suas crenças e projetos são mais capazes de prever, evitar e consertar erros administrativos, modelos de gestão adaptativos que se revisam periodicamente são mais eficientes, pessoas com dúvidas são curiosas e aprendem mais, … enfim, um mundo onde as dúvidas são expressas e sanadas é mais eficiente que um mundo onde as dúvidas são suprimidas em favor da verdade revelada.

Outro ponto, muito mais complicado que esse é: devem os pseudo-cientistas ter liberdade de expressão para sair pelo mundo propagando suas crenças? Essa pergunta é uma dentre uma classe de perguntas muito difíceis. Por sorte essa não é tão difícil quanto as piores dentre essa classe (e.g., “deve um militante anti-democrático ser beneficiado pelas liberdades que a democracia preconiza?”). Essa pergunta é difícil por uma única razão: sua resposta não pode ser justificada sem apelar para valores subjetivos. A minha resposta para essa pergunta é um grande, sonoro, veemente e incondicional SIM. Liberdade de expressão é um valor que eu considero inegociável e incondicional. Qualquer pergunta que comece como “deve fulano ter liberdade de expressão … ?” é por mim respondida com sim antes de ouvir as condições. Mas eu não consigo justificar essa resposta sem apelar para as minhas crenças sobre o mundo (4). Porém liberdade de expressão não é liberdade para exigir qualquer tipo de apoio por parte de quem quer que seja, quanto mais apoio público, para propagação das suas idéias.

Ahá, diria um atento: o cientista tem apoio e financiamento público não só para propagar suas idéias como para ensiná-la às criancinhas, pesquisá-las, aprofundá-las, publicá-las e divulgá-las como quiser!!! Isso é fato. Mas o cientista só o tem sob duas condições, pelo menos na minha opinião:

  • a ciência, calcada na busca da sanação objetiva das dúvidas, produz progresso técnico, intelectual e filosófico. Iniciativas baseadas na certeza pseudo-científica geralmente conduzem ao estacionamento e até ao regresso;
  • ao desenvolver a sua atividade o cientista deve aprofundar a cultura da dúvida e da pesquisa objetiva, propagando essa cultura entre os seus alunos e entre os contribuintes que o financiam, para o lucro da sociedade.
Diante de toda essa pintura idealizada, cabe-me agora atacar os cientistas pela sua não-realização. Os cientistas brasileiros, guardando-se célebres exceções,  não têm divulgado satisfatóriamente suas pesquisas, não têm procurado desenvolver uma satisfatória “filosofia da ignorância” (para citar Feynman novamente) , não têm estimulado em seus alunos essa cultura de ter dúvidas e procurar resolver as boas dúvidas. Não têm sido bem sucedidos em promover o ensino de ciência, que não é o ensino de uma zoologia de fórmulas matemáticas, mas a propagação da idéia de que a admissão da dúvida e da busca de sua sanação como elementos fundamentais do progresso.
Quando a academia toma para si suas obrigações não é preciso lutar contra a pseudo-ciência. Ela simplesmente não se sustenta diante de uma visão do mundo que admite a ignorância. Em contraste, quando a academia não faz a sua obrigação, a sociedade não se vê disposta a financiá-la, não sente os benefícios de desenvolver ciência madura em suas universidades e volta-se às verdades reveladas e às certezas destrutivas.

Notas:

(1) E isso não é verdade para qualquer questão filosófica?

(2) Convite a Física são palestras semanais no Instituto de Física da USP. São destinadas ao público leigo. Aberta ao público, entrada franca. Por favor: lotem essas palestras.

(3) Leia mais sobre o papel da dúvida na ciência segundo Feynman aqui: http://laserstars.org/bio/Feynman.html

(4) E alguém pode objetar: alguém consegue justificar alguma resposta sem apelar para suas crenças ? Mas acho que vocês entenderam o que eu quis dizer…

Epistemologia: por que estudar?

quinta-feira, 16 out 2008; \42\UTC\UTC\k 42 4 comentários

É consenso que a epistemologia atualmente é uma disciplina puramente filosófica¹, se ocupando de descrever a atividade científica sem interferir com as teorias científicas. Então, estudá-la parece ser uma questão de gosto pessoal, perfumaria e literatura para as horas vagas. Mas só parece.

A sociedade ocidental deposita muita confiança no conhecimento científico, considerando ser uma referência segura para decisões que envolvam vida e morte ou que decida a culpa ou inocência de um réu. Essa confiança tem uma justificativa história: o capitalismo anda de mãos dadas com a tecnologia que a ciência propiciou para o sistema de produção.

O modo de viver mudou drasticamente com os conhecimentos científicos. Tornamo-nos dependentes da tecnologia que desenvolvemos e precisamos alimentar esse sistema com a formação de engenheiros e cientistas continuamente. Este é um pequeno panorama para mostrar que a sociedade está imersa na cultura científica, o surgimento de teoria nos moldes científicos acaba merecendo atenção e a relevância que costuma ter apenas por ser científica. E se for algum tipo de pseudociência? Um indivíduo agindo de má fé para ludibriar e tirar vantagem do próximo? Não faltam exemplos na área da medicina (curandeiros, charlatões) e da espiritualidade (quem não lembra do filme “Quem somos nós?”).

Uma razão para estudarmos epistemologia é que somos freqüentemente circundados por teorias pseudocientíficas. Nesse caso, temos o dever pedagógico² de esclarecermos que essa teoria não obedece aos critérios científicos. Temos um problema claro de demarcação, e a partir daqui somos obrigados a recorrer a alguma tese epistemológica, mesmo que o façamos sem saber disso.

Não importa qual seja a sua escolha, tem pra todos os gostos: positivistas, falseacionistas, construtivistas, reducionistas, realistas, anti-realistas… O que importa é ter um ponto de referência. Então nos deparamos com outro problema: o que uma tese epistemológica considera como sendo ciência pode não ser considerado por outra. Entretanto, esse problema não é difícil de contornar haja vista que as maiores atrocidades contra a ciência podem facilmente ser classificadas como pseudociência por praticamente qualquer tese epistemológica. As pequenas desavenças entre as teses são discutidas mais profundamente no mundo acadêmico.

Aqui fica claro porque quem almeja tornar-se professor do ensino fundamental e médio também deve ser conhecedor da epistemologia. Cabe a ele ilustrar a ciência para jovens que provavelmente terão seu primeiro e último contato com a ciência formal em sua educação. Havemos de lembrar que os livros didáticos assumem em seu discurso uma posição bastante positivista. Se pretendermos fazer um ensino plural, precisamos introduzir também um pouco do discurso de outras correntes da epistemologia.

Neste ponto alguns professores e filósofos são acusados de destruir a imagem da ciência, como se ela tivesse somente um único semblante, como se fosse um ataque ao intocável edifício da racionalidade ocidental. Lembre-se que professores de ciência são pessoas que optaram por propagar o conhecimento científico, portanto isso simplesmente não faz sentido.

Da mesma forma precisamos ser críticos quanto ao discurso filosófico de alguns³ que pretendem simplesmente negar o valor da epistemologia, como se ela não estivesse entranhada no seu próprio discurso. O Círculo de Viena tentou algo parecido e não conseguiu. Não é assim que se refuta o argumento de seus opositores.

Para concluir, a epistemologia é responsável por passar alguma imagem do que seja a ciência para o resto da sociedade. Nela cabem filósofos profissionais e cientistas, todos têm algo a dizer, a filosofia é bastante acolhedora nesse sentido.

Bons estudos.

¹Quine defende que o futuro da epistemologia é se tornar uma ciência empírica

²Uma analogia com o dever pedagógico do filósofo no mito da caverna de Platão

³Against Philosophy, cap 7 do livro Dreams of Final Theory de Weinberg, transcrito em português por Everton Z. Alvarenga.

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